quarta-feira, setembro 26, 2007

Atlas

Para quem vêm da Basílica da Estrela, a Rua dos Navegantes, cujo nome é ainda um resquício do grande porto que já foi Lisboa, é uma rua íngreme que desce em direcção ao rio. No próximo dia 4 de Outubro, no nº16 desta rua, Luis Trindade, o primeiro em Portugal a promover leilões de fotografia, abre ao público uma galeria dedicada exclusivamente à fotografia, p4Photography. Aceitei o desafio que me propôs, um texto para o catálogo de Atlas, a exposição inaugural.

Com a permissão de todos, de Luis Trindade e dos fotógrafos, Carlos Miguel Fernandes, João Mariano e Rui Fonseca, o post de hoje é o texto ilustrado com as fotografias que lhe deram corpo.

Portugal, nação de vocação marítima, foi a primeira verdadeira Potência Marítima da História ao dominar, plenamente, tanto o Oceano Atlântico como o Oceano Índico. Da grandeza do período então iniciado, obrigando o Papa Alexandre VI e os Reis Católicos à divisão do mundo de acordo com os interesses nacionais, Portugal consegue o completo domínio dos mares e, atendendo a que nos situamos no universo, no Atlas do mundo, nome escolhido para a exposição,



talvez importe não esquecer também o ter-se constituído igualmente como a primeira nação europeia a cruzar os distantes mares da Ásia e do Japão. Como não menos significativo o feito de Vasco da Gama que, para além da notável descoberta do caminho marítimo para a Ìndia, por esse mesmo feito, transferiu a centralidade do mar Mediterrâneo para o Atlântico tornando o porto de Lisboa, em deterimento dos portos Adriáticos e de Veneza, no grande porto de entrada da Europa, na verdade, à epoca, no grande porto do Mundo.

Se olharmos a nossa História de quase 900 anos de nação independente, a relação com o mar foi, desde logo, uma das características distintivas das populações que vieram a constituir o que no futuro veio a ser Portugal, relação que hoje ainda se mantém, como João Mariano tão bem exemplifica na fotografia onde mal distinguimos o apanhador de percebes das rochas da nossa orla marítima.
João Mariano

Mas o que importa considerar é que essa característica terá sido decisiva na distinção entre os portugueses, povo marítimo, dos restantes habitantes da Europa, povos essencialmente continentais, salvo, sob determinados aspectos, britânicos e, em parte, os holandeses. A importância do mar para Portugal é uma simples evidência mas, igual evidência, embora grave e estranha, é Portugal ter-se vindo a afastar, ao longo das últimas décadas, progressivamente, do mar. Hoje integramos a Comunidade Económica Europeia e, Portugal, de costas voltadas para o Atlântico, insiste em olhar para a Europa, tentando aí reconquistar um novo lugar no mundo.

Carlos Miguel, João Mariano e Rui Fonseca, numa atitude singular, apontam as lentes das suas máquinas fotográficas para o mar, para o Atlântico, e, de três pontos distintos, Islândia,
Carlos Miguel Fernandes

costa portuguesa e Arquipélago dos Açores,
Rui Fonseca
João Mariano

dão-nos a ver, em Atlas, imagens desse imenso Oceano que é o Atlântico. Todos três recapitulam e reciclam uma nova visão da paisagem marítima, muito longe da visão pitoresca que muitos dos continentais vindos de vários cantos da Europa fizeram da nossa Nazaré.

O céu escuro como o bréu nos Açores, de Rui Fonseca,
Rui Fonseca

as areias das dunas da orla marítima portuguesa, de João Mariano, e o vapor que se liberta das àguas aquecidas do Blue Lagoon, de Carlos Miguel, que prefere o vapor ao azul intenso do mesmo,
Carlos Miguel Fernandes

revelam o perfeito domínio do preto e branco, pois nevoeiro, areia
Rui Fonseca

e vapor de àgua dão-se bem com o grão visível do preto e branco da fotografia.

Porém e acima de tudo, todos os três percebem a riqueza do Atlântico que os portugueses agora ignoram. Mergulhamos nas àguas profundas do oceano onde a riqueza em hidrocarbonetos e minérios vários esperam em silêncio,
João Mariano

no sargaço cheio de iodo, bom para tratamentos medicinais, que o homem de João Mariano transporta à cabeça,
João Mariano

uma dádiva do mar e que os japoneses nos vêm buscar e, finalmente, Carlos Miguel que fotografa os pequenos portos da Islândia, abrigo momentâneo para os que percorrem a grande auto-estrada marítima que é hoje o Atlântico.
Carlos Miguel Fernandes

Hoje, Portugal Continental em conjunto com os arquipélagos da Madeira e dos Açores, dispõe de uma área marítima de cerca de 1.723.000 Km2 sob jurisdição nacional, quase 18 vezes a área de superfície terrestre, por onde passam as mais importantes rotas comerciais que ligam a Europa aos restantes continentes.

Atlas, é a exposição inaugural da nova galeria p4Photography e, Luis Trindade, o fundador, não podia iniciar de melhor maneira, ao expôr o que de melhor está por explorar em Portugal.

1 comentário:

António Bracons disse...

Se a exposição se afigurava interessante, agora é mesmo a não perder. Ver o mar e ver para lá do mar.