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terça-feira, março 03, 2009

Berenice Abbott


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939

“Ele adorava Nova Iorque. Idolatrava-a desmesuradamente”.

“Para ele era uma cidade que existia a preto e branco”.


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939

“É melhor recomeçar”

“Ele era romântico em relação a Manhattan, como a tudo o resto. Estimulavam-no a lufa-lufa, as multidões e o trânsito”.


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939

“É melhor recomeçar”

“Ele adorava Nova Iorque. Para ele era uma metáfora do declínio da cultura contemporânea”.


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939

Mas as fotografias, “desta cidade dos sonhos”, que o narrador de “Manhattan” via transformar-se rapidamente, não são do filme de Woody Allen, mas de Berenice Abbott, que também ela nutria uma “fantastic passion” pela cidade.

“É melhor recomeçar”, continua o narrador de “Manhattan” e as fotografias a preto e branco avançam ao som de Gershwin.





E o elitista e o vernáculo, aquilo que os americanos chamam o “high” e o “low” parecem coexistir harmonicamente.


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939

Sempre em mudança, Nova Iorque seduz, seduziu Abbott, que durante os anos 30, de forma sistemática e documental registou uma cidade em mudança. Seduziu o nova-iorquino de gema, Woody Allen, que nos anos 70, registou em filme, uma Nova Iorque, apinhada de gente, onde a fotografia triunfava e entrava nos museus e galerias: “parecem-me decalcadas das de Diane Arbus, mas sem o humor dela”, diz a amante do amigo na galeria de Castelli, quando Isaac com a namorada os encontra.

Com os sucessivos embargos petrolíferos, os anos 70, foram anos de recessão económica, e na América os índices de desemprego e inflação subiram acima dos 10%, números que a nação não via desde a Grande Depressão. Em 1979, filmar a preto e branco era coisa do passado e consequentemente muito mais oneroso, e lembro-me como a crítica se entreteve a especular como teria sido muito mais barato filma-lo a cores - mas Woody Allen via Manhattan a preto e branco, tão longe do modelo mais acabado do kitsch, de "Vicky Cristina Barcelona", o seu último filme.

À noite, a cidade iluminada,




não é de Abbott, mas do filme "Manhattan", “night sceens” e muitas outras ideias que escreveu no guião, “interiors, Union Square street speeches, election night…” acabaram por nunca serem realizadas.

Em Lower East Side, para captar melhor o mercado de rua,


Berenice Abbott, do projecto WPA, 1935-41

entrou no apartamento de um residente, porque não aproveitou para fotografar o interior?

É melhor recomeçar.

Antes de partir para a Europa, 1921, Abbott, fazia parte da famosa tertúlia de intelectuais de Greenwich Village.


Berenice Abbott, Greenwich Village, do projecto WPA, 1935-41

Em Paris, onde queria estudar escultura, acabou empurrada para a fotografia, e nada melhor que o seu amigo, o dadaísta Man Ray, para a iniciar.
Passado oito anos regressa a Nova Iorque. Quer encontrar um editor para o livro que prepara sobre Atget. Seduzida pelas transformações por que passava a cidade, e na esteira do que Atget fizera em relação à arquitectura de Paris, impôs a si própria a tarefa de salvar, fotograficamente, a arquitectura vernácula da grande cidade.


Berenice Abbott, do livro "Changing New York", 1939

Risca o regresso a Paris, e Nova Iorque passa a ser a sua obsessão fotográfica, como ela própria disse: “I want to do in Manhattan what Atget did in Paris”. Com a recessão económica a alastrar é obrigada a deixar o estúdio que alugara no luxuoso Hotel des Artistes em Central Park. Ao contrário da elite que retratou em Paris, que a tornou célebre, percebeu que nenhum americano estava disposto a gastar 50 dólares por um retrato, e procura apoios para avançar com o seu - “Changing New York”.
Ao invés do que muitos pensam o “New Deal” de Rossevelt não se restringiu a reformar a produção económica da nação, os artistas não foram esquecidos, e ao invés do que muitos pensam a fotografia do “New Deal”, não se restringiu à quinzena de fotógrafos que trabalharam para a Farm Security Administration, FSA, a Works Progress Administration, WPA,


Berenice Abbott, do projecto WPA, 1935-41

aceita financiar-lhe o projecto e o resultado foram centenas de fotografias de Nova Iorque, hoje arquivadas no Museu da cidade.

Em 1939, numa parede de tijolos, Abbott anunciava o seu “Changing New York”,



que a editora E.P.Dutton and Co decidira publicar por ver nele um guia turístico para acompanhar o acontecimento do ano: o New York World’ Fair. Em vão protestou o design e a geografia imposta, e no último minuto, via serem retiradas três fotografias que a editora considerava polémicas. De “Construction Old and New”, uma das três preteridas, restou o detalhe do muro de tijolos da capa.


Berenice Abbott, "Construction Old and New" do projecto do WPA, 1935-41

Ao ideal estético que correspondem as imagens-chave do kitsch, a inspiração, ao contrário, é um golpe do acaso.


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quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Axel Hütte

Durante o Verão de 2006 a sobrevalorização das casas na América ultrapassava os cinquenta por cento, mas nalgumas áreas metropolitanas, como Miami, área costeira, terra de sol e calor, a sobrevalorização era bem mais grave e os preços da habitação estavam ainda mais desfasados daquilo que os indicadores económicos de base poderiam justificar.


Axel Hütte, Miami, Fortune Hotel, 2006

Em 2006, de uma janela do Fortune Hotel em Miami, Axel Hütte, fotografa à noite uma cidade iluminada que parece não ter fim.

Provavelmente também de uma janela de um Hotel, Cartier-Bresson, em 1956, tira em Miami, esta fotografia.


Henri Cartier-Bresson, Miami, 1956

Tirada de manhã, veja-se a sombra do massagista reflectida no muro branco e o lençol, também ele branco ainda com vincos do engomado à espera dos madrugadores, Miami, onde os edifícios brancos proliferam, acorda com a luz do sol. O branco que tudo reflecte, a soma das cores do arco-íris, contrasta com o céu preto da Miami de Hütte, que tudo absorve, não deixando escapar nada.

Em 2006, Alan Greenspan, deixava a presidência da Reserva Federal. Em 1956, no ano em que Cartier-Bresson se passeava por Miami, William McChesney Martin Jr, presidia à Reserva Federal. Tal como o contraste entre o branco de Bresson e o preto de Hütte, as filosofias monetárias destes dois homens, não podiam ter sido mais diferentes e hoje, a declaração, “tirar a taça do ponche quando a festa se anima”, de William McChesney, é constantemente lembrada, pois para muitos, Greenspan, embora reconhecesse uma “exuberância irracional” continuou a encher os copos de ponche.

Os céus pretos de Hütte, sinal de premonição? Aviso? Presságio do que em breve estaria para acontecer?


Axel Hütte, Las Vegas, Caesar's Palace, 2003


Axel Hütte, Las Vegas, Mandalay I, 2003


Axel Hütte, Las Vegas, Rampart, 2003

Dos elevados gastos orçamentais, à redução das taxas de juro a zero, à diminuição de impostos, às injecções maciças de liquidez nos bancos, nada parece afinal revelar-se eficaz. Mas o mundo, como escrevia ontem um colunista no New York Times, olha para a América, à espera de um sinal, de uma luz,


Axel Hütte, Los Angeles, Standard Hotel, 2003


Axel Hütte, Bryant Park, 2003

mas que remédio oferece Washington?

Em Atlanta, o vermelho da CNN destoa dos azuis e amarelos,


Axel Hütte, Atlanta, CNN, 2005

e se Washington não oferece remédios, esta agência de notícias destoa ao dar dicas aos americanos “How to hang on to your Job”.

Quarta-feira, Barack Obama foi ao Congresso fazer um “discurso da esperança”


Axel Hütte, New York-Orleans, LV, 2003

e uma jornalista portuguesa acreditou no poder das suas palavras: “Obama devolve esperança que a América vai recuperar e emergir mais forte do que nunca”, mas a queda acentuada dos mercados bolsistas deram a verdadeira resposta - os americanos já nem na retórica dos políticos acreditam, restabelecer a confiança através das palavras também já não é eficaz.

Ao longo das várias crises que o mundo foi passando, criou-se a ideia de que Washington possuía recursos e conhecimentos para as conter. Mas a crise, que irrompeu em 2007, apanhou todos desprevenidos, e os limites de poder da Reserva Federal estão agora bem à vista.


Axel Hütte, Stratosphere Tower, 2003

Impotência política, poderia ser o nome deste post, mas não quero enganar mais os pesquisadores do google, que nos últimos tempos entram neste blog em barda à busca da Crise Financeira, da Grande Depressão dos anos 30 …procuram assuntos sérios e certamente estão à espera de textos em tom solene. Saisdeprata-e-pixels é um blog de fotografia, Axel Hütte é um nome apropriado para não enganar ninguém.


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quarta-feira, janeiro 21, 2009

A Nova Iorque de George Grosz

No ano de 1932, no auge da Grande Depressão, o pintor e caricaturista George Grosz, a bordo do transatlântico New York, que o levava para a cidade do mesmo nome, deixava para trás uma Alemanha, cada vez mais nazi. Em Southampton, o último porto de paragem antes da travessia do Oceano, Grosz, despede-se da Europa sem remorsos.


George Grosz, no navio New York, Junho 1932

Crítico acérrimo de Hitler e da burguesia ascendente, Grosz, aceita com agrado o lugar de professor que a Art Students League de Nova Iorque lhe oferecera. Não se enganava, no mesmo dia em que desembarcava na capital do Novo Mundo, 4 de Junho de 1932, Hindenburg dissolvia o Reichstag e proclamava eleições urgentes. Poucos dias depois, a 31 de Julho, o partido de Hitler obtinha uma vitória retumbante, e os uniformes com a cruz suástica encheram o parlamento.

A bordo, Grosz, experimentava a sua nova Leica, registando os entretenimentos que o transatlântico proporcionava aos passageiros,


George Grosz, no navio New York, Junho 1932


George Grosz, no navio New York, Junho 1932

Os rigores geométricos da nova objectividade


George Grosz, no navio New York, Junho 1932

em simultâneo com os planos inclinados da nova visão,


George Grosz, no navio New York, Junho 1932

denunciam a cidade onde nasceu e viveu – Berlim.


À chegada, a Nova Iorque dos edifícios altos que mais parecem pairar no céu,


George Grosz, no navio New York, Junho 1932

deslumbrou certamente os passageiros que a viam pela primeira vez. Mas junto à amurada do navio, ficamos curiosos como Grosz: O que faz toda esta gente inclinar-se e olhar para baixo?


George Grosz, no navio New York, Junho 1932


George Grosz, no navio New York, Junho 1932


George Grosz, no navio New York, Junho 1932

Afinal, os pequenos barcos piloto, iguais em todo o lado, despertam maior interesse.


George Grosz, no navio New York, Junho 1932

No ano de 1932, Herbert Clark Hoover, que tentava a reeleição, dizia que as ruas da capital se cobririam de erva se Roosevelt fosse eleito. Hoover parecia não se dar conta que os andares do maior edifício do mundo, o “Empire State Building”, que inaugurara meses antes, com pompa e circunstância, permaneciam vazios.


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932

Mas as ervas, se ainda não cobriam a cidade, já cresciam nos carris, cada vez mais ferrugentos, por onde circulavam os vagões das fábricas do país.
Encantado com Nova Iorque, a cidade com que sonhara desde pequeno, Grosz, parece ver como Hoover, uma cidade onde a erva não chegara.
Nas avenidas, rectilíneas e numeradas, as filas de automóveis


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932

e peões, que olham para montras repletas de novidades,


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932

confundem-se no trânsito.


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932


Ao ar livre, acima do nível dos passeios,


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932

fazemos o sightseeing turístico da cidade, crise?

nem mesmo os carris dos eléctricos parecem querer enferrujar.


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932

Curiosamente, não é através da fotografia, mas do desenho, que Grosz revela como vê a capital do país que vive a maior recessão económica de sempre.


George Grosz, Nova Iorque, Junho de 1932


George Grosz, Unemployed Veteran, Nova Iorque, 1932


George Grosz, Shoe Shine, Nova Iorque, 1932

No ano de 1932, a América elegia um paralítico, vítima de poliomielite, para seu presidente – Frank Delano Roosevelt, que no seu discurso de tomada de posse, prometeu galvanizar a nação.
Ontem, inspirado em Roosevelt, Barack Obama, no seu tão esperado discurso de tomada de posse, prometeu aos americanos que a América “is ready to lead once more”.

O sonho americano, ao invés do que todos pensam (o carro à porta de casa), é acreditar que é possível dar a volta à adversidade e vencer na vida.


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