terça-feira, outubro 16, 2007

doclisboa 2007

O saisdeprata-e-pixels faz hoje um ano. Há um ano comecei a escrever sobre fotografia a olhar para o cinema, mais precisamente para o doclisboa 2006, o grande festival de cinema documental que este ano, na 5ª edição, está prestes a começar. Há um ano a restrospectiva do doclisboa centrou-se no realizador Amos Gitai, (n.1950, Haifa). Vi a genialidade dos documentários de Gitai, que explora a História do Médio Oriente incluindo a sua própria história pessoal. Este ano a retrospectiva incide no realizador polaco, Lech Kowalski, que como nos diz o programa “foi o testemunho do apogeu e queda do punk e registou a década de 70 em Nova Iorque”, vale a pena espreitar o site. “Winners and Losers”, o mais recente filme de Kowalski, leva-nos a rever o final do Campeonato do Mundo de Futebol de 2006, exclusivamente a partir dos espectadores italianos e franceses que seguiram a partida pela televisão. Os jogadores em campo nunca os vemos. Estamos em casa, nos cafés, nos stadiums a olhar para os tiques e reações que nos revelam as esperanças e receios, afinal os espectadores são o espelho do que se passa no campo.
William Klein, o fotógrafo amigo de Fellini que fotografou Roma a pensar em “La Dolce Vita”, também ele em 1981, documenta em filme, um outro grande evento desportivo, o Open de Ténis francês, Roland Garros.

Em 1981, os grandes do ténis são Borg, Connors, Lendl, McEnroe, Vilas, Navratilova...Dos vestiários,
às salas de massagens,
aos estúdios de televisão,
aos árbitros,
ao jogo,
às queixas de McEnron, que pergunta ao árbitro porque é que as bolas são da véspera,
ao público,
aos comentadores,
ao vencedor, Borg,
às agências de informação que enviam a notícia para todo o mundo,
“The French” é hoje o único documentário dos bastidores de Roland Garros.

Como já tem sido hábito, para além da retrospectiva, o festival doclisboa divide-se em outras sessões e este ano “Vento Norte” dá-nos o panorama da recente expansão do documentário no Norte da Europa (Dinamarca, Suécia, Noruega, Filândia). Como nos explica a organização, “aclamados em festivais, os filmes nórdicos surpreendem ora pela qualidade formal, ora por um humor insólito. No último Paris Photo,
a maior feira de fotografia, os países nórdicos (Dinamarca, Noruega, Filândia, Suécia e Islândia) foram os países convidados e receberam as honras da casa.
Paris Photo, Novembro 2006, área reservada aos países nórdicos
Anneè Olofsson, the dealer, 2006, Suécia
Heli Rekula, Passing, 2004, Filândia
Trine Sondergaard & Nicolai Howalt, Kromanns Remise #1, 2001, Dinamarca
Eline Mugaas, Youngstorget, 2004, Noruega

“Riscos e Ensaios”, outra secção do doclisboa, está vocacionada, como nos revela a organização, “para debater a forma e a escrita dos filmes, em particular obras arriscadas, que se situam na fronteira entre o documentário e a ficção, diálogo tão antigo quanto a história do cinema”. “Me and my Brother”, 1968, o filme de Robert Frank, recentemente editado pela Steidl,
poderia na perfeição entrar em “Riscos e Ensaios”. É a imaginação de Frank ao serviço do real,
a oscilação constante entre o real, a consulta no psiquiatra de Julius que sofre de catatonia,
à ficção, o imaginário de Julius.
É o filme, que simultâneamente é fotografia
e cinema experimental.

Já em “Sessões Especiais”, podemos ver Spike Lee com o seu “When the Levees Broke”: são os destroços deixados pela passagem do furacão Katrina em Nova Orleães.
Três semanas depois da catástrofe, a 20 de Setembro de 2005, Robert Polidori, o fotógrafo canadiano, está em Nova Orleães para fotografar a cidade onde viveu quando adolescente.
Robert Polidori, Nova Orleães
Robert Polidori, Nova Orleães
Robert Polidori, Nova Orleães
O homem é teimoso e gosta de desafiar a natureza: constroí cidades abaixo do nível das águas, e quando a natureza é impiedosa e enche de água as cidades, como aconteceu em Nova Orleães, os políticos teimam em não querer reconhecer os erros e ignoram as evidências. Polidori trabalha para o “New Yorker” como repórter fotográfico e é um exemplo vivo como o documento não está em crise na fotografia. Polidori foi para o local onde morreram mais de duas mil pessoas e onde meio milhão ficou sem casa. Sob um calor insuportável chegou à cidade ainda submersa. Vazia de habitantes reinavam os perigos: os saques, os roubos, e o pior de todos os fungos patológicos, causados pelos corpos que ainda boiavam. A Steidl, mais uma vez a Steidl, edita as fotografias em “After the Flood”.
“Penso que se devem fazer fotografias de coisas paradas; o cinema é que se deve encarregar das coisas em movimento” diz Polidori. Agora é a curiosidade em ver “When the Levees Broke”, as coisas em movimento depois das imagens paradas.

No programa do doclisboa 2007 lemos o seguinte : “O documentário “foi assunto” e criou-se uma nova consciência da sua enorme riqueza, diversidade e potencialidades”. No ano passado foram mais de 20.000 os espectadores do festival, este ano esperam 30.000. Há um ano, no primeiro post deste blog, questionava se a fotografia documental também era “assunto”e reflectiu-se sobre a questão: está ou não em crise a fotografia documental.
Mostrei novos horizontes e outras abordagens, Jeff Wall, com o seu Dead Troops Talk, foi um dos exemplos. Comparei Dead Troops Talk,
Jeff Wall, Dead Troops Talk, 1992
uma fotografia encenada e manipulada, onde numa só imagem está representada toda a barbárie da guerra, com a fotografia de Nicolas Asfouri da AFP,
um fragmento de guerra, publicada num jornal. Há dias vi esta fotografia no jornal,
quem é que afinal tenta encenar: os fotógrafos artistas ou os fotógrafos repórteres?

As fotografias de Robert Polidori, Edward Burtynsky, Mitch Epstein, são alguns exemplos que persistem em manter vivo o verdadeiro documento que é a fotografia.

5 comentários:

MytyMyky disse...

Parabens pela manutenção do blog! Espero continuar a ler os seus textos :D

António Bracons disse...

PARABÉNS Madalena!
E muito obrigado!
Pelo 1º aniversário dos saisdeprata-e-pixels e pelos muitos e muito interessantes posts!
Muitas felicidades e... muitos anos de posts! Cá estamos todas as manhãs esperando por novos olhares...
Com amizade
AB

Miguel Coelho disse...

Parabéns pelo primeiro aniversário!

(ahhh... e o post é magnifico...)

carlos lobo disse...

Parabens!!!

Muitos anos de posts!

um obrigado pela minha leitura matinal.

Vitorino RAMOS disse...

É de facto um ano notável em posts, por onde saltitaste todas as semanas para diferentes geografias conceptuais da fotografia. Uma visão indespensável.