segunda-feira, setembro 15, 2008

De regresso às aulas

O recreio acabou, é hora dos alunos regressam às aulas, mas para o governo a hora de recreio parece não ter fim - ou a campainha avariou ou os políticos ensurdeceram de vez.


Pedro Letria, Sala 222, férias de Verão, Colégio Campolide, do livro Inventário, 2003

Os jornais voltaram à carga com o vergonhoso facilitismo dos exames de matemática do último ano lectivo. Ao governo o que interessa é poder agora dizer que foi o ano, num historial de dez, com o mais baixo número de chumbos a esta disciplina.
Surpreende não só a falta de honestidade como a falta de visão. Será que o governo não entende que ao facilitar, em lugar de exigir, não prepara os jovens para os novos desafios e mudanças do mundo actual?

Os políticos não gostam que se lhes diga a verdade do que está a acontecer, porque eles próprios não sabem o que está realmente a acontecer, e por isso só ouvem aquilo que conseguem perceber, e a campainha do recreio bem pode tocar que eles, sem a mais pequena ideia do que se passa a nível mundial, não a ouvem e insistem em atrair investimentos promovendo Portugal como o país da mão-de-obra barata em lugar de o promover como o país da inovação. A recente descoberta de dispositivos, como o vidro ou uma simples folha de papel de acetato,


Pedro Letria, Aula de História Económica, sala 301, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

possibilitarem a produção de ecrãs transparentes, pela equipe de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, coordenada por Elvira Fortunato, é a ponta de um iceberg que está longe de ser explorada. Não é mais importante usar bem os recursos que ainda não saíram do país? A Samsung, ao contrário não perde tempo e já assinou um contrato de parceria com a equipa de investigadores para poder desenvolver estes dispositivos. O capital não se movimenta pelo mundo apenas em busca de mão-de-obra barata e os empregos estão a ir para o lugar onde está a força laboral mais qualificada. Onde surgir a inovação estarão os melhores empregos,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

que irão por sua vez despoletar mais empregos e melhor nível de vida e não é preparando os alunos para o facilitismo que Portugal, país sem recursos naturais, vai conseguir competir num mundo que se globalizou. Conseguir formar pessoas nas indústrias do futuro, é sem dúvida, a nossa grande mais valia, e o governo em lugar de gastar dinheiro em projectos propagandistas deveria investir na nossa massa cinzenta.


Pedro Letria, Introdução à Macroeconomia, Auditório A14, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Felizmente Portugal também teve visionários, que em momentos chave, souberam inovar e reformar o nosso sistema educativo e investiram à séria na nossa massa cinzenta e porque não relembra-los através da fotografia?

Em 1993, por ocasião do cinquentenário do falecimento de Duarte Pacheco, o Instituto Superior Técnico, I.S.T., encomendou ao fotógrafo Augusto Alves da Silva, um projecto fotográfico sobre a instituição.
Em 2003, por ocasião da comemoração dos vinte cinco anos de existência, a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, FEUNL, encomendou ao fotógrafo Pedro Letria, um projecto fotográfico sobre a instituição.
Ambos os fotógrafos aceitaram a tarefa, ambos publicaram um livro e a ambos foi dada total liberdade para fotografarem.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993


Pedro Letria, Caixa de correio dos professores, Piso 3, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

Abolida a monarquia, 1910, o governo republicano não perdeu tempo em reformar o “anquilosado e caduco” sistema educativo. Se no velho e decadente Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, eram formados engenheiros e economistas, das escolas militares saiam os engenheiros civis e de minas. Ciente das mudanças necessárias, Alfredo Bensaúde, em 1892, elabora um Projecto de Reforma do Ensino Tecnológico. Ignorado pelo monárquicos é a grande aposta de mudança dos republicanos, que lhe dão a oportunidade de pôr à prova as suas ideias inovadoras para a pedagogia e formação tecnológica em Portugal. Tudo se criou de raiz, e em 1911, uma nova escola técnica de grau superior integrava os vários tipos de engenharia – estava criado o Instituto Superior Técnico. Para Bensaúde “a primeira das condições para que uma escola seja boa é possuir um professorado o mais sábio possível”, o que exigia novas formas de recrutamento, e não hesitou em procurar os melhores “no país e se necessário no estrangeiro”. Bensaúde, ao contrário do governo actual, interessava-se em cultivar nos alunos a “persistência no trabalho e a faculdade de assimilação”,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

o seu principal inimigo “o nosso culto inconsciente pelo verbalismo”.
O ensino prático e laboratorial era imprescindível: “os alunos deveriam ser treinados na prática oficinal e recuperar fundos vendendo ao exterior os artigos fabricados por eles”,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

estimular a independência do indivíduo à custa do próprio esforço e valorizar a competência profissional, tornou o I.S.T, na escola de prestigio que ainda hoje é.
Bensaúde foi visionário, ao integrar as engenharias numa só escola, ao exigir o ensino de qualidade e ao incutir nos alunos o sentimento de curiosidade.
Na nova escola, as actividades circumescolares não eram menos importantes,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

mas “a obra não está completa enquanto não for convenientemente instalada”. Continuar e completar a obra de Bensaúde foi o que fez Duarte Pacheco, quando ascendeu em 1927, à direcção do Instituto que o formara. Com Pardal Monteiro, arquitectura e engenharia uniram-se harmoniosamente e em 1937, o novo modelo de “campus” universitário estava de pé.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Noutro período conturbado, que se seguiu à Revolução do 25 de Abril de 1974, Alfredo de Sousa, foi outro grande visionário. Fugindo à explosão dos ideais do pós-25 de Abril,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

foi o impulsionador da criação da Faculdade de Economia, que logo congregou à sua volta um conjunto significativo de recém-doutorados em Economia, nos EUA e na Europa, criando a “massa crítica” suficiente para desencadear um processo de profunda renovação do ensino da Economia e Gestão em Portugal.


Pedro Letria, Cúpula, Piso 3, jantar de antigos alunos M.B.A., Palácio Ventura Terra, do livro Inventário, 2003

Com Alfredo de Sousa, os programas de Doutoramento e Mestrado em Economia e do MBA foram pioneiros em Portugal.


Pedro Letria, Sala de aula de M.B.A., Palácio Ventura Terra, do livro Inventário, 2003

Ao invés do novo modelo de “campus” universitário do I.S.T, os edifícios, que Letria fotografou, revelam-nos, que a Escola funciona em edifícios históricos.


Pedro Letria, escadaria e entrada do Salão Nobre, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

Apostando sempre na internacionalização, hoje os alunos que se formam e partem para trabalhar no centro financeiro de Londres, são vistos como dos melhores.

Como tudo na vida, o I.S.T, precisou de se transformar para dar resposta às novas exigências da investigação científica. Em 1993, duas novas torres são construídas dentro do seu “campus” para albergar as novas exigências da ciência.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Alves da Silva foi para lá que olhou com insistência, alternando as suas imagens entre o esforço dos estudantes


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

e o esforço dos trabalhadores empoleirados em vigas e guindastes.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Na Faculdade de Economia, Letria olha com insistência para os jantares dos antigos alunos do MBA, alternando as suas imagens entre o esforço dos estudantes


Pedro Letria, Sala 203, laboratório de micro-computadores, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

e os momentos de convívio.


Pedro Letria, Sala de jantar do Palácio Ventura Terra, jantar de antigos alunos do M.B.A., do livro Inventário, 2003

Duas formas de estar, que distinguem engenheiros e economistas.

Agora vivemos um outro momento chave, a hora de recreio acabou, e é imperativo que todos regressemos ao trabalho.

1 comentário:

José disse...

Olá,

Com os factos que temos verificado ao longo dos últimos anos, nomeadamente o reflexo da deficiente qualidade do ensino nas profissões - Lê-se tantos erros ortogáficos - custa a acreditar que este sucesso não tenha sido conseguido à custa de algum facilitismo.
Num mundo cada vez mais competitivo, em que o mercado de emprego é global, apenas alguns terão direito a uma vida com dignidade.

Parabéns pela qualidade do teu blog.

José