terça-feira, janeiro 15, 2008

Madonna

Madonna, a cantora pop, no sais de prata e pixels? Sim.
Madonna faz este ano cinquenta anos, e os jornais já começam a divulgar o que a cantora está a preparar para comemorar o seu meio século: um novo álbum e a estreia do seu primeiro filme, “Filth and Wisdom”, que será apresentado já no próximo mês no Festival de Cinema de Berlim.

Paolo Roversi, Madonna, 1994

Há precisamente dez anos, em 1998, Madonna numa entrevista com o crítico de arte, Vince Alleti, revelava como nascera a sua paixão pela fotografia: “Foi no Institute of Arts de Detroit que tive contacto com a obra de Diogo Rivera, atrás veio Frida Khalo, e comecei a ler sobre ela”. Um auto-retrato de Khalo, uma das artistas que mais aprecia, é a primeira obra que adquire para a sua colecção.
Imogen Cunningham, Frida Khalo, 1931

“Através de Khalo”, continua, “fui parar a Tina Modotti, que gostei tanto que também comecei a coleccionar, depois seguiu-se Edward Weston, um leva ao outro, e se começei com Rivera, seguiu-se Khalo, Tina, Weston...e o mesmo se passa com Picasso, porque a partir dele entramos na cultura e na arte da Europa, e depois de Man Ray, seguem-se os surrealistas, André Breton, e às tantas entra-se naquele mundo, e começo por me interessar por inúmeras pessoas...”, lembro-me que quando li a entrevista me revi, pois quer no México como em Paris, fui seguindo, não pela mesma ordem os artistas citados, numa meada que parece nunca ter fim...
O México, cujos artistas fascinaram Madonna, vive, depois de uma longa e sangrenta guerra civil, finalmente em paz com Álvaro Obrégon a encabeçar um governo dito democrático, em 1921. José Vasconcelos secretário da educação, promove uma revivificação cultural, e faz encomendas a Rivera, Alfaros Siqueiros, Clemente Orozco...O ambiente é propício aos artistas. Weston e Modotti deixam a Califórnia pela cidade do México, e os artistas mexicanos passam a fazer parte do seu círculo de amigos.
Tina Modotti, Distributing Arms, mural de Diego Rivera, c.1928-29

Weston prefere a abstração, Modotti o ser humano. Quando ambos fotografam o Gran Circo Russo, em 1924, os resultado são diferentes.
Edward Weston, Circus Tent, México, 1924
Tina Modotti, Circus Tent, México, 1924

As fotografias de Weston são a abstracção pura, as de Modotti, os espectadores do circo.

Para Madonna, foram muitas as influências da fotografia nos seus vídeos, como em “Express Yourself”, 1989, que foi buscar inspiração a fotografias de Lewis Hine.
Lewis Hine, do livro Men at Work, 1932
Lewis Hine, do livro Men at Work, 1932

“Porque não buscar essas imagens fantásticas e traze-las para a cultura pop?”

Á época da entrevista, Madonna, deixara o México e admirava Guy Bourdin, o fotógrafo de moda,

Guy Bourdin, revista Vogue nº568, 1976
Nan Goldin,
Nan Goldin, Jimmy Paulette and Tabboo in the bathroom, NYC, 1991

e “muitos outros jovens fotógrafos”, e deixa-se fotografar por Inez van Lamsweerde, “não gosto de David LaChapelle, porque com ele somos computarizados, Lamsweerde não me computarizou”. Mas Mario Testino, o fotógrafo peruano, que trás para a ribalta, é um dos preferidos.
Mario Testino, Madonna, para a capa do álbum "Ray of Light", 1998
Exposição de Mário Testino na National Portrait Gallery, Londres, 2002

“É claro que Herb Ritts fez excelentes fotografias da minha filha, mas mais do estilo clássico, (...) mas Mario é um dos meus favoritos, vai buscar coisas a todo o lado, filmes antigos, fotografias...tem o mesmo gosto que eu (...) mas é evidente que também gosto de mudar”. E com o fotógrafo Steven Meisel, Madonna, a musa, deixa-se fotografar e em 1992, sai, com algum escândalo, o livro “Sex”.
Livro "Sex", 1992
Livro "Sex", 1992

“Fomos buscar muitas influências visuais ao experimentalismo europeu, como Man Ray, mas também a filmes de Visconti, Warhol...”,
Andy Warhol, Self-Portraits in Drag, 1986

agora a curta-metragem que em Fevereiro vai apresentar no Festival de cinema de Berlim, é descrita pelos críticos como muito experimental. “Gosto de me transformar em diferentes pessoas, tal como Cindy Sherman”, e no livro “Sex and gender confusion, onde mulheres se transformam em homens e vice-versa” o objecto principal. “O que é feminino? O que é masculino?” interroga-se Madonna e conta-nos a influência de David Bowie na sua carreira, “quando assisti a um dos seus concertos, lembro-me de pensar, de que sexo será? (...) a androginia teve grande influência em mim”. Era a influência dos anos 30 e de uma era que revivia, sobretudo na música, a incerteza do sexo.
Christian Marclay, David Bowie, da série Body Mix, 1991
Brassai, Female Couple, 1932
Claude Cahun, Self-Portrait, 1928
Man Ray, Marchel Duchamp as Rrose Sélavy, 1920-21
Robert Mapplethorpe, Self-Portrait, 1980
Robert Mapplethorpe, Patti Smith, 1978
Cecil Beaton, Mick Jagger on the set of Performance, 1968

Para Madonna, Peggy Guggenheim era um exemplo, e para o Museum of Modern Art, (MoMA), de Nova Iorque, patrocinou os “film stills” de Cindy Sherman, “Gosto muito do seu trabalho, das diferentes personalidades que evoca, mas não para coleccionar...
Cindy Sherman, "Untitled Film Still" #6, 1977
Cindy Sherman, "Untitled Film Still" #14, 1978

também patrocinei Tina Modotti, para mim, patrocinar arte é dinheiro bem gasto, gosto também de ajudar aqueles que precisam, mas ajudar o mundo artístico é muito importante, pois uma das vias que pode inspirar muitas pessoas.”

Á pergunta de Aletti, “Na história da fotografia, que fotógrafos gostaria que a tivessem fotografado?”, “Sem dúvida, Man Ray”. Naturalmente pela transformação...
Man Ray, Le violon d'Ingres, 1924

Agora, como realizadora, o experimentalismo nas curtas-metragens. Aguardemos então “Filth and Wisdom”.

3 comentários:

cs disse...

gostei bastante deste post, coisa que vai sendo normal quando por aqui passo. Aguardemos então o filme

:))

Fred Jordão disse...

Cara Madalena,
Frequento suas paginas há mais de um ano, quase que diariamente. Ao longo deste tempo venho lendo todas as postagens e aprendendo muito, sobre quem não conhecia e também novas informações de fotografos que admiro. Aos amigos, fotografos ou não, passei a recomendar como meu "bolg de cabeceira". Daquí do outro lado do Oceano, na cidade brasileira do Recife, fico feliz com a internet me possibilitar contato com suas preciosas postagens. Pena que não consigo acessar seu perfil.
Abraços, Fred Jordão.

Madalena Lello disse...

CS, estou mesmo com curiosidade de ver o filme experimental de Madonna, espero que passe por cá...e um obrigado a fred Jordão, lá tão longe no Recife...