segunda-feira, setembro 15, 2008

De regresso às aulas

O recreio acabou, é hora dos alunos regressam às aulas, mas para o governo a hora de recreio parece não ter fim - ou a campainha avariou ou os políticos ensurdeceram de vez.


Pedro Letria, Sala 222, férias de Verão, Colégio Campolide, do livro Inventário, 2003

Os jornais voltaram à carga com o vergonhoso facilitismo dos exames de matemática do último ano lectivo. Ao governo o que interessa é poder agora dizer que foi o ano, num historial de dez, com o mais baixo número de chumbos a esta disciplina.
Surpreende não só a falta de honestidade como a falta de visão. Será que o governo não entende que ao facilitar, em lugar de exigir, não prepara os jovens para os novos desafios e mudanças do mundo actual?

Os políticos não gostam que se lhes diga a verdade do que está a acontecer, porque eles próprios não sabem o que está realmente a acontecer, e por isso só ouvem aquilo que conseguem perceber, e a campainha do recreio bem pode tocar que eles, sem a mais pequena ideia do que se passa a nível mundial, não a ouvem e insistem em atrair investimentos promovendo Portugal como o país da mão-de-obra barata em lugar de o promover como o país da inovação. A recente descoberta de dispositivos, como o vidro ou uma simples folha de papel de acetato,


Pedro Letria, Aula de História Económica, sala 301, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

possibilitarem a produção de ecrãs transparentes, pela equipe de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, coordenada por Elvira Fortunato, é a ponta de um iceberg que está longe de ser explorada. Não é mais importante usar bem os recursos que ainda não saíram do país? A Samsung, ao contrário não perde tempo e já assinou um contrato de parceria com a equipa de investigadores para poder desenvolver estes dispositivos. O capital não se movimenta pelo mundo apenas em busca de mão-de-obra barata e os empregos estão a ir para o lugar onde está a força laboral mais qualificada. Onde surgir a inovação estarão os melhores empregos,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

que irão por sua vez despoletar mais empregos e melhor nível de vida e não é preparando os alunos para o facilitismo que Portugal, país sem recursos naturais, vai conseguir competir num mundo que se globalizou. Conseguir formar pessoas nas indústrias do futuro, é sem dúvida, a nossa grande mais valia, e o governo em lugar de gastar dinheiro em projectos propagandistas deveria investir na nossa massa cinzenta.


Pedro Letria, Introdução à Macroeconomia, Auditório A14, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Felizmente Portugal também teve visionários, que em momentos chave, souberam inovar e reformar o nosso sistema educativo e investiram à séria na nossa massa cinzenta e porque não relembra-los através da fotografia?

Em 1993, por ocasião do cinquentenário do falecimento de Duarte Pacheco, o Instituto Superior Técnico, I.S.T., encomendou ao fotógrafo Augusto Alves da Silva, um projecto fotográfico sobre a instituição.
Em 2003, por ocasião da comemoração dos vinte cinco anos de existência, a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, FEUNL, encomendou ao fotógrafo Pedro Letria, um projecto fotográfico sobre a instituição.
Ambos os fotógrafos aceitaram a tarefa, ambos publicaram um livro e a ambos foi dada total liberdade para fotografarem.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993


Pedro Letria, Caixa de correio dos professores, Piso 3, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

Abolida a monarquia, 1910, o governo republicano não perdeu tempo em reformar o “anquilosado e caduco” sistema educativo. Se no velho e decadente Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, eram formados engenheiros e economistas, das escolas militares saiam os engenheiros civis e de minas. Ciente das mudanças necessárias, Alfredo Bensaúde, em 1892, elabora um Projecto de Reforma do Ensino Tecnológico. Ignorado pelo monárquicos é a grande aposta de mudança dos republicanos, que lhe dão a oportunidade de pôr à prova as suas ideias inovadoras para a pedagogia e formação tecnológica em Portugal. Tudo se criou de raiz, e em 1911, uma nova escola técnica de grau superior integrava os vários tipos de engenharia – estava criado o Instituto Superior Técnico. Para Bensaúde “a primeira das condições para que uma escola seja boa é possuir um professorado o mais sábio possível”, o que exigia novas formas de recrutamento, e não hesitou em procurar os melhores “no país e se necessário no estrangeiro”. Bensaúde, ao contrário do governo actual, interessava-se em cultivar nos alunos a “persistência no trabalho e a faculdade de assimilação”,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

o seu principal inimigo “o nosso culto inconsciente pelo verbalismo”.
O ensino prático e laboratorial era imprescindível: “os alunos deveriam ser treinados na prática oficinal e recuperar fundos vendendo ao exterior os artigos fabricados por eles”,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

estimular a independência do indivíduo à custa do próprio esforço e valorizar a competência profissional, tornou o I.S.T, na escola de prestigio que ainda hoje é.
Bensaúde foi visionário, ao integrar as engenharias numa só escola, ao exigir o ensino de qualidade e ao incutir nos alunos o sentimento de curiosidade.
Na nova escola, as actividades circumescolares não eram menos importantes,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

mas “a obra não está completa enquanto não for convenientemente instalada”. Continuar e completar a obra de Bensaúde foi o que fez Duarte Pacheco, quando ascendeu em 1927, à direcção do Instituto que o formara. Com Pardal Monteiro, arquitectura e engenharia uniram-se harmoniosamente e em 1937, o novo modelo de “campus” universitário estava de pé.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Noutro período conturbado, que se seguiu à Revolução do 25 de Abril de 1974, Alfredo de Sousa, foi outro grande visionário. Fugindo à explosão dos ideais do pós-25 de Abril,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

foi o impulsionador da criação da Faculdade de Economia, que logo congregou à sua volta um conjunto significativo de recém-doutorados em Economia, nos EUA e na Europa, criando a “massa crítica” suficiente para desencadear um processo de profunda renovação do ensino da Economia e Gestão em Portugal.


Pedro Letria, Cúpula, Piso 3, jantar de antigos alunos M.B.A., Palácio Ventura Terra, do livro Inventário, 2003

Com Alfredo de Sousa, os programas de Doutoramento e Mestrado em Economia e do MBA foram pioneiros em Portugal.


Pedro Letria, Sala de aula de M.B.A., Palácio Ventura Terra, do livro Inventário, 2003

Ao invés do novo modelo de “campus” universitário do I.S.T, os edifícios, que Letria fotografou, revelam-nos, que a Escola funciona em edifícios históricos.


Pedro Letria, escadaria e entrada do Salão Nobre, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

Apostando sempre na internacionalização, hoje os alunos que se formam e partem para trabalhar no centro financeiro de Londres, são vistos como dos melhores.

Como tudo na vida, o I.S.T, precisou de se transformar para dar resposta às novas exigências da investigação científica. Em 1993, duas novas torres são construídas dentro do seu “campus” para albergar as novas exigências da ciência.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Alves da Silva foi para lá que olhou com insistência, alternando as suas imagens entre o esforço dos estudantes


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

e o esforço dos trabalhadores empoleirados em vigas e guindastes.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Na Faculdade de Economia, Letria olha com insistência para os jantares dos antigos alunos do MBA, alternando as suas imagens entre o esforço dos estudantes


Pedro Letria, Sala 203, laboratório de micro-computadores, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

e os momentos de convívio.


Pedro Letria, Sala de jantar do Palácio Ventura Terra, jantar de antigos alunos do M.B.A., do livro Inventário, 2003

Duas formas de estar, que distinguem engenheiros e economistas.

Agora vivemos um outro momento chave, a hora de recreio acabou, e é imperativo que todos regressemos ao trabalho.


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quarta-feira, setembro 10, 2008

"Detroit Photos" de Stan Douglas

É impressionante como o “guru” das obrigações, Bill Gross, influencia o poder político do país que ainda lidera a economia mundial. No site da Pimco, Bill Gross escreveu que o governo “must open up the balance sheet of the U.S. Treasury to support Fannie Mae and Freddie Mac...”. No dia seguinte, sexta-feira, os mercados, perante tal notícia caíram a pique. Domingo, Henry Paulson, o Secretário de Estado do Tesouro americano apressou-se a anunciar a nacionalização dos dois bancos especializados no crédito à habitação. Segunda-feira, as bolsas abriram eufóricas, festejavam a intervenção do Estado, e todos os índices mundiais registaram ganhos acentuados. Todos concordaram com a operação que “era inevitável”, Bill Gross sentiu-se certamente aliviado, mas a euforia foi sol de pouca dura.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Para muitos analistas a crise vai continuar - o excesso de imóveis que existem no mercado norte-americano ainda levará dois anos até que seja absorvido, e novamente regressamos à devassidão dos subúrbios na América.

Quando em 1997 passeava ao largo do rio Detroit, Stan Douglas ficou espantado com o que viu: "I'd never seen anything like that before," como recorda mais tarde: "That" was the city's scarred downtown area, where majestic old Beaux-Arts skyscrapers preside over what has become a legendary urban wasteland.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Since the riots of 1967, Detroit has been the scene of ongoing urban decay, with disappearing auto-industry jobs, white flight to the suburbs and a macabre annual "Devil's Night" arson ritual all marking stages in the city's decline”.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Durante dezoito meses, Douglas fotografa a cidade e os subúrbios abandonados.

Detroit foi fundada em 1701 pelo francês Antoine de la Mothe Cadillac, e o oficial, que vivia da agricultura, estava longe de saber que Cadillac se tornaria, dois séculos mais tarde num dos símbolos da indústria americana.

Em 1896, Henry Ford construía em Detroit a primeira fábrica de automóveis. No virar do século, os irmãos Dodge, Packard e Walter Chrysler, elegeram-na também como o local para instalarem as suas fábricas, a localização, ao lado dos Grandes Lagos, facilitava o transporte.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

De 1900 a 1930, Detroit passou dos 300 000 habitantes para 1 800 000. Se a cidade se transformava na capital do automóvel, o automóvel tornava-se na maior indústria do país. Vingaram, dos mais de 200 fabricantes instalados, os que souberam inovar e que eficientemente produziam em massa, nas suas linhas de montagem os carros que invadiram o país: Ford, Chrysler e General Motors. Com razão, chamaram a Detroit, Motor City. Nos anos 60, com o advento dos subsídios às hipotecas e à construção de auto-estradas,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

nasceram os subúrbios que Douglas fotografou. Para lá mudaram-se as famílias brancas, que abandonaram a cidade, deixando para trás, uma cidade segregada.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Não tardou, que os subúrbios delimitados por fronteiras rigorosamente seleccionadas em função da raça e da classe se transformassem em verdadeiros pólos de conflito, como as manifestações de 1967, que só seriam ultrapassadas em violência pelas manifestações de 1992 em Los Angeles. Nos anos 1970, com os embargos do petróleo a indústria automóvel caiu, e nos anos 1980, o Japão tecnológico que construía Toyotas e Hondas mais eficientes, invadiram a América. Os carros americanos, demasiado grandes e gulosos em gasolina, sofriam um novo revés. Consequentemente o desemprego alastrou e com ele o abandono de Detroit e dos seus subúrbios.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Nos anos 90, quando Douglas fotografou Detroit, a baixa da cidade, abandonada e vazia chamava o crime. Se os arranha-céus art déco,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

cuja grandiosidade arquitectural encantaram Le Corbusier e Erich Mendelsohn parecem agora habitados por fantasmas, os cinemas, tiveram pior sorte e transformaram-se em garagens.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Em 2004 - a machadada final na indústria automóvel que deixou definitivamente a cidade.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Ontário substitui agora Detroit. Ao invés do que tem sucedido na Europa, não foi a baixa de salários que fez mover os fabricantes de automóveis para o Canadá, a razão é outra, mas também simples – o sistema de saúde. Na América os patrões pagam às entidades privadas 6,500 dólares em assistência médica por cada trabalhador, no Canadá, pagam ao Estado, 800 dólares pela mesma assistência. Isto significa que o sistema de saúde privado na América aumentou a tal ponto, que “it is not low wages that employers are looking for but smart benefits”.

Competitividade, dinamismo e inovação que sempre caracterizaram este país de imigrantes, parece estar a esgotar-se.
A leste do que se passa à sua volta,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Washington mostra poucos sinais de reorientar a sua política para os novos desafios da globalização, e se os tentáculos do Estado mais liberal engoliram agora a Fannie Mae e a Freddie Mac, em relação ao sistema de saúde os políticos continuam fechados e renitentes em aprender com os outros e o que sabem dizer aos eleitores: “health-care systems is to be thankful for their own”.

Amanhã, 11 de Setembro, faz sete anos que Mohammed Atta morreu ao embater com o avião que pilotava na primeira Torre Gémea do World Trade Center. A América não pode deixar que o FBI, a CIA e a Segurança Nacional, que zelam para manter fora do país o próximo Mohammed, também exclua o próximo Sergey Brin, co-fundador da Google e nascido na Rússia.

outros sites sobre Detroit aqui e aqui



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sexta-feira, setembro 05, 2008

Atrás da Estação de São Lázaro


Henri Cartier-Bresson, Derrière la Gare Saint-Lazare, Paris, 1932

A 22 de Agosto celebrou-se o centenário do nascimento do “fotógrafo mais conhecido e idolatrado do mundo” – Henri Cartier-Bresson (1908-2004). A lembrar tal efeméride, Jorge Calado no Expresso, (23 de Agosto), escreveu um artigo relembrando o “mestre”.
Num apontamento, ao lado de uma das imagens mais conhecidas que Cartier-Bresson tirou em Portugal, “Lisbonne, (Woman at Confessional), Mosteiro dos Jerónimos”, 1955, Jorge Calado escreve o seguinte: “H.C.B. não gostou de Portugal. Ou não gostou o suficiente para nos incluir no célebre livro “Les Européens”, publicado em 1955 – o ano da viagem a Portugal. Não admira. Visitou-nos quando desesperávamos com a eternidade do ditador no poder…Não sei quantos rolos fez durante a sua estada portuguesa. Conhece-se uma dúzia de fotografias, mas sei que H.C.B. acabou por reduzir a escolha a duas – a do Castelo de S. Jorge e a dos Jerónimos -, não permitindo a comercialização de mais nenhuma…”.

Filho de uma família rica da burguesia têxtil, Bresson militou sempre à esquerda, mas em Portugal, no país que não gostou, não fotografou só os pobres, como os homens que vestem roupas remendadas no Castelo de S. Jorge, mas foi em Cascais conviva da alta burguesia portuguesa e não deixou de fotografar uma festa privada em casa de uma dessas famílias.


Henri Cartier-Bresson, Cascais, 1955

Em conversa com amigos, não deixei de reparar no espanto, que em alguns causou, Bresson não ter incluído Portugal no “Les Européens”.

É difícil escrever sobre Cartier-Bresson sem cair na repetição, e foi o que aconteceu, quando o artista faleceu a 3 de Agosto de 2004. Jornais e revistas de todo o mundo quiseram homenagear o fotógrafo, mas ler um artigo era ler todos os outros. Contudo, as excepções só confirmam a regra, e a 9 de Outubro desse ano, o jornal Expresso publicou o artigo – “Atrás da Estação de São Lázaro”- de Jorge Calado. Curiosamente um mês depois, Patrick Roegiers, na revista ““Connaissance des Arts”, escolhia também a mesma imagem, esta imagem icónica, considerada obra prima de Bresson, para mostrar “o instante decisivo” do fotógrafo, mas preferiu chamar-lhe – “Place de l’Europe”, o nome original. A Praça da Europa em Paris, onde confluem as ruas de Roma, Viena, Madrid, Constantinopla, Leninegrado, Liège e Londres, fica por detrás da Gare Saint-Lazare. Ao chamar “Derrière la Gare Saint-Lazare, Paris, 1932” em lugar de “Place de l’Europe, Paris, 1932”, a imagem passa a ter outra leitura pois logo percebemos a pressa do homem em primeiro plano, que certamente corre para apanhar um comboio.


Detalhe

Escolher um ou outro nome não é indiferente, refere Calado, (a não ser para os moradores da zona onde a fotografia foi tirada, que conhecem o local como a palma das suas mãos), e aí o meu interesse em comparar as duas análises.

Bresson tinha apenas 24 anos quando tirou esta fotografia. Acabava de regressar da Costa do Marfim e ainda estava longe de chamar “instante decisivo” ao seu talento. Mas se ainda não teorizara sobre o assunto esta sua fotografia, como ambos referem, revela já bem esse instante.

Ambos vêem na fotografia várias fotografias. Roegiers, mais preciso, enquadra-as na própria fotografia,


retirada da "Connaissance des Arts", Novembro 2004

e guia assim o espectador nas várias coincidências que vê.
Ambos ressaltam a intemporalidade e dinamismo da imagem e ambos vêem o reflexo da silhueta na água,


Detalhe

o que fere e nos agarra, - o punctum da imagem como diria Barthes. A sombra na água, é para Roegiers, o que sustenta este homem heróico que corre apressado, em que o salto do sapato, que não chega a pisar a água, torna mágica a fotografia, um segundo depois, e o reflexo era desfeito.
Ambos vêem a silhueta do homem duplicada na bailarina do cartaz preso no gradeamento mais atrás.


Detalhe

Mas nem tudo é geometria e Roegiers, vê o caos emergir em pequenos detalhes – a escada tombada, o monte de gravilha e o semi-círculo do arco, detalhes, como diz, que servem para ordenar a geometria da sua composição.


Detalhe

Calado vê o caos, no montão de pedras ao fundo, encostada às grades e na terra esquecida do primeiro plano junto aos arcos. E agora sim, entra o olhar aguçado de Calado que vai mais longe. E que mais vê ele ?
Na estrutura de suporte na cobertura da gare, em cima, à esquerda,


Detalhe

vê a escada abandonada no charco, e o grande ausente, mas presente, como refere, são os próprios carris do caminho-de-ferro, com as suas travessas de madeira, que a escada caída na água evoca. E o mais curioso, continua, são os cartazes que anunciam um recital Chopin pelo pianista Alexander Brailowsky. Rasgados, falta-lhes a inicial B, ficando RAILOWSKY e “Rail”, quer dizer em inglês carril. Para Calado, o caos organizado desta fotografia, serve bem como metáfora para o estado da Europa. Roegiers pelo contrário vê nesta imagem uma metáfora da condição do homem, que tenta se elevar arriscando a utopia do voo.

“Atrás da Estação de São Lázaro”, o título escolhido por Calado abre as portas à imaginação, em oposição à “Praça da Europa”, o título escolhido por Roegiers.

Relativamente a esta imagem Bresson disse o seguinte: “Une palissade entourait des travaux de voirie. J’ai passé mon objectif par une fente juste au moment où l’homme sautait”, seria portanto difícil nestas circunstâncias que Bresson reparasse em todos estes factos e coincidências. “É preciso ter sorte para intuir relações e coincidências”, e esse é um dos mistérios da fotografia.

Se Cartier-Bresson tivesse percebido o olhar aguçado do português, talvez ignorasse o regime do ditador e incluísse Portugal no célebre livro “Les Européens”.

Nota: se é fácil imaginar um "antes", o homem que com a pressa de apanhar o comboio atalhe pelo largo inundado em vez de dar a volta, também é fácil de imaginar um "depois" deste "instante decisivo", e Bresson confirma, que momentos após a ter tirado, o homem escorregara e se estatelara no charco.

Mais uma outra nota, hoje (11/09/2008), recebi um mail com esta informação fantástica:

"Uma curiosidade sobre o post Atrás da Estação de São Lázaro , a livraria Railowsky de Valencia (especializada em fotografia), da qual o Pepe Font de Mora era dono (com o irmão que continua à frente da loja), tem esse nome exactamente por causa desta fotografia. Na altura eles não sabiam era que o nome estava cortado e era Brailowsky.
Até o lettring e o símbolo são copiados do original. Hoje em dia o ícone está tão sincupado (e até rodaram a figura) que já não se percebe que o homem está a saltar, antigamente percebia-se melhor". Fica então aqui o link desta livraria:

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terça-feira, setembro 02, 2008

Tony Ray-Jones

If you see throught the viewfinder something that you have seen before, don’t take the picture” - é uma das célebres máximas que o genial designer e fotógrafo Alexey Brodovitch repetia constantemente aos seus alunos.

Há dias, passeando até à ponta de uma praia da nossa costa, vi esta fotografia de Tony Ray-Jones:


Tony Ray-Jones, Hotel, Newquay, 1967

Ignorando o que recomendava Brodovitch corri a buscar o telemóvel com câmara. Quando cheguei, era tarde, os pingos de chuva, que entretanto ameaçaram o dia, tinham feito evacuar toda aquela gente, que momentos antes se espalhara pelas rochas. Fica a imagem de Ray-Jones e como não duvido de Brodovitch, foi melhor assim.

Em 1962, Ray-Jones deixa a sua Inglaterra e ruma a Nova Iorque. É aluno de Brodovitch, 1963, no seu famoso Design Laboratory, que ocupava o estúdio de Richard Avedon em Manhattan. Como todos os seus colegas é influenciado pelo génio do mestre que ensinava provocando-os: “I will try to irritate you, to explore you”, insistindo assim que a originalidade de cada um se revelasse.
Na América, numa terra que não era a sua, sem ideia do que fotografar – “sem ideias não há pintura nem desenho”, disse uma vez Delacroix, Ray-Jones procurava no “viewfinder” da sua câmara algo que ainda não tivesse visto. Não era fácil, Robert Frank já publicara “The Americans”, (1959), e em Nova Iorque, nas ruas da Big Apple, jovens fotógrafos acotovelavam-se: Lee Friedland, Joel Meyerowitz, Garry Winogrand, Diane Arbus…Ray-Jones, era mais um “street photographer”, que fotografava a cor e a preto e branco, como o seu grande amigo Meyerowitz. Paradas, festivais, banalidades do dia a dia, eram temas incentivados por Brodovitch. Se Ray-Jones via a América a cores : “I found America a very colour conscious country – colour is very much a part of their culture and they use it in crazy ways”,


Tony Ray-Jones, Shop Window, New York, 1963-64

no preto e branco o fotógrafo viu a diversidade e as contradições de um imenso país, como nesta fotografia,


Tony Ray-Jones, Belle Isle, Detroit, 1965

onde a surpresa e a originalidade, as mãos só se juntam na sombra, surpreendem.

Quando regressa à Inglaterra, 1966, a cor fica na América, mas as contradições americanas aguçaram-lhe o olhar. Se a “Swinging London”, como lhe chamou a revista Time em Abril de 1966, lançava a moda das mini-saias com Mary Quant, os Beatles inovavam na música, e no cinema Antonioni filmava em Londres, 1966, “Blow Up”, na fotografia era o deserto. Como recorda o crítico e historiador Gerry Badger “Ray-Jones had brought some of the new ideas about the médium with him from America”. O humor e a ironia, que encontra na sua terra natal, “burst upon us with the force of a thunderclap”, continua Badger.


Tony Ray-Jones, Picnic, Glyndebourne, 1967

Em 1967, Peter Turner, que só conhecera “The Americans” através de Ray-Jones, lança a revista Creative Camera. No ano seguinte dedica um número ao fotógrafo. Em 1971, será a vez, da hoje célebre Photographer’s Gallery em Londres, arrancar com uma exposição de Ray-Jones. A fotografia regressava ao país que a inventara, e a geração que se seguiu foi influenciada por tal raio de inovação.


Tony Ray-Jones, Isle of Man, 1967


Martin Parr, New Brighton, do livro "The Last Resort", 1983-85


Tony Ray-Jones, Brighton, 1966


Martin Parr, New Brighton, do livro "The Last Resort", 1983-85


Tony Ray-Jones, Beauty Contest, Southport, 1967


Martin Parr, New Brighton, do livro "The Last Resort", 1983-85


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