quarta-feira, março 12, 2008

O Ensino em Portugal

Paulo Catrica, Editora Assírio e Alvim, 2005

Tenho uma dívida, aliás uma grande dívida, que nunca conseguirei pagar, porque nunca conseguirei pagar a todos os professores, que ao longo da minha vida escolar me ensinaram a pensar.

“A direcção do Liceu decidiu este ano, que os alunos que escolheram a área de ciências,
Paulo Catrica, do livro Liceus, 2005
Paulo Catrica, do livro Liceus, 2005
deveriam também eles ter os melhores professores de português da escola, pois a direcção entendeu que a disciplina de português é tão indispensável para os alunos da área de letras como da área das ciências. Este é o primeiro ano que dou português aos alunos que escolheram a área das ciências. Aceitei o desafio com gosto porque julgo que temos muito a aprender”. Nunca me esquecerei destas palavras da Professora Virgínia Falcão, que em cima do estrado, no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, onde leccionava há anos, se apresentava como a nossa Professora de Português do antigo 6º ano dos liceus.
Paulo Catrica, do livro Liceus, 2005

Com Virgínia Falcão apaixonei-me pela lírica camoniana, com Virgínia Falcão apaixonei-me pelas cantigas de amor e de amigo, com Virgínia Falcão aprendi a pensar como verdadeira portuguesa, só me perturbava o toque estridente da campainha, que vinha do corredor que assinalava o fim da aula.
Paulo Catrica, do livro Liceus, 2005

Era a direcção do Liceu que decidira tal alteração, não o Ministério,
Paulo Catrica, do livro Liceus, 2005
era a direcção do Liceu que sabia quais os melhores professores, não o Ministério, era a direcção do Liceu que se interessava pelo melhor para os seus alunos. Nasci na geração de 60, já lá vão muitos anos, é certo, mas não tantos assim. Nunca os meus pais foram ao Liceu, nem os pais dos meus colegas, nem tão pouco se pensava em tal, éramos responsáveis pelo que fazíamos dentro da escola e não precisávamos da protecção paternal. Não deve o sentido da responsabilidade ser incutido desde cedo para cedo nos tornarmos autónomos?

Hoje é o que se vê, e no Sábado passado mais de 100 000 professores protestaram no Terreiro do Paço contra o Ministério da Educação, que no seu vazio,
Paulo Catrica, do livro Liceus, 2005
como estes Liceus vazios que Paulo Catrica fotografou, quer impor agora complexas grelhas de avaliação. Grelhas e mais grelhas, destroem o sentido do ensino em Portugal. Não é também com grelhas que os testes de português do 12º ano são corrigidos? Qualquer interpretação que saia fora do definido na grelha não conta, risca-se, a criatividade individual é eliminada, e o Ministério da Educação sem criatividade nem ideias do que quer para o ensino degrada cada vez mais qualquer possibilidade de pensar.

Bons, mesmo geniais, são os portugueses desta nova geração que ainda conseguem pensar e vingar.
Paulo Catrica, do livro Liceus, 2005

5 comentários:

Ultraperiférico disse...

Felicito-a pelo texto e pelas imagens totalmente oportunos, nestes tempos difíceis para a docência.
> Roteia

Anónimo disse...

A minha tia, Virginia Falcao, agradece as suas amáveis palavras, muito sensibilizada, por haver ainda quem se lembre de um tempo em que, pensa ela, não fez mais do que cumprir o seu dever. Obrigado - Virgínia Falcão
- o sobrinho - jaime falcão

Anónimo disse...

A minha tia, Virginia Falcao, agradece as suas amáveis palavras, muito sensibilizada, por haver ainda quem se lembre de um tempo em que, pensa ela, não fez mais do que cumprir o seu dever. Obrigada - Virgínia Falcão

Álvaro disse...

A Virgínia Falcão também foi minha professora de Português no Passos Manuel, talvez por volta de 1958-59... Grande professora, marcou-me para a vida!
Folgo em saber que ainda vive e deixo-lhe aqui o OBRIGADO que nunca lhe dei...

Álvaro Costa

José Miragaia Tomás disse...

Virginia Falcão foi minha professora no Passos Manuel entre 1961 e 63.Li há pouco tempo uma entrevista dela mas onde só referem o Maria Amália como seu local de ensino
Alguem me poderá indicar qual foi a publicação pois li mas não me recordo onde foi vista