sábado, dezembro 15, 2007

Nas terras de ninguém

“Lost in Translation”, (2003), é o título do filme da realizadora Sofia Coppola. “Lost in Transition”, (2007), é o nome do último livro do fotógrafo Peter Bialobrzeski editado pela Hatje Cantz.

A escolha do título, “Lost in Trasition”, é uma óbvia alusão ao filme de Sofia Coppola, escreve Michael Glasmeier na introdução do livro. No filme, as grandes cadeias de hotéis, sempre iguais em todo o mundo, no livro os subúrbios das grandes cidades irreconheciveis pela banalidade, os espaços de transição, de passagem, do mundo em que vivemos. Os dois americanos, Bob Harris (Bill Murray) e Charlotte (Scarlett Johansson), que se conhecem no bar do hotel Hyatt em Tóquio, enfrentam a estranheza do jetlag e da cidade onde estão de passagem. Bialobrzeski fotografa ao crepúsculo, quando a claridade do dia ainda perdura e se mistura com a iluminação feérica das luzes artificiais, perpassando nas suas imagens um efeito de estranheza.
Peter Bialobrzeski, Transition 01
Peter Bialobrzeski, Transition 17
Peter Bialobrzeski, Transition 49
O objecto a nova arquitectura das periferias das grandes cidades, descaracterizadas e incoerentes, onde o velho ainda persiste ao lado das novas construções.
Peter Bialobrzeski, Transition 09
Peter Bialobrzeski, Transition 10
Peter Bialobrzeski, Transition 12
Peter Bialobrzeski, Transition 13
Peter Bialobrzeski, Transition 23
No final do livro Bialobrzeski refere os diferentes países e as cidades que fotografou, de Abu Dhabi nos Emirados Árabes a Zurich na Suíça, mas em nenhuma, Bialobrzeski situa a geografia do local, deixando o observador a sós, pois não se vê vivalma, perante uma nova arquitectura sem referências simbólicas ou características intrínsecas. Em “Unknown Landscapes”, (2007),
o recente livro de Carlos Lobo, o título revela o propósito do autor, não identificar os locais. Afinal para quê legendar geograficamente a cartografia visual destes territórios quase urbanos?
Carlos Lobo
Carlos Lobo

Mark Power nasceu em Harpenden, na Inglaterra, mas cresceu na periferia de Leicester, uma grande cidade industrial no Este de Midlands. A ideia de limite é crucial na sua obra, pois Power cresceu sentindo que não pertencia ao centro da grande cidade onde tudo se passava. Este ano editou “ 26 Different Endings”, (2007),
vinte seis fotografias que correspondem ao número total de letras do atlas A-Z das ruas de Londres, que todos os anos vende mais de 200 000 cópias. Desde que surgiu, em 1935, todos os anos uma nova edição do atlas sai para as bancas, pois todos os anos, alguém decide que subúrbios de Londres devem ou não ser incluídos. Power durante três anos fotografou os limites que caem fora de cada letra do atlas, os “não-lugares”, e legendou cada fotografia com a letra, número e ponto cardeal.
Mark Power, P 130 West
Mark Power, V 12 North
Mark Power, Q 130 South
Mark Power, T 128 South
Mark Power, N 40 West
Mark Power, A 148 South

“Non-Lieux”, título do livro do antropólogo Marc Augé, designa duas realidades distintas mas complementares: os espaços criados para determinados fins, (transporte, trânsito, comércio, lazer), e as relações dos indivíduos com esses espaços. Para Augé, os “não lugares” são o reflexo da época acelerada em que vivemos, e hoje o seu livro é frequentemente citado. Aeroportos, estações ferroviárias, autoestradas, centros comerciais, as grandes cadeias de hotéis, os parques de lazer, as grandes superfícies de distribuição, onde todos nós circulamos diáriamente, são espaços de transição em oposição ao espaço personalizado das nossas casas, o nosso espaço. Os espaços transitórios, os “não-lugares”, são produto da desintegração da unidade urbana e da expansão e massificação dos sistemas de transporte, tema priveligiado na fotografia actual. Martha Rosler, no trabalho “In the Place of the Public”, fotografou aeroportos e o interior dos aviões.
Martha Rosler, Munich 1999
Martha Rosler, Seattle, 1996
Martha Rosler, France, 1999
Espaços transitórios onde agora passamos uma boa parte do nosso tempo.
“Cimêncio”, (2003),
um livro com fotografias de Nuno Cera e textos de Diogo Lopes, regista alguns dos “não-lugares” da grande Lisboa. Podemos viajar com os autores em “98 Octanas”,
Nuno Cera, Cimêncio
um dos capítulos do livro :“Pela estrada fora os condutores procuram-nas para reabastecer as suas viaturas; elas por seu lado fornecem-lhes os serviços adicionais de equipamento e restauração selados pelo contrato fechado com a voz metálica da bomba de gasolina.
Nuno Cera
Nuno Cera
São portos de acostagem para o cidadão locomovido; sob a presença reconfortante e dominadora das suas palas, configuram o itinerário da errância transurbana: “próxima paragem a 40 Km”. Esta passa assim a ser a verdadeira medida-padrão para o movimento de indivíduos no território, o lanço entre duas etapas fixas que mede com maior rigor a deslocação do ponto A ao ponto B. (...).
Nuno Cera
Nuno Cera
Nuno Cera
As estações de serviço impõem pela força do hábito, pelo uso que lhes damos, a sua particular visão da realidade que as envolve. É um mundo constituído de elementos pré-fabricados, seriais, que delimitam com máximo rendimento áreas de breve interacção social onde, no fundo, se trocam fluidos e combustíveis para uma espécie de perpétuo movimento rodoviário. (...) Um arquétipo abstractizado de casa, construído com o intuito de dar novo alento a quem se encontra em trânsito. Como nos aeroportos, é nas estações de serviço que mais claramente se traçam as novas formas de cidadania, sem alojamento fixo, apenas com a linguagem comum da própria máquina...”.
Neste mesmo ano, 2003, Paulo Catrica, registou os novos espaços de escritórios que crescem fora dos centros urbanos, com os quais nos cruzamos todos os dias ao passar nas autoestradas que circundam as cidades.
Paulo Catrica, da série Parques e Espaços Abertos, 2003
Paulo Catrica, da série Parques e Espaços Abertos, 2003
Mais um fotógrafo que questiona a transformação da paisagem pelos actuais modelos urbanísticos. Em relação ao trabalho do fotógrafo Gabriele Basilico, arquitecto de formação, mas que explora através das suas fotografias a arquitectura no seu contexto envolvente, Catrica diz o seguinte: “A vitalidade do seu trabalho assenta na relação “equívoca” com a realidade de cada um destes lugares/sítios fotografados. Por momentos, todos estes espaços nos são simultaneamente próximos e distantes, um processo de memória visual que nos permite reconhecer um registo estratigráfico do passado inscrito no presente – como uma secção em corte de uma escavação arqueológica”.
Daniel Blaufuks, em 2005, fotografou um quarto de motel.
Daniel Blaufuks, 2005
Em criança disse que queria ser turista. Não se fez turista mas um fotógrafo que gosta de viajar. “As vezes não sei se viajo para fazer fotografias ou se estudei fotografia para ter uma razão para viajar”, diz Blaufuks. Os quartos de motel, onde a solidão se manifesta num tempo que a fotografia suspendeu, são locais de passagem das suas viagens.
Daniel Blaufuks, 2005
Daniel Blaufuks, 2005
Daniel Blaufuks, 2005
Daniel Blaufuks, 2005
Daniel Blaufuks, 2005
Se no fim da primeira grande guerra, Paris ainda tinha hortas plantadas à beira do Sena,
Auguste Léon, Jardins Potagers, Quai D'Auteuil, 1918
no final da segunda guerra assiste-se às grandes transformações urbanas, tanto na Europa como na América. Já olhámos para a geração de fotógrafos que registou os subúrbios da América, agora uma nova geração olha com outros olhos para as terras de ninguém, os “não-lugares”, que invadem todo o mundo.

1 comentário:

andre disse...

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