sábado, julho 26, 2008

"Gypsies"


Muito se tem escrito sobre o conflito entre as comunidades africana e cigana na Quinta da Fonte. Ontem no Público, Luís Campos e Cunha no artigo - “O anti-racismo é racista?”, colocava a seguinte questão: “Os ciganos são europeus e brancos, mas, não sei se repararam, fala-se de africanos contra ciganos e não contra europeus. Porquê?”. Percebo onde Campos e Cunha quer chegar, mas será que faz algum sentido chamar aos ciganos europeus? Frases, que já todos nós ouvimos: “A cigana não engana e vende mais barato…”, “Venha aqui para a cigana lhe ler a sua sina…”, e por aí fora, revela que eles, ciganos, tem orgulho de o ser e não escondem as diferenças no seu modo peculiar de viver.

Os ciganos deixaram a sua verdadeira terra, o norte da Índia, no ano 1000 da nossa era, - o êxodo permanece ainda hoje um mistério por desvendar. Atravessaram a Ásia Menor, e nos finais do século XIV, dispersaram-se pela Europa. Muitos fixaram-se na zona dos Balcãs e nas terras do Danúbio, outros atravessaram a Eslovénia e a Boémia, (razão porque os franceses os chamam de bohémien), e seguiram para a Alemanha, França, Itália, Suiça, Espanha até chegarem a Portugal. Com um estilo de vida que lhes é próprio, nunca, ao longo destes séculos os ciganos se integraram com as populações locais, e nem mesmo a imperatriz Maria Teresa e o seu sucessor José II, que promoveram a integração, conseguiram tornar os ciganos trabalhadores produtivos do seu Império.

Josef Koudelka cedo se interessou pelas franjas da sociedade, e na sua terra natal, a ex-Checoslováquia, o fotógrafo impressionou-se com os gestos,

Josef Koudelka, Gypsies, Zehra, 1967

a música

Josef Koudelka, Gypsies, Velka Lomnica, 1963

e o modo de vida do povo cigano.

Josef Koudelka, Gypsies, Okres Galanta, 1965

O checo Koudelka, com o mesmo espírito errante dos ciganos, confessou anos mais tarde que também se reviu na sua música trágica e negra - “I was playing Gypsie music myself”.

Josef Koudelka, Gypsies, Straznice, 1965

Durante anos, na década de sessenta, Koudelka fotografou a comunidade cigana do seu país. Fotografar o povo cigano que vivia em aldeias afastadas, fez desconfiar o governo comunista, mas os ciganos, povo hostilizado, de quem todos fugiam a sete pés, abriram as portas das suas casas para que Koudelka os fotografasse.

Ao livro, que editou em 1975, o checo Koudelka chamou-lhe “Gypsies”, e não “Checos”, em sinal de respeito por esta comunidade que o impressionou.

Hoje “Gypsies” vende-se nos leilões da Christie’s como uma raridade, mas à época, eu nunca tinha ouvido falar em Koudelka. Estranhamente, ao folhear o livro, parecia estar a ver algo familiar e comprei-o.

Josef Koudelka, Gypsies, Velka Lomnica, 1963


Madalena Lello, Trás-os-Montes, 1980


Josef Koudelka, Gypsies, Utekac, 1963


Madalena Lello, Trás-os-Montes, 1980


Josef Koudelka, Gypsies, Jarabina, 1963


Madalena Lello, Trás-os-Montes, 1980

Hoje “Gypsies”, é para mim um dos melhores livros fotográficos.

Em Trás-os-Montes, numa aldeia meio perdida na serra do Marão,

Madalena Lello, Trás-os-Montes, 1980

a televisão no café central e a carreira,

Madalena Lello, Trás-os-Montes, 1980 (Segui a lavadeira que se dirigia para o tanque, só quando ampliei a fotografia dei conta da carreira).

eram, nos finais dos anos 70, os únicos meios que ligavam esta gente ao mundo.

Entrei nesta pequena loja onde se vendiam gravatas e cervejas, será que a boneca na prateleira também estaria à venda?

Madalena Lello "O Transmontano", 1980

Não sei se Koudelka pediu aos ciganos para pousarem, mas ao olhar para estas suas fotografias,

Josef Koudelka, Gypsies, Jihlava, 1967


Josef Koudelka, Gypsies, Velka Lomnica, 1966


Josef Koudlka, Gypsies, Zehra, 1967

estou quase certa, que foram eles ciganos, que posaram para o fotógrafo

Não troquei uma única palavra com o homem da loja. Perto da entrada da porta, ao ver-me de máquina fotográfica na mão, pousou - encostou-se ao balcão, pedia-me, sem o dizer, que o fotografasse.

Com todo o respeito chamei à fotografia “O Transmontano”, e não “ O Europeu”.

Regressei no ano seguinte para oferecer a fotografia, mas a boneca já lá não estava…

Madalena Lello, Trás-os-Montes, 1981

8 comentários:

miguel coelho disse...

A alegria de ver as suas imagens superou o prazer de rever Koudelka...

Obrigado!

Madalena Lello disse...

Miguel, ao escrever este post, claro que hesitei por momentos colocar as minhas fotografias ao lado do grande Koudelka, mas as semelhanças das gentes, costumes, interiores das casas, os tectos de "saia e blusa" tão comuns nas casas de Trás-os-Montes, acabaram por vencer. Eu é que lhe agradeço as suas palavras simpáticas.

miguel coelho disse...

E eu acho que a fotografia é também este acto humilde de deixar que as imagens se sobreponham ao autor...

Na minha opinião, as imagens valem sempre mais do que nós...

carlos lobo disse...

Mais um excelente post. As imagens do Paulo Nozolino tambem poderiam ter entrado neste post pois tambem ele se debrucou sobre esta tematica.

Madalena Lello disse...

Carlos , lembra bem, grande lapso o meu...

Rui M. disse...

Acho que consegui identificar alguns locais das fotografias. Conheço bem a região. Amanhã faço anos. Obrigado Madalena Lello, já tive uma grande prenda. Que grande prazer. Não nasci em Trás-os-Montes, nem tão pouco em Portugal. Mas adoptei Trás-os-Montes como meu lar. E conheço bem as fotos, Trás-os-Montes e seus costumes. Foi um previlégio ter vivido em Trás-os-Montes os finais década de 80. Também não sou cigano, adoro Koudelka, sou demasiado novo para ter comprado o Gypsies a preço razoável, mas ainda vou conseguir arranjar uma cópia, ando só à procura de um distraído ( pode ser que o distraído tenha também uma cópia do "The Americans" do Frank e faça um desconto pelos dois)
Não tinha grande coisa a dizer, apenas agradecer pela emoção. Viva o blog.
Um grade abraço a todos,
Rui

Madalena Lello disse...

Rui percebo a sua emoção, Trás-os-Montes, neste "Cabo do Mundo" na Serra do Marão, em que a gente da terra vê na Serra "um gigante a dormir", comove qualquer um. O nosso Almada Negreiros que um dia aí foi passar uns dias, ia-se perdendo na Serra, não fora os homens fortes da aldeia o procurarem, talvez se tivesse ficado no meio daquelas fragas, e claro que também ele se comoveu com tão bela paisagem. Rui os meus parabéns pelo seu aniversário.

UIFPW08 disse...

linda