domingo, abril 01, 2007

Fotografar a Torre Eiffel

Ontem, dia 31 de Março, o jornal Público publicava uma enorme fotografia da Torre Eiffel. Inaugurada a 31 de Março de 1889, o jornal assinalava os 118 anos desta monumental estrutura em ferro projectada pelo engenheiro Gustave Eiffel, para as comemorações do centenário da Revolução francesa. Uma curiosidade, a Torre Eiffel é o monumento mais visitado do mundo e provávelmente o monumento mais fotografado.
No passado mês de Novembro, estreavam nas nossas salas de cinema dois filmes sobre a cidade de Paris. “En Paris” de Christophe Honoré, e “Paris je t’aime” projecto imaginado por Tristan Carné, que convidou 20 cineastas a filmar uma curta-metragem sobre cada um dos vinte bairros de Paris. ”Uma cidade como Paris é fácil cair no bilhete postal...Por exemplo, não queria filmar a Torre Eiffel. Mas depois encontrámos aquele apartamento com vista para a Torre Eiffel...É Hitchcock quem diz que é melhor partir do cliché e chegar a outro sítio do que partir de outro sítio e chegar ao cliché. Decidi ter a Torre Eiffel...” diz Christophe Honoré numa entrevista. Já em “Paris je t’aime”, a última coisa que qualquer dos realizadores queria fazer era um filme do 7º “arrondissement”, local da Torre Eiffel. Foi o último realizador convidado, Sylvain Chomet, a ficar com ele, “ninguém o queria, a Torre Eiffel não é fácil de ser colocada em filme, mas era o que me restava” lamenta Chomet.

Se a Torre Eiffel é difícil de colocar em filme, fotografá-la sem se cair na repetição será ainda mais difícil. Mas na década de 1920, pintores e fotógrafos não tinham as preocupações dos cineastas de hoje, e a Torre Eiffel serviu de fonte de inspiração a todos eles. Esta enorme estrutura de ferro, um elogio à engenharia, era vista como o símbolo da modernidade. Paris na época era o centro de múltiplos movimentos artísticos e os artistas escolhiam-na para aí viverem uma existência fervilhante.
Man Ray, Germaine Krull, André Kertész, Brassai, todos eles na mesma década e todos eles estrangeiros elegem Paris como porto de abrigo.
Nova Iorque não estava preparada para quem queria expressar-se de uma forma tão absurda e irreverente como Man Ray. Uma profunda afinidade une-o a Marcel Duchamp, e é pela mão deste que Man Ray chega a Paris em Julho de 1921.

Man Ray, Torre Eiffel, 1922
Surrealismo e a “magia inquietante do real”, insegurança e fragilidade reflectem um sentimento que se vive na cidade. Á semelhança das imagens surrealistas, a Torre Eiffel de Man Ray é difícil de identificar, e esta imagem indefinida, reflecte a própria realidade do fotógrafo, acabado de chegar á cidade, as suas ambições e futuro como artista são ainda uma incógnita.
A Alemanha, país derrotado na primeira guerra, torna-se no período subsequente numa verdadeira potência industrial, foi a resposta à derrota humilhante. Germaine Krull vê na revolução industrial um benefício para o homem e esta geração de artistas reconciliam-se com o novo mundo das máquinas e com os objectos por ela fabricados. Em 1926, em Paris, deixa-se cativar pela estrutura de ferro da Torre Eiffel.

Germaine Krull, Torre Eiffel, 1928
A editora Calavas publicará no ano seguinte “Métal” um elogio a esta e outras obras de engenharia. Os seus ângulos aproximados e obliquos não nos deixam contudo perceber de que estrutura se trata, pode ser a Torre Eiffel ou outra estrutura metálica qualquer, são os ângulos de influência construtivista.
Deixando a sua Budapeste em 1925, André Kertész um romântico instala-se em Paris. Também ele é seduzido pela Torre Eiffel.

André Kertész, Torre Eiffel, 1929
Nesta fotografia, Kertész revela também um gosto pelos ângulos obliquos dos construtivistas, mas ao contrário destes, em que as experiências geométricas são a única e principal preocupação, Kertész mantêm o seu lado romântico. As sombras de que ele tanto gosta, são projectadas no chão e imprimem um certo mistério à fotografia, o seu lado romântico, mas simultaneamente a fotografia apresenta uma composição geométrica cuidada. O ângulo do relvado e a diagonal pronunciada da rua coincide com as ideias de Theo van Doesburg, que defendia o princípio dos ângulos pronunciados para conseguir composições abstractas dinâmicas. Kertész consegue de forma única juntar duas visões aparentemente tão opostas.
E finalmente o noctívago Brassai, que deixa a sua Hungria por Paris, cidade que nunca mais abandonará.

Brassai, Torre Eiffel, do livro Paris la Nuit, 1930
Brassai gosta da noite e fotografa a cidade quando as sombras invadem todos os recantos. A electricidade era a grande novidade e a cidade deixava de ser iluminada a gás. Se na exposição do centenário da revolução francesa, em 1889, a Torre Eiffel é o expoente máximo das novas estruturas metálicas, na Exposição Universal de 1900 é o palácio da electricidade que é a atracção máxima. Brassai fotografa a Torre Eiffel iluminada a electricidade.

Eugène Atget, que não se considerava artista e que dizia que as suas fotografias eram documentos para artistas, fotografou aquilo que ele pressentiu desaparecer na cidade. A Torre Eiffel que fora construída como uma obra temporária, fora pedido a Eiffel uma estrutura que durasse vinte anos, é hoje a imagem de marca da cidade.
Atget nunca fotografou a Torre Eiffel.

3 comentários:

Rui Luís Lima disse...

em Paris (a nossa cidade favorita)ficámos seduzidos pela Torrre Eiffel, fotografias das diversas fases de construção moram na nossa sala... aqui deixamos outro filme sobre Paris, mais antigo, o "Paris vu par"...maravilhoso
uma boa Páscoa e bons filmes
paula e rui lima

alexandre mendes disse...

Existe um texto muito bom de Roland Barthes sobre a Torre Eiffel e a sua relação com Paris

pode ser encontrado no livro - Re-thinking Architecture de Neil Leach

Raquel Moreira disse...

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