sábado, maio 03, 2008

Os paradoxos de Maio de 68

Se em França o reviver de Maio de 68 começou em Abril, por cá, a revolta estudantil que paralisou a França há quarenta anos chegou com o mês de Maio. Ontem o jornal Público deu destaque ao Maio de 68, e os estudantes universitários alvo de inquéritos. À questão “Sabe o que foi o Maio de 68?”, 51% dos estudantes respondem sim, mas “muitos dos que disseram saber o que tinha sido o Maio de 68 acabaram por não conseguir responder a questões mais específicas. A pergunta “O que queriam os estudantes em 68?” provocou um encolher de ombros, acompanhado de “hummm..isso já não sei”, lemos no Público.
Ao longo destes cinco posts sobre Maio de 68, também não respondi à questão: “O que queriam os estudantes em 68?”, pois confesso que também não sei responder.
A 30 de Maio, no pátio da Sorbonne,
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

decorada com os símbolos políticos da contra-cultura, Mao, Guevara, Trotsky, Marx, Lenine…
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

os estudantes, com os seus transístores,
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

aguardavam o discurso de De Gaulle na televisão: “Encarei nas últimas 24 horas todas as eventualidades – sem excepção – e tomei as seguintes resoluções: nas circunstâncias presentes, não serei candidato à minha própria sucessão e dissolvo hoje a Assembleia Nacional”.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

“Le salaud!” o grito de indignação.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Mas nesse mesmo dia um milhão de gaullistas manifestava-se nos Campos Elísios e nas eleições legislativas que se seguiram uma esmagadora vitória dava-lhes a maioria no Parlamento. Os estudantes, depois dos exames, partiram para férias.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Ao contrário dos estudantes, o mundo laboral, o mundo dos operários das fábricas, que simultaneamente entraram em greve e paralisaram o país, sabiam o que queriam e pressionaram o governo a ceder.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Que reclamavam eles? Havia certamente um descontentamento com a baixa dos salários reais, mas a verdadeira fonte de queixas eram as condições de trabalho e em particular as relações entre empregados e patrões. A classe operária, a geração mais velha que condenava os estudantes que queimavam os carros, que eles, nas cadeias de montagem construíam nas fábricas, acabava por vencer na luta contra o patronato.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Paradoxalmente ganhavam os que estavam a desaparecer, pois não era esta mesma classe operária que estava a reformar-se em grande número e a ser substituída por um tipo muito diferente de população trabalhadora, a indústria de serviços?

A frustração da população francesa era genuína, não só nas fábricas da Renault e Citroën, como em todo o lado. Na rua todos discutem, e a 15 de Maio, os franceses de todas as idades e classes, ocupam o teatro de L’Odéon.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Todos querem falar, todos querem o microfone, discute-se dia e noite.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Uns reclamam por justiça social, outros por aumento de férias pagas, outros pela abolição da gravata para entrar no teatro…

Mas olhando para as imagens desta época, impressionante é o que esta geração fumava.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Na cantina da Sorbonne, comiam e discutiam política envoltos em fumo onde os pratos serviam de cinzeiros.

Mas como se justifica tanta frustração num país que vivia anos de prosperidade e segurança?

A V República francesa, 1958, a de De Gaulle, foi concebida para evitar os defeitos da IV República instável do pós-guerra. De Gaulle concentrou o poder na presidência, que assumiu o controlo total, na concepção das políticas e na preponderância absoluta sobre os ministros. Charles de Gaulle, o Presidente francês, tinha mais poder do que qualquer outro chefe de Estado ou de Governo livremente eleito.
Foi este poder concentrado e dirigido por uma minúscula elite, socialmente exclusiva, altivamente hierárquica e inabordável, que despoletou a revolta no centro de Paris. Alain Peurefitte, o ministro da Educação, numa atitude desastrosa de autoritarismo, mas talvez a única que conhecia, manda encerrar a Sorbonne, e os polícias tem ordem para intervir e prender. Julgou o ministro e o reitor, Jean Roche, que os enragés, eram um grupo restrito fácil de controlar, os exames estavam à porta e certamente os outros estudantes não os iriam seguir. O autoritarismo do Governo acabou por dar a Daniel Cohn-Bendit o que ele queria, a revolta de todos os estudantes e de todos os franceses que se indignaram com a repressão da polícia sobre os estudantes. E o Quartier latin virou o teatro da revolta.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Os estilos tradicionais de autoridade, disciplina e modo de falar, não tinham conseguido acompanhar as rápidas transformações sociais e culturais desses anos, e a revolta desse Maio de 68 veio dessa sensação de exclusão da tomada de decisões e de poder.

Hoje ainda persistem demasiados hábitos profundamente impregnados de deferência em relação às autoridades e às instituições, mas o acto de participar, como os franceses viveram nesse mês de Maio, está a regressar, não são a proliferação de blogues, um blogue é criado de sete em sete segundos, um sinal de participação activa, um sinal de mudança?

1 comentário:

[denise abramo] disse...

o espírito do mai'68 continua vivo e promovendo encontros. como o meu, com este blog que me deliciou e me encheu de tesão revolucionário.

um beijo,
::