terça-feira, fevereiro 12, 2008

Raghubir Singh

Ontem no Wall Street Journal um artigo “India’s IPO Pillar Shows Fissures”, revelava que também o Sensex (BSE), o índice da bolsa indiana, não resistia às fortes correções dos mercados bolsistas, pois as Ofertas Públicas de Venda anunciadas, e que mantinham ainda o interesse dos estrangeiros, foram agora adiadas. Ontem o mercado indiano fechou com uma perca de quase 5% e desde o início do ano o Sensex (BSE) caiu 19% contrastando com os 47% de ganho do ano passado. O mercado globalizou-se e hoje não há nenhum país que fique incólume às correções que parecem estar para ficar. Quando, há precisamente dez anos, com o colapso do gigantesco Hedge Fund - Long Term Capital Managment – LTCM, gerido por dois nobéis da economia, Myron Scholes e Robert Merton, perdiam um valor que ultrapassava o sistema financeiro americano, o Sensex (BSE) foi a única bolsa que resistiu às correções das bolsas mundiais. A dificuldade das multinacionais se instalarem na Índia era, à época tema recorrente nas revistas da especialidade. Os indianos continuavam a preferir as suas bebidas à coca-cola importada e a Índia parecia conseguir resistir à globalização. Hoje a preocupação dos Stockbrokers em Bombaim é igual a de todos os outros, como revela esta fotografia que acompanha o artigo.

As diferentes cores sobrepostas em camadas, que encontrei nesta fotografia tirada na Índia, na estrada para Jaipur,
Pedro Norton, Estrada para Jaipur, Dezembro, 2007

fizeram-me lembrar as cores da Índia de Raghubir Singh,
Raghubir Singh, Barber and goddess Kali, Calcutta, West Bengal, 1987

que nasceu em Jaipur, e a magia desta imagem está precisamente no seu poder de evocar muitas outras, armazenadas em memória.

Raghubir Singh é o fundador da fotografia indiana moderna e resistiu, desde que começou a fotografar na década de 1960, à globalização do preto e branco que então dominava. Fotografou o seu país sempre a cores e no último livro, “River Colour”, 1998, que publicou pouco antes de morrer, escreveu na introdução: “Unlike those in the West, Indians have always intuitively seen and controlled colour”, continuando, “the Indian photographer cannot produce the angst and alienation tooted in the works of western photographers such as Brässai, Bill Brandt, Robert Frank and Diane Arbus”. Os ocidentais, como Cartier-Bresson, que Singh admirava e conhecera, preocuparam-se com o excesso de informação da cor. Num mundo a cores, a fotografia a preto e branco possuía a integridade do desenho, quiçá, os trabalhos eram assim mais artísticos e Bresson no final da vida dedicou-se ao desenho e deixou a fotografia.
Singh nasceu e cresceu nos anos 40, a geração que veria nascer, a 15 de Agosto de 1947, a independência do país. Chegado à maturidade, deixa a cidade onde nasceu, e no sul do país quis ser plantador de chá, mas acabou por abraçar o fotojornalismo.

A cultura indiana evoluiu em íntima relação com a Natureza, nada faz sentido sem a terra, as vacas

Raghubir Singh, Pushkar Fair, 1980-81


e o Ganges, o rio sagrado.

Raghubir Singh, Man diving. Ganges floods, Benares, Uttar Pradesh, 1985

A Natureza reina suprema, e Singh dá-nos a ver o inexprimível – aquilo que se sente, vê, ouve cheira ou prova.
Raghubir Singh, c. 1970

Nas suas fotografias a cor da Índia é a cor da poeira,

Raghubir Singh, Jodhpur District, 1980-81

da terra, dos tecidos de algodão e linho,
Raghubir Singh, Women caught in monsoon rains, Bahir, 1967

e foram estas cores que armazenei em memória, já lá vão mais de vinte anos quando vi as imagens do livro Rajasthan, 1981, de Singh.
Cartier-Bresson era um françês que descobria a Índia, e fotografou-a a preto e branco, mas Singh o nativo, sente a cor da sua terra, e o seu olho insaciável abarcou a Índia de alto a baixo, nunca fotografando senão a cores. No Ocidente o ponto de viragem da fotografia a cor deu-se com a exposição “William Eggleston’s Guide” no MoMA, estávamos em 1976. “Ganges”, 1974, o primeiro livro de Singh, antecedeu o “Guide” de Eggleston. Nas fotografias de Eggleston vemos as cores saturadas de uma América que se veste de poliéster e de fibras sintéticas, mas na Índia a cor é informação, mais do que decoração. Singh, não vai à procura do grande evento, antes regista a vida do homem comum,
Raghubir Singh, Boy at bus stop, New Delhi, 1982

como indiano valoriza a vida humana, e na fotografia de Pedro Norton, também não falta o homem e a sua sombra. Na Índia, um país com séculos de história quantos os da civilização, é fácil a um estrangeiro cair na armadilha do pictoresco. No enorme volume, com mais de 600 páginas, editado há poucos meses, “L’Art de la Photographie: des origines à nos jours”, de Michel Poivert e André Gunthert, nem uma referência a Raghubir Singh, um esquecimento injusto, como injustas são todos as outras histórias da fotografia.

4 comentários:

Tomé Duarte disse...

Temos a mania que o mundo é o ocidente... Ou que no ocidente somos os primeiros e os melhores... :)

Madalena Lello disse...

Tomé Duarte, foi com Singh que comecei a perceber como o indiano se via a si próprio. Fotógrafos como Margareth Bourke-White e Cartier-Bresson, que fotografaram os indianos legaram-nos uma visão refractada pelos padrões e estétia ocidentais, os historiadores da fotografia continuam também eles a darem essa visão refractada da história da fotografia

Pedro Norton disse...

Cara Madalena Lello,
É uma honra (absolutamente injustificada) ver uma foto minha no seu blog. Sou seu «espectador» assíduo. Parabéns.

Madalena Lello disse...

Pedro, como digo no texto, a magia da fotografia está precisamente no seu poder de evocar muitas outras. Para mim, "Estrada para Jaipur", levou-me a muitas outras imagens, e para mim, associar imagens é uma forma de pensar. Em "Estrada para Jaipur" não vi só as cores da Índia, fui parar também ao México, à fotografia a cores de Alvarez Bravo, outras associações outros pensamentos, talvez, quiça, um dia dê inspiração para um outro post, não na Índia mas no México. Agradeço ter-me deixado "roubar" uma imagem tão preciosa.