segunda-feira, julho 23, 2007

Gérard Castello-Lopes

Na escola primária aprendia-se a geografia elementar do país. O nome dos rios, onde nasciam, desaguavam, as localidades que banhavam no seu percurso. Mas para além dos rios, das serras...aprendíamos as linhas férreas e os apeadeiros. Só como exercício de memória é que fazia sentido aprendermos tal coisa, pois qualquer estação de comboios tinha tabelas, iguais às que vemos nesta fotografia de Gérard Castello-Lopes, com os horários e os apeadeiros.

Gérard Castello-Lopes, Lisboa, 1957

Vem isto a propósito de um artigo, “A dúvida”, escrito por Gérard, na revista INDY, do já extinto jornal O Independente.

Gérard começa o texto interrogando-se “Trata-se, claro, dum olhar “fotográfico”. Mas definir um tal olhar? Será plausível imaginar que um francês, um americano, um suiço ou um português vêem o mundo de diferentes modos?”. Quando Gérard expôs pela primeira vez as suas fotografias em 1982, o amigo, o cineasta Fernando Lopes, escrevera um texto elogioso cujo título encantara Gérard, “Um olhar Português”. Outros amigos mais próximos declararam que não havia um olhar português, “para eles havia um olhar e mais nada”. “Eu compreendia” continuava Gérard, “aquele ponto de vista e tendia a alinhar com ele, mas atazanava-me, apesar de tudo, uma pequena dúvida”. Gérard vira as fotografias dos fotógrafos de renome que visitaram Portugal, mas todas elas, mesmo as mais sublimes, afiguravam-se-lhe turísticas. “Fui-me persuadindo de que afinal, só um observador familiarizado com a realidade do meu país podia discernir o significado de uma certa postura, dum olhar, dum gesto, dum modo de andar, de falar ou de dormir. Por outras palavras comecei a admitir que talvez existisse esse tal olhar português”. E terminava o texto dizendo que continuava a viver com essa dúvida que o obcecava, “mas deixarei ao público benevolente ajuizar do bem fundado dessa ideia”.
Ao olhar para este homem a olhar para a tabela dos dias úteis do comboio Lisboa-Sintra, não tenho dúvida, já que Gérard nos permite, ajuizar de que se trata de um verdadeiro olhar português. De costas voltadas não vemos o olhar deste homem de meia idade, mas por aquilo que vemos sabemos que não é um homem da cidade, veio de alguma terra para a cidade, e está vestido com o seu melhor fato. Aguarda na estação do Rossio(?), o comboio que parte, para Sintra(?) ou Paris (?). O homem que olha a tabela dos horários e apeadeiros não olha para obter informações, “só um observador familiarizado com a realidade do meu país podia discernir o significado de uma certa postura...” e é a postura deste homem que o trai. Ligeiramente inclinado, com as mãos atrás das costas, segurando talvez a merenda, aguarda com toda a paciência o comboio que o levará, e enquanto espera entretém o olhar nesta complexa tabela de horários e locais. É o olhar português que um estrangeiro dificilmente veria.
Em 1956, Gérard (n.1925), embranha-se na aventura que é a fotografia, mas o Portugal desses anos impediu-o, como o próprio refere, de dar o salto definitivo. “Enfiei assim a Leica no saco”. “Assim se passou uma geração”, conta-nos Gérard na introdução do livro “Perto da Vista”, 1984,
“até que um jovem chamado de António Sena bateu à minha porta e, sem cerimónia, arrombou a dita arca lançando-me, de caminho, nesta serôdia aventura”. A aventura fora a exposição que o jovem Sena organizara em 1982, de 23 das suas fotografias, guardadas na arca há mais de uma geração e que agora viam a luz do dia na galeria que dirigia, a ‘Ether – Vale Tudo Menos Tirar Olhos’. “Aos meus protestos...retorquiu que os anos cinquenta tinham constituído, na história da fotografia portuguesa, um período importante em que um punhado de jovens, as mais das vezes desconhecidos entre si, haviam procurado novos caminhos para uma forma de expressão que a asfixia cultural do Estado Novo tinha reduzido à triste decadência dos academismos de salão”.
Cartáz/Catálogo desdobrável da exposição Gérard Castello-Lopes, na Ether - Vale tudo menos tirar olhos, 1982

A crítica aos academismos de salão será a tónica quer da carta que Gérard escreve a Sena e que este reprodz no cartáz/catálogo quer no ensaio que o próprio Sena escreve nesse mesmo cartáz/catálogo.

A carta datada de 25/X/1982 diz o seguinte: “...Parece adquado escrever algumas linhas sobre o assunto que talvez pudesses pôr à disposição do público, caridoso e temerário bastante para visitar a tua oftalmológica Galeria”. E depois de apresentar as razões que o levaram a expôr escreve sobre os anos de 1950 “O panorama fotográfico português noa anos 50 era assaz diferente do actual. De um lado, uns obreiros suados, vivendo na orla da miséria, que batiam umas chapas destinadas a uma imprensa geralmente meretrícia e má pagadora. Do outro, uns amadores ‘esclarecidos’ e academisantes, rigorosamente defuntos, que mostravam as suas zombices nos ‘salons’ nacionais e outros. A ponte D. Luis no nevoeiro, a criança loira intitulada ‘Ingrid’. O seio alvo mas casto de uma moça paga à hora, a velha orando com uma alta luz na lágrima de arrependimento ou de êxtase, o gaiato sujo mas simpático, o pôr do sol no arvoredo brumarento, eram típicos exemplos da escatológica dieta proposta pela confraria dos ‘salonistas’. Havia excepções como as há sempre, o Mário Novais, por exemplo...” Por seu lado Sena escrevia “...desde o último número do ‘Boletim Photographico’ de Arnaldo Fonseca e Júlio Worm (1910) Portugal viveu uma intensa actividade fotográfica na produção e impressão de imagens. A partir daí tudo se desmoronou ao abrigo da Censura dos Júris de Exposições realizadas com o patrocínio de Bancos, Grandes Empresas e mesmo da Mocidade Portuguesa. Até hoje. E, no entanto, existiam certos fotógrafos que se recusavam a participar nessas exposições correndo o risco de nunca virem a mostrar aquilo que viam de uma certa maneira...”.

Para a geração actual, academismos de salão, é falar de um tempo muito distante, como fazendo parte da história e não mais como preocupação crítica.

Depois da exposição, a vontade de pegar novamente na máquina fotográfica voltou, mas agora queria olhar para as coisas como se as visse pela primeira vez. E é para os lados do Guincho que se dá o verdadeiro milagre, as condições de luz eram perfeitas e as condições do mar eram perfeitas, “tive a sorte de lá estar”, diz Gérard, ao fotografar aquela pedra ao pé do mar


Gérard Castello-Lopes, Portugal, 1988


“consegui fotografar a pedra e o contrário da pedra, isto é, o peso e a ausência de peso. A pedra foi uma espécie de oferta de Deus.”

Seguiram-se exposições, livros, documentários... a Reguengos de Monsaraz, Gérard regressa em 2001, para mostrar as fotografias que aí tirara, quando no verão de 1963 acompanhou João Cutileiro na visita ao irmão, que aí vivia preparando a tese de doutoramento em Antropologia na Universidade de Oxford. Oito anos mais tarde, seis das suas fotografias aparecem publicadas na tese “ A Portuguese Rural Society”. Sobre a exposição de Monsaraz escreverá, “mas o que mais me assombrou foi verificar que, em pouco mais de 24 horas, todas as pessoas que eu fotografara 37 anos antes, estavam identificadas por nome, morada e paradeiro...invadiu-me a saudade dum paraíso onde toda a gente se conhece e se entre-ajuda...”. Quando fui a Monsaraz, à igreja de Santiago onde estava a exposição, uma anciã guardava a igreja e as obras fotográficas. Conversámos, conheci todas as pessoas das fotografias, “este moço” disse-me ela
Gérard Castello-Lopes, Monsaraz, 1963
“ suicidou-se pouco tempo depois...”.

Até ao final deste mês, na Galeria Fernando Santos, em Lisboa e Porto, podem-se ver e comprar as recentes fotografias de Gérard Castello-Lopes, 2004-2006. Demorou muito tempo a render-se às galerias, disse-me quem estava na galeria quando a visitei. Perguntei o preço, é o mesmo para todas, há quem diga que estão caras para um Castello- Lopes, continuou.
Gérard Castello-Lopes, Vittel, 2004

Agora com a idade e com a consequente perda de energia espera que as imagens venham até si, a questão é descobri-la. Mas passados todos estes anos as fotografias de Gérard continuam a preto e branco, com os cinzentos a predominar, os títulos continuam como dantes a ser meramente indicativos de um lugar geográfico e do ano, e a preocupação evidente de composição espacial mantêm-se, mas agora, em lugar das pessoas, são os objectos que ocupam as fotografias.

Quando saí e subia a rua da Emenda uma pequena dúvida atazanou-me durante algum tempo, porque diriam os entendidos que as fotografias eram caras para um Castello-Lopes...

5 comentários:

sem-se-ver disse...

com a sua permissão vou fazer um post com uma chamada de atenção para esta exposição, e este seu post.

por acaso não tem nada de mário novais, a quem castello-lopes se refere como 'um dos jovens dos anos 50'? não conheço...

obrigada

Madalena Lello disse...

olá sem se ver, no post sobre o Insttuto Superior Técnico, IST, tem uma imagem do Mário Novais.
Gosto de saber que gostou, obrigada pela referência.

sem-se-ver disse...

ah sim sim, obg por me ter chamado a atenção. :-)

av disse...

Muito bom conteúdo, parabéns pelo bom gosto do blog. Vai para a minha lista de links, com muita honra.

AV

Madalena Lello disse...

Obrigado av.