terça-feira, julho 10, 2007

A Fotografia na Colecção Berardo

A colecção Berardo e o novo museu é assunto que divide opiniões. Quem afinal beneficia com o acordo, o estado, ou seja todos nós, ou o empresário?
A mim o que me pasma é o número de visitas que acorreu ao museu, perto de 20 mil (?) na primeira semana, porque nem a colecção nem o espaço são novidade. Durante anos o Sintra Museu de Arte Moderna, e também o CCB, onde agora é o museu, mostraram parte substancial da referida colecção. Mas quem fosse num fim de semana a Sintra ver as exposições que o museu organizou da colecção, bastante boas por sinal, a ausência de visitantes era notória. Porquê este interesse súbito? Será porque a entrada é gratuita até ao dia 15?

Há uns anos, o Sintra Museu de Arte Moderna expôs “Fotografia na Colecção Berardo”. Ninguém se afastou nem tão pouco esperei para tirar estas fotografias,

Sintra Museu de Arte Moderna, exposição "Fotografia na Colecção Berardo" vista de duas fotografias de Andres Serrano, da série Morgue

Sintra Museu de Arte Moderna, Exposição "A Fotografia na Colecção Berardo, Andreas Gursky à frente e Andres Serrano atrás.

o museu, reconversão do antigo casino estava por minha conta.

No corredor que dá acesso à entrada estavam expostas, frente a frente, o que me causou alguma estranheza, a série, torres de àgua, dos Becher.
Sintra Museu de Arte Moderna, exposição "A Fotografia na Colecção Berardo", série Torres de Àgua de Bernd e Illa Becher, 1965-87

Desde 1959, altura em que começam a trabalhar em conjunto, Bernd e Illa Becher registam uma herança cultural votada à destruição ou reconversão, os edifícios tipológicos, na sua maioria anónimos, da arquitectura industrial. Imbuídos de um espírito científico, eliminam variáveis nas tomadas de vista. Os edifícios ocupam o mesmo espaço no centro da fotografia, a presença humana e outras distracções são completamente eliminadas, as nuvens no céu não existem e as fotografias não conhecem contrastes e sombras dramáticas. Fotografam a preto e branco e sempre do mesmo ângulo registam vários tipos da arquitectura industrial: silos, gasómetros, torres de àgua, fornos de cal, torres de extracção... Expostas em grelhas de 9, 12, ou 15 imagens de formato 40 x 30 cm ou 50 x 60 cm, são compostas em função da tipologia dos edifícios, formando conjuntos de variações subtis. É raro conseguirmos perceber a época em que foram tiradas e onde. Imunes ao ambiente que as envolve, é aí que reside a cientificidade da obra, e é também aí que reside o extraordinário destas “esculturas anónimas”, como os próprios chamaram. Dependem contudo de um contexto, a inserção numa série. A unidade da obra é o todo, não a obra individual. Á obra dos Becher aplica-se o que a psicologia experimental descobriu ao estudar a percepção “o todo é mais que a soma das partes”.
A serialização do vísivel não é inovação dos Becher, alemães, conhecem e sentem bem as obras fotográficas de dois compatriotas, August Sander, que nos anos 1920 fotografa de forma tipológica a sociedade da República de Weimar e Albert Renger-Patzsch, que de forma sistemática fotografou a indústria alemã, sobretudo na zona do Ruhr.

Falar hoje das colecções fotográficas institucionais, BES, Fundação Ellipse...é falar no casal Becher e na chamada escola de Dusseldorf, os discípulos do casal. Aparentemente, nada de original Berardo ter obras dos Becher na sua colecção. Mas as dezasseis torres de àgua que Berardo adquiriu têm algumas variações comparando com outras da mesma tipologia.
Dispostas em quadros individuais, 40,5 x 30,5 cm s/ madeira, e não em grelha, algumas destas torres de àgua desafiam as regras que tão meticulosamente o casal segue. Carros que revelam a década em que foram tiradas, anos 60
Becher, Torres de àgua, colecção Berardo

e 80,
Becher, Torres de àgua, Colecção Berardo

àrvores que se interpõem ao objecto principal,
Becher, Torres de àgua, Colecção Berardo

diferenças acentuadas na tipologia das torres,
Becher, Torres de àgua, Colecção Berardo
Becher, Torres de àgua, Colecção Berardo
Becher, Torres de àgua, Colecção Berardo

e por fim a obra exposta num corredor frente a frente.
Em 2004, o Centro Pompidou em Paris organizou, com a colaboração do casal, uma excelente retrospectiva. As torres de àgua foram reunidas em grelhas da seguinte maneira:







Fotografias das Torres de àgua, Becher, exposição Centre Pompidou, 2004

Serão as da colecção Berardo mais cotadas por serem diferentes? Ou menos cotadas por desafiarem o modelo? Não sei responder porque de mercado fotográfico não entendo mesmo nada, a leiloeira Christies lá saberá....

Outras séries, como os ecrãs de cinema, de Hiroshi Sugimoto, fazem também parte da colecção.
Sintra Museu de Arte Moderna, Hiroshi Sugimoto, Série Cinema, na exposição "A Fotografia na Colecção Berardo".

À semelhança das salas do museu e da série dos Becher, não se vislumbra presença humana, aqui os espectadores desapareceram sob o efeito da luz. Agora a luz branca que emana do ecrã é a soma total de todos os movimentos do filme, é o todo sem partes, e o que não se vê imagina-se.
Sintra Museu de Arte Moderna, Hiroshi Sugimoto, série Cinema, na exposição "A Fotografia na Colecção Berardo"

Sugimoto trabalha também em séries que são diferentes entre si, no entanto unem-se sob um conceito comum, o regresso às memórias mais antigas da nossa cultura. A magia das imagens está no seu poder de evocar muitas outras armazenadas em memória e Sugimoto quer simular o registo das primeiras memórias. Como mostrar o vazio? É o que Sugimoto enquadra e limita nos ecrãs brancos de luz.

Vazias estiveram as exposições da colecção Berardo, faltava talvez o todo, museu e colecção para o vazio se tornar em enchente...

2 comentários:

ant bracons disse...

Criam-se hábitos. De proximidade ou de outro critério. Há sítios que é obrigatório ir. Que se gosta de ir. Que tem de se ir. Que não se pode perder. Que se sabe. Que se quer saber. Dos quais se recebe informação e se procura.
E há outros sítios que não criam(os) o hábito de ir, não nos habituamos a ir. Porque não divulgam tanto, porque são mais longe, porque estão fora dos nossos hábitos, porque não sei quê...
Há sítios onde vou com mais frequência que outros. Há espaços que tento sempre saber o que têm. Por vezes, com o tempo sempre preenchido, dou conta que uma exposição está a quase a terminar e já está há uns meses...
O CCB, por exemplo, criou novos hábitos: muitos não vão ao D. Carlos ver ópera, mas enchem o CCB, com preços mais elevados...
Não vi esta exposição em Sintra. Mas não tenho dúvidas que a veria com outros olhos e conforto (mais disponível) que num CCB cheio e confuso, com imenso barulho de conversas cruzadas...
Fazemos os espaços ou os espaços fazem-nos?

Este post, como os outros, é interessantíssimo. O olhar sempre atento da Madalena, vendo e mostrando, neste caso, novos Becher, 'diferentes' dos padrões 'clássicos' da família...
Obrigado, uma vez mais.

Anónimo disse...

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