quarta-feira, setembro 10, 2008

"Detroit Photos" de Stan Douglas

É impressionante como o “guru” das obrigações, Bill Gross, influencia o poder político do país que ainda lidera a economia mundial. No site da Pimco, Bill Gross escreveu que o governo “must open up the balance sheet of the U.S. Treasury to support Fannie Mae and Freddie Mac...”. No dia seguinte, sexta-feira, os mercados, perante tal notícia caíram a pique. Domingo, Henry Paulson, o Secretário de Estado do Tesouro americano apressou-se a anunciar a nacionalização dos dois bancos especializados no crédito à habitação. Segunda-feira, as bolsas abriram eufóricas, festejavam a intervenção do Estado, e todos os índices mundiais registaram ganhos acentuados. Todos concordaram com a operação que “era inevitável”, Bill Gross sentiu-se certamente aliviado, mas a euforia foi sol de pouca dura.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Para muitos analistas a crise vai continuar - o excesso de imóveis que existem no mercado norte-americano ainda levará dois anos até que seja absorvido, e novamente regressamos à devassidão dos subúrbios na América.

Quando em 1997 passeava ao largo do rio Detroit, Stan Douglas ficou espantado com o que viu: "I'd never seen anything like that before," como recorda mais tarde: "That" was the city's scarred downtown area, where majestic old Beaux-Arts skyscrapers preside over what has become a legendary urban wasteland.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Since the riots of 1967, Detroit has been the scene of ongoing urban decay, with disappearing auto-industry jobs, white flight to the suburbs and a macabre annual "Devil's Night" arson ritual all marking stages in the city's decline”.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Durante dezoito meses, Douglas fotografa a cidade e os subúrbios abandonados.

Detroit foi fundada em 1701 pelo francês Antoine de la Mothe Cadillac, e o oficial, que vivia da agricultura, estava longe de saber que Cadillac se tornaria, dois séculos mais tarde num dos símbolos da indústria americana.

Em 1896, Henry Ford construía em Detroit a primeira fábrica de automóveis. No virar do século, os irmãos Dodge, Packard e Walter Chrysler, elegeram-na também como o local para instalarem as suas fábricas, a localização, ao lado dos Grandes Lagos, facilitava o transporte.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

De 1900 a 1930, Detroit passou dos 300 000 habitantes para 1 800 000. Se a cidade se transformava na capital do automóvel, o automóvel tornava-se na maior indústria do país. Vingaram, dos mais de 200 fabricantes instalados, os que souberam inovar e que eficientemente produziam em massa, nas suas linhas de montagem os carros que invadiram o país: Ford, Chrysler e General Motors. Com razão, chamaram a Detroit, Motor City. Nos anos 60, com o advento dos subsídios às hipotecas e à construção de auto-estradas,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

nasceram os subúrbios que Douglas fotografou. Para lá mudaram-se as famílias brancas, que abandonaram a cidade, deixando para trás, uma cidade segregada.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Não tardou, que os subúrbios delimitados por fronteiras rigorosamente seleccionadas em função da raça e da classe se transformassem em verdadeiros pólos de conflito, como as manifestações de 1967, que só seriam ultrapassadas em violência pelas manifestações de 1992 em Los Angeles. Nos anos 1970, com os embargos do petróleo a indústria automóvel caiu, e nos anos 1980, o Japão tecnológico que construía Toyotas e Hondas mais eficientes, invadiram a América. Os carros americanos, demasiado grandes e gulosos em gasolina, sofriam um novo revés. Consequentemente o desemprego alastrou e com ele o abandono de Detroit e dos seus subúrbios.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Nos anos 90, quando Douglas fotografou Detroit, a baixa da cidade, abandonada e vazia chamava o crime. Se os arranha-céus art déco,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

cuja grandiosidade arquitectural encantaram Le Corbusier e Erich Mendelsohn parecem agora habitados por fantasmas, os cinemas, tiveram pior sorte e transformaram-se em garagens.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Em 2004 - a machadada final na indústria automóvel que deixou definitivamente a cidade.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Ontário substitui agora Detroit. Ao invés do que tem sucedido na Europa, não foi a baixa de salários que fez mover os fabricantes de automóveis para o Canadá, a razão é outra, mas também simples – o sistema de saúde. Na América os patrões pagam às entidades privadas 6,500 dólares em assistência médica por cada trabalhador, no Canadá, pagam ao Estado, 800 dólares pela mesma assistência. Isto significa que o sistema de saúde privado na América aumentou a tal ponto, que “it is not low wages that employers are looking for but smart benefits”.

Competitividade, dinamismo e inovação que sempre caracterizaram este país de imigrantes, parece estar a esgotar-se.
A leste do que se passa à sua volta,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Washington mostra poucos sinais de reorientar a sua política para os novos desafios da globalização, e se os tentáculos do Estado mais liberal engoliram agora a Fannie Mae e a Freddie Mac, em relação ao sistema de saúde os políticos continuam fechados e renitentes em aprender com os outros e o que sabem dizer aos eleitores: “health-care systems is to be thankful for their own”.

Amanhã, 11 de Setembro, faz sete anos que Mohammed Atta morreu ao embater com o avião que pilotava na primeira Torre Gémea do World Trade Center. A América não pode deixar que o FBI, a CIA e a Segurança Nacional, que zelam para manter fora do país o próximo Mohammed, também exclua o próximo Sergey Brin, co-fundador da Google e nascido na Rússia.

outros sites sobre Detroit aqui e aqui


2 comentários:

carlos lobo disse...

Um belo artigo.
O Alec Soth fez um trabalho semelhante mas numa outra cidade americana, sobre a nova pobreza social nos USA.
Estas imagens fazem-me lembrar o American Surfaces de Stephen Shore, mas num contexto económico completamente diferente.

Madalena Lello disse...

Soth e Shore dois fotógrafos que são bem lembrados, ambos, como Douglas, fotografam a experiência do tempo.
O artista James Casebere, sobre o trabalho de Douglas disse o seguinte: "allowed the viewer to experience time as cyclical" ao qual Douglas respondeu: "I'm not sure what you mean by cyclical time, it seems to me that history, for example, proceeds by differences, not by repetition". Douglas tem razão, olhar para a história fotográfica americana,mesmo a mais recente vemos sempre diferenças, e se Shore bebeu de Walker Evans, soube inovar nos seus diários de viajem, pois para além dos moteis, estradas, cruzamentos fotografou também as "pancakes"...