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terça-feira, fevereiro 10, 2009

Austrália - a terra dos fogos

A Austrália, o mais pequeno dos cinco continentes, mas a maior ilha do mundo, vive o Inferno. Mato e floresta ardem como fogos vindos do céu e a sua violência extrema, já causou o maior número de mortes de sempre. A temperatura, acima dos 46 graus Celsius, o valor mais alto desde que há registo, tornou a terra ainda mais quente e a seca, que se prolonga há sete anos, tornou-se ainda mais grave.

Há seis anos atrás, Dean Sewell, um nativo da terra dos fogos, fotografou este canguru,


Dean Sewell, Canguru, Janeiro 2003, Austrália

reduzido a estátua, depois do terrível incêndio, em Janeiro de 2003, atingir Canberra, a capital do país.

Na Austrália, o tempo meteorológico, é assunto político. A chuva, que deixou de cair, tornou o país cada vez mais vulnerável.


Nick Moir, Tempestade de areia, Uma herdade abandonada em Ivanhoe, durante uma tempestade de areia em 2002. Esta zona está em regime de seca desde 2001, forçando o abandono de muitas propriedades.

Em Abril de 2007, o então primeiro-ministro John Howard, do Partido Liberal, exultou os seus compatriotas a rezarem, “porque se não começar a chover, serei obrigado a proibir a distribuição de água para irrigação na bacia do rio Murray-Darling, que produz 40% dos produtos agrícolas do país”. Os australianos ficaram chocados, mas a reza, não foi suficiente, e a incapacidade de Howard, responder com orações, em lugar de políticas, fê-lo perder as eleições para o Partido Trabalhista de Kevin Rudd, que logo que tomou posse, entregou pessoalmente às Nações Unidas, um conjunto de ratificações do Protocolo de Quioto. Agora, o governo de Rudd, anunciou um fundo de cinco milhões de euros para apoio às vítimas.

Em terras como a Austrália, o berço de origem dos eucaliptos, o fogo florestal faz parte do ciclo vital da natureza. O eucalipto, apontado como uma das causas deste Inferno, despe a sua casca, que ainda incandescente, viaja, transportado pelos fortíssimos ventos, para quilómetros de distância, semeando novos fogos.


Dean Sewell, Árvore a arder, Janeiro de 2003, Austrália

Mesmo depois de arderem, como as cobras que mudam de pele, os eucaliptos renascem com facilidade - o mato ardido fertiliza a germinação das sementes. Se os nativos sabiam aproveitar os fogos espontâneos para seu proveito, os novos donos, impuseram outros hábitos de colonização, e como refere um investigador do Instituto Superior de Agronomia, “o que mudou foi o homem ter metido dentro da floresta as casas e provocado mais ignições”.
Em “Árvore a arder”, tirada pelo mesmo Dean Sewell, mostra a combustão de uma árvore, parcialmente morta, (que suga o ar, causando um vácuo) espirrando faúlhas e brasas incandescentes. Ao longe, exactamente como agora, um engarrafamento de trânsito com os condutores a procurarem escapar aos detritos em brasa que voam por todo o lado.

Na terra do fogo, rodeada por água, os nativos adaptaram-se ao seu ciclo vital. Os novos donos, mesmo elegendo novos governos, por alguma razão, não conseguem adaptar-se à terra dos fogos – os milhões de euros surgem após as catástrofes, a prevenção e combate,


Nick Moir, Helicóptero à descarga, Um helicóptero-jumbo despeja água nos subúrbios a norte de Sydney, ameaçados pelos fogos florestais, 5 Dezembro, 2002

que não foram suficientes, como revela o elevado número de mortes, são teimosamente esquecidos. Na Austrália, que parece povoada por espíritos, a Natureza domina o homem que insiste em não ver os seus sinais.


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segunda-feira, janeiro 12, 2009

Europa ou Antieuropa?

O torrão de açúcar, inventado por um checo em 1841, é o símbolo escolhido pela presidência checa, que inaugurou oficialmente no dia 7 deste mês em Praga, o comando da União Europeia.


Milos Dohnány, Still Life, 1933

Mal tomou posse, rotulado de anti-europeu, o governo checo não tem sido poupado às severas críticas por parte da imprensa. Julgado incapaz de desempenhar um papel-chave nas negociações para enfrentar os desafios do panorama internacional, muitos são os que reclamam a urgente ratificação do Tratado de Lisboa, que porá fim ao actual modelo de presidência rotativa.

“Não há dúvida de que parte do sucesso que tivemos com a Alstom se deveu ao facto de eu ser uma figura importante no governo. Se não tivesse este estatuto político, Bruxelas não teria querido sequer ouvir-me e ter-se-ia dirigido, nas minhas costas, ao primeiro-ministro e ao presidente para que me convencessem a aceitar a ideia de uma fusão com a Areva…” escreve Nicolas Sarkozy, que antecedeu os checos na presidência, no seu livro “Testemunho”.

Mirek Topolanek, o primeiro-ministro da República Checa, ao qual Bruxelas não reconhece um “estatuto político” que se equipare ao Presidente francês, está condenado ao fracasso – “… Sarkozy não hesitará em ocupar o terreno eventualmente deixado vago, ou mal tratado, pelo seu sucessor”, refere a imprensa.

Mas a Europa, liderada por Durão Barroso, recusou tomar partido no conflito entre Moscovo e Kiev, e só a vaga de frio a obrigou a reagir ameaçando: “tiraremos as devidas conclusões”. Com tal ameaça o conflito está longe de se resolver e nos gabinetes aquecidos de Bruxelas, lamenta-se que a Bulgária e Polónia enregelem.

Olhando para a história, nos anos de 1919 a 1930, a Europa esteve prestes a ser Europa. A essa necessidade de união dos povos, depois de uma guerra, fez-se uma Sociedade das Nações, que acabou por falhar. Stresemann que se regozijava de ter conseguido que a Alemanha entrasse na Sociedade das Nações declarava que ao aderir a essa associação “os povos não abandonavam a sua moralidade negocial” e seu homólogo francês, Aristide Briand, equiparava a moderna Europa “a um harmonioso acorde que é dado por notas distintas”. Em lugar de um acorde harmonioso, a Europa caiu numa estrepitosa cacofonia, a vontade de unificar provocou a recusa à união, e levou as diferentes nações a se encerrarem nas suas diferenças essenciais.

Curiosamente nesses anos de 1919-1930, na Bauhaus, um dos centros artísticos mais avançados da Europa, o húngaro Moholy-Nagy, avançava contemporaneamente pelo mesmo trilho do checo Milos Dohnány, um fotógrafo amador que ignorando-se mutuamente abordaram pontos comuns.

Quer nas naturezas mortas, onde os objectos deixam de existir como tal para darem lugar a processos de relação entre objectos,


Moholy-Nagy, Portrait Lucia Moholy,c.1926


Milos Dohnány, A set table, 1932


Milos Dohnány, Store-room in a music school, 1935


Milos Dohnány, Bokessová-Hanáková, 1935

quer na experimentação de novos ângulos de visão, enfatizando a arquitectura moderna em linhas diagonais,


Moholy-Nagy, Dessau, 1926


Milos Dohnány, Corner of the hotel Palace,1932


Milos Dohnány, Okolo,1935

em ambos, em nações distintas no mapa da Europa,


Milos Dohnány, A tourist still life,1935

descobre-se, nas suas experiências e descobertas, uma modernidade comum.

Acima dos particularismos nacionais, a vanguarda artística europeia – a ruptura necessária para um novo e indispensável entendimento do mundo moderno – conseguiu através da sua linguagem, ser universal, tal como as leis da ciência.

A Europa, projecto de paz e civilização, que se iniciou nos anos 1950, ao juntar o carvão e o aço, encontra-se paralisada. Os interesses nacionais, cada vez mais diversos, sobrepõem-se aos interesses universais, provocando uma estrepitosa cacofonia. No século XXI, retorna-se ao início, a uma Europa que esteve prestes a ser Europa.


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quarta-feira, outubro 29, 2008

Entre a Grécia e a Turquia

Sarkozy, que preside agora à Presidência da União Europeia, veio propor uma cimeira, a realizar no próximo dia 15 de Novembro em Washington para, em conjunto com outros países, se encontrarem soluções que visa uma reforma do sistema financeiro internacional. Dos países convidados, para além dos óbvios que constituem o G8 e o chamado BRIC, a Turquia estará representada em Washington. O voluntarismo de Sarkozy, já irrita muitos europeus, nomeadamente o nosso vizinho Zapatero, que não se conforma por não estar incluído na lista de participantes. Por cá, não ouvi nada sobre o assunto.


Nikos Markou, Grécia, c.1983

No seu livro “Testemunho” o actual presidente francês é muito claro em relação ao alargamento da Turquia na UE : “A ideia da Turquia mataria a própria ideia de integração europeia. A entrada da Turquia transformaria a Europa numa zona de comércio livre com uma política de concorrência. Enterraria permanentemente o objectivo da UE como potência global, enterraria as políticas comuns e a democracia europeia”.

Pouco tempo depois de ser eleito, a 23 de Outubro de 2007, Sarkozy, em Tânger, desenvolvia uma das ideias do seu programa eleitoral - a de criar uma União Mediterrânica, com o intuito de tornar esta zona numa das mais ricas do mundo.


Nikos Markou, Grécia, 2003-2008

Ver aqui um interessante site como o mediterrâneo foi ocupado ao longo dos séculos).

Desde os países da UE sem fachada para o mar mediterrânico à Turquia, o discurso de Sarkozy em Marrocos foi alvo de duras críticas. No que respeita aos turcos, estes viram nesta União uma intenção de alternativa à sua entrada na UE.
Em 1959, o governo turco expressou formalmente o desejo de se associar à Comunidade Europeia. No mesmo ano, o governo de Atenas efectuava a mesma diligência.


Nikos Markou, Atenas, 2003-2008

Em 1981, a Grécia tornou-se o décimo membro da CEE enquanto a Turquia continua em negociações.


Nikos Markou, Grécia, 2003-2008

A Grécia é um dos países, que durante todos estes anos faz campanha contra a adesão da Turquia à Europa, e não é de estranhar atendendo às seculares divisões entre estas duas nações.


Nikos Markou, Grécia, 2003-2008

Em 1922, com a derrota da Turquia na Primeira Guerra Mundial, o império otomano, desmoronava-se sendo substituído por um Estado liderado por Kemal Ataturk. Os gregos que viviam há milénios na Península da Anatólia, a região como referem “onde o sol se ergue”, eram expulsos pelas tropas de Ataturk. Mas sem navios, acabaram por se refugiar nas ilhas mais próximas do litoral anatólio, que à época eram ocupadas por italianos.


Nikos Markou, 2003-2008

Em 1947, pelo Tratado de Paris, estas ilhas eram cedidas à Grécia, por estarem povoadas sobretudo por gregos. Durante um ano, entre Julho de 2006 e Julho de 2007, Paris Petridis, que juntamente com Nikos Markou fazem parte de uma nova geraçao de fotógrafos gregos, foi regularmente a Istambul, fotografar as escolas gregas, fundadas ainda na tradição de Bizâncio, o período de difusão do Helenismo.


Paris Petridis, Escolas Gregas, Istambul, 2006-07


Paris Petridis, Escolas Gregas, Istambul, 2006-07


Paris Petridis, Escolas Gregas, Istambul, 2006-07


Paris Petridis, Escolas Gregas, Istambul, 2006-07

Agora, as escolas que Petridis fotografou são as únicas que persistem na antiga cidade de Bizâncio, e as únicas onde se ensina o Grego na Península da Anatólia. Para o fotógrafo, este trabalho “foi como confrontar um traumatismo histórico”.

Embora a passagem seja estreita entre o litoral turco e as ilhas gregas do mar Egeu, mar pouco profundo,


Nikos Markou, 2003-2008

cujas ilhas resultaram da acção relativamente recente de dobras geológicas mais profundas, as divisões entre os dois países subsistem, porque a Grécia quer alargar os limites das suas águas territoriais de 6 para 12 milhas marítimas, como fizeram os outros Estados membros. A Turquia opõem-se veementemente e propôs ao Tribunal Internacional de Justiça um novo traçado das águas internacionais turcas que avançaria entre as ilhas nos estreitos maiores. Mas o grande desenvolvimento das actividades turísticas na costa turca do mar Egeu, incitou o governo de Ankara a evitar confrontos com os Gregos das ilhas em frente.


Nikos Markou, 2003-2008

Para além da geografia singular que a Turquia ocupa, entre o Mediterrâneo Oriental o Mar Negro e o Médio Oriente, o grande oleoduto Baku, Tbilissi Ceyhan, vulgo BTC, atravessa mais de metade do território turco. Com as reformas de Atartuk, a Turquia é hoje o único Estado oficialmente laico no seio do mundo muçulmano.

Os sucessivos adiamentos, desde há três décadas, da candidatura da Turquia à Comunidade Europeia, está a provocar na opinião pública turca uma grande oposição à Europa, por se sentirem vexados pelas sucessivas recusas de que o país tem sido alvo. As contínuas reticências da Europa, que não consegue tomar uma posição, estão a criar um barril de pólvora e um sério debate geopolítico que diz respeito às relações da UE com os países do Médio Oriente.


Nikos Markou,2003-2008

Será que Sarkozy, que se desdobra em reunir cimeiras para concertar o Mundo, conseguirá resolver um dos assuntos mais importantes da Europa?


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quarta-feira, outubro 22, 2008

A Grande Depressão dos anos 30

Em 1928 ou 29, não se sabe bem ao certo, Walker Evans em Coney Island, fotografava a místula de sentimentos - alegria e terror - da gente que procurava no Luna Park de Nova Iorque momentos de fortes emoções.


Walker Evans, Coney Island, 1928-29

A 29 de Outubro de 1929, a sexta-feira negra que ainda hoje ninguém esqueceu, um “big bang” em Manhattan superava as emoções de Coney Island – o colapso da Bolsa desse dia iria mudar o destino de muitos homens. Era a Grande Depressão e para muitos o fim do capitalismo parecia não tardar.


Não é pois de estranhar que hoje se compare a actual crise financeira com a Grande Depressão dos anos 30. Saciada a liquidez bancária, a recessão económica é agora o centro das preocupações, e novamente, tal como a montanha russa de Coney Island, as descidas acentuadas das Bolsas fazem-se sentir mais uma vez. A consequência imediata, e como aconteceu nos anos 30, o número crescente, divulgado semanalmente, de milhares de pessoas que aumentam a taxa de desemprego.

Mas uma desgraça, como diz o povo, nunca vem só, e se em 1929, o desabar de Wall Street arrastou os bancos e as empresas para a falência, no Midwest, no celeiro da América, a chuva deixou de cair. “Na região cinzenta de Oklahoma…as nuvens apareceram e fugiram, e durante algum tempo, não voltaram a surgir…Chegou Junho e o sol queimava mais incisivamente,...o céu estava mais pálido, e, de dia para dia, a terra perdia a cor…o vento agora tornava-se mais rijo, soprando sobre a terra…a poeira mais fina não voltou a fixar-se na terra, desaparecendo no céu enegrecido”, John Steinbeck em “As vinhas da ira”, 1939. Se Steinbeck nos descreve a transformação do Oklahoma em pó, o fotógrafo, Arthur Rothstein, a trabalhar para a FSA, dá-nos em imagem as terríveis tempestades de areia, cujo pó, lhe provocou lesões permanentes no seu olho direito.


Arthur Rothstein, Fleeing a Dust Storm, Oklahoma, 1936

Curiosamente em 1930, um edifício de cento e dois andares – o Empire State Building, era construído não muito longe do local do “big bang”. A 1 de Maio de 1931, o então presidente Herbert Hoover, carregando num simples botão em Washington, D.C, fazia acender as luzes feéricas do edifício novaiorquino. O fotógrafo Lewis Hine acompanhou a construção, correndo os mesmos riscos dos milhares de trabalhadores da obra, que empoleirados na estrutura, a centenas de metros do chão, faziam equilibrismo sem rede.


Lewis Hine, Empire State Building,1931

Com a Depressão instalada, num país onde a miséria se alastrava,


Walker Evans, Arkansas, 1937

a maior parte dos andares permaneceram vazios, e rapidamente o edifício tomou a alcunha de Empty State Building. Só nos anos cinquenta é que o edifício se tornou rentável – e agora quem quiser compare esta obra com as megalomanias portuguesas.

No Outono de 1932, Franklin Delano Roosevelt, ganhava as eleições. A sua política do “New Deal” visava ajudar, regulamentar e reformar os vários grupos produtivos e económicos da nação. Ninguém foi esquecido, nem mesmo os artistas, que através da agência federal “Public Works of Art Project” lhes deu trabalho, ao encomendar grandes murais. Numa carta, 4/20/1933, a Hanns Skolle, Walker Evans escreve o seguinte: “Ben Shahn, (pintor que se tornará um dos melhores fotógrafos da FSA), is working with Rivera on a mural in Radio City, and that is exciting. I go up often and watch the procedure”.


Walker Evans, New York City, Diego Rivera Murals, 1933

No que respeita à fotografia, a agência “Resettlement Administration” (RA), criada em 1935, era dirigida por um professor de Economia, Rexford Tugwell. O seu fim – ajudar os agricultores e lavradores pobres. Simultaneamente Tugwell criou uma Secção Histórica, e escolheu Roy Stryker, um colega e também professor de Economia na Universidade de Colômbia, para a dirigir. Em 1937, esta Secção passou para o Ministério da Agricultura, e tomou o nome de “Farm Security Administration”, vulgo FSA, que se extinguiu em 1943. Através da fotografia, a FSA, tinha como missão, apresentar a América aos americanos,


Russell Lee, caixa de correio dum rendeiro de Oklahoma, Junho 1936

e conseguir que o Senado aprovasse as medidas urgentes para acudir aos mais necessitados. Arthur Rothstein, anos mais tarde recorda-se assim: “a tarefa era documentar os problemas da Depressão de modo a justificar o pacote legislativo do “New Deal” criado para aliviar esses mesmos problemas”.

O recente colapso de Wall Street, revela como hoje tudo mudou. Para salvar, com o uso dos recursos dos contribuintes, o Banco de Investimento Bear Stearns e o gigante AIG, os membros do Congresso foram simplesmente informados desta decisão de Henry Paulson, Secretário de Estado do Tesouro, e de Ben Bernanke Presidente da Reserva Federal.
Mas será que os políticos mudaram?
Em 1936, Rothstein fotografava, na terra seca e enrugada do South Dakota, uma caveira de um bezerro.


Arthur Rothstein, Crânio, Badlands, Pennington County, South Dakota, Maio, 1936

O fotógrafo fez várias exposições, e numa, chegou a arrastar a caveira dois a três metros para conseguir um fundo mais dramático. A imprensa logo soube e não tardou a denunciar que a imagem era uma aldrabice pegada, acusando o fotógrafo de andar com o crânio do bezerro de um lado para o outro. A polémica teve repercussões nacionais - 1936 era ano de eleições e tudo tinha conotações políticas, muitos queriam afastar Roosevelt da presidência. Poucos olharam para o sentido documental da fotografia - o gado que morria numa nação que sofria uma seca terrível.

O ‘corpus’ da FSA, um trabalho documental ímpar na história da fotografia está disponível neste site da Biblioteca do Congresso, onde estão reunidos 170 000 negativos e 70 000 imagens.
Stryker orgulhava-se de todo este trabalho documental não ter uma única imagem de Wall Street. Há dias, o fotógrafo da Magnum, Gilles Peress, disponibilizou na Internet o seu retrato da crise actual na América. As fotografias, que compõe em vídeo, mostram praticamente apenas Wall Street – o exemplo actual do fotojornalismo das notícias.



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sexta-feira, outubro 10, 2008

O estado do Mundo

“Uma manhã ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigante insecto”. Franz Kafka intuiu e profetizou uma das metamorfoses mais subtis da nossa espécie, a de chegarmos a ser parecidos – mas só parecidos – com seres humanos.
Esvaziado de ética e absorvido pela onda avassaladora do consumo, este homem, só parecido com o ser humano, metamorfoseou também a natureza ao transformá-la, não num “gigante insecto”, mas numa minúscula espécie que corre risco de extinção. Agora a terra, que não habita mas ocupa é parecida – mas só parecida – com a natureza.


Joel Sternfeld, February 28, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts

Na segunda metade do século XVIII, o homem encontrava na natureza um novo Deus. A bondade do homem, assim julgaram, emanava da divindade do mundo natural e o mito do “bom selvagem” têm origem nessa comunhão. Neste contacto com a natureza, contemplação e sentimento passaram a ser valorizados. O homem racional do século XVII, transformava-se agora num homem puro e sensível. A paisagem, que sempre ocupara um lugar baixo na pintura, substituía os temas históricos. O ar livre do campo passou a ser apreciado, e coube aos ingleses - com Constable (1776-1837), impor a paisagem como género sério na pintura.
Com o início da revolução industrial, o homem procurou abrir um espaço próprio na natureza. Em França, com a construção do caminho-de-ferro Paris-Orléans (1842), a floresta de Fontainebleau passou a ficar acessível. Os pintores que para lá foram e que seguiram as lições do inglês, encontraram aí um mostruário excelente de rochedos, regatos e charcos pitorescos. No outro lado do Atlântico os pintores americanos, a Hudson River School, olhava e seguia as lições dos pintores de Barbizon.
Thomas Cole, em Northampton no Massachusetts, no cume do Mount Holyoke, pinta uma vista aérea sublime, ameaçada por um céu aterrador.


Thomas Cole, View from Mount Holyoke, Northampton, Massachusetts, after a thunderstorm, - The Oxbow, 1836

Intuição? profecia do que estaria para vir?

Todos os dias, durante mais de um ano,2006/2007, Joel Sternfeld, fotografou os campos cultivados e baldios de Northampton no Massachusetts, o mesmo local de Thomas Cole, mas onde a natureza sublime dos românticos é agora mera ficção, pois rodeado de auto-estradas e chaminés industriais. A natureza precisa de ser escutada para ser reconhecida, e por mais vezes que lá vá “it’s never enough, there’s so much here”, conta Sternfeld. Nas suas fotografias, as estações do ano, alteradas com as mudanças climáticas, são difíceis de distinguir. Primavera? Verão? Outono?,


Joel Sternfeld, July 29, 2006, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, July 17, 2006, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, March 13, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, November 17, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, April, 19, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, April 20, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, August 19, 2006, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, September, 2006, The East Meadows, Northampton, Massachusetts

só o Inverno, com as águas que ainda gelam, nos situam no tempo.


Joel Sternfeld, March 4, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, March 27, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts

Na Idade Média, o livro de horas, seguia o ritual das horas litúrgicas dos mosteiros e sete vezes ao dia eram abertos para as orações. Na Idade Média, as actividades do homem eram estruturadas pelos ciclos do tempo - o ciclo lunar, os solstícios e os equinócios eram representados nas iluminuras juntamente com o ciclo dos trabalhos rurais, que ocupavam o homem cada mês do ano.


Livro de horas:"Les très riches heures du Duc de Berry", mês de Outubro, iluminura



Em Outubro, o mês das sementeiras, lavrava-se e semeava-se a terra.

Hoje, sem consciência histórica, e exilando-se do tempo por todas as mudanças que o transformaram, o homem ignora cada vez mais o passado para viver no presente um futuro cada vez mais incerto. O medo e a dúvida invadem agora o homem, que já não consegue controlar o que criou.

Em Oxbow Archive, nome que Sternfeld deu ao trabalho, inspirado no quadro de Cole, não vemos uma natureza agonizante de árvores e rio atrofiados pela poluição circundante, antes, Sternfeld mostra que a sua consciência está desperta no meio de um universo de aparências e é isso que torna este trabalho magnífico - Sternfeld fotografa a metamorfose mais subtil que está a transformar a natureza, Northampton no Massachusetts é agora parecido com a natureza, mas só parecido. Ver claro incluiu a capacidade de espanto e maravilhamento com a beleza que ainda persiste, mesmo num mundo que agora todo ele está virado às avessas.

Uma nova valorização da natureza não se produzirá enquanto o homem não for capaz de metamorfosear o “gigante insecto” em que se transformou novamente num ser humano. Se isso acontecer, e só se isso acontecer, é que a natureza pode ser auxiliada para não desaparecer.




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segunda-feira, outubro 06, 2008

Na Índia

O fracasso eleitoral, (28/09) da União Social Cristã na Baviera, - os parceiros de coligação do Partido Democrata Cristão de Ângela Merkel, fez-me lembrar a Índia.


Teresa Perdigão, Índia, 2007

A Baviera, uma das regiões mais ricas da Alemanha, quer em matéria económica, inovação e educação, penalizou o partido no poder ao perder a maioria absoluta que dominava desde 1962. Porém, não foi o partido adversário -Partido Social Democrata, que a aproveitou mas pequenas coligações regionais, que agora terão assento no Parlamento Regional. Numa Europa em que União é palavra-chave, a Baviera elege pela primeira vez, uma coligação regional, “eleitores livres”, para o seu Parlamento. Perguntará o leitor, o que tem a Baviera a ver com a exótica Índia?

No livro “O Mundo pós-americano”, do indiano Fareed Zakaria, e editado há dias pela Gradiva, lê-se o seguinte: “Pode-se perceber que a Índia é uma terra estranha não pela observação dos encantadores de serpentes, mas pela dos resultados das suas eleições: em que outro país é que um crescimento económico vibrante tornaria um político impopular? Em 2004, a coligação no poder, liderada pelo PBJ, (Partido Bharatiya Janata) foi a eleições com o vento económico pela popa – o país estava a crescer 9% ao ano. Mas o PBJ perdeu as eleições”.
Alguns explicam, como Thomas Friedman, os resultados desta eleição com a inveja e zanga dos milhões de habitantes da Índia rural – “é como se fosse um gigante enraivecido”, que vê vedado o estilo de vida das pessoas na cidade. Para Zakaria esta explicação não é suficiente, porque “mesmo quando há preocupações legítimas a respeito de desigualdades e de distribuição de riqueza, há sempre uma relação entre crescimento económico robusto e popularidade do governo”. Para o autor só a diversidade da Índia, país com 17 línguas e 22 mil dialectos, é que explica tal resultado, cada região, tal como agora a Baviera, luta pelos seus próprios interesses, independentemente das políticas do governo serem boas ou más. Nos anos 70, Indira Gandhi, tentou dirigir um governo de forma autoritária e centralizada – não só não conseguiu como provocou revoltas violentas em seis regiões. A diversidade tem muitas vantagens não só aumenta a variedade e energia da Índia como impede o país de sucumbir à ditadura.
Autoridade e rigor não se coadunam com a liberdade caótica da democracia indiana e por isso sempre me intrigou, como Chandigarh, a cidade que Le Corbusier dividiu tão organizadamente por sectores, teve êxito no país de “encantador de serpentes” - Brasília, que serve de comparação porque também inspirada na mesma noção de capital ideal, não teve esse sucesso.
Mas as fotografias de Lucien Hervé, o fotógrafo de Corbusier, e Robert Polidori num trabalho recente ajudam a entender


Lucien Hervé, Chandigarh, Secritariat, Índia, 1961


Robert Polidori, Chandigarh, Punjab, Índia, do livro Metropolis

– no meio das quadriculas e rigor geométrico, a liberdade de movimentos.

Nos últimos quinze anos, a Índia e a China, foram os dois países, a nível mundial que mais cresceram, mas a forma como cada um cresceu é de um contraste abissal – dois sistemas políticos, autocracia e democracia, fazem toda a diferença. As infra-estruturas da Índia não se comparam às auto-estradas de oito faixas e às cidades e aeroportos reluzentes da China. O governo de um só partido consegue planear e executar grandes infra-estruturas com uma eficiência sem igual, mesmo que isso desloque milhões de pessoas indefesas. A exuberância das cidades chinesas, com os seus mega projectos construídos em meses, na maioria por multinacionais, impressionam turistas, investidores e fotógrafos. Em contraste na Índia as cidades são confusas, caóticas


Sandra Rocha da Kameraphoto, Bombaim, editada na revista "Volta ao Mundo", Julho 2008

e sem urbanização controlada, mas se alguém quer ir para Bombaim, Nova Deli, Bangalore ou qualquer outra cidade à procura de emprego é livre de o fazer – aos cidadãos chineses o governo exige prova de emprego antes de a habitarem. Com os Jogos Olímpicos o Ocidente testemunhou o novo estilo de vida chinês. Orgulhosos do país, os chineses revelam não estar preocupados se a sua liberdade é condicionada - julgo que a longo prazo os chineses perceberão a diferença.

Na Índia as reformas económicas planeadas há mais de uma década pelo actual primeiro-ministro, Manmohan Singh, demoraram algum tempo até dinamizarem o sector privado, a coluna vertebral do crescimento indiano. Empresas como a Infosys, Tata, Reliance Industries, figuram na revista Forbes, como das maiores no mundo e pertencem a indianos que as gerem eficientemente,


Robert Polidori, Reliance Industries, Jamnagar, Índia, 2008


Robert Polidori, Reliance Industries, Jamnagar, Índia, 2008


Robert Polidori, Reliance Industries, Jamnagar, Índia, 2008


Robert Polidori, Reliance Industries, Jamnagar, Índia, 2008

muito longe das linhas de montagem instaladas pelas multinacionais na China, e que deixam no país só 3% da mais valia total.
A Reliance Industries, do indiano Mukesh Ambani, varia as suas actividades entre refinaria de petróleo, petroquímicos, produção de gás, serviços financeiros e telemóveis. A empresa promete tornar a Índia auto-suficiente em energia nos próximos anos e num projecto arrojado, procura suprimir as diferenças entre os preços do produtor e consumidor em mais de metade.

Nehru não se enganou quando chamou a Bangalore “the city os India’s future”. Se as estradas esburacadas, onde reinam as vacas sagradas,


Jorge Monedero, Bangalore Street Scene, Índia, 2008


Jorge Monedero, Bangalore Street Scene, Índia, 2008

não permitem exportar bens volumosos, software e serviços preferem as estradas de banda larga e rede de fibra óptica de forma a concorrer em tempo real com as outras economias mundiais, as infra-estruturas da Índia são as auto-estradas da Internet.
Bangalore, a Silicon Valley da Índia, frustrou os analistas que viram o fim da globalização no estoiro, em 2001, das empresas de dot-com. A ironia foi o benefício que a Índia retirou desse estoiro, explorando praticamente a custo zero, o cabo de fibra óptica que as empresas de Silicon Valley instalaram. Ao regressarem ao país, (2001), os indianos não cruzaram os braços, empreendedores, tornaram Bangalore na cidade tecnológica e de serviços do século XXI, a que concentra no mundo mais engenheiros informáticos.

O peso da história está em todo o lado e no nosso imaginário, a Índia perdura como um país “encantador de serpentes”. Um Ocidental fotografa a Índia naquilo que vê diferente da sua experiência e inconscientemente procura as imagens que fizeram o país e que guarda em memória - a veneração do sagrado,


Fredric Roberts, Índia, 2004

as cores exóticas,


Fredric Roberts, Índia, 2004


Jorge Monedero, Bangalore, Índia, 2008

o atraso,


Fredric Roberts, Índia, 2004


Teresa Perdigão, Índia, 2007

a pobreza extrema.


Teresa Perdigão, Índia, 2007

Por vezes as memórias deveriam ser apagadas e o fotógrafo deveria viajar como os fotógrafos vitorianos nos primórdios da fotografia


Samuel Bourne, Bajoura, Índia, 1866


Samuel Bourne, Deig, Índia, 1865

- livres de imagens mas em busca da verdadeira descoberta, porque embora devagar a Índia movimenta-se.

Mas a verdadeira ironia está neste provérbio chinês: “A ordem movimenta-se devagar, mas com segurança. A desordem vai sempre apressada”.





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