quinta-feira, agosto 02, 2007

Michelangelo Antonioni

De Ingmar Bergman sigo para Michelangelo Antonioni, e não perciso explicar porquê, os últimos dias deste Julho que acabou de passar vão marcar a história do cinema.

Em Março, foi a vez de “Blow-Up, a história de um fotógrafo”, 1966. É a história de um fotógrafo sem ser a sua história, pouco sabemos da vida do fotógrafo, nem mesmo o seu nome.Antonioni em “Blow-Up” desmaterializa a fotografia, e de ampliação em ampliação, transforma a fotografia em pintura abstracta, “o objecto propriamente dito decompõem-se e desaparece” dirá Antonioni. O actor David Hemmings, o fotógrafo sem nome, tenta a narração com as sucessivas ampliações que pendura lado a lado no seu estúdio. Mas a fotografia por si só não representa a verdade, é necessário um testemunho, mas o amigo de Hemmings está demasiado bêbado para ir ao parque servir de testemunha, e a fotografia perde o sentido fora do contexto. Cabe a cada um de nós, espectadores de “Blow-Up”, querer ou não entrar no jogo (de ténis sem bola) de Antonioni. Para o mestre do cinema a fotografia é pessoal e subjectiva, “há um momento em que agarramos a realidade, mas o momento passa”.

Há anos que não tenho vontade de fotografar. No início de Março, atravessei de carro a região da Andaluzia. O Inverno estava a terminar, mas as temperaturas anunciavam o Verão, o calor inesperado e intenso, era o pronúncio de que a Primavera está a desaparecer. Quem sai da via rápida, percorre poucos quilómetros até chegar às aldeias que vemos no horizonte. Aqui é a solidão, para fugir ao calor as pessoas refugiam-se em casa, as persianas fecham-se e com um tempo quente somos contagiados pela lentidão. Devo a Micheangelo Antonioni a vontade em fotografar a região da Andaluzia.

Madalena Lello, Andaluzia, Março 2007

Vira uns meses antes, no cinema Nimas, o filme “Profissão Repórter” 1975. Jack Nicholson, faz de David Locke, um repórter de profissão que viaja para o Norte de África para mais um documentário. Com a morte de David Robertson, um traficante de armas, com quem se cruza no hotel onde está hospedado, Locke vê a oportunidade de mudar a sua identidade, quer fugir à profissão e família e acaba, a fugir de tudo e de todos na região da Andaluzia. É no Hotel de la Glória,


Fotogramas do filme, "Profissão Repóter"

numa aldeia perdida, que Antonioni filma a cena final. No quarto, David Locke, no papel de Robertson já está enclausurado quando abre a janela.


Fotogramas do filme "Profissão: Repórter"

Deita-se na cama e espera, e a espera é longa, pois segue-se uma das cenas mais longas do filme, a câmara de filmar de Antonioni fixa a janela, e muito lentamente, demorando quatro minutos, aproxima-se das grades.











Fotogramas dos filme "Profissão Repórter"

As grades desaparecem quando chega o carro da polícia.

Fotograma do filme "Profissão: Repórter"

Deixamos de saber onde está a câmara de filmar, ainda no quarto? ou já no terreiro?. Depois começa a rodagem em 180º,


Fotograma do filme "Profissão: Repórter"

e agora do exterior a câmara fixa o quarto de Locke.

Fotograma do filme "Profissão:Repórter"

É a cena final, a mais bela e longa do filme.
“O hábito de filmar cenas longas nasceu espontaneamente no primeiro dia de filmagens de “Escândalo de Amor”, revela Antonioni.

O que é que tem essa janela de especial, perguntaram-me quando tirei a fotografia.

4 comentários:

sem-se-ver disse...

se desejar, pode ver esta cena final em plano-sequência, tão belissimamente ilustrada por si, aqui.

gostei muito deste post.

Madalena Lello disse...

Talvez por falta de tempo é raro ver o que tem o You Tube.
Muito obrigado por fazer o link

João Leal disse...

Olá Madalena,
Antes de mais, obrigado pelos bons momentos de leitura. Queria fazer-te uma pergunta. O hotel do "Profissão: Repórter" fica em Osuna, a leste de Sevilha? Encontra-se facilmente?
Obrigado desde já pela atenção...
João Leal

Madalena Lello disse...

Olá João, infelizmente não vou poder ajudar, a fotografia que aqui mostro é tirada perto de Sevilha, mas não é o Hotel de la Glória do filme em Osuna, não lhe sei mesmo dizer se é fácil de encontrar...