sexta-feira, abril 13, 2007

A fotografia na obra de Sol Le Witt

Li num jornal, que Sol Le Witt (1928-2007), um dos fundadores da arte conceptual, faleceu no passado dia 8, “...teria odiado as notícias do dia por haver demasiadas fotografias dele nos jornais”. De facto em “Autobiografia”, obra composta por mais de mil fotografias, Le Witt revela a sua identidade, fotografando obsessivamente detalhes da sua casa e estúdio, não sendo nenhuma delas Le Witt em pessoa.

Sol Le Witt, Autobiografia, 1980

O movimento desperta a atenção. Max Wertheimer, que estudou o movimento concluiu que os estímulos retinianos continuam a persistir já depois deste desapareçer, e ligam-se ao estímulo seguinte, se a distância no tempo não for demasiado grande, formando um fluxo que nos dá a ideia de movimento. Assim a partir deste fenómeno óptico da “persistência da visão na retina” julgamos estar perante um movimento contínuo. Le Witt deixou-se fascinar por este fenómeno, ao ver o livro “Animal Locomotion” de Eadweard Muybridge, deixado em casa de um amigo pelo inquilino anterior. Através de uma técnica sofisticada e utilizando um novo tipo de câmera Muybridge consegue fotografar a corrida de um cavalo com intervalos regulares e precisos, registando assim, fases de um movimento, que para o olho humano seriam difíceis de detectar. Extende depois estes estudos à locomoção humana e ao voo dos pássaros. Em 1887, compilou nos seus onze volumes de “Animal Locomotion” mais de 20 000 fotografias. Se este trabalho facilitou a invenção do cinema, para Le Witt vai ser o modus operandi dos seus trabalhos seriais. Para ele as séries de Muybridge eram também interessantes por nenhuma delas ter um ponto culminante, faziam todas parte de um todo que isoladamente perdiam significado, ou seja perdia-se o seu significado principal, o movimento ímplicito. Como Le Witt referiu, “a corrida de um homem no livro de Muybridge foi a inspiração para todas as transformações de um cubo dentro de um cubo, um quadrado dentro de um quadrado etc..”. O seu trabalho “Variações de cubos abertos incompletos”, são uma série de cubos incompletos que o espectador terá de completar.
Variação de cubos abertos incompletos, 1974
O método de Muybridge, foi como o próprio diz, uma fonte para a sua criação artística. Na sua obra fotográfica, Le Witt utiliza séries sequênciais, por forma a que o espectador chegue à ideia através de uma “persistência de pensamento”. Nunca a Le Witt lhe interessou o vídeo tão em voga na altura, Andy Warhol por exemplo, filmou, utilizando um mesmo ponto fixo durante um dia inteiro, o Empire State Building. Le Witt distância o tempo entre os estímulos de forma a que a ruptura seja visível, filme e vídeo não são séries, condição necessária para que se produza “a persistência de pensamento”.
Um dos seus trabalhos fotográficos que melhor representa esta dinâmica serial é “Parede de Tijolos”. Composta por 30 fotografias, tiradas de uma das janelas da sua casa o ponto de vista é fixo, mas “sempre que olho para a parede ela muda e mantém uma beleza constante, em todos os momentos” diz Le Witt. Se olharmos para um fotografia isolada da série, o significado muda radicalmente, passa a ser uma parede de tijolos dispostos irregularmente. O que interessa a Le Witt, é a estrutura sequêncial do tempo e “Parede de Tijolos” é uma obra sobre o tempo, difícil de percepcionar ao olho humano.
Sol Le Witt, Parede de Tijolos, 1977

“Na arte conceptual, a ideia é o aspecto mais importante do trabalho”. Sol Le Witt ,1967.

2 comentários:

Roteia disse...

Nos últimos dias este "saisdeprata-e-pixels" passou a fazer parte das minhas leituras. Saúdo os sentidos largos da escrita sobre fotografia que caracterizam o blogue - de que é exemplo o texto a propósito de Le Witt. Fazia falta na blogosfera portuguesa.

Ultraperiférico disse...

Verifico que o link do meu comentário acima não vai dar a lado nenhum. Coisas do novo Blogger... Experimento agora através do nome do site.
> Roteia