quarta-feira, maio 09, 2007

Schtroumpfs

Chegou-se aos anos de 1980 e já ninguém sabia mais o que fotografar. O mundo inundara-se de imagens e parecia que tudo já tinha sido fotografado. Os fotógrafos sofriam uma crise, e como dizia Depardon a fotografia tinha que se reinventar.
Hiroshi Sugimoto numa série fotográfica traduziu de forma magnífica este excesso de imagens. Fotografou teatros e cinemas ao ar livre,

Horoshi Sugimoto, Union City Drive-In, 1993
em que não se observam os filmes projectados devido ao excesso de imagens, ou seja a fotografia durava o tempo do filme, e o resultado foram estes ecrãs brancos de luz, o excesso de imagens produzia o vazio.
Mas a profusão exponencial de imagens teve outras consequências, muitos artistas renunciavam à produção de novas imagens, segundo eles não era preciso e apropriaram-se das que já existiam em circulação. Foi o caso de Sherrie Levine que fotografou reproduções fotográficas dos mestres da fotografia americana, Walker Evans, Edward Weston...

Sherrie Levine, After walker Evans #3, 1981
Para Levine era a forma de negar as noções de autor, obra e originalidade. “Em lugar de fazer fotografias de árvores e nus, faço fotografias de fotografias...aproprio-me destas imagens para expressar a minha necessidade de compromisso e distanciamento”. Peter Fischli e David Weiss

Peter Fischli e David Weiss, sem título, da série de imagens Vistas, 1991
apropriam-se dos esteriótipos do turismo mundial. Richard Prince fotografou das revistas imagens publicitárias que reenquadrou e ampliou. Uma das suas apropriações resultou famosa, a série de fotografias da campanha publicitária da Marlboro.

Richard Prince, Cowboys and Girlfriends, 1992, portfolio de 14 ektachromes
Hoje estes cowboys atingem recordes de preços em leilões. Neste caso o feitiço, o quererem transformar o conceito de obra de arte em objecto banal, virou-se contra o feitiçeiro.
Mas a percepção de ver a realidade transforma-se com o tempo e se tudo já foi fotografado, desvia-se a fotografia da sua primordial dependência da realidade. Foi o que fizeram os artistas que viram na fotografia uma saída ou caminho para desmistificar as obras de arte produzidas pelas gerações anteriores.
E nos anos 80 a dialética entre a fotografia e as artes plásticas é patente.
Jean-François Chevrier, crítico e historiador de arte, distingue os fotógrafos puros dos artistas que utilizam a fotografia. Os franceses foram mais arrojados e chamam hoje à fotografia de artista, “photographie plasticienne”, em português fotografia plástica não pegou. Mas é evidente e todos nós sabemos que a distinção não é clara e tem os seus limites, por exemplo, numa livraria ou leilão onde devemos procurar Hiroshi Sugimoto, Jean- Marc Bustamante e tantos outros, na secção de fotografia ou em arte contemporânea? Um livro de Jean-Marc Bustamante encontrei-o na secção de arte e Sugimoto numa leiloeira era classificado como artista contemporâneo. Mas também há muitos fotógrafos que querem ser artistas. Luc Delahaye, fotógrafo há muitos anos pertencia à famosa agência Magnum, deixou-a recentemente para ser artista.

Luc Delahaye, Iraq press tour, 2002
As suas fotografias de guerra aumentaram em tamanho e são agora expostas em galerias.

Exposição de Luc Delahaye, na Maison Rouge, Novembro 2005
Outro paradoxo foi a atribuição do prémio de escultura na Bienal de Veneza de 1980 ao casal Becher, cuja obra é fotográfica. Joachim Mogarra, artista plástico que fotografa no seu atelier as miniaturas que constroi,

Joachim Mogarra, 1986

Joachim Mogarra, 1986
esteve presente em 2004, no Mois de la Photo em Paris.


Fotografias da exposição de Joachim Mogarra, na galeria Georges-Philippe e Nathalie Vallois, no Mois de la Photo de 2004, "Paysages Romantiques et Autres Histoires".
Os paradoxos são muitos, porém o certo é que a partir da década de 80 a fotografia entrou definitivamente no campo das artes plásticas.
Joachim Mogarra, é um artista que constroi, a partir de objectos simples uma simulação da realidade em que vivemos. Muitos dos seus trabalhos remetem para os mass media e publicidade que no dia a dia são os que constroem a realidade em que vivemos. Os seus objectos são estereótipos que adoptam estratégias idênticas às da publicidade e com uma ironia astuta ataca a nossa sociedade de consumo. Mas há dias surgiu o insólito. A galeria Georges-Philippe et Nathalie Vallois preparava-se para inaugurar, no dia 5 de Maio, uma exposição com o último trabalho de Mogarra e foi interdita pela IMPS (International Merchandising, Promotion & Services SA). Mogarra apropriara-se dos bonecos Schtroumpfs para mais uma ironia. Peyo, o desenhador dos pequenos bonecos azuis, decidiu não lhe dar autorização de os reproduzir, expôr ou vender, e exerçeu os seus direitos de autor.
Para fazer face a tal interdição, como se lê num jornal “Joachim Mogarra a “schtroumpfé” de nouvelles oeuvres”, o que significa exactamente, não sabemos, mas tentaremos decobrir.

1 comentário:

Rui Luís Lima disse...

Olá Madalena Lello!

Veja por favor o nosso post de 9/5/2007

THINKING BLOGGER AWARD

Obrigado
Cumprimentos Cinéfilos

Paula e Rui Lima