sexta-feira, abril 06, 2007

Finisterra. Paisagem e Povoamento

Um comentário que merece um post.
Há coisa de dois dias voltei ao post, Passados Cem anos, (19/03) para acrescentar em nota que as fotografias do albúm de Possidónio da Silva eram em papel salgado e que o método de impressão de Arquitectura Popular em Portugal foi a rotogravura. Reparei então que tinha um comentário, escrito certamente alguns dias depois de o ter postado. Alguém que não se quis identificar, escreveu o seguinte: “...para quem cresceu nas terras do “Finisterra” de Carlos de Oliveira, não me é difícil perceber que a fotografia das casas de madeira e redes de pesca não pode ser da Nazaré mas sim do litoral mais a norte, talvez a praia da Tocha...”.
Espanta nos dias de hoje, alguém com este poder de observação. A fotografia que postei das casas de madeira e redes de pesca, ocupam práticamente toda a imagem.

Qualquer referencia para uma possível localização geográfica é difícil. Quem escreveu o comentário refere que cresceu nas terras do “Finisterra” e está à vontade em dizer que essas casas pertencem à região onde cresceu e não à Nazaré, um pouco mais a Sul. É bastante mais provável que ele esteja certo e que os arquitectos que foram à costa de prata e fizeram o levantamento dessa região se tenham enganado quando referênciaram esta fotografia como sendo da Nazaré. A fotografia, ofereceu-nos pelo comentário referido, um modo singular de observar a cultura da região da Gândara.
E agora vamos a “Finisterra. Paisagem e Povoamento”, o último livro escrito por Carlos de Oliveira e que o anónimo utiliza para se referir à região onde cresceu. Carlos de Oliveira cresceu na região da Gândara, região que engloba Cantanhede, Mira, Figueira da Foz e Montemor-o-Velho. Os espaços, e a atmosfera desse litoral instável com as dunas prontas a mover-se bastando um golpe de vento, é o motivo inspirador da narrativa poética e ficcional de Carlos de Oliveira. Finisterra: uma fotografia escrita, foi como o grupo da galeria Ether o viu, e durante meses pensou montar em exposição. O livro foi lido e relido com esse intuito, já lá vão quase 25 anos. Voltei agora a ler Finisterra, e lá estava na mesma a criança sentada no osso de baleia, com o caderno em cima dos joelhos, a desenhar a paisagem que vê e imagina, “obsessão da família que também tentou reproduzir a paisagem”. A narrativa é uma escrita fotográfica: a despensa da casa que se transforma em câmara escura, a mesa de pinho com as marcas das tinas e ácidos que morderam também as fibras exteriores da madeira, o pai da criança que ao olhar para o desenho do filho levanta-se e examina também a ampliação fotográfica suspensa na parede (perto de janela) que reproduz essa mesma paisagem, o confronto sempre que lhe apeteçe da fotografia com a realidade exterior a horas certas, sob a luz quase igual, o compêndio de fotografia que diz que a imagem apresenta um ordenamento inverso do real mas que capta os elementos essenciais mas mesmo ordenada ao contrário, a imagem repete areia, gramíneas, céu, lagoa, nuvens. ..."Mas enfim. Quando lavro a fogo, na carneira duma almofada, a paisagem que as lentes fotografam (areia, gramíneas, lagoa, céu e nuvens), não espero que a minha imaginação se desprenda da paisagem. Espero (talvez) um estímulo de fora. Nas relações sujeito-objecto, o sujeito faz parte da realidade e sem ele (que sente as coisas) nada teria sentido".

Eu espero (talvez) que o anónimo regresse...

7 comentários:

com.tudo disse...

não, não sou o seu anónimo :-)

talvez ele apareça!

mas não resisto a 3 pequenos comentários:

1., para reafirmar o óbvio e conhecido, que Finisterra é um dos maiores romances do séc XX português: fico sempre satisfeita quando o referem.
2., e para tentar polemizar um pouco consigo, que os palheiros da Tocha são tão.. enfim, não diria únicos, mas especiais, que porventura dispensam maior localização geográfica que a ocupada por eles mesmos para que se possam identificar.
3., «Nas relações sujeito-objecto, o sujeito faz parte da realidade e sem ele (que sente as coisas) nada teria sentido»: quanto ao final da frase, inteiramente de acordo; quanto ao seu meio não estou tão certa - que o sujeito faça parte da realidade; a realidade escapa-lhe sempre, parece-me. Por isso a tenta capturar; e ao capturá-la, fá-la (constrói-a), como a Madalena tão inteligentemente tem desenvolvido nos seus posts (um só como exemplo, o da Torre Eiffel).
Sei que citava (não equivale a que seja a sua opinião, portanto), mas gosto de pensar a partir do que escreve. :-)

um bom domingo do Páscoa para si.

outro blog disse...

claro que são os palheiros da TOCHA.

Que sempre cumpriram a sua função:serviam de arrumos dos apetrechos da pesca ou de armazéns de salga, embora de reduzida expressão, e de habitação temporária dos pescadores que residiam neste povoado durante o período da safra (Abril a Outubro).

Fernando Galhano e Ernesto Veiga de Oliveira referiam em 1964, a esse propósito, que era «o carácter palafítico na sua pureza integral que conferia a este aglomerado o aspecto original.» (Palheiros do Litoral Central Português).

E claro um Bom Domingo de Páscoa

Anónimo disse...

boa "outro blog" fico impressionado.

outro blog disse...

lolll...não fique anonimo pq foi um copy paste...mas adoro a Tocha e aqueles Palheiros ainda mais agoora todos restaurados


Desculpe Madalena responder por aqui, mas pareceu o sitio indicado

:)))

Madalena Lello disse...

Os palheiros são da Tocha, não há dúvida...mas não deixa de ser interessante a observação do anónimo, significa que está atento ás fotografias que são postadas.
No livro Finisterra O desenho da criança escapa à realidade, ele desenha, para além das dunas ,lagoa, gramíneas também o que não está na paisagem, e desenha os peregrinos com as línguas de fogo. Também ele constrói uma nova paisagem.
Boa páscoa também.

Anónimo disse...

Acompanhei com um enorme entusiasmo a actividade da Ether nos anos 80 (então,jovem estudante). Por isso, talvez a minha referência ao Finisterra não tenha sido completamente inocente. Boa Páscoa.

Anónimo disse...

Antes de mais, os meus parabéns pelo blog.
Depois... bem, depois, não resisto a comentar e, também, a especular um pouco. Talvez para semear a dúvida...
Na minha opinião, o palheiro da fotografia tanto poderá ser da Praia da Tocha como da Praia de Mira.
É verdade que, hoje, eles são bem mais evidentes na Tocha, mas há trinta, quarenta ano atrás não era tanto assim: recordo-me da minha infância na P. de Mira e dos seus Palheiros... Recordo-me das alfaias da arte espalhadas pelo areal e das juntas de bois a puchar as redes... e parece-me ainda ouvir "aaaaah... toca-me esse boi, rapaz... 'bora!"
Saudades!
Um segundo comentário: Carlos de Oliveira viveu, de facto, a sua infância em Febres, Concelho de Cantanhede, onde o seu pai exerceu a profissão de médico depois de regressar do Brasil.
Ora, a Praia da Tocha não é, nem foi, a praia das gentes da freguesia de Febres. Foi sempre a Praia de Mira; aliás, ainda hoje, as gentes da antiga freguesia de Febres (maior do que a actual em territorio administrativo) mantêm casas de veraneio, onde antes possuiam palheiros.
Por outro lado, as referências, sobretudo, à lagoa, parecem-me claras referências à Barrinha da Praia de Mira - lago de água doce a pouco mais de cem metros do mar...
Bem hajam e, se não são destas paragens, visitem as terras gandarezas