segunda-feira, março 24, 2008

Um post para guardar nos favoritos

As relações entre a música e a fotografia são muitas. Recentemente, 2005, Martin Scorsese, em “No Direction Home”, uma homenagem à vida de Bob Dylan, junta fotografias de William Klein, Bruce Davidson, Weegee…com os poemas de Jack Kerouac.


"No Direction Home - Bob Dylan" Martin Scorsese, 2005
Fotografia de William Klein
"No Direction Home - Bob Dylan" Martin Scorsese, 2005
Fotografia de Weegee
"No Direction Home - Bob Dylan" Martin Scorsese, 2005
Fotografia de Bruce Davidson
"No Direction Home - Bob Dylan" Martin Scorsese, 2005
Fotografia de Bruce Davidson
"No Direction Home - Bob Dylan" Martin Scorsese, 2005
Fotografia de William Klein
"No Direction Home - Bob Dylan" Martin Scorsese, 2005
Fotografia de William Klein
"No Direction Home - Bob Dylan" Martin Scorsese, 2005

“No Direction Home” é o registo e glorificação desses anos sessenta, a meio caminho entre o “On the road”, (1957) de Jack Kerouac, o “Easy Rider”, (1969) de Dennis Hopper, “The Bikeriders”, (1968), de Danny Lyon, e a música de Bob Dylan. Cinema, música, literatura, fotografia…misturam-se como nunca, como o fotógrafo Danny Lyon tão bem resume no prefácio de “The Bikeriders”: “se te juntas à malta certa no dia certo, até talvez acabes o dia com uma bênção ou num funeral”.
Danny Lyon, da série "The Bikeriders", Dayton, Ohio, 1965
Recuando no tempo, aos tempos do Rock’ n’ Roll, chegamos aos Rolling Stones. “Rock” é rocha, mas também significa abanar e balouçar, “Stone” é pedra e “rolling stone” é um seixo arredondado que rola facilmente. Os Stones quando apareceram foram uma pedrada no charco da moralidade convencional, e os fotógrafos não resistiram a tanta pedrada. Graham Wood, na digressão mundial de 1976, tira esta magnífica fotografia a Mick Jagger de tronco nu, duro como uma pedra.
Graham Wood, Rolling Stones World Tour, 1976

Mas antes, em 1972, Robert Frank realiza “Cocksucker Blues”, o filme a preto e branco de 90’, sobre a digressão do tour americano dos Stones em 1972. A projecção foi proibida durante algum tempo, porque câmara e gravador de Frank, fora do palco, foram indiscretas e desconfortáveis, levando os próprios Stones a sentirem-se provocados e a responderem na maior parte das vezes com cenas de masturbação, violações…. O filme queria-se dividido em duas partes, os concertos e a vida dos bastidores, separação que nunca foi respeitada.
Sobre esta digressão escreveu Robert Frank : “Esse tour com os Stones passou-se como se estivéssemos numa nave espacial. Era tão estranho, davas-te conta que era impossível estar com eles, guardar a tua identidade, …as drogas…a incrível velocidade com que tudo tinha que acontecer para que tudo continuasse a mover-se. E tu estás longe, …protegido. Montes de pessoas que te perseguem…começas então a perceber porque é que eles são sempre tão rudes, porque nunca falam com ninguém.
Não estava à vontade, tudo era tão fora do normal, tinha de testemunhar, mas também era parte dessa viagem, não podia entrar no jogo, mas também não podia fugir.
O filme foi rodado nos bastidores, mas era muito difícil filmar os Stones, estava só com eles, tinha que prestar atenção para não os chatear, para sentir o momento em que era melhor deixar de filmar e desaparecer. Havia uma incrível quantidade de violência e corrupção. Uma vez o avião dos Stones aterrou por engano em Providence, em vez de Boston, fomos todos presos. Não sei quantas centenas de milhares de dólares passaram por diferentes mãos naquelas horas. Advogados, procuradores, etc…Isso aconteceu antes de um concerto e o presidente da câmara de Boston telefonou para mandar libertar todos antes que houvesse uma revolução na cidade. Tinha um amigo Danny Seymour, um junkie, todo o filme era visto pelos seus olhos. Os Stones tinham prometido, uma vez terminado o filme, tratarem da sua desintoxicação na Suiça. Tinham de tratar dele e na realidade deixaram-no sem ajuda. Um ano depois Danny morreu, para eles era apenas uma pequena pedra rolante, uma nulidade. Mas já não quero falar mais desta história”.

Ainda nos anos setenta, mas com o espírito dos anos sessenta, Robert Frank já realizara a capa do disco dos Stones “Exile on main street”. As fotografias, muitas são do seu livro “The Americans”, (1959), Les Américains, (1958).
Capa do disco "Exile on main street", Rolling Stones
Capa do disco "Exile on main street", Rolling Stones
Robert Frank, do livro "The Amercians", Bar- Las Vegas, Nevada
Aquela sensação demente, quando nas estradas se sente o calor do sol e a música vem das jukebox ou de algum funeral próximo...” é o que Frank nos dá a ver nas suas fotografias da América, diz Jack Kerouac na introdução de “The Americans”.

Em 1955, Robert Frank, que deixara a sua Suiça demasiado neutra, percorria a América de costa a costa, como Sal Paradise, o personagem principal de “On the road” de Kerouac. Ambos os livros são o reflexo de uma geração, em que movimento e estrada são os ingredientes principais. Ainda hoje, passados 50 anos, o retrato mais perceptivo da América continua a ser a do suíço, Robert Frank. Livro perverso, antiamericano escreverá a crítica, pois para eles um europeu não compreende a América.
O bom-senso aconselha a confiar no olhar estrangeiro, mais distante e também por isso mais independente e o caso de Frank não é o único. Na Inglaterra na era dos Beatles, foi Michelangelo Antonioni, que em Blow-UP, 1966,
Michelangelo Antonioni, "Blow-Up-História de um fotógrafo", 1966
filmou, melhor que ninguém, o amor livre, modas, paixões, festas, e bandas a tocar em caves, que caracterizaram, esses anos de mudança que foi a década de sessenta.
Se quer regressar a esses anos, entre neste magnífico post e com todo o tempo deixar-se embalar pelas músicas, texto e imagens, dessa década.

8 comentários:

tiago disse...

apesar de já ter sido à algum tempo atrás, publiquei no meu blog -que agora anda meio morto - as ligações ao No Direction Home alojado no You Tube. se alguém ainda não viu, faça favor de aproveitar, que vale bem a pena.

carlos lobo disse...

Um excelente post e no meu caso bastante oportuno pois preparo-me para inaugurar uma exposicao sobre esta tematica, ligando a musica a movimentos de contestacao, entre outras coisas.
Este filme do robert Frank e banido pelos Rolling Stones esta no catalogo da steidl como uma futura edicao. A nao perder.

Madalena Lello disse...

a não perder deve ser a sua exposição. onde e quando é?

carlos lobo disse...

A exposição inaugura no dia 12 de Abril (sábado) na galeria MCO, na rua Duque de Palmela, no Porto. No dia da inauguração vai haver um concerto rock n'roll no espírito da inauguração. Fica desde já convidada oficialmente! Se puder aparecer, será um prazer.

Madalena Lello disse...

Carlos, obrigado pelo convite claro que aceito com muito gosto. Muito apropriado este seu convite neste post.

carlos lobo disse...

O convite estende-se obviamente a todos os leitores do seu blog. Desculpe o abuso deste espaco para anunciar a minha exposicao.

Madalena Lello disse...

Carlos, são sempre bem vindas as suas sugestões

Anónimo disse...

E louvada sejas tu rapariga, por partilhares com os "outros" as coisas mais lindas! Sim, a Primavera nasce aqui(em pleno estado de comoção, em pleno estado de floração perante estes fragmentos cinéfilos tão poéticos e intangíveis)