quinta-feira, novembro 15, 2007

A fotografia Italiana no Paris Photo 2007

Depois da Suiça, México, Espanha, Países Nórdicos, é a vez da Itália estar em destaque no Paris Photo, a feira de fotografia que hoje abriu as suas portas ao público.
Franco Fontana e Luigi Ghirri, ambos da cidade de Modena em Itália, começaram nos anos 1970 a fotografar a cor. A galeria Anne de Villepoix em Paris, em paralelo com a feira, expõe “Kodachrome” de Luigi Ghirri,

e o seu site dá-nos acesso às fotografias expostas.
No domingo passado, Martin Parr, na feira de Arte Lisboa, falou do seu percurso como editor e fotógrafo. No início, a sua Inglaterra, invernosa e cinzenta era fotografada a preto e branco, depois, como nos referiu “passei a fotografar a cor, por influência da fotografia americana”. A exposição de William Eggleston, apresentada no MoMA em 1976, é hoje uma exposição seminal que marca o início da fotografia a cor e o catálogo “William Eggleston’s Guide”, continua, pelas sucessivas edições a ter visibilidade internacional. Na Itália, mais perto da Inglaterra de Parr que a América, o livro “Kodachrome”, 1978, de Ghirri passou práticamente desapercebido, embora ambos os fotógrafos, Eggleston e Ghirri fotografassem a cores as banalidades do urbano e periferias.
Na década seguinte, Ghirri fotografou o público que frequenta os museus.
Luigi Ghirri, Firenze, 1986
Luigi Ghirri, Galleria di Palazzo Rosso, Genova, 1987-88
Luigi Ghirri, Napoli, 1980
Luigi Ghirri, Palazzo Grassi, Venezia, 1988

Thomas Struth, também na mesma época, tirou fotografias do mesmo tema.
Thomas Struth, Galleria dell'Accademia, Venice, 1992
Thomas Struth, Musée du Louvre, IV, 1989

Aluno da escola Düsseldorf, hoje estas suas fotografias identificam o fotógrafo, as de Ghirri quase ninguém as conhece. Dou um exemplo: o leilão de fotografia que correu no dia 29 de Maio deste ano, na sede da New Bond Street da Sotheby's, a fotografia de Struth, que serviu de capa ao catálogo do leilão, Musée du Louvre I, Paris, 1989, atingiu o preço mais elevado de todos os lotes.
Vendida por 228.000GBP superou as estimativas (100.000 - 150.000GBP).

A comissária do Paris Photo, Valérie Fougeirol explica “a Itália nunca teve instituições capazes de divulgar a fotografia italiana”. Por seu lado, o comissário da presença italiana, Walter Guadagnini, põe em relevo, no texto do catálogo, a não existência de uma escola italiana de fotografia, “espero” escreve Guadagnini, “que suceda o que aconteceu com a Espanha no Paris Photo de 2005”, em que depois da feira, a fotografia contemporânea espanhola entrou em muitas colecções. Para Guadagnini, a fotografia italiana necessita de um reconhecimento internacional, “o problema” continua Guadagnini “é que só alguns fotógrafos são conhecidos, e o público não conhece a variedade do trabalho italiano, inevitavelmente isso acaba por se reflectir no preço das obras que estão sub-avaliadas”.
Tal como Ghirri, Gabriele Basilico consagra a sua fotografia às paisagens urbanas, como ele diz “ je vois la ville comme un grand corps en transformation et je m’applique à en saisir les signes, comme um médecin qui enquête sur les changements du corps humain”, e outros como Francesco Jodice, Olivo Barbieri, Vicenzo Castella seguem o mesmo tópico,
Francesco Jodice, Tokyo, 2003
Vincenzo Castella, #09 Napoli, 2006

muito longe das imagens dos irmãos Alinari no século XIX. O passado histórico do país é um peso para os mais jovens, mas como diz Guadagnini “De Chirico um dos artistas mais inquietantes do século XX, é também um dos mais clássicos...”
A fotografia italiana contemporânea, agora reunida no Paris Photo, revela sinais de modernidade. Alguns, como Eugenio Tibaldi,
Eugenio Tibaldi, sans titre 03, 2007

preferem pintar de branco os edifícios antigos deixando só os objectos modernos. Maurizio Montagna
Maurizio Montagna, Billboards, 2005-07
Maurizio Montagna, Billboards, 2005-07
Maurizio Montagna, Billboards, 2005-07
Maurizio Montagna, Billboards, 2005-07

prefere o branco para eliminar a publicidade dos paineis que invadem a cidade de Milão. Raffaela Mariniello, tal como Basilico gosta dos portos de mar.

A série que se segue é de Raffaela Mariniello, em Porto di Napoli, Catena:
Outros, como a dupla Luca Andreoni e Antonio Fortugno, (Luca-Fortugno), preferem os labirintos dos subterrâneos modernos às catacumbas.

A série que segue é da dupla Luca - Fortugno:
Os comissários esperam agora, ao reunir a fotografia contemporânea italiana, ultrapassar a falta de interesse quer das instituições italianas quer dos coleccionadores que frequentam a feira.
Veja aqui um texto sobre as galerias italianas presentes na feira.
Galerias portuguesas só uma, a Filomena Soares que já se estreou no ano passado. Será que alguma vez Portugal será o país convidado?
Nota: e já que se está a falar de fotografia italiana veja aqui o livro recente de Mimmo Jodice.
Aqui Giovanni Chiaramonte apresenta o seu livro

4 comentários:

carlos lobo disse...

Parece-me difícil que Portugal venha a ser o país convidado quando no próprio país nunca se fez uma "retrospectiva" da fotografia contemporânea portuguesa a partir dos anos 90. Existem autores nacionais com trabalhos bastante relevantes que salvo ocasionais exposições individuais ou em colectivas comissariadas sobre um tema específico, não são conhecidos do grande público. Acho que essa responsabilidade deveria ser assumida por instituições nacionais, como o Museu do Chiado, etc.
Em Portugal persiste a ideia de que o que vem de fora é que é bom. Enquanto esta mentalidade não mudar, é complicado...

Madalena Lello disse...

lançei uma questão para a qual sabia a resposta, infelizmente tb me parece difícil Portugal um dia vir a ser convidado, mas precisamente quis desafiar...A qualidade da fotografia contemporânea portuguesa merecia outra visibilidade, mesmo no nosso país, tenho dificuldade em ver as obras dos nossos fotógrafos. Seria interessante como tb o Carlos Lobo refere, alguém reunir,para mostrar os trabalhos excelentes que se têm vindo a fazer.Confesso que o meu interesse ao fazer este post, foi tentar reunir algumas imagens da nova fotografia contemporânea italiana, e não tanto falar na feira em si, é claro que faltam alguns muito conhecidos como o Maximo Vitalli, mas dele tb já falei em outros posts.

carlos lobo disse...

Por falar em Luigi Ghirri, existe um livro de uma retrospectiva dedicada a este excelente fotógrafo, que lhe recomendo vivamente. É editado por uma editora italiana "Federico Motta editore". Não é fácil de encontrar mas penso que através da internet ainda será possível. Deixo-lhe uma história curiosa: uma altura conversei com o Wolfgang Tillmans (após uma entrevista de emprego) e falei-lhe na importância dos fotógrafos italianos e ele desconhecia totalmente autores como Ghirri ou Guido Guidi. Parece-me que de alguma forma a história da fotografia é falseada pela predominância dos grandes nomes consagrados pelo mercado...

Madalena Lello disse...

Obrigado quer pela recomendação do livro quer pelas suas histórias que complementam a história da fotografia,pois não tenho dúvida que a história é falseada pelos grandes nomes. Não tenho nada contra a escola de Düsseldorf mas o facto é que não conheco nenhuma colecção contemporânea que não os tenha comprado.