quinta-feira, janeiro 24, 2008

Davos, 2008

Muitos são os que sobem nestes dias os Alpes Suiços para chegarem à cidade de Davos, que desde 1971 acolhe o World Economic Forum. Mas o que faz subir e reunir todos os anos esta elite de gente em Davos?
Andreas Gursky, Engadin II, 2006
Na agenda os problemas do mundo actual e nada melhor que o ar puro da montanha para se delinearem estratégias onde todos trocam conhecimentos e opiniões. Não depende o nosso futuro das estratégias que hoje forem definidas?

Este ano a recente correção dos mercados bolsistas, que levou Ben Bernanke há dois dias a baixar em 75 pontos base as taxas de juro na América, é o centro das atenções.
Andreas Gursky, Chicago Board of Trade II, 1999
Mas será que em Davos se adiam os problemas de longo prazo, escassez de água, mudanças climáticas, energias alternativas, proliferação de armas nucleares para se resolver agora os problemas de curto prazo? E serão os problemas financeiros resolvidos?

Os grandes das finanças apanham o avião e atravessam o Atlântico,
Jeffrey Milstein, Quantas Boeing 747-400, 2006
vão tentar defender o modelo financeiro actual, e levam na agenda reuniões informais com os políticos, em épocas de crise, todos procuram a ajuda de todos...

Há quem deseje alterar o actual modelo. O “super-boom” ficou fora de controlo com os novos produtos financeiros cada vez mais sofisticados. Ás autoridades supervisoras, que já não conseguem calcular os riscos, só lhes resta acreditar na gestão e no modelo dos bancos.

George Soros já veio dizer que a bolha que agora rebentou no mercado imobiliário é diferente de todas as outras dos últimos 60 anos, pois é a primeira vez que outros Estados financiam Wall Street. Para ele “it was a shocking abdication of responsibility”, e o dólar arrisca-se a deixar de ser a reserva internacional.

Um dos maiores bancos da América, o Citigroup, que precisou de uma injecção de novo capital na ordem dos $22bn, vê com bons olhos a ajuda de investidores como Kuwait Investment Authority.
Andreas Gursky, Kuwait Stock Exchange, 2007
Mas se a entrada de dinheiro fresco permite equilibrar os balanços, não ficará agora a banca refém de influências políticas no futuro?
Andreas Gursky, Bahrain I, 2005
Dos grandes investidores que constroem hotéis de sete estrelas?
Robert Polidori, On the Burj Al Arab, Dubai
Robert Polidori, On the Burj Al Arab, Dubai
Será que a recessão americana afectará o desenvolvimento dos mercados emergentes? A questão levantada por muitos em Davos.

China, Índia e todos os países produtores de petróleo sofreram com a recessão vinda do outro lado do Atlântico? Haverá recessão global? Ou será o início de um novo realinhamento económico onde a América deixará de ser a locomotiva?

Olhando para a história não é a primeira vez que esta questão se coloca. Quem não se lembra nos anos 70, da invasão de Hondas, Toyotas...a circularem nas estradas americanas? Julgou-se que o Japão tecnológico suplantaria a economia americana e receou-se o pior. Mas o boom no Japão levou à bancarrota e só agora o Japão parece conseguir sair da recessão.

Olhemos então para a China, o país que de dia para dia surpreende todos nós Ocidentais.
Sze Tsung Leong, Chaoyang District, Beijing, 2002

O crescimento estonteante das cidades chinesas tem sido tema recorrente dos fotógrafos, mas a realidade também lhes escapa.
Andreas Gursky, 2002
Na China a maioria destes prédios só tem dois elevadores, o tempo de espera para subir/descer é de 40 minutos. Construidos na sua maioria só com o saneamento básico, é da responsabilidade de quem compra um apartamento, instalar o que falta, electricidade, gás... Xangai que muda todos os dias, acolhe por ano aproximadamente 4 milhões de habitantes que deixam as aldeias à procura de uma vida melhor. A taxa de desemprego na cidade anda na ordem dos 3%, massa de gente que é absorvida na construção e nas novas indústrias. O discurso oficial na China é “ whatever else we have done, we have brought hundreds of millions of people out of poverty”. Imaginemos, Nova Iorque, Paris, Londres, receber num ano o mesmo número de habitantes...Em Shenzen,
Peter Bialobrzeski, Shenzen, 2001
cidade que nos anos 80 ainda era uma pequena cidade piscatória junto ao delta do rio das pérolas serve hoje de experiência piloto do Estado que a isentou de impostos. O investimento estrangeiro em Shenzhen não pára. Quem vive em Shenzhen vive única e exclusivamente para o trabalho. Visitar a FoxConn em Shenzhen, a maior empresa exportadora da China, é visitar todas as outras, o modelo é o mesmo. Com um total de 250.000 operários nas suas linhas de montagem, trabalham 12 horas por dia, 6 dias por semana, por vezes 7, e o seu desempenho é controlado no final de cada mês. Dormem nos dormitórios da fábrica
Edward Burtynsky, Manufacturing #4 Factory Worker Dormitory, Dougquan, Guangdong Province, China, 2004
e comem na cantina da fábrica,
Edward Burtynsky, Manufacturing #11, Youngor Textiles, Ningo, Zhejiang Province, China, 2005
ganham o correspondente a $120 por mês, que poupam quase na totalidade. Saem da linha de montagem e pouco mais fazem do que dormir, e ao fim de cinco anos partem novamente para as aldeias de onde vieram com um pé de meia, não aguentam muito mais... Mas a FoxConn na lista da Fortune Global, figura num modesto 206 lugar entre as maiores empresas do mundo.
E no final destas imensas cadeias de produção que mais valias ficam na China? Os países que detêm as marcas, onde parte da produção é feita na China, estão nos extremos do processo, onde verdadeiramente ficam as mais valias. Na China ficam apenas 3 a 4 % dos ganhos do produto total, distribuido pelos donos das fábricas e pelos milhares de operários das linhas de montagem.
Pode-se comparar o milagre da China ao do Japão nos idos anos 70?
George Soros, que em 1992 ganhou $1bn ao especular na desvalorização da libra, e levou o Banco de Inglaterra quase à falência, vem agora em Davos alertar para a recessão americana, e para um novo realinhamento económico onde “China, India and some of the oil producing countries are in a very strong countertrend. So, the current financial crisis is less likely to cause a global recession than a radical realignment of the global economy, with a relative decline of the US and the rise of China and other countries in the developing World”. Será agora a vez de Soros experimentar o dólar?

Mas em Davos a agenda é vasta...poluição, aumento do custo dos produtos agrícolas, problemas geopolíticos como o Irão nuclear...fazem parte dos debates.
Mitch Epstein, Gavin Coal Power Plant, Cheshire, Ohio, 2003

Com o crescimento galopante rumo a uma sociedade de consumo ao estilo ocidental, a China assusta-nos. A poluição é hoje um dos maiores perigos que a China enfrenta, é o preço a pagar pela riqueza. Para se ter uma ideia da gravidade, se a China se aproximasse dos níveis da América no que respeita ao número de automóveis por família, cerca de 600 milhões de carros circulariam nas estradas chinesas, o que corresponde a mais do que o total de veículos hoje existentes no planeta.
Peter Bialobrzeski, Shangai, 2001
Robert Polidori, On Shangai
Afinal, não tem os chineses direito ao mesmo nível de vida? Ou será que todos nós é que temos de mudar?

Mudar? O mundo está a mudar, e agora em vez dos produtos industriais olha-se para a produção do açucar, milho, trigo...volta-se às origens, à terra,...
Frank Gohlke, Mississippi, 1986
Alessandra Sangrinetti, da série "on the sixth day", 1996-2004
Mudar? Mas afinal o mundo parece não mudar, e a ameaça nuclear, que ameaçou o dia a dia da geração de 60,
Yousuf Karsh, J.Robert Oppenheimer, 1956
Los Alamos, National Laboratory Photo, Bomba Atómica, 1957
está novamente na ribalta com o Irão nuclear, e já agora porque não ler aqui, um excelente post, sobre o assunto, escrito por alguém dessa mesma geração de 60.

Hoje vemos o mundo assim:
Yannick Demmerle, da série "Les nuits Étranges", 2004

mas não queriamos todos nós o ver antes assim:
Wout Berger, Ruigoord 2, 2002

ou preferimos o mundo ficcional do Dubai?
Andreas Gursky, Dubai World II, 2007

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sexta-feira, janeiro 18, 2008

Fotojornalismo em crise?

Ontem o P2 do jornal Público recordava o dia 17 de Janeiro de 1991, dia em que iniciou a chamada guerra do Golfo. O jornal ilustrava o pequeno texto com esta grande imagem:
Jornal Público, dia 17 de Janeiro, 2008

Na madrugada desse dia, uma frota de aviões dos EUA, Inglaterra, França, Arábia Saudita e Kuwait seguiram em direcção ao Iraque. Os ataques aéreos, feitos com “bombas inteligentes”, de uma precisão nunca antes vista marcavam o início de uma ofensiva que se designou por Operação Tempestade no Deserto.
Todos nós em casa em frente aos nossos televisores fomos surpreendidos pelas imagens que a CNN difundiu em directo dessa guerra, e ao longo dos dias habituámo-nos às imagens fornecidas via satélite que invadiam os nossos ecrãs.
De tons esverdeados, mais pareciam imagens de jogos de uma guerra virtual.
Para a elite militar americana o impacto que as fotografias da guerra do Vietname causaram na opinião pública estavam ainda bem presentes e o Vietname, a última guerra a ser fotografada. Na guerra do Golfo as instâncias militares americanas evitaram ao máximo o testemunho directo dos jornalistas e fotógrafos no terreno, e divulgaram imagens que mais se assemelhavam a uma guerra cirúrgica, as imagens verdes que hoje retemos na memória e que o Público tão bem reproduz. Estará o fotojornalismo em crise?
Aos fotógrafos resta agora o depois, como fez Sophie Ristelhueber que em 92 vai ao Kuwait registar as marcas dos objectos pessoais e de destruição bélica deixados no terreno pela artilharia americana.
Sophie Ristelhueber, da série Fait, 1992
Sophie Ristelhuber, da série Fait, 1992
Sophie Ristelhueber, da série Fait, 1992

Thomas Ruff, prefere, como o fez na sua série Nacht de 92/93, ironizar a crise do referente, pois já nem precisa de “ter estado lá”.
Thomas Ruff, da série Natcht 10, 1992
Thomas Ruff, da série Natch 14, 1993

Mas se as guerras já não podem ser fotografadas, as manifestações públicas correm também esse risco. Vejamos o que se passou com a revolta estudantil de Março de 2006 em França. Em 10 de Março desse ano, o site do jornal “Libération” anunciava esta notícia breve: “Manifs, AG...Envoyez-nous vos photos témoignages. Elles seront sélectionnées para la rédaction, publiés au fur et à mesure sur Libération.fr”, mas esta solicitação era seguida de um texto bastante mais longo, que enunciava as condições da publicação: “Vous accordez à Libération le droit de publier gratuitement sur tous les supports de son choix les images que vous lui avez envoyées (...) Vous certifiez bien être l’auteur de ces image et posséder les autorisations nécessaires de toutes les personnes photographiées...”, se nos dá vontade de rir, o jornal cumpria com a lei que obriga uma autorização prévia do fotografado, numa manifestação... Poucas foram as imagens enviadas, porque também hoje, a internet substitui tais disparates com novas plataformas de informação como o Flickr, onde quase minuto a minuto eram divulgadas as imagens dos estudantes revoltosos.
Ocupação da Sorbonne, 10-11 de Março 2006, fotografias divulgadas em Flickr
Manifestação 28 Março, 2006, imagem divulgada em Flickr
Manifestação em Paris, 18 Março 2006, imagem divulgada em Flickr
Mas se hoje estas plataformas são o meio privilegiado de circulação de informação, o curioso é que hoje a maioria das imagens que a blogosfera utiliza para ilustrar os seus posts, são retiradas dos jornais e Sócrates, Cavaco Silva,...fazem as delícias de muitos blogers.

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quinta-feira, janeiro 17, 2008

Saul Leiter na Fundação Cartier-Bresson

Quando em Outubro escrevi “Os mistérios da fotografia a cor”, o fotógrafo Saul Leiter, ficou de fora e reconheço a injustiça. O texto já ia longo, as imagens muitas, e Leiter acabou mesmo por não entrar. Mas Leiter era um dos exemplos perfeitos para entrar naquele post. Hoje a Fundação Henri Cartier-Bresson inaugura uma retrospectiva da sua obra, e ontem Leiter na vernissage deu uma entrevista que podemos seguir aqui onde nos conta, com candura, como começou a fotografar a cor: “entrei numa loja e comprei um rolo a cores, depois gostei do resultado”. O ano, era 1948, e Leiter, mais um dos milhares de fotógrafos que pululavam nas ruas de Nova Iorque. Depois a fotografia de moda.
Em 1946 deixara a escola de Cleveland, por Nova Iorque, queria ser pintor. Richard Pousette-Dart, um pintor do expressionismo abstracto, incita-o a fotografar e a exposição dedicada a Cartier-Bresson no MoMA, em 1947, convence-o.

Em 1957, era a vez de Steichen ilustrar a sua conferência “Experimental Photography in Color”, no MoMA, com algumas das fotografias a cor de Leiter.

Depois o total esquecimento, o tal mistério da fotografia a cor. Só em 2005, é que a sua obra a cor vê novamente a luz do dia, pela mão da sua galeria, Howard Greenberg Gallery, em “Early Color”. No ano seguinte, 2006, é a Steidl que edita o livro, "Early Color”.
Agora a Fundação Cartier-Bresson apresenta pela primeira vez o trabalho pessoal de Leiter em França.
Saul Leiter, Haircut, 1956, Howard Greenberg Gallery
Saul Leiter, Harlem, 1960, Howard Greenberg Gallery
Saul Leiter, Bus, 1954, Howard Greenberg Gallery
Saul Leiter, Reflection, N.Y.C., 1958, Howard Greenberg Gallery
Saul Leiter, Postmen, 1952, Howard Greenberg Gallery
Saul Leiter, Bus, 1952, Howard Greenberg Gallery
Saul Leiter, Untitled, N.Y.C., 1959, Howard Greenberg Gallery
Saul Leiter, Untitled, 1960, N.Y.C, Howard Greenberg Gallery
Saul Leiter, Táxi, N.Y.C, 1957, Howard Greenberg Gallery
As fotografias a cor numa sala, as fotografias a preto e branco noutra sala, tudo exposto, como podemos ver nas imagens que acompanham a entrevista, no formato mais clássico, a única inovação, as paredes pintadas com cores mais garridas. Desde que abriu em 2003, num antigo atelier restaurado, a Fundação Cartier-Bresson já organizou inúmeras exposições, e todas elas sempre com o mesmo padrão, tudo direitinho, tudo alinhado, tudo sempre igual, julgamos até que recuamos no tempo.
Em 2004, a Fundação reconstituia “Documentary e Anti-Graphic”, a exposição, que Julien Levy, organizou em Abril/Maio de 1933 na sua galeria em Nova Iorque, onde juntou os três fotógrafos: Cartier-Bresson, Walker Evans e Alvarez Bravo. O grafismo do convite apelava à inovação.
Julguei, «é desta que a Fundação vai baralhar e mostrar as ligações dos três fotógrafos». Mas não. Sem comparações, nem ideias, cada fotógrafo era apresentado isolado dos outros,
fiquei sem saber como teria sido na Julien Levy.
Este ano, antes da exposição de Leiter, Helen Levitt. A repetição de sempre,
na primeira sala o preto e branco na sala de cima a fotografia a cor, e a ordem cronológica a dominar. Aprecio a obra de Helen Levitt, mas a exposição não me inspirou, Levitt terá de esperar para ter um post. Hoje quase ou nada fotografo. Há dias quando organizava no computador as fotografias que tiro das exposições reparei em algo curioso, nas fotografias que tiro à saída da Fundação:
Edifício da Fundação Cartier-Bresson

PS: veja aqui os livros de Leiter.
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