sábado, dezembro 01, 2007

Wim Wenders, o fotógrafo

Ontem no ciclo “Road Movies: Lembrando Jack Kerouac” a cinemateca passou “Paris, Texas”, 1984, de WimWenders. Há uma semana numa entrevista ao jornal Expresso Wenders falou do seu novo filme “Estrela Solitária”. Há uns meses, Wenders escreveu um texto sobre a Europa actual, “O que é a Europa? Como está a Europa?”, duas questões que iniciavam o texto. “Reflicta-se” continuava Wenders “na real influência política da Europa ou na falta de entusiasmo dos seus cidadãos pela Causa Europeia em tempos recentes. Os europeus estão fartos da Europa”. Agora Portugal prepara-se para assinar o novo tratado Europeu, o Tratado de Lisboa.

Wim Wenders é simultaneamente realizador e fotógrafo, e nem a fotografia nem o cinema se excluem, antes pelo contrário complementam-se, surpreendentemente um caso raro. Alguns, como Stanley Kubrick, começaram com a fotografia, mas depois dedicaram-se ao cinema.

O alemão Wenders (n.1945) percorre o mundo,

Wim Wenders, Joshua and John (behind), Odessa, Texas, 1983
Wim Wenders, In Omote-Sando, Tokyo, 2000
Wim Wenders, "Lizard Rock", South Australia, 1988
da América à Austrália, à procura de imagens, o inicio dos seus filmes. Meses a fio fotografou o Midwest americano, antes de começar “Paris, Texas”. Na Europa, Potsdam
Wim Wenders, Potsdam
Wim Wenders, Potsdam
lembra-lhe Lisboa, e em Lisboa os telhados
Wim Wenders, Lisboa
Wim Wenders, Lisboa
inspiram-no em “Lisbon Story”, 1994, onde no terraço da casa se vislumbra os telhados da mouraria até ao Tejo. Mas a Lisboa que fotografa nos idos anos 70 lembra-o a Alemanha da sua infância.
Wim Wenders, Portugal
Wim Wenders, Portugal

No ponto mais Ocidental da Europa, em frente ao oceano Atlântico onde no lado oposto fica a América, Wenders encontrou o hotel da Praia Grande em estado semi-degradado e abandonado.
Wim Wenders, Praia Grande, Portugal, 1982
Wim Wenders, Praia Grande, Portugal, 1982
As fotografias são o início para “The State of Things”, 1982. Cidade e deserto são a antítese, uma ideia que Wenders gosta de explorar. Wenders gosta das cidades, mas sente por vezes a necessidade de as abandonar e refugia-se nas paisagens que a civilização abandonou. Nas paisagens desertas da América e Austrália, Wenders encontra sempre vestígios de uma civilização que passou, “(...) a house, a former road, an old railway line or even a deserted filling station or motel”.
Wim Wenders, Austrália
Wim Wenders, Texas

Numa cidade do Texas fotografou o anúncio ao Texas motel semiapagado, mas o letreiro que anuncia a barbearia ainda é bem visível
Wim Wenders, Texas
e no mesmo local, este homem que caminha nesta cidade deserta, acompanhado só pela sua sombra, lembra Travis Anderson, o personagem principal de “Paris, Texas”.
Wim Wenders, Texas
No Arizona, em Gila Bend, encontrou um velho hotel que há muito não vê hóspedes.
Wim Wenders, Gila Bend, Arizona, 1983
Espreitando pela janela, Wenders vê o lobby do hotel com sofás coloridos a acumularem pó,
Wim Wenders, Gila Bend, Arizona, 1983
não desiste até encontrar a chave do hotel para o fotografar. É o fascínio pelos vestígios de cidades abandonadas onde a natureza tenta novamente dominar.
Wim Wenders, Gila Bend, Arizona, 1983
Wim Wenders, Gila Bend, Arizona, 1983

Outras vezes são as fotografias de outros fotógrafos que lhe servem de inspiração. Admira Walker Evans, Robert Frank, Robert Adams, e talvez também Richard Misrach, Stephen Shore...
Richard Misrach, Linhas incrustadas, Bonneville, Salt Flats, 1992
Stephen Shore, Proton Avenue, Gull Lake, Soskatchewan, 1974

Em “The Americans” de Frank aprende a ver a experiência da solidão de um estrangeiro, como ele Wenders também o é, nas estradas solitárias da América e nas cidades e moteis por onde passa. “Alice in Town”,1974, é sem dúvida o filme imaginário inspirado em “The Americans” e a fotografia do camião tirada com uma polaroid SX 70, o primeiro “still” para iniciar o filme.
Wim Wenders, North Carolina, 1974

Antes de ir a Butte, no estado de Montana, Wenders relera “Red Harvest” de Dashiel Hammett, e a cidade de Poisonville de Hammett é para Wenders a actual Butte, onde grassa o desemprego e a desertificação.
Wim Wenders, "Blue Range", Butte, Montana, 2000
Wim Wenders, Used Book Store in Butte, Montana, 2000
Wim Wenders, Street Front in Butte, Montana, 2000

Em Butte, Montana, Frank é o espectador solitário olhando através duma cortina desfocada, tirada no hotel onde ficou.
Robert Frank, View from Hotel window - Butte, Montana, 1956

Mas Wenders olha também para a pintura e em relação a esta pintura de Edward Hopper,
Edwar Hopper, Early Sunday Morning, 1930
Wenders diz o seguinte :”there’s the famous picture of a street in New York, with the barbar’s shop in the middle. I believe that is a highly exciting picture in the way it references photography and film (...) it’s a picture where you expect that the very next moment something will happen and it will change – perhaps the lighting”. Para Wenders os quadros de Hopper são sempre inícios de histórias. Mas também Walker Evans, o inspira com esta fotografia de uma rua principal em Selma, no Alabama.
Walker Evans, Selma, Alabama, 1935

Em “Paris, Texas” vem-nos primeiro à memória o som da guitarra solitária de Ry Cooder, depois seguem-se as paisagens. É o deserto em música e em imagens.

“Vivemos na era das imagens. Hoje, nenhum outro campo da cultura exibe tanto poder como o da imagem. (...) Todo o sonho americano é na realidade uma invenção do cinema”, comenta Wenders, mas nos filmes de Wenders, a influência das várias artes: literatura, pintura, fotografia e música.

Nas relações da fotografia com o cinema, Wenders é o caso mais curioso para Jorge Calado, “melhor fotógrafo que cineasta, para ele os problemas começam quando os personagens se mexem e começam a contar uma história”.

Na próxima terça feira, ainda no ciclo “Road Movies: Lembrando Jack Kerouac”, a cinemateca apresenta “Pull my Daisy” e “Candy Mountain” de Robert Frank, melhor fotógrafo que cineasta, como ele próprio se acha e que um dia escreveu "Gostaria de fazer um filme que misturasse a minha vida, no que ela tem de privado, e o meu trabalho que é público por definição...Não é minha intenção dar uma interpretação das minhas fotografias, atribuir-lhes um sentido particular, um sentido histórico. Este género de informação não me interessa...quero utilizar essas lembranças do passado como objectos estranhos, em parte sepultados, vindos de outro tempo...objectos que incomodam, que contam, que se fingem mortos e que muitas vezes justificam o interesse que neles temos. Gostaria de fazer um foto-filme, estabelecer um diálogo entre o movimento da câmara e o gelo da imagem fixa, entre o presente e o passado, o interior e o exterior, o que está à frente e o que está atrás..."

2 comentários:

Anónimo disse...

a semana passada vi pela primeira o filme 'Terra de Abundância' de Wim Wenders e pensava em como só quando somos estrangeiros a um lugar o podemos mostrar daquela forma.
ver a américa pelos olhos do homem que queria ver para contar à sua avó o que ela não conseguia ver.
gosto muito dos seus artigos madalena, mais do que posts, são capítulos.
costuma fazer apresentações para alunos?
anapereira

www.anapereira.wordpress.com

CAO AMARELO disse...

http://www.caoamarelo.org/



O C Ã O A M A R E L O de qinta a domingo , exposição de kim na velha
estação da CP
a vos deslumbrar de cores, os Ervas Daninhas no Bar da GNR, curtas no
auditório, PINHAL NOVO