sábado, junho 16, 2007

D. Carlos e o regicídio

Rui Ramos, historiador e investigador, é o autor de D. Carlos, livro recentemente editado pelo Círculo de Leitores.
“Em 1906, D. Carlos apostou em João Franco, um político que já tinha sido seu ministro várias vezes, para reequilibrar o sistema político e financeiro da monarquia constitucional. Imaginou certamente que podia inaugurar uma era de estabilidade e prosperidade, em que fosse possível proceder à transformação tranquila do país, segundo os padrões do liberalismo, (...). Em 1907, quando a restante elite política o tentou obrigar a demitir Franco, resistiu. Era o que se esperava da sua reputação de coragem”.

Joshua Benoliel, O presidente do conselho João Franco a chegar a Coimbra, na histórica jornado do Porto, Junho de 1907

“Mas o rei não contou certamente que os seus inimigos fossem tão longe, como acabaram por ir na tarde de 1 de Fevereiro de 1908, quando na companhia da rainha e dos príncipes, começou a travaessia do Terreiro do Paço numa carruagem aberta, e sem escolta.(...) o caminho da reforma acabou por ser afinal o caminho da perdição”, (...) e seria a maneira da sua morte, mais do que a sua vida, que o tornou memorável”.
Como historiador e investigador, Ramos pretende repor a verdadeira história desse reinado e ressaltar a importância da monarquia constitucional de D. Carlos, como ele refere “nada como uma tragédia para afunilar a memória e a história”. “Neste livro, não vou tentar fazer uma aproximação intimista ao indivíduo, mas uma análise política do rei, (...) analisar as suas decisões em contexto. A interpretação de D.Carlos apresentada neste livro assenta numa reflexão sobre a cultura política do liberalismo português...”.
Não há registo fotográfico do momento quando o landau, a carruagem aberta onde seguia a família real, foi alvo do tiroteio. Joshua Benoliel, (1873-1932) o repórter fotográfico, registou o antes, a espera de D. Manuel, que regressara mais cedo a Lisboa e aguardava no cais fluvial do Terreiro do Paço os seus pais que chegavam no barco a vapor vindo do Barreiro.
Joshua Benoliel, infante D. Manuel aguarda no cais, 1 Fevereiro 1908
Illustração Portugueza, 10 Fevereiro, 1908, A cem metros do Thrôno, A cem passos da morte.
O que se passou naquela tarde, foi objecto de variadíssimos relatos na imprensa da época e memórias posteriores, mas não há dois exactamente iguais, revela Rui Ramos. Nem mesmo os depoimentos da rainha e do infante coincidem. Na plataforma central, junto à estátua de D.José um “homem de barba preta” disparou um tiro de carabina, logo outro homem, saindo das arcadas do Ministério da Fazenda, correu para a carruagem e dependorando-se no estribo, disparou também sobre o rei.
Ambos foram abatidos no local pela polícia, e fácil foi a sua identificação. O “homem da barba preta” chamava-se Manuel dos Reis da Silva Buíça,
Joshua Benoliel, Manuel Buíça, Fevereiro 1908
Illustração Portugueza, O attentado, 10 Fevereiro, 1908
L'Illustration, 8 Février, 1908,( capa).
o do estribo chamava-se Alfredo Luis da Costa. Mas o apuramento da responsabilidade pelo regicídio “é um terreno minado por falsas pistas, fantasias e lendas, em que ninguém resistiu à tentação de inventar...”, escreve Rui Ramos. A imprensa com o que ouvira desenhou o atentado,
Alberto Souza, Fevereiro 1908
Simon, Fevereiro, 1908
outros jornais fizeram fotomontagens, de desenhos e fotografias do Terreiro do Paço.
Reconstituição fotográfica do Regicídio, autor desconhecido, ABC, 3 Febrero 1908
O jornal L’Illustration destacou o acontecimento, não esqueçamos que D. Amélia era a filha mais velha do Conde de Paris .
L'Illustration, 8 Février, 1908, Fotografias de Joshua Benoliel

“Mas nem o governo nem os seus orgãos na imprensa acusaram ninguém – a não ser, vagamente, “exaltados anarquistas”, como o fez num primeiro momento o redactor do Jornal da Noite, ainda sem saber pormenores do caso”. Dias mais tarde a Illustração Portuguesa, revista do jornal O Século, mostrava as seguintes imagens: Orfandade, os filhos de Manuel Buíça, e o Exílio de João Franco.
Illustração Portugueza, 17 Fevereiro, 1908, Fotografias de Joshua Benoliel
Joshua Benoliel, Fevereiro, 1908

“Depois de embalsamados os corpos, descobriu-se que a urna encomendada para o rei era demasiado pequena. Houve que esperar que se fizessem outra”. R. Ramos.
Joshua Benoliel, Fevereiro, 1908, Construção da urna de D. Carlos

“Os tiros de que ficaram marcas na carruagem indicam que o príncipe real e o infante foram alvejados repetidamente”. R.Ramos
Joshua Benoliel, O landau do regicídio, vêem-se os furos das balas, Fevereiro, 1908

À medida que a notícia se espalhou, a cidade esvaziou-se. Luis Teixeira de Sampaio, da Direcção política do Ministério dos Negócios Estrangeiros, no lado oriental da praça seguiu tudo de longe. Chegou a casa ao mesmo tempo da irmã “que lhe contou que tinha estado na Baixa, às compras, até um conhecido lhe ter recomendado que voltasse imediatamente para casa”.R.Ramos

Joshua Benoliel foi o fotógrafo desse tempo, fotografou a viragem do século, desde a Monarquia Constitucional à República e as suas fotografias, largamente reproduzidas na Illustração Portuguesa,
asseguram um lugar pioneiro na prática e desenvolvimento do fotojornalismo. Para além dos acontecimentos políticos, Benoliel foi também um curioso documentarista de costumes e personagens urbanos.

Benoliel não estava lá nessa tarde do dia 1 de Fevereiro de 1908, a fotografar as senhoras às compras na Baixa Lisboeta, mas deixou-nos informação suficiente para reconstituir-mos hoje a sociedade dessa época.
Illustração Portugueza, 1912, fotografias de Joshua Benoliel

2 comentários:

Anónimo disse...

excelente...muito bem feita a associação de imagens com texto
e está muito completo em informação

Rui Monteiro disse...

Excelente artigo seu, tomei a liberdade de edita-lo no Causa M onárqica, site associado do Instituto de Democracia Portuguesa.