sexta-feira, março 20, 2009

No limiar das diferenças

Em 1948, no livro “Notes towards the definition of culture”, T.S. Eliot, descrevia assim a cultura inglesa:
“(…) o dia de Derby, a regata de Henley, o 12 de Agosto, uma final de taça, as corridas de cães, o jogo dos dardos, o queijo de Wensleydale, caldo verde cortado aos bocadinhos, igrejas góticas do século XIX e a música de Elgar”.
À semelhança do filme “Spare Time”, 1939, do cineasta Humphrey Jennings, que agora se pode ver no CCB, na exposição “Arquivo Universal”, de que falámos no post anterior e que este continua,



Eliot descrevia a cultura inglesa, como um todo de vida, a “way of life”, que incorpora todas as actividades e interesses característicos de um povo - no sentido dos indivíduos ou das pessoas -












que, segundo o narrador do filme, são mais visíveis nos usos que fazem do seu tempo livre: “uma oportunidade de sermos nós próprios, uma oportunidade de fazermos o que queremos”, que ouvimos ao longo do documentário.

Ao lado, Humphrey Spender, que entre 1937-38, a pedido de Tom Harrisson, um dos fundadores do projecto "Mass Observation", projecto para o qual Jennings também colaborou, fotografou os ingleses no seu dia a dia: na igreja, na rua, no pub, a tomar chá, nas compras, as campanhas para as eleições parlamentares…











enfim, o retrato dos modos de vida tradicionais, que os ingleses herdaram dos seus antepassados, e que, como vemos no filme e nas fotografias, os legam aos seus descendentes,

num diálogo espontâneo entre gerações. Modos de vida, que, embora gradualmente adaptados e ajustados às novas circunstâncias, expressam contudo uma liberdade, visível neste pluralismo das associações intermédias, independentes de qualquer acção governativa - igreja, associações desportivas, vida familiar, e tantas outras associações voluntárias, - opõem-se, como vimos no post anterior, aos modelos abstractos de perfeição, de poder único, que a Europa continental viria a adoptar com Hitler, Mussolini, Lenine, Estaline e em certa medida Franco e Salazar. Ao contrário de Churchill, que na tradição de um governo limitado, marcante na cultura política anglo-americana, foi intérprete, como muitos o denominaram, do espírito inglês, percebeu o fanatismo desses homens, do poder único e ilimitado dos seus governos, que interferem, mudam e inovam, em vez de simplesmente garantirem os modos de vida variados, onde os indivíduos ou pessoas, como revela o projecto “Mass Observation”, se sentem mais confortáveis.

E agora é altura de regressarmos à questão deixada no último post: porque terá Jorge Ribalta, o comissário da exposição, preferido mostrar, “Menschen des 20. Jahrhunderts”, a obra de August Sander, ao lado de “Mass Observation”, em lugar de o situar junto aos seus contemporâneos, Walter Balhause e Eugen Heiling, que fotografaram, como já vimos, os desempregados, marginalizados e operários da mesma República de Weimar?

Talvez possamos responder com uma outra questão: porque terá Sander, numa Alemanha arruínada por uma crise económica, que levava milhares de pessoas a ficarem sem emprego, preferido fotografar, (ao contrário de Balhause e Heiling), de forma obsessiva e sistemática, o retrato do seu povo, o povo alemão?
Nas centenas de rostos, que Sander fotografou, o observador, tal como o fotógrafo o foi, é atraído pelas diferenças entre:
o crítico de arte;

August Sander, Crítico de arte, 1927
o médico;

August Sander, Médico, 1928
o procurador;

August Sander, Procurador, 1931
a freira;

August Sander, A Freira, 1921
o jovem instrutor;

August Sander, O jovem instrutor, 1931
o cigano;

August Sander, O cigano, 1930
o jovem comerciante;

August Sander, O jovem comerciante, 1929
os agricultores;

August Sander, Jovens agricultores, 1914
a pedinte;

August Sander, Pedinte,1930
o arquitecto;

August Sander, O arquitecto, 1930
a mulher de um arquitecto;

August Sander, A mulher de um arquitecto, 1928
o viúvo;

August Sander, O viúvo, 1914
o industrial;

August Sander, O industrial, 1928

o farmacêutico, o banqueiro, o professor de liceu, o deputado, o mágico, o vendedor de ratoeiras turco...

Intuía Sander, a purga intelectual do totalitarismo nazi, que em breve dominaria a Alemanha, cujas diferenças, tanto irritaram Hitler, que queria um país de uma só raça, uma raça superior, a raça ariana,


August Sander, Membro da juventude Hitlariana, 1941

e que por isso mandou destruir grande parte dos seus negativos?

Mas Ribalta vai mais longe, e na entrada desta mesma sala, “España Tipos e Trajes” de José Ortiz Echagüe, ocupam uma das paredes. No texto do livro, publicado em 1933, lemos o seguinte: “Entre un vasco del Norte y un adaluz, entre un gallego y un valenciano hay tanta diferencia como puede existir entre un habitante de Alaska y un gaúcho de la Pampa”, e nas páginas seguintes, de terra em terra, “(…) dejando Extremadura trapasamos la Sierra de Gata …dejando Navarra y corriéndonos hacia el país vasco...”, Echagüe, com um interesse em “hacer una historia documentada del indumento popular español”, regista a imensa riqueza de “un país que no se preocupa excessivamente de sus tradiciones”.






Que faz Echagüe, “com as imagens idealizadas de uma Espanha petrificada e a-histórica de José Ortiz Echagüe, para resgatar costumes enraizados (como nas imagens do folclore “progressivo”, na Itália pós-facista”, (vd, Jornal Expresso de 14/03/09), junto de Sander e de “Mass Observation”?

Intuía Echagüe, já uma divisão da Espanha, numa época em que o país, desembaraçado da monarquia desacreditada de Primo de Rivera, vivia numa República, que euforicamente o povo proclamara, (1931)?
Temia Echagüe, que em breve, a sua Espanha, que ele via como “una inmensa riqueza …de civilizaciones sucesivas han venido depositando en el áspero y descarnado suelo Ibérico”, seria ensombrada por uma terrível guerra civil, (1936)?
Intuía ele que “en este variadísimo y grandioso escenario, civilizaciones sucesivas han depositado su cultura” poderia em breve desaparecer e sofrer divisões, pelas reivindicações autonomistas e separatistas, entre bascos e catalães, que ainda hoje a atormentam?

A riqueza desta sala, neste diálogo de projectos, aparentemente tão diferentes, está em precisamente, nos deixar, a cada um de nós, fazer a interpretação que quisermos.

2 comentários:

- disse...

Sander é um fotógrafo que vê numa classe um indivíduo e num indivíduo uma classe, e que portanto classifica os indivíduos segundo um sistema preciso. É um exercício de poder tremendo esta forma de representação. Parecer-me-ía mais natural colocá-lo junto a nomes da fotografia judiciária e policial de finais do século XIX, porque seguem uma lógica paralela e distinta. Enquanto Sander procura rostos que sirvam (até questionem) uma classificação, a polícia procurou classificações que agrupassem rostos. E estes exercícios fotográficos também dizem muito sobre a ambivalência do "documento".
Gosto muito dos seus textos ilustrados.
Uma leitora assídua.

Madalena Lello disse...

muito interesante a sua sugestão de colocar Sander na tipologia criminal do século XIX, contudo Sander, como exemplifica o "Viúvo" do post, alarga a tipologia para além da classe/profissão. Já agora aproveito também para referir, que em França, segundo Maria Morris Hambourg, uma especialista em Atget, que na mesma época de Sander fotografava Paris, decifrou o código de números que Atget escrevia no verso das suas fotografias. Para ela esses números, chave fundamental das intenções e do sentido da actividade do autor,dividiam Paris em temas topográficos agrupados em 5 grandes séries e numerosas subdivisões e grupos. A classificação, uma influência da época?