quarta-feira, janeiro 28, 2009

Davos 2009

Em Davos, no pico dos Alpes suíços, começou mais um Fórum Mundial de Economia. Klaus Schwab, o fundador do Fórum, (1971), já veio dizer, que a actual crise económica “is the biggest since Davos began” e as habituais estrelas de Wall Street, que por esta altura subiam à montanha mágica, celebrizada na novela de Thomas Mann, já não constam na lista de convidados. No Belvedere Hotel, alguns clientes habituais, como o ex-CEO da Merrill Lynch, John Thain, que na semana passada perdeu o seu emprego no Bank of America, já não estarão presentes. Para Schwab, os políticos tomam agora o lugar dos investidores privados - “the pendulum has swung and power has moved back to governments” - e Gordon Brown, o primeiro ministro inglês, já é visto como o “Davos Man” de 2009. Na agenda, “Shaping the Post-Crisis World”, irá entreter os políticos convidados.

Em 2004, Luc Delahaye, fotografava em Davos, no Belvedere Hotel, este almoço informal oferecido pelo Presidente Musharraf.


Luc Delahaye, A Lunch at the Belvedere, 2004, 135 x 290 cm

Nesta mesa comprida, bem ao centro, o inevitável George Soros - o único sem gravata -olha para baixo, para a toalha branca.


Detalhe

Á sua direita, o anfitrião, Pervez Musharraf, parece um pouco tenso ou talvez até irritado, olhe-se para as suas mãos. Na mesa, os menus ainda de pé e os copos de água, com o líquido ao mesmo nível, indicam que o almoço está no início. Conversam dois a dois, no máximo três, pois o formato da mesa não permite outra forma de diálogo. “Vamos pensar no que poderia ter acontecido se esses executivos tivessem interagido, falado com pessoas que vivem em mundos distintos do seu…provavelmente teriam tomado decisões muito diferentes e optado por uma liderança também ela diferente”, escreve Hal Gregerson, professor no Insead, no seu livro mais recente sobre a crise actual.
Mas será, que mesmo entre eles se ouvem? Será que Soros está a ouvir o que diz Musharraf? Não estará ele antes absorvido nos investimentos do seu hedge fund? “Quando a crise surgiu, em Agosto de 2007, considerei a situação tão grave que não me senti à vontade para deixar a gestão da minha fortuna nas mãos de outros”, lemos no seu livro.
Este ano, no Belvedere Hotel, o caviar já não consta no menu, e os champanhes Dom Pérignon e Krug são substituídos por simples vinhos brancos, a crise também chegou à montanha.

No ano passado Davos encheu-se de banqueiros e de gurus de Wall Street. O sistema financeiro dava sinais de ruptura, mas nada melhor do que o ar puro da montanha para os inspirar. No final do encontro, regressavam descansados, seja o que for que tivessem feito de errado, sabiam que as instituições que geriam eram “too big to fail” - os Bancos Centrais salvá-los-iam injectando dinheiro suficiente para os livrar dos problemas. Mas será que algum previu, que passado um ano, o seu nome seria riscado da lista de Schwab?

Em Março, poucas semanas depois do encontro, o Banco Bear Stearns era vendido simbolicamente por um dólar. Ralph Cioffi, um dos gurus de Wall Street, que geria dois dos seus fundos que investiam basicamente em títulos garantidos por obrigações, percebia que os activos em carteira não tinham comprador, os milhares de milhões sob gestão, afinal nada valiam, e a primeira peça do dominó caía.

Em Hong Kong, Andreas Gursky fotografou a Bolsa de Valores.


Andreas Gursky, Hong Hong Stock Exchange, Diptych, 1994, 191 x 263.5cm


Andreas Gursky, Hong Hong Stock Exchange, Diptych, 1994, 191 x 263.5cm

Será que as transacções destes brokers têm valor real? E a sala, será real ou terá sido manipulada no Photoshop?

Se olharmos para esta terceira imagem,


Andreas Gursky, Hong Hong Stock Exchange, 1994, 205 x 315cm

percebemos que afinal fomos enganados, as filas de brokers duplicados no díptico, parecem reais - a manipulação foi perfeita.

Impõem-se perguntar como é que aqui chegámos? Como fizeram os banqueiros, negócios de biliões de dólares, com hipotecas residenciais?

O segredo, uma manipulação perfeita que escapou a todos. Os Bancos, em vez de fazerem o que deveriam fazer, manterem na sua contabilidade os empréstimos e similares, empacotaram-nos e embalaram-nos como obrigações de empréstimos com garantia, (titularização ou securitização), e venderam-nos aos fundos de pensões e a outros investidores. Num instante o negócio alastrou-se no sistema de crédito de todo o mundo. Sem contabilização, os Bancos podiam continuar a cobrar comissões elevadas quase sem comprometerem o seu capital. Só quando a bolha de crédito explodiu, percebemos que fomos todos enganados.

Luc Delahaye, fotógrafo da Magnum desde 1994, e à semelhança de Robert Capa, um dos fundadores da agência, fotografou, durante mais de quinze anos, do Ruanda à Bósnia, os conflitos mundiais do seu tempo. Frustrado com a utilização das suas fotografias pela imprensa – meramente para a ilustração de textos - deixa a Magnum, (2004), facto inédito na história da agência, para se consagrar unicamente ao seu projecto pessoal. À semelhança de Gursky, para além da escolha do grande formato, que lhe permite, como refere “conserver ce qui est hors-champ dans la presse: ce que l’on voit sur les côtés et qui permet justement de comprendre la scène, de montrer une realité dans sa complexité, alors que le photojornalisme privilegie le fragment”, a manipulação, é também o seu segredo para revelar o mundo, que de outra maneira se tornaria invisível.

No século XIX, Davos, tornou-se um destino para os que procuravam tratamento para as doenças pulmonares, Thomas Mann foi um deles e a montanha inspirou-o. No século XXI, Davos, tornou-se o destino dos que procuram tratamento para a doença que criaram - a crise económica mundial.
O homem comum, o homem normal, o contribuinte que no final paga as contas, espera para ver se a montanha os inspira.

1 comentário:

Miguel Coelho disse...

Belíssimo post, Madalena...

Obrigado!