quarta-feira, outubro 03, 2007

Fotografar arquitectura

Em Bordéus, no Centre d’architecture Arc en rêve, está em exposição até ao final do mês, uma monografia, composta unicamente por fotografias, do atelier de arquitectura japonês SANAA - Sejima And Nishizawa And Associates. É uma exposição de arquitectura? Ou uma exposição de fotografia? interroga-se a crítica. As duas coisas concluem, pois a exposição chama-se precisamente “Kazuyo Sejima + Ryue Nishizawa/SANAA & Walter Niedermayr”. Sejima e Nishizawa, ambos japoneses são os arquitectos, Walter Niedermayr, italiano, é o fotógrafo. Niedermayr conhecido pelas suas séries de paisagens alpinas, onde a presença humana, os praticantes de ski, pequenos pontos disseminados na paisagem, contrastam com a imensidão das montanhas cobertas de neve. Agora em Bordéus expõe a recente série de fotografias dos espaços que esta dupla de arquitectos criou.

Walter Niedermayr, Bildraum S140, Casa Moriyama, Tokyo, 2005
Walter Niedermayr, Bildraum S 154, Glass Pavilion Toledo Museum of Art, 2006
Walter Niedermayr, Bildraum S 105, Novartis Campus, Basel, 2006
Walter Niedermayr, Bildraum S 152, Toledo Museum of Art, 2006
O branco, denominador comum nos trabalhos de Niedermayr, ressalta agora da arquitectura que fotografou, e o branco e a arquitectura levam-me a Walter Gropius.

Em 1910, logo no início da sua carreira, Walter Gropius escreve à noiva Alma Mahler, a sua visão da arquitectura: “ The most beautiful buildings are those that are built in one’s mind but are never executed. I would like to build a large factory entirely of white concrete, all blank walls with large holes in them- large plate-glass panes- and a black roof…Impact achieved solely with bright walls and shadows”.

Um ano depois em 1911, Gropius e Adolf Meyer com quem Gropius trabalha no início, recebem a encomenda de Carl Benscheidt, para projectarem uma nova fábrica de formas de sapatos, a Fagus, hoje considerado um dos edifícios seminais da arquitectura moderna.
Edmund Lill, Fagus Factory, 1922

Depois de vinte anos a trabalhar na fábrica de formas de sapatos da família Behrens, uma das maiores da indústria alemã, Benscheidt incompatibiliza-se com a nova geração, o filho sugere-lhe “Why don’t you go into competition with us? But you’re too much of a coward!”. Benscheidt não gostou, e embora já na casa dos cinquenta pede a demissão. Na semana seguinte está na América à procura de parceiros para a fábrica que pretende agora criar em concorrencia directa à Behrens. Os americanos que o vêem como um “self made man” são fácilmente convencidos e financiam-lhe 80% do projecto. De regresso à Alemanha, na região de Alfeld, nos terrenos em frente à fábrica Behrens, Benscheidt começa a trabalhar no projecto de construção da nova fábrica. Gropius e Meyer, em início de carreira, são os escolhidos, atitude que desde logo evidência o seu espírito moderno e aberto às novas tendências artísticas. Ambos, Gropius e Benscheidt pertencem à Deutscher Werkbund, criada em 1907. A associação reunia empresários, cientistas e artistas e tinha como objectivo promover o país, a Alemanha, no mercado global através da promoção de produtos de alta qualidade e design.
Benscheidt escreve a Gropius dizendo-lhe “I wish to create something with quality, and moreover, as my new factory complex will lie on the heavily traveled Hamburg-Frankfurt route, an exemplary building could also be an excellent advertisement”. Benscheidt sabe que o marketing é a nova arma num mercado que se começa a massificar, e a Gropius cabe a responsabilidade de arquitectar uma fábrica moderna e funcional. Gropius responde a Benscheidt: “ that as a member of the Deutscher Werkbund, whose aim is to promote a true collaboration between industry and art, I would do everything to utilize the excellent resources of this organization to the advantage of your building”. A colaboração entre indústria e arte, o motto da Bauhaus, “Art and Technology – a New Unity”, que Gropius iria criar mais tarde, terá na fábrica Fagus o seu início.
Em 1911 incia-se o projecto e a proposta de Gropius e Meyer é arrojada. A fachada toda em vidro do edifício principal e os cantos sem pilares, parecendo desafiar todas as leis da gravidade, fazem atrasar o projecto, pois um verdadeiro quebra-cabeças para todos os participantes. Benscheidt chamou “the difficult corner”. Mas o projecto também se atrasa com a guerra. Em 1916, ainda nas trincheiras, Gropius escreve à mãe, “When you have a moment, take the children to see Fagus; a lot has been done there during the war. I am in constant contact by correpondance and am directing the project to the best of my abilities from here”. Como revelam as fotografias de Albert Renger-Patzsch, o processo de produção das formas, exigia vários edifícios.
Série de Albert Renger-Patzsch, 1928, todo o processo de fabrico das formas.
A construção de cada um dos edifícios não tinha somente em linha de conta a função a que se destinavam, a unidade visual do conjunto, foi a preocupação principal de Gropius e Meyer. Com o crescimento constante da fábrica, que se tornara numa das maiores da Alemanha, esta só ficaria completamente concluida em 1922. Benscheidt, pai e filho, escolhem os artistas da Bauhaus, a escola de Gropius, para desenharam os interiores, o mobiliário
Mobiliário desenhado por Johannes Molzahn, escola Bauhaus
e todo o design para a publicidade da mesma.
Herbert Bayer, escola Bauhaus
A ligação de Gropius a Benscheidt, que ajuda a financiar o projecto da Bauhaus de Dessau, continuará com o seu filho, também ele um industrial interessado pelas artes.
Hoje o arquivo fotográfico da fábrica Fagus é imenso, pois desde o início que a fotografia serviu a publicidade e a documentação. Benscheidt enviava para os sócios americanos fotografias sobre o andamento da construção,
Fotografo anónimo, 1912
e para tal a Fagus empregava um fotógrafo. Mas Benscheidt entendia que uma boa fotografia era fundamental para dar relevo à arquitectura do edifício. Edmond Lill, um fotógrafo de Hannover, com formação em arquitectura, é contratado para de uma forma regular, desde 1912 até 1925, fotografar a fábrica Fagus. As suas fotografias, são vistas gerais dos diferentes edifícios,
Edmund Lill, 1912
Edmund Lill, 1912
outras o interior da fábrica.
Edmund Lill, 1912
Edmund Lill, 1912
Edmund Lill, 1923
Em 1913, uma grande reportagem sobre a Fagus, ilustrada com as fotografias de Lill, é editada por Der Industriebau, uma revista de arquitectura e engenharia.

Em 1928, Benscheidt filho, amigo do fotógrafo Albert Renger-Patzsch pede-lhe para fotografar a Fagus. Renger-Patzsch era já um fotógrafo conhecido, mas fica a dúvida porque terá Benscheidt pedido esta encomenda quando a fábrica para além de já ter um enorme arquivo fotográfico atravessava momentos difíceis, não esqueçamos a inflação imparável que se vivia na República de Weimar. Certamente mais uma vez um golpe de vista, uma boa publicidade para internacionalizar a Fagus. Benscheidt, filho, não se engana. Entremos então na Fagus com Renger-Patzsch:
Albert Renger-Patzsch, 1928

Á entrada a fábrica recebe-nos e apresenta-se: o nome, Fagus-Werk, a quem pertence, Karl Benscheidt, e o que produz, Schuhleisten und Stanzhesserfabrik, forma de sapatos e facas,
Albert Renger-Patzsch, 1928
depois transpomos o portão de entrada de onde já se vê o edifício principal,
Albert Renger-Patzsch, 1928
o edifício principal,
Albert Renger-Patzsch, 1928
e um grande plano do canto do edifício principal onde se vê as escadas que parecem suspensas. Nesta fotografia, Renger-Patzsch não só da ênfase à ausência de pilares, como sublinha a assimetria do edifício.
Albert Renger-Patzsch, 1928
Dentro do edificio uma vista vertical dessas escadas. É a visão vertiginosa que as escadas certamente lhe provocaram.
Albert Renger-Patzsch, 1928
Depois novamente fora, virado a sul, fotografa o edifício revelando a fachada toda em vidro, ou quase. Nela só dois pilares de tijolos, o da esquerda e da direita do canto, nos dão a estrutura do edifício, as outras não as vemos. Fotografadas à distância parecem tiras pretas alinhadas com as janelas, criando a ilusão de uma cortina de vidro. Gropius percebeu a ênfase do olhar arquitectónico desta fotografia. Nas suas conferências mostrava-a em slide e no seu portefólio esta era a única fotografia que mostrava da Fagus.
Mas continuemos o percurso,
Albert Renger-Patzsch, 1928
e dentro de um dos edifício Renger-Patzsch, tira uma fotografia ao edifício principal onde um outro edifício se sobrepõe. Mas aqui olhemos para o extraordinário enquadramento que faz do telhado do edifício principal, uma estreita linha, que é o céu, enquadrado pelo preto que a envolve, confunde-se com as linhas do edifício e parece mais uma.
E do conjunto dos edifícios Renger-Patzsch pouco mais tirou. Depois centrou-se nos produtos da fábrica, arranjando-os em longas filas de forma a mostrar que os objectos eram agora produtos idênticos feitos pela máquina, entrava-se na segunda era da produção industrial.
Albert Renger-Patzsch, 1928
Hoje são estas as fotografias mais conhecidas que Renger-Patzsch tirou na Fagus, mas infelizmente olhadas fora do contexto.
Renger-Patzsch opunha-se a falar com os arquitectos, não queria que a sua visão ficasse enviesada, e as fotografias que fez da Fagus dão o ponto de vista do visitante. Renger-Patzsch, ao contrário de Lill, não se preocupa em dar uma vista geral dos diferentes edifícios que compõem a fábrica, prefere os fragmentos. Pode-se quase dizer que com Renger- Patzsch se iniciou uma nova visão fotográfica da arquitectura ao fotografar os fragmentos em detrimento das vistas gerais. E com os fragmentos regressamos à exposição inicial, às fotografias de Niedermayr. Niedermayr, utiliza dípticos, para juntar os fragmentos dos espaços que tira,
Walter Niedermayr, Bildraum S131, Zollverein School of Management and Design, Essen, 2006
imprimindo um certo movimento aos espaços estáticos dos edifícios. Nunca, tal como Renger-Patzsch, visualizamos o edifício total, são os detalhes, as transparências e os reflexos que mostram sem mostrar os novos edifícios da dupla japonesa.
“Esta exposição não é sómente uma exposição de fotografia, nem uma exposição de arquitectura, é antes uma criatura hibrida” resume Nishizawa.
Nota: um texto interessante sobre o tema, arquitectura e fotografia, de Eric Lapierre aqui.

3 comentários:

Miguel Coelho disse...

Parabéns pelo blog, que, infelizmente, só hoje conheci.

Enquanto fotografo de arquitectura (e arquitecto), fico sempre contente quando se apresenta (e debate) este tema.

Tenho a certeza que vou voltar aqui, para ver (e ler) mais...

Elena disse...

Cara Madalena,

Não só quero dar-lhe os parabéns pelo ótimo blogue, como quero também agradecer por compartilhar tantas imagens e informações relevantes para quem gosta, estuda e/ou trabalha com fotografia, especialmente com fotografia de arquitetura!

Temos muito pouco material a respeito de fotografia de arquitetura; no Brasil os estudos começaram recentemente. Aproveito para informar alguns links de textos que se referem à influência da Bauhaus na fotografia de arquitetura [http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq086/arq086_02.asp]; ao livro "Brazil Builds" (MoMa, 1943)[http://snh2007.anpuh.org/resources/content/anais/Eduardo%20Augusto%20Costa.pdf] e à documentação fotográfica das grandes obras no século XIX [http://www.scielo.br/pdf/hcsm/v3n1/v3n1a07.pdf].

São estudos que podem inspirar-lhe novos posts.

Grande abraço,

Elenara
elenara007@gmail.com

Madalena Lello disse...

elena, obrigado por deixar esses links, que são muito interessantes, no vitruvius.com fiquei a saber como fotógrafos como Horacio Coppola se interessaram por fotografar o internacional style da América Latina, recomendo a quem vier aqui parar que tb veja esses links que deixou. Uma das coisas que gosto da blogosfera é precisamente esta partilha de informações. Obrigado elena.