domingo, agosto 03, 2008

"Santa Liberdade"

“Salazar caiu há 40 anos”, foi ontem manchete no semanário “Expresso”. No dia 3 de Agosto de 1968, faz hoje precisamente 40 anos, Salazar no terraço do Forte de Santo António do Estoril, sentou-se numa cadeira de lona, que não aguentando o seu peso, tombou para trás. Ao bater com a cabeça no empedrado do terraço, Salazar não mais recuperaria, vindo a falecer, mais tarde, a 27 de Julho de 1970. Era o início do fim de um Estado autoritário.

Acácio Franco, Salazar depois do acidente, Lisboa, 1969

Nos depoimentos que o jornal recolheu junto de antigos Presidentes da República e primeiros-ministros, José Manuel Durão Barroso, ainda no liceu recorda-se assim: “Tenho uma vaga ideia da operação, com os telejornais, a preto e branco, a dar os boletins médicos diários”, mas já do funeral, 1970, tem uma recordação mais precisa: “Lá em casa, assinava-se a revista ‘Paris-Match’, que publicou uma fotografia que me chocou imenso: o caixão nos Jerónimos, rodeado por dois homens, apresentados como o mais baixo e o mais alto do mundo – um anão branco de Angola e um gigante negro de Moçambique. A legenda era qualquer coisa como “a morte macabra do ditador”. Hoje, no seu gabinete em Bruxelas, Barroso tem pendurado numa das paredes esta fotografia que o marcou.
O fotojornalismo revolucionou o mundo, e o século XX, foi sem dúvida, o século das imagens. Não foram as imagens da guerra do Vietname, publicadas nas revistas, que mudaram a opinião dos americanos?

Life, Fotos von Ronald L. Haeberle, 5/12/1969

Não foi esta reportagem fotográfica na Look, “The president and his son”, que tornou John Kennedy ainda mais popular?



Look, 3/12/1963, "The President and his son",fotos, Stanley Tretick

A 4 de Março de 1880, o New York Daily Graphic reproduzia a primeira fotografia num jornal. Com o virar do século, a invenção de novas técnicas de reprodução, nomeadamente a rotogravura, permitiram que a fotografia ocupasse um lugar central nos jornais e revistas. Agora, mesmo os analfabetos, através das fotografias, podiam acompanhar as notícias do mundo. Em 1949, quando o industrial Jean Prouvost, lança a revista ‘Paris-Match’, muitas eram as revistas que já circulavam pelo mundo: Life (1936), Look (1937), Picture Post (1938)… A televisão ainda não invadira os lares, e a revista ilustrada, com os seus foto-ensaios, era o meio privilegiado de informação. Em Lisboa, situada no extremo sudoeste do continente europeu, num país, onde uma grande maioria da população era ainda analfabeta, a profusão de jornais e revistas estrangeiras que se vendiam nos quiosques de Lisboa surpreendem.

Thurston Hopkins, Lisboa, Portugal, 1950's

Escolher entre a Vogue, Harpers Bazaar, Life, Paris-Match…

Detalhe

não é certamente o que provoca o olhar indeciso desta mulher.

Se a guerra mudara a Europa, tornando-a mais moderna, o Portugal de Salazar resistia à mudança. Na falta de oposição interna a única resistência veio dos militares. Em Janeiro de 1961, o General Humberto Delgado, um dos grandes opositores ao regime de Salazar, iria apoiar, o capitão Henrique Galvão, no sequestro do paquete Santa Maria, o primeiro sequestro político de um transatlântico na história contemporânea.

Paris-Match, Janeiro 1961

O Santa Maria ligava os nossos portos aos portos brasileiros, numa linha regular, que transportava para além de carga, milhares de emigrantes. Mas em Janeiro de 1961, o transatlântico foi fretado para realizar uma excursão turística pelas águas do Caribe, onde embarcaram 552 passageiros, na sua maioria americanos. Galvão e mais um grupo de revolucionários, membros da DRIL (Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação), adquiriram vagas para a excursão turística, e na madrugada do dia 22 de Janeiro, o paquete que se dirigia para a Flórida era sequestrado. No plano, o navio deveria dirigir-se a Benguela a fim de ali se juntar à oposição angolana e portuguesa, e proclamar a partir de Angola, um governo democrático no exílio. O plano de rumar a África seria traído, mas a operação mediática contra o regime de Salazar, foi um grande ‘scoop’, que se transformou em assunto de primeira página nos principais jornais do mundo. O ‘Paris-Match’, enviou dois foto jornalistas, que se juntaram ao navio saltando de pára-quedas de um avião.






E na revista, é a história do sequestro através das imagens:














Ao fim de doze dias de negociações, sob um calor tórrido ao largo da costa brasileira, a faixa “Santa Liberdade”, que encobria o verdadeiro nome, era retirada e o paquete rumava a Lisboa, chegando a 17 de Fevereiro ao Cais de Alcântra, novamente com o nome de origem - Santa Maria.

Fototeca do Palácio Foz

Em Portugal, o nº 618 da revista ‘Paris-Match’, com a reportagem: “Santa Maria: L’aventure des derniers corsaires est finie”, era retirado rapidamente de circulação, na mente de Salazar a crítica só era objectiva quando era favorável.

Em 1973, na saída da barra de Lisboa, o Santa Maria sofreu graves avarias. Cancelada a viagem, o transatlântico foi vendido e desmantelado na Formosa.

Hoje, jornais e revistas sofrem com a concorrência feroz da Internet. A generalização da banda larga pulverizou radicalmente os canais de distribuição de informação e a fotografia, através de ferramentas como o Photoshop, deixou de ser garante da verdade. A facilidade de colocar na rede textos, sons e imagens dessacralizou a função dos jornalistas e os blogues alargaram o espectro do debate público. A informação no século XXI alterou-se irremediavelmente. Será que o fotojornalismo conseguirá enfrentar e superar todos estes novos desafios ?

2 comentários:

Ultraperiférico disse...

É preciso dizer como é admirável o trabalho desenvolvido neste blogue, sempre oportuno e rigoroso. Verdadeira ca(u)sa pública.
Parabéns sinceros.
[R.]

Madalena Lello disse...

obrigado