quarta-feira, novembro 05, 2008

Passaic - as "ruínas do futuro"

Num Sábado - 30 de Setembro 1967 - no terminal de autocarros de Port Authority em Manhattan, Robert Smithson comprava um bilhete com destino a Passaic, New Jersey, um dos subúrbios de Nova Iorque. “The Monuments of Passaic”, o artigo que publicou três meses depois na revista Artforum, Smithson narra ao detalhe este dia em Passaic e ilustra-o com seis fotografias dos sete rolos que gastou no passeio. Ao chegar ao primeiro monumento, a ponte sobre o rio Passaic, que liga Bergen County a Passaic County, Smithson deixa o autocarro e começa a sua caminhada. “ O sol do meio-dia cine matizava o lugar transformando a ponte e o rio numa imagem sobreposta. Ao fotografa-la com a minha Instamatic 400, senti que estava a fotografar uma fotografia. O sol, converteu-se num monstruoso bolbo luminoso, que projectava na minha retina, através da minha Instamatic, várias séries distintas de imagens congeladas. Avancei pela ponte e foi como se caminhasse numa gigantesca fotografia, de madeira e aço, onde por debaixo, o rio, se assemelhava a uma gigantesca película de um filme”, do artigo “The Monuments of Passaic”.


Robert Smithson, "The Monuments of Passaic, The bridge Monument showing wooden sidewalks, 30 Setembro 1967

Na revista Art Press deste mês, Dominique Baqué, no contexto do “Mois de la Photo”, que inicia agora em Paris, vê nas inúmeras exposições que invadem a cidade o regresso da fotografia documental.

Mas o que se entende afinal por fotografia documental - uma prova infalível do real?
Será Walker Evans o pai do “estilo documental”? Ou serão os trabalhos pioneiros, com intuito reformista, de Jacob Riis e Lewis Hine, os iniciadores deste género?

Nos anos sessenta, quando Smithson e Dan Graham fotografavam os subúrbios de New Jersey, Lee Friedlander e Garry Winogrand eram reconhecidos oficialmente como os herdeiros da fotografia documental iniciada por Evans. Porque ignorou a história da fotografia os primeiros? O que distingue as casas alinhadas fotografadas a cor de Graham das casas alinhadas fotografadas a preto e branco de Evans?
Será que os historiadores não os incluíram nos seus ensaios porque não se deixaram enganar pelo trabalho conceptual destes? Julgo que sim.

Graham em “Homes for America”, editado pela revista Arts Magazine, 1966-67, (já tantas vezes referido e reproduzido neste blogue), pensava nos neons industriais de Dan Flavin mais que nos jogos cromáticos da straight photography de Helen Levitt e Eliot Porter e relacionava o objecto minimalista – o cubo serializado – com os modelos arquitectónicos das casas suburbanas de New Jersey. Smithson por seu lado em “The Monuments of Passaic” reconhecia nas estruturas de Donald Judd, Sol LeWitt e Dan Flavin as qualidades negativas – banalidade e monotonia – dos subúrbios de New Jersey.

Regressemos então à caminhada de Smithson, que nesse Sábado, parodiando o grand tour turístico a Itália, - Smithson chamou ao título original do artigo “A tour of the Monuments of Passaic” – nos guia, das margens do rio Passaic ao centro da cidade. Num jogo de ambiguidade, entre monumento histórico – vestígio de um passado cultural memorável - e o que ele agora considera de monumento, Smithson leva-nos, através da sua narrativa que ilustra com fotografias, a um outro valor mais amplo do monumento como obra de memória, cujo modelo assenta na fotografia documental reduzida a uma aparência de banalidade, que afinal não são mais do que o registo dos novos monumentos do seu tempo. Os edifícios notáveis, legado do passado, são substituídos por “Monument with Pontoons: The Pumping Derrick”,


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, Monument with Pontoons: The pumping Derrick, 30 de Setembro, 1967

“The Great Pipes Monument",


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, The Great Pipes Monument,30 de Setembro, 1967

"The Fountain Monument”,


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, The Fountain Monument,30 de Setembro, 1967


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, The Fountain Monument,30 de Setembro, 1967

terminando a ilustração do artigo com “The Sand-Box Monument”.


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, The Sand-Box Monument,30 de Setembro, 1967

Ao categorizar estes objectos, tão pouco interessantes, em monumentos, Smithson inicia uma nova dialéctica entre documento – monumento, problemática que o historiador Michel Foucault irá sintetizar, dois anos mais tarde em “L’archéologie du savoir” - uma inversão do olhar sobre a história. Os monumentos de Passaic, não são monumentos eternos, memórias de um passado glorioso, mas, como o próprio Smithson chama “ruínas do futuro”, ainda em construção, como estas fotografias


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, fotografia tirada a 30 de Setembro 1967 em Passaic, mas nunca divulgada em vida de Smithson, hoje arquivada em Estate of Robert Smithson and the Archives of American Art


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, fotografia tirada a 30 de Setembro 1967 em Passaic, mas nunca divulgada em vida de Smithson, hoje arquivada em Estate of Robert Smithson and the Archives of American Art

de escavações para uma nova auto-estrada, “ruínas do futuro”, que uma dona de casa de Passaic, numa entrevista em 1968 ao New York Times faz eco : “Passaic is decaying and all we get from politicians are promises…Promises to make the streets safer. Promises to build new housing. I don’t have any faith left. If they strarted a new building here Saturday it will fall down Wednesday”.

Mas olhando para estas fotografias, somos instigados a perguntar: Onde fica Passaic? Quem aí trabalha e reside? É uma cidade industrial ou uma cidade dormitório? Qual a história de Passaic? Com tão poucas informações específicas do lugar será que “The Monuments of Passaic” poderá ser considerado um trabalho fotográfico documental, ou será precisamente uma crítica à transparência do documentário?

Embora Smithson seja rigoroso em detalhes e nos descreva por exemplo as revistas e jornais que comprou no terminal e nos relate os artigos que leu durante a viajem, em relação ao centro da cidade refere: “Actualmente o centro de Passaic não existe – em lugar existe o abismo ou um vulgar vazio”, e relata, que em tempos um carril passava num local onde agora existe um Parking Lot.


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, fotografia tirada a 30 de Setembro 1967 em Passaic, mas nunca divulgada em vida de Smithson, hoje arquivada em Estate of Robert Smithson and the Archives of American Art

Curiosamente Smithson não especifica para que servia o carril pois nunca menciona o passado de Passaic, que no início do século XX era uma das regiões com a maior indústria têxtil do país, e curiosamente também omite, que Passaic, foi a cidade onde nasceu e cresceu. Curiosamente ou esquecimento propositado?
O esquecimento, é para mim”, diz mais tarde, “um estado em que não temos consciência do tempo e do espaço”, e é este estado, precisamente, que Smithson nos apresenta no seu tour por Passaic, invertendo a tradição histórica do grand tour.

Em 1967, Passaic era uma cidade industrial em ruínas, como tantas outras nesta época,


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, fotografia tirada a 30 de Setembro 1967 em Passaic, mas nunca divulgada em vida de Smithson, hoje arquivada em Estate of Robert Smithson and the Archives of American Art


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, fotografia tirada a 30 de Setembro 1967 em Passaic, mas nunca divulgada em vida de Smithson, hoje arquivada em Estate of Robert Smithson and the Archives of American Art

com fábricas abandonadas, com o rio poluído,


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, fotografia tirada a 30 de Setembro 1967 em Passaic, mas nunca divulgada em vida de Smithson, hoje arquivada em Estate of Robert Smithson and the Archives of American Art

edifícios delapidados,


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, fotografia tirada a 30 de Setembro 1967 em Passaic, mas nunca divulgada em vida de Smithson, hoje arquivada em Estate of Robert Smithson and the Archives of American Art

e o centro da cidade vazio, onde 36% do comércio fechara, pela forte concorrência de centros comerciais construídos fora da cidade.
O seu tour, o seu “turismo industrial” era comum nos anos sessenta, em que agências de viajens organizavam “negative sightseeing” por cidades industriais em ruínas, e conduziam em autocarros estes novos turistas a visitar os “ten top polluters in action”.

Smithson, como muitos artistas da época, viram na banalidade da fotografia a sua importância como crítica da cultura Ocidental e em “Sand-Box”


Robert Smithson, The Monuments of Passaic, fotografia tirada a 30 de Setembro 1967 em Passaic, mas nunca divulgada em vida de Smithson, hoje arquivada em Estate of Robert Smithson and the Archives of American Art

uma meditação sobre a ideia de entropia e de infinito : “Gostaria agora de provar a irreversibilidade da eternidade usando uma experiência simples para provar a ideia de entropia: Imaginem uma “sand box” dividida metade com areia preta e a outra metade com areia branca. Leve-se uma criança a brincar no seu interior pedindo-lhe para remexer a areia no sentido dos ponteiros de um relógio até esta se tornar cinzenta. De seguida pede-se à criança para a remexer no sentido inverso. Nunca se conseguirá restaurar a divisão original, mas antes a areia transforma-se num cinzento mais carregado numa maior entropia”, do artigo “The Monuments of Passaic”.


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sábado, novembro 01, 2008

"El Dia de los Muertos"

O dia de Todos os Santos e o dia de Fieis Defuntos que se comemora respectivamente no primeiro e segundo dia do mês de Novembro são as celebrações mais espalhadas e queridas do México.


Manuel Alvarez Bravo, Señal, Teotihuacán, 1956

No dia 2 de Novembro de 1926, o fotógrafo Edward Weston , nas vésperas de deixar definitivamente o México escreve o seguinte no seu diário: “ November 2, …The puestos are open for “El Dia de los Muertos”. For the last time we walked the alameda. Kewpile dolls, tin toys, Japanese screens, horrible abortions from Tlaquepaque, - such rubbish was offered and sold from two thirds of the puestos. Yet it was colourful despite the corruption of taste...the indifferent familiarity of the Mexican to death – the macabre viewpoint is indicated in the puestos on this day of dead. “Death for sale” is the vendor’s cry – Death from every realistic and fantastic angle is sought and sold. Great candy skulls, tin trolley car hearses, tombstones, puppet skeletons who fiddle and dance, gruesome death masks – while a jolly crowd banters and buys”.
Se as nuvens e as pulquerias mexicanas inspiraram o californiano Weston, o folclore do “El Dia de los Muertos”, são, como revela nesta sua crítica mordaz, incompreensíveis.
No México, o culto dos mortos e todas as festividades que lhes estão associadas resultam de paralelismos e convergências de várias tradições culturais. Das primitivas culturas de Tlatilco, Cuicuilco e Tiapacoya, que se desenvolveram cerca de 1800 a.C., donde provêm os mais antigos testemunhos de rituais funerários,


Manuel Alvarez Bravo, Coatlicue, 1987

ao cristianismo trazido pelos colonizadores espanhóis, resultou uma sobreposição de conceitos e práticas destas várias culturas em relação à dualidade vida – morte.

Os mistérios desta dualidade, incompreensíveis para os estrangeiros, são o que sustenta a particular forma de ver, sentir e viver a morte dos mexicanos.


Manuel Alvarez Bravo, Caballito de Quito, 1984

Para o mexicano Manuel Alvarez Bravo, a morte, companheira inseparável da vida, serve como ponto de partida para a sua existência, e não se coíbe de fotografar as caveiras que embelezam os altares nestes dias, mas que Weston vê tão macabras.


Manuel Alvarez Bravo, La fábrica de calaveras, 1933


Manuel Alvarez Bravo, Día de todos muertos, 1933

Quando uma pessoa está sempre atenta à realidade encontra nela tudo o que é fantástico” diz Alvarez Bravo, e em Parábola óptica, a sua fotografia mais conhecida, os reflexos dos olhos na montra continuam a causar uma intrigante surpresa, como causou ao seu autor quando a imprimiu pela primeira vez em 1931.


Manuel Alvarez Bravo, Parábola óptica, 1931

No mundo real, na vitrina de um oculista, que curiosamente tem o nome de SPIRITO, Alvarez Bravo encontrou o fantástico - uma imagem com um poder que o fez imprimir também em reverso tal como os mistérios da dualidade vida - morte.


Manuel Alvarez Bravo, Parábola óptica, 1931

Analogias semelhantes desta dualidade encontramos em Bergman e Freud, em que olhos, sob forma onirica, nos espiam o interior, e são o prenúncio da morte em vida.

Em “Morangos Silvestres”, 1957, os olhos, por debaixo do relógio sem ponteiros,


Fotograma do filme "Morangos Silvestres" de Ingmar Bergman, 1957

que Victor Sjöström vê em sonho, são o prenúncio da sua morte que está próxima.

Em “Interpretação dos sonhos”, 1905, Freud relata um sonho que teve no dia seguinte ao enterro do seu pai : no espelho do barbeiro onde ia regularmente viu reflectido em caracteres tipográficos bem visíveis: “É favor fechar os olhos”, enunciado este que trazia outra possibilidade: “É favor fechar um só olho, ou então abrir os dois”.

Nestes primeiros dias de Novembro, os mexicanos, numa dimensão de atemporalidade, contrariando as teorias do macabro, do horripilante, celebram a morte na tentativa de anular o tempo, crendo na continuidade da vida para além da morte.


Manuel Alvarez Bravo, A la mañana siguiente, 1945

A vida e a morte sempre juntas…


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quarta-feira, outubro 29, 2008

Entre a Grécia e a Turquia

Sarkozy, que preside agora à Presidência da União Europeia, veio propor uma cimeira, a realizar no próximo dia 15 de Novembro em Washington para, em conjunto com outros países, se encontrarem soluções que visa uma reforma do sistema financeiro internacional. Dos países convidados, para além dos óbvios que constituem o G8 e o chamado BRIC, a Turquia estará representada em Washington. O voluntarismo de Sarkozy, já irrita muitos europeus, nomeadamente o nosso vizinho Zapatero, que não se conforma por não estar incluído na lista de participantes. Por cá, não ouvi nada sobre o assunto.


Nikos Markou, Grécia, c.1983

No seu livro “Testemunho” o actual presidente francês é muito claro em relação ao alargamento da Turquia na UE : “A ideia da Turquia mataria a própria ideia de integração europeia. A entrada da Turquia transformaria a Europa numa zona de comércio livre com uma política de concorrência. Enterraria permanentemente o objectivo da UE como potência global, enterraria as políticas comuns e a democracia europeia”.

Pouco tempo depois de ser eleito, a 23 de Outubro de 2007, Sarkozy, em Tânger, desenvolvia uma das ideias do seu programa eleitoral - a de criar uma União Mediterrânica, com o intuito de tornar esta zona numa das mais ricas do mundo.


Nikos Markou, Grécia, 2003-2008

Ver aqui um interessante site como o mediterrâneo foi ocupado ao longo dos séculos).

Desde os países da UE sem fachada para o mar mediterrânico à Turquia, o discurso de Sarkozy em Marrocos foi alvo de duras críticas. No que respeita aos turcos, estes viram nesta União uma intenção de alternativa à sua entrada na UE.
Em 1959, o governo turco expressou formalmente o desejo de se associar à Comunidade Europeia. No mesmo ano, o governo de Atenas efectuava a mesma diligência.


Nikos Markou, Atenas, 2003-2008

Em 1981, a Grécia tornou-se o décimo membro da CEE enquanto a Turquia continua em negociações.


Nikos Markou, Grécia, 2003-2008

A Grécia é um dos países, que durante todos estes anos faz campanha contra a adesão da Turquia à Europa, e não é de estranhar atendendo às seculares divisões entre estas duas nações.


Nikos Markou, Grécia, 2003-2008

Em 1922, com a derrota da Turquia na Primeira Guerra Mundial, o império otomano, desmoronava-se sendo substituído por um Estado liderado por Kemal Ataturk. Os gregos que viviam há milénios na Península da Anatólia, a região como referem “onde o sol se ergue”, eram expulsos pelas tropas de Ataturk. Mas sem navios, acabaram por se refugiar nas ilhas mais próximas do litoral anatólio, que à época eram ocupadas por italianos.


Nikos Markou, 2003-2008

Em 1947, pelo Tratado de Paris, estas ilhas eram cedidas à Grécia, por estarem povoadas sobretudo por gregos. Durante um ano, entre Julho de 2006 e Julho de 2007, Paris Petridis, que juntamente com Nikos Markou fazem parte de uma nova geraçao de fotógrafos gregos, foi regularmente a Istambul, fotografar as escolas gregas, fundadas ainda na tradição de Bizâncio, o período de difusão do Helenismo.


Paris Petridis, Escolas Gregas, Istambul, 2006-07


Paris Petridis, Escolas Gregas, Istambul, 2006-07


Paris Petridis, Escolas Gregas, Istambul, 2006-07


Paris Petridis, Escolas Gregas, Istambul, 2006-07

Agora, as escolas que Petridis fotografou são as únicas que persistem na antiga cidade de Bizâncio, e as únicas onde se ensina o Grego na Península da Anatólia. Para o fotógrafo, este trabalho “foi como confrontar um traumatismo histórico”.

Embora a passagem seja estreita entre o litoral turco e as ilhas gregas do mar Egeu, mar pouco profundo,


Nikos Markou, 2003-2008

cujas ilhas resultaram da acção relativamente recente de dobras geológicas mais profundas, as divisões entre os dois países subsistem, porque a Grécia quer alargar os limites das suas águas territoriais de 6 para 12 milhas marítimas, como fizeram os outros Estados membros. A Turquia opõem-se veementemente e propôs ao Tribunal Internacional de Justiça um novo traçado das águas internacionais turcas que avançaria entre as ilhas nos estreitos maiores. Mas o grande desenvolvimento das actividades turísticas na costa turca do mar Egeu, incitou o governo de Ankara a evitar confrontos com os Gregos das ilhas em frente.


Nikos Markou, 2003-2008

Para além da geografia singular que a Turquia ocupa, entre o Mediterrâneo Oriental o Mar Negro e o Médio Oriente, o grande oleoduto Baku, Tbilissi Ceyhan, vulgo BTC, atravessa mais de metade do território turco. Com as reformas de Atartuk, a Turquia é hoje o único Estado oficialmente laico no seio do mundo muçulmano.

Os sucessivos adiamentos, desde há três décadas, da candidatura da Turquia à Comunidade Europeia, está a provocar na opinião pública turca uma grande oposição à Europa, por se sentirem vexados pelas sucessivas recusas de que o país tem sido alvo. As contínuas reticências da Europa, que não consegue tomar uma posição, estão a criar um barril de pólvora e um sério debate geopolítico que diz respeito às relações da UE com os países do Médio Oriente.


Nikos Markou,2003-2008

Será que Sarkozy, que se desdobra em reunir cimeiras para concertar o Mundo, conseguirá resolver um dos assuntos mais importantes da Europa?


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sábado, outubro 25, 2008

Quem somos nós?

Quinta-feira passada, numa audição do Congresso, Alan Greenspan, reconheceu que falhou na regulação do sistema financeiro dos Estados Unidos. Fervoroso defensor do mercado livre admitiu: “Cometi um erro ao confiar que o livre mercado pode regular-se a si próprio sem a supervisão da administração”. Com a crise terrível que desabou sobre o mundo, ninguém lhe perdoa.


Lars Tunbjörk, Stockbroker, Tokyo, 1999

Greenspan acreditou na visão cibernética, que no auge dos anos sessenta, proclamava que qualquer sistema está ameaçado pela desordem, mas da qual ao mesmo tempo se alimenta.


Lars Tunbjörk, Lawyer's Office, New York, 1997

Para os cibernéticos, perante uma crise, o sistema desencadearia novas soluções para ultrapassa-la, e a desordem, que chamaram de enriquecedora, era vista como a força capaz de transformar e inovar. A cibernética agrupava os mesmos princípios organizacionais, quer se tratasse de células, máquinas artificiais ou o homem e Greenspan confiou também, que a máquina financeira, mesmo perante o maior caos se auto regularia. Ninguém prestou atenção ao matemático Von Neuman (1966), que no final da sua vida chamava a atenção para as diferenças de organização entre um organismo vivo, por mais elementar que seja, e a máquina artificial, que uma vez constituída não pode senão degenerar, ao contrário do organismo vivo.
Na actualidade, máquina e homem, parecem um só.


Lars Tunbjörk, Computer Company, Tokyo, 1996

Como nos diz a ciência, um organismo complexo como o homem, tolerará só uma certa parte de desordem por muito automatizado que ele esteja. Quando células proliferam de forma descontrolada e vírus inimigos penetram no seu interior, o sistema imunológico, a partir de um certo limiar de desordem, entra em funcionamento para restabelecer a ordem, reprimindo a desordem interna e destruindo o desorganizador externo por intermédio da produção de anti-corpos. Mas por vezes a desordem atinge uma tal complexidade, que nem mesmo os anti-corpos salvam o indivíduo.

Em 1971, com um défice crescente e uma guerra dispendiosa no Vietname, Richard Nixon, acabava com o sistema de Bretton Woods. A livre flutuação do dólar teve como consequência imediata nas empresas o aparecimento de um novo risco – o risco cambial. No ano seguinte, a Bolsa de Mercadorias de Chicago criava o primeiro sistema de negociação de futuros cambiais, que permitia às empresas, tal como o sistema imunológico dos organismos vivos, eliminarem o risco. Seguiram-se outras estratégias, baseadas em fórmulas cada vez mais complexas, como a fórmula de Black-Scholes, que ao determinar a volatilidade de um activo, permitia aos investidores através do pagamento de um prémio estabelecerem um patamar de perca sobre esse mesmo activo. No virar do século, com a revolução nas tecnologias de informação, TI,


Lars Tunbjörk, Bank Tokyo, 1999

quem quisesse, no seu computador ligado à rede, podia negociar neste mercado que se tornou ainda mais global. Tal como os vírus inimigos que penetram nos organismos vivos, especuladores e políticos, com estratégias cada vez mais sofisticadas, imunizaram-se aos anti-copos do sistema durante algum tempo, mas seguiu-se a degeneração - a actual crise mundial.

Nos anos sessenta o homem via o comportamento animal como regido unicamente por reacções automáticas ou reflexas que tinham por função salvaguardar a sobrevivência e a reprodução. A cibernética, ao quebrar as barreiras entre as ciências, influenciou à época a Etologia que modificou essa ideia do homem. Konrad Lorenz, (1903-1989), comparava o comportamento humano ao comportamento animal, ao demonstrar que na vida animal o rito é um comportamento comunicacional que transmite uma mensagem com o fim de obter uma resposta. Lorenz explicava também, que em condições perturbadoras o animal reagia repetindo comportamentos rituais,


Lars Tunbjörk,Construction Company,Tokyo, 1999

desfasados, trabalhando em seco, e evidentemente sem resposta.


Lars Tunbjörk,Lawyer's Office, New York, 1997

Durante vários anos, 1994-99, Lars Tunbjörk, fotografou o homem em escritórios, no seu ambiente de trabalho. Japão, Estados Unidos e Suécia, onde nasceu, foram as cidades escolhidas para a sua série “Offices” (2001), que nos revelam a claustrofobia da sociedade de serviços. Lorenz, se ainda fosse vivo, veria nestas fotografias evidências, de que o rito comunicacional do animal (namoro, acolhimento, apaziguamento, amizade…), não são afinal comparáveis ao rito comunicacional do homem, pelo menos enquanto este se encontra no seu local de trabalho. Isolado, completamente absorvido no que faz,


Lars Tunbjörk,Food Industry, Tokyo, 1996


Lars Tunbjörk,Accounting Firm, New York, 1997

será difícil a Bobby soprar as velas com os colegas.


Lars Tunbjörk,Stockbroker, New York, 1997

Trabalhando em espaços homogeneizados, todos eles iguais,


Lars Tunbjörk,Software Company, New York, 1997


Lars Tunbjörk,Social Insurance Office, Stockholm, 1994


Lars Tunbjörk,Bank, Sioux Falls,New York, 1998

parece evidente, que muitas das suas aptidões se atrofiaram em benefício da especialização. Lorenz olharia para estas fotografias, como o homem já olhou para o animal – um organismo com comportamentos regidos unicamente por reacções automáticas ou reflexas para salvaguardar a sua sobrevivência.


Lars Tunbjörk,Stockholm, 1994


Lars Tunbjörk,Stock Brokerage, Tokyo, 1996

Alan Greenspan entendia que a auto-regulação financeira funcionaria porque os administradores teriam acima de tudo como objectivo defender os accionistas e os Bancos onde trabalhavam. Greenspan enganou-se porque não previu os riscos comportamentais.

Só nos resta então esperar, que na desordem em que o mundo actual se encontra, o homem seja ainda capaz de transformar e inovar este mundo num mundo melhor.



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