segunda-feira, junho 11, 2007

As cidades e os fotógrafos

A Trienal de Arquitectura de Lisboa, tem espalhada pela cidade várias exposições. Há dias na conferência internacional, o tema, “Espaço público e cívico das cidades está morto!”, foi abordado por alguns arquitectos convidados.
Desde os primórdios da fotografia, que cidades e os seus transeuntes é tema que alicia os fotógrafos. E porque não olharmos para os espaços públicos das cidades através das lentes dos fotógrafos?

Boulevard du Temple, é uma das primeiras fotografias, neste caso daguérriotipo, sobre uma rua de Paris.

Louis Jacques Mandé Daguerre, Boulevard du temple, Paris, c. 1838
Tirada provávelmente de uma janela de um prédio, os longos tempos de exposição exigidos, deixaram só o engraxador e o dono dos sapatos. Anunciada a invenção de Daguerre em 1839, o que mais encantou a quem noticiou a invenção foram os detalhes de elevadíssima nitidez destas chapas polidas. No Boston Mercantile Journal, de 24 de Fevereiro desse ano, lê-se “(...) we distinguish the smallest details, we count the stones of the pavement, we see the moisture produced by rain, we read the sign of a shop…”

Depois de dez anos pela Europa, e de se interessar pela técnica fotográfica, Alfred Stieglitz regressa a Nova Iorque em 1890. “Winter – Fifth Avenue”,

Alfred Stieglitz, Winter on Fifth Avenue, New York, 1893, Fotogravura.

representa a sua própria experiência quando regressa à cidade. Stieglitz sentia-se sózinho no seu país, ninguém igualava a fotografia que vira na Europa, e esta carrugem ainda puxada a cavalos, num esforço contra o vento e a neve, simbolizava, como anos mais tarde referiu, o seu esforço pessoal na luta por mostrar a melhor fotografia. Esforço foi também tirar esta fotografia, à coca durante horas sob esta intempérie esperou pelo momento certo. Em toda a obra de Stieglitz ressoam as suas experiências e sentimentos.

Tão diferente de Jacob Riis, que na mesma altura, 1890, e também em Nova Iorque, publicava “How the Other half lives”.

Jacob A. Riis, Bandit's Roost, New York, 1888

Era a realidade fotográfica ao serviço dos desfavorecidos.

Anos mais tarde Paul Strand fotografou Nova Iorque como Stieglitz não conseguira. Em 1915, depois de fotografar Niagara Falls e o Grand Canyon, Strand regressa às ruas de Nova Iorque. Depois da imensa natureza a cidade é sinistra. Tirada com distância e de um ponto de vista elevado Strand faz Wall Street.

Paul Strand, Wall Street, New York, 1915

Em contraste com as enormes janelas do banco Morgan em Wall Street, os peões não são mais que minúsculos pontos negros. O que Stieglitz dirá de Nova Iorque “is like a some giant machine, soulless, and without a trace of heart” aplica-se a Wall Street.

Na Europa, o pictorialismo ainda persiste quando László Moholy-Nagy o grande defensor da máquina fotográfica como o verdadeiro instrumento da percepção, personifica o movimento, a Nova Visão. A nova estética não se restringia ao grafismo, com a utilização das diagonais e de pontos de vista inusuais, a fotografia, para Moholy-Nagy, traduzia sobretudo a experiência concreta da visão em movimento.

L. Moholy-Nagy, 7 AM, New Year's Morning, 1930

O ponto de vista único da perspectiva renascentista já não serve para o novo fotógrafo, homem de acção e movimento. Uma nova visão assente na dinâmica é a adequada ao homem moderno que vive na cidade.

Werner Graff acompanha as ideias de Moholy-Nagy e edita “Es Kommt der Neue Fotograf!” para a célebre exposição “Film und Foto” em Estugarda, 1929.

Trinta anos depois, este peão captado em Milão, por Carlos Afonso Dias, parece continuar a caminhada do homem moderno que vive nas cidades.

Carlos Afonso Dias, Itália Milão, 1958

Sena da Silva do 2º andar do prédio, onde na loja do mesmo em 1982 abria a galeria Ether, fotografa dois peões que correm para se refugiar da chuva.

Sena da Silva, S/T, Lisboa 1956/57
Nem carros nem eléctricos, que nos anos 50 ainda passavam nestes trilhos da Rua Rodrigo da Fonseca. Em 1987 esta imagem servirá de cartaz para a retrospectiva que a Ether organizou a Sena da Silva, “Fotografias, 1956/57”.

Bem pior estão estes peões que também debaixo de chuva não correm por onde querem, seguem a seta e a aguardam a vez na fila,

André Kertész, Rainy day Tokyo, 1968, 24,7 x 13,7 cm

estamos em Tóquio e não em Lisboa, os japoneses gostam de ordem e esperam em filas.

As ideias de Moholy-Nagy não se esgotam meio século depois. David Hockney, dirá que o olhar em movimento significa vida, o contrário é a morte. Mas Hockney vai mais longe, nesta praça de Paris,

David Hockney, Place Furstenberg, Paris, 1985, Photographic Collage, 88,9 x 80 cm
fotografa multiplos ângulos e através desta laboriosa composição de fotografias sobrepostas elimina o ponto de vista único renascentista e fotográfico, Hockney tem consciência da distorsão fotográfica e elimina-a ao criar múltiplas perspectivas.

Já no novo século, Beat Streuli, gosta de fotografar os peões das grandes cidades. A preocupação é agora a globalização, Bruxelas, Tokyo, Nova Iorque...olhar para os rostos destes anónimos não nos revela a cidade.

Beat Streuli, Fort de France, 2002, 150 x 200 cm

Beat Streuli, Bruxelles 2005/2006, 180 x 240 cm

Como refere Dominique Baqué, “Beat Streuli não nos propõe ruas, mas eixos de circulação; não nos propõe peões mas gente cujas actividades esteriotipadas somos capazes de adivinhar”.
E é na rua, que Streuli gosta de expor as suas fotografias. À semelhança dos placards publicitários as suas imagens ocupam o lugar da publicidade.

Nos museus ou galerias, prefere as janelas que dão para a rua. Em 2002, o Palais de Tokyo aproveitou as suas grandes janelas, semelhantes ás janelas do Banco Morgan da fotografia de Strand, para fazer uma instalação com os seus peões anónimos.

Ao cair da noite quer na rua como no interior, as imagens pareciam regressar à vida, era a hora do dia que se viam melhor, e na rua esses enormes peões de todo o mundo pareciam regressar a casa.
E daqui por uma década, será que o espaço público e cívico das cidades estará morto ou os arquitectos procurando evitar o isolamento dos habitantes conseguem reabilitar o que está quase moribundo?

2 comentários:

Antonio Bracons disse...

Muito interessante este passeio pela cidade (qual cidade?, múltiplas cidades em diferentes tempos, no fundo, podiam ser uma qualquer cidade, hoje). E sempre a presença humana nestas fotografias, lembrando que a cidade é para o homem - ou que o homem é para a cidade - ele é que a faz, é que a habita... a cidade era no início de 1900 nos Estados Unidos da América a suprema conquista do homem: a imponência da cidade era a capacidade do homem construir - como mostra Paul Strand. E, no fundo todos os outros, ao tornar os homens e mulheres seres pequeninos que correm - ou simplesmente passam - pela cidade - como os peões anónimos de Beat Streuli. E, por contraste, a busca individualizada na cidade, com nome, identificação, de Lorca diCorcia.
Diferentes formas de ver e sentir a cidade.
Gostei do teu passeio. Mas podia ser um pouco mais longo...

Bjs

Madalena Lello disse...

Olá António, não me importáva de continuar a passear pelas cidades, depois de Tokyo, Berlim, Lisboa, Milão, Bruxellas, Paris, Nova Iorque,...podia efectivamente continuar com o Rio de Janeiro e por aí fora, mas como qq viagem tudo tem um fim, ficará para a próxima outras cidades...