segunda-feira, outubro 08, 2007

As fotografias que ficaram de fora

A magia da fotografia está no seu poder de evocar muitas outras, uma imagem puxa outra num processo associativo por vezes difícil de estancar. Armazenadas em memória, julgadas já no esquecimento, sobem à nossa consciência e tomam novamente vida. Escrever sobre fotografia desencadeia inevitávelmente um desfiar de imagens que nos acompanham ao longo do texto, mas o texto é traiçoeiro pois deixa muitas de fora. O post anterior “Fotografar arquitectura” não foi excepção. Por norma espero uma próxima oportunidade para falar dessas imagens, sei que é uma questão de tempo, mas desta vez não resisto e vou revelar ao leitor as imagens que me vieram à memória mas que acabaram de fora.
Voltamos à Fagus, à fábrica que o industrial Benscheidt encomendou aos arquitectos Walter Gropius e Adolf Meyer em 1911, e voltamos à arquitectura e à fotografia alemã. A arquitectura industrial sempre interessou Walter Gropius. No início do século, o progresso da tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos era vista pelos europeus como sinónimo de modernidade. A fábrica Ford em Detroit, as centrais de siderurgia em Pittsburgh, os depósitos de cereais e silos na região dos Grandes Lagos, faziam parte do programa de “sightseeing” para quem visitava a América. Na Europa, as fotografias destas estruturas industriais eram publicadas em revistas de engenharia. Gropius deixou-se fascinar por estes edifícios em que a forma seguia a função e passa a inclui-los nas discussões de arquitectura, como ele refere “Their architectural face has such import that a visitor immediately understands with convincing power what the purpose of the building is.” Gropius começa a coleccionar fotografias destes edifícios industriais e, para além das fotografias que tira na América,

Walter Gropius, American Silo Buffalo, 1928
Benscheidt filho, ajuda-o nessa missão. Numa carta a um amigo que trabalhava na National Association of Manufacturers of New York, Benscheidt pede-lhe: “The architect who designed our factory building would like photographs of the following american factories: The Brown Hoisting Machinery Company, the complex of the St.Louis Portland Cement Works, silos of the Washburn Crosby Society in Buffalo, Minneapolis and in other cities, Dakota Elevator in Buffalo (especially importante). The architect wants to use these photographs for an exhibition and therefore they should be as large as possible and very focused, so that they could be enlarged to a size of 45 x 60 cm. Expense is not an issue.” Para além da exposição que circulou por várias cidades na Alemanha, Gropius mostrava as fotografias dos silos, depósitos de cereais...em seminários. Em 1913, a Deutscher Werkbund no seu livro anual utiliza estas fotografias para ilustrar o texto de Gropius “ The Development of Modern Industrial Architecture”.
Quarenta anos depois, um casal de fotógrafos alemães, os Becher, dedicaram-se a registar toda esta arquitectura industrial, silos, torres de àgua, fornos de cal...
Bernd e Hilla Becher, Estados Unidos, 1978
que entretanto se tornaram obsoletos e em vias de desaparecimento. As estruturas, a que eles chamaram “esculturas anónimas”, voltaram a ter vida, e hoje julgamos que a arquitectura industrial, feita por anónimos, nunca interessou os arquitectos, sendo os Becher vistos hoje como os salvadores de uma arquitectura desprezada e ignorada, encontrando-se presentes em qualquer colecção de arte contemporânea, bem ao contrário da colecção de Gropius que caiu entretanto em total esquecimento.

Para além dos silos de Gropius, o post anterior ignorou ainda outras fotografias que Albert Renger-Patzcsh (1897-1964) tirou, em 1928, ao complexo da fábrica Fagus. Benscheidt filho, o autor da encomenda, também foi fotografado.
Albert Renger-Patzsch, Karl Benscheidt Jr
E, inevitavelmente, olhando para a mesma, julgamos estar em presença de um dos rostos da amostragem tipológica da sociedade da República de Wiemar que August Sander (1876-1964) começara igualmente a compilar uns anos antes.
August Sander, Anton Raderscheidt, Painter, 1925
August Sander, Art dealer, 1927
August Sander, Businessman and democratic party parliamentarian, 1928

O modernismo celebrava a técnica, e Renger-Patzsch não ficou imune às novas máquinas que produziam em massa os novos produtos para uma nova sociedade de consumo.
Albert Renger-Patzsch, Fagus series, 1928
Frontais e isoladas do ambiente, as fotografias que Renger-Patzscht tirou às máquinas da Fagus serviram para ilustrar os respectivos catálogos da fábrica e o seu interesse ficou por aí. Agora, Thomas Ruff, também alemão e aluno dos Becher, apropria-se das fotografias de um outro fotógrafo, um fotógrafo anónimo que, na mesma década, fotografou as máquinas de uma outra fábrica, a May, em Düsseldorf, para o mesmo fim. Serviram catálogos, agora em ampliações gigantes, essas mesmas fografias servem os museus, como vi, em 2004, em exposição no Jeu de Paume.
Thomas Ruff, 0980, 2003
Thomas Ruff, 1220, 2003
Nos catálogos o que era real e objectivo é agora arte dos museus.

E passemos agora novamente para o edifício da fábrica Fagus. Ao longo do post anterior a Fagus de Hiroshi Sugimoto esteve sempre presente, mesmo antes de iniciar o texto, esta fotografia já estava na pasta das imagens a postar.
Hiroshi Sugimoto, Fagus Shoe Last Factory-Walter Gropius, 1998
As ligações pareciam-me tão fortes que ao iniciar o texto não me preocupei quando e onde inserir a fotografia de Sugimoto. No fim, o texto rejeitou-a, afinal as relações não eram evidentes. A Fagus de Sugimoto insere-se na série “Arquitecturas” que o fotógrafo iniciou 1997. Esta série é constituída por fotografisas de monumentos da arquitectura moderna sumamente conhecidos pelo público, pelo menos através de fotografias: a Villa Savoye e a Capela de Notre-Dame de Le Corbusier,
Hiroshi Sugimoto, Villa Savoye - Le Corbusier, 1998
Hiroshi Sugimoto, Notre Dame - Le Corbusier, 1998
Casa Batllo de Antoni Gaudi,
Hiroshi Sugimoto, Casa Batllo - Antoni Gaudi, 1998
o museu Guggenheim de Frank Lloyd Wright,
Hiroshi Sugimoto, Guggenheim Museum - Frank Lloyd Wright, 1997
o café de Unie de Pieter Oud,
Hiroshi Sugimoto, Cafe de Unie - Pieter Oud, 1998
a igreja da Luz de Tadao Ando
Hiroshi Sugimoto, Church of the light - Tadao Ando, 1997
e tantas outras que Sugimoto continua ainda a tirar. Ao olhar para estas fotografias sentimos algo de estranho e desconfortável. Os edifícios desfocados perdem os contornos das suas formas e volumes reais enquanto a maioria das fotografias de arquitectura tentam, exactamente ao contrário, intensificar esses mesmos contornos, como vimos em Renger-Patzsch. Gradualmente Sugimoto coloca-nos frente a frente com o tempo, ou mais precisamente com a intemporalidade, pois as suas fotografias são anteriores à memória como o próprio diz: “...pareceu-me uma ideia interessante fotografar a arquitectura do século XX desfocada. O conceito do tempo aplica-se – tento recrear as visões imaginárias da arquitectura antes da construção dos edifícios, traçar a versão original e distingui-la do produto final. Todos os pormenores e todos os erros desaparecem; existem muitas sombras fluidas. Se o edifício for bem sucedido, terá força apesar da desfocagem”. Sugimoto parece ter lido o que Gropius escreveu a Alma Mahler : “The most beautiful buildings are those that are built in one’s mind but are never executed”. Sugimoto procura visualizar o edifício ideal na visão do arquitecto. As possibilidades da fotografia são agora ilimitadas e as fotografias desta série deixam de ser imagens de arquitecturas para se tornarem imagens de um tempo anterior à sua construção, mas que simultaneamente prometem uma existência para além do tempo.

4 comentários:

carlos lobo disse...

Olá

Um post muito interessante e bastante didáctico. O próprio Sugimoto tem uma série fotográfica dedicada a máquinas ou protótipos industriais que não ficariam mal ao lado das imagens das máquinas industriais de Thomas Ruff.
O seu blog continua a ser leitura matinal obrigatória. Parabéns.

António Bracons disse...

Fabuloso. Obrigado.

Madalena Lello disse...

Obrigado aos dois. tb concordo com os protótipos industriais do Sugimoto, outras fotografias que ficaram de fora...

Miguel Coelho disse...

Brilhante o post e a selecção de imagens.

Vou estar atento a este blog.

parabéns!