terça-feira, março 24, 2009

A crise e as suas causas

Timothy Geithner, secretário do Tesouro da Administração Obama, anunciou ontem, mais um plano, desta vez com detalhes, sobre como remover os activos “tóxicos” dos balanços contabilísticos das instituições financeiras. Para alguns analistas, Geithner, “desta vez fez o trabalho de casa”, e o mercado reagiu entusiasticamente, com o Dow a fechar com um ganho de 7%.
Mas nem todos partilharam o mesmo optimismo. O prémio Nobel, Paul Krugman, sente-se desapontado: “In fact, it fills me with a sense of despair”, pois para ele, o que Geithner propõe pouco difere do plano do seu antecessor: “Mr. Paulson proposed having the government buy the assets directly. Mr. Geithner instead proposes a complicated scheme in which the government lends money to private investors, who then use the money to buy the stuff”. Para Krugman, ambos os planos assentam na mesma ideia errada – a de acharem que os “bad assets on banks’ books are really worth much, much more than anyone is currenttly willing to pay from them”, e tal como este par de sapatos,

Chema Madoz

que agarrados pelo mesmo atacador, não deixam o dono andar, para o Nobel, o plano de Geithner não tem pernas para andar.

Durante anos, quem teve pernas para andar, foram os preços das casas nos EUA. Com as taxas de juro anormalmente baixas, 1 % entre 2002-2004, conjugado com modelos elaborados e complexos – a securitização – que a Banca pedia aos matemáticos,


Chema Madoz

George W. Bush, podia prometer, mesmo aos que não podiam, o “sonho americano”. Em 2004, em plena campanha de recandidatura não se cansava de dizer: “America is a stronger country, every single time a family moves into a home of their own”, e a sua política encorajou ainda mais, a compra de casa própria, mesmo para aqueles que não tinham recursos.

Com a corrida aos empréstimos, os preços das casas não tardaram a subir em flecha,


Chema Madoz

mas a exagerada inflação, que atacava o mercado imobiliário, não passou desapercebida, Paulson, um gestor de um grande hedge fund, (não o Henry Paulson, o então Secretário de Estado do Tesouro), aconselhava os seus clientes, com demonstrações gráficas, a se posicionarem vendedores no mercado do subprime. Quando a bolha rebentou, quem seguiu o seu conselho, arrecadou mais de 500% de valorização e a Paulson & Co.Inc ganhou $15b. Será que Paulson foi um visionário? ou será que os políticos, inebriados com o crescimento económico, não olhavam para os gráficos?


Chema Madoz

Em pleno Verão de 2007, entre 9 e 10 de Agosto, a taxa de juro - Libor a três meses -subia uns dramáticos 90 pontos base, uma situação pouco usual, mas demasiado perigosa, na medida em que milhares de empréstimos, $300 000bn a nível global, o que corresponde aproximadamente $45 000 por pessoa, estavam indexadas a essa taxa.
Reduzir então o spread, tornou-se a tarefa prioritária da política monetária americana. Para aplicar a resposta mais correcta era crucial diagnosticar as verdadeiras razões dessa subida. Se o problema fosse falta de liquidez, abrir janelas


Chema Madoz

e injectar liquidez no mercado seria a solução. Mas se pelo contrário, o problema principal fosse o risco da contraparte, a forma mais correcta de agir, seria olhar para os balanços dos Bancos, e exigir-lhes mais transparência e qualidade, de forma a agir, o mais rápido possível, nos incumprimentos, que entretanto se alastravam, ou seja, substituir a muleta que os sustentava por uma estrutura sólida.


Chema Madoz

Com um curriculum invejável e com uma pesada bagagem em experiência,


Chema Madoz

Ben Bernanke, um estudioso e perito da Grande Depressão em conjunto com Henry Paulson, um ex-top da Goldman Sachs, olharam para os gráficos, e aflitos com o que viram, na ânsia de agirem rápido, presentearam os Bancos, com milhares de milhões de dólares.


Chema Madoz

Em pleno Verão, não tardou, que tudo se derretesse, pois ao contrário do que se passara na Grande Depressão, cuja corrida aos Bancos, provocara falta de liquidez, agora o problema residia nos activos de elevado risco, que começavam a não ter valor no mercado, e que os Bancos continuavam renitentes em contabilizar correctamente.


Chema Madoz

Com tal actuação política, o dólar descambou e a crise, que até aí era só financeira, passou rapidamente para a economia, as matérias-primas, e o petróleo então foi a estrela, não mais pararam de subir. O Ocidente olhou com desdém para os países como a China e a Índia, o mal vinha dessa gente toda,


Chema Madoz

que agora, com melhores níveis de vida, consumia muito mais. Outros, acusavam os gestores dos hedge funds, como os maus da fita, pois diziam aproveitar a subida do petróleo para enriquecerem ainda mais, e não tardou o ataque ao capitalismo liberal, à “mão invisível” de Adam Smith,


Chema Madoz

que todos apontavam não funcionar. Smith, “que não encarava o mecanismo de mercado como um agente independente por excelência, nem olhava o motivo do lucro como tudo o que é preciso”, como lembrava há dias um outro Nobel da Economia, Amartya Sem, foi alvo de crítica, nos jornais de todo o mundo, e agora, com o reforço do controlo estatal na economia,


Chema Madoz

é a vez de Keynes saltar para a ribalta.

Com a crise, que entretanto não parou de agravar-se, sem luz ao fundo do túnel,


Chema Madoz

com as taxas já a zero, as autoridades continuaram a injectar biliões de dólares nos Bancos, através dos TAF, dos TARP…, nessa sopa de letras, que não pára de crescer. Ontem, foi a vez de Geithner apresentar o novo programa, fala-se em triliões, mas agora, aos maus da fita, aos gestores dos hedge funds, pede-se que alinhem, juntamente com as autoridades, a ajudar os Bancos que continuam sem emprestar nem um cêntimo, a livrarem-se dos activos tóxicos.


Chema Madoz

Ontem Strauss-Khan, director-geral do prestigiado Fundo Monetário Internacional (FMI), que em Dezembro de 2007, declarava que o risco do mercado imobiliário americano não iria pesar no crescimento económico e que o país não entraria em recessão, veio então ontem dizer, na cidade de Genebra, “que a situação económica mundial continua extremamente preocupante e difícil, com a ameaça de uma recessão global este ano”, e sugeriu, para quem o quer ouvir, o estímulo ao consumo, “porque as políticas monetárias chegaram ao limite”.

Bom, resta então a cada um de nós, puxar pela imaginação, e tentar sair deste poço, onde os políticos nos deixaram.


Chema Madoz

Num mundo virado ao avesso, entalado numa verdadeira encruzilhada,


Chema Madoz

não é Chema Madoz, (atenção não troque o Z pelos ff), o grande visionário?

4 comentários:

Sabrina Marques. disse...

Agradeço-lhe Madalena, pelas palavras e pela visita ao blog... Um pequeno espaço que é mínimo, quando comparado com este seu Sais de Prata.... É a Madalena quem está de parabéns, por um percurso incrível que, com pasmo e mudez, tenho acompanhado. Ainda ontem contemplava o seu "post para guardar nos favoritos", escrito há praticamente um ano atrás, e que faz toda a justiça ao nome. Há maravilha, e bom trabalho aqui.
Um bem-haja sincero.

simages disse...

não conhecia o saisdeprata-e-pixels mas estou verdadeiramente impressionado. Recomendarei e visitarei. Ah, e encontrei a informação que procurava!

Madalena Lello disse...

Bem...a fotografia é que é uma das grandes maravilhas, obrigado aos dois.

Joao Henriques disse...

Gostei desta mescla entre as imagens de Madoz e a Economia. Só descobri este blog há pouco, obrigado por todo este trabalho.