quarta-feira, agosto 20, 2008

BTC: Bakou - Tbilissi - Ceyhan


Yann Mingard, Cazaquistão, 2005

Ontem a Aliança Atlântica –NATO, avisou Moscovo que as suas tropas estão próximas de Tbilissi e diz que o futuro das relações com a Rússia depende das acções concretas de Dmitri Medvedev honrar as promessas feitas. O Presidente russo, em resposta, afirmou ao seu homólogo francês, Nicolas Sarkozy, que irá cumprir o cessar-fogo entre a Geórgia e a Rússia, assinado Sábado passado, e que irá retirar, entre amanhã e depois, as suas tropas que ainda estão na Geórgia. Claramente os russos dominam as operações e sabem-no bem.

No dia em que inesperadamente o muro de Berlim ruiu, 9 de Novembro de 1989, o porta-voz do ministério dos negócios estrangeiros soviético, M. Guenadi Guerassimov afirmou: “todas estas mudanças vão na boa direcção. Evoluímos de uma Europa dividida do pós-guerra para uma casa comum europeia”. Mas como vimos no post anterior, foi esta abertura a uma política europeia, promovida por Mikhaïl Gorbatchev, que do apogeu o levou ao declínio. Boris Yeltsin, que lhe sucedeu, viu-se à frente de uma República Soviética Russa destituída de poder - a antiga e poderosa União Soviética desmoronara-se e em lugar dezenas de novos Estados proclamavam a sua independência. Se num primeiro momento a divisão militar se manteve entre a Aliança Atlântica, NATO, e o pacto de Varsóvia - não esqueçamos que em vésperas da formação do governo, Agosto de 1989, Lech Walesa afirmava na televisão que a sua Polónia se manteria fiel ao pacto de Varsóvia - meses depois, este mesmo pacto que constituía um dos principais atributos do poder internacional da URSS, e conferia a divisão de um equilíbrio militar mundial, também ele implodia juntamente com todo o sistema ideológico, político e militar da União. O pacto de Varsóvia via-se destituído de todo o seu significado, quer no plano político como militar, e a Rússia de Yeltsin, com as forças armadas num estado de profunda decadência, estava longe de ser uma ameaça para a Europa. Contudo Moscovo ambicionava implicar-se de forma mais directa nas tomadas de decisão intra-europeias, nomeadamente na NATO, OMC…mas a Europa, perante uma Rússia que via decadente virou-lhe as costas e mostrou-se bem ingrata não só com o iniciador da “perestroïka” como com Yeltsin, o seu sucessor, que tentava salvar o país da penúria e pedia desesperadamente ajuda ao Ocidente - um verdadeiro auxílio nunca chegou. Passados uns anos, e com o aumento exponencial do preço das matérias-primas, gás e petróleo, o feitiço virou-se contra o feiticeiro, e hoje é a Europa, presidida por Durão Barroso, que de joelhos implora e mendiga à Rússia o seu gás que tanto precisa, como assistimos na recente cimeira de Julho em Khanti-Mansiik, na Sibéria, nas negociações para um novo pacto estratégico.
Agora é Putin que não está interessado na União Europeia e utiliza o gás e o petróleo, que circulam nos seus oleodutos para mostrar o seu novo poder.

Regressemos à região do Cáucaso, ao Cazaquistão, outra República da antiga URSS, onde em Kashagan, no norte do mar Cáspio se descobriu, em 2000, uma das maiores jazidas petrolíferas do mundo.

Yann Mingard, Mar Cáspio, Cazaquistão, 2005

Debaixo do espesso gelo do mar, a exploração do enorme campo petrolífero já começou.

Yann Mingard, Mar Cáspio, Cazaquistão, 2005

Os desafios técnicos para extrair o ouro negro a mais de 4500 metros de profundidade, nesse mar de gelo, estão a tornar o projecto no mais caro da história do petróleo.

Yann Mingard, Cazaquistão, 2005

O investimento avultado obrigou a Kazmunaygas, a companhia estatal do Cazaquistão, a aliar-se, num consórcio internacional, à Shell, Exxon Mobil, Eni e Inpex. A cidade de Atyrau, a 75 Km do campo de Kashagan, transforma-se de dia para dia,

Yann Mingard,Atyrau,Cazaquistão, 2005


Yann Mingard,Atyrau,Cazaquistão, 2005

e de uma terra sem ninguém é hoje a capital do petróleo do Cazaquistão.

Yann Mingard,Atyrau,Cazaquistão, 2005

Em construção já estão os oleodutos que ligaram Kashagan ao BTC – Bakou – Tbilissi – Ceyhan, o oleoduto alternativo à Rússia e ao Irão.

Yann Mingard,Cazaquistão, 2005

A espera já não é longa, estima-se que em 2010, nesses oleodutos circulem o correspondente a 1,2-1,5 milhões de barris de petróleo por dia.
Tbilissi, na rota do BTC, interessa a todos: à Rússia que quer manter a sua soberania e à União Europeia que se quer ver livre do actual e único vendedor de gás.

O conflito na Geórgia, que já causou milhares de mortes e desalojados está longe de estar resolvido, porque novamente o petróleo irá comandar as operações no terreno.

A Europa, que se julga uma nova potência, continua sem estratégia, sem saber o que quer

Yann Mingard,Cazaquistão, 2005

e quando o muro ruiu, começou o seu drama – onde termina a Europa? onde começa a Ásia?

Agora é a Turquia que mendiga à Europa a sua integração. Os burocratas de Bruxelas prolongam-se em hesitações, e para ganharem tempo pedem ao país alterações à constituição de forma a aproximar a Turquia dos valores culturais europeus. A Turquia fez o trabalho de casa, e em 2003 o parlamento turco aprovou as alterações pedidas. Contudo a Europa continua indecisa, se a Turquia entra para a União Europeia, a Geórgia, a Arménia, o Irão, o Iraque e a Síria serão os novos vizinhos, e a Europa, a que se julga uma nova potência, teme pela sua segurança. Entretanto os turcos, uma nação outrora imperial, sente-se humilhada, e não tarda que à semelhança da Rússia a Europa veja as consequências das suas hesitações…


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sexta-feira, agosto 15, 2008

As ex-Repúblicas da URSS

A 2 de Maio de 1945 as tropas russas entravam em Berlim. No telhado do Reichstag, o fotógrafo que trabalhava para a agência Tass, Evgueni Khaldei,(1917-1997), encenava dias depois, a fotografia que viria a tornar-se no símbolo da derrota do nazismo. A Europa, outrora o centro do Mundo, reduzia-se a um mero enclave entre Washington e Moscovo.

Evgueni Khaldei, Moscovo, c.1950, Col. Ernst Volland

Nesses anos, Moscovo, que vivia fechada do resto do mundo, olhava então para si, para a sua grandeza, tal como Khaldei a fotografou nesses gloriosos anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra.


Evgueni Khaldei, Moscovo, c.1950, Col. Ernst Volland


Evgueni Khaldei, Fábrica de turbinas em Leningrad, 1960, Col. Ernst Volland


Evgueni Khaldei, Moscovo, 1970, Col. Ernst Volland

As duas potências mundiais, URSS e a América, desafiavam-se. A 12 de Abril de 1961, Iouri Gasgarine, o astronauta soviético, efectuava o primeiro voo no espaço, por sua vez, o astronauta americano, Neil Armstrong, pisava pela primeira vez o solo lunar a 20 de Julho de 1969.

Evgueni Khaldei, escultura do astronauta Iouri Gasgarine, 1963, Col. Ernst Volland

A 9 de Novembro de 1989, o muro, que separava a cidade de Berlim ruía – Mikhaïl Gorbatchev, provava, pela tolerância que demonstrava nas negociações da reunificação alemã, não só a sua vontade de por fim à guerra fria como de transformar a Europa numa nova ordem. Espantosamente a Europa, de Thatcher a Mitterand, temeu o colapso da organização estável e familiar que conheciam, e a primeira reacção, depois da euforia dos primeiros dias, foi bloquear a unificação proposta por Helmut Kohl, que percebeu a urgência da unificação do país.

Ao ceder à Alemanha, Gorbachev contribuía para o seu próprio declínio e de facto, uma Alemanha unida no seio da NATO, foi o fim da sua “perestroika”. O rastilho da independência não só se estendeu aos restantes Estados-satélites do Leste europeu, como se alastrou dentro das suas próprias fronteiras. Em 1922, a União Soviética crescera anexando muitos dos territórios estrangeiros à Rússia e estendia-se por uma área com onze fusos horários e dezenas de povos diferentes.

Legenda


A complexidade étnica deste enorme país gerava agora ondas de protesto, sobretudo por questões de língua e nacionalidade, e muitas regiões da Ásia Central e do Cáucaso, reivindicavam a sua independência nacional e a secessão da União. Se o Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão cobriam entre si uma grande parte do território soviético, não eram aos olhos da URSS muito importantes pois apresentavam à época um Produto Interno Bruto (PIB), que no conjunto, não era superior a 9%, o mesmo não se passava com a Ucrânia,

Evgueni Khaldei, Ucrânia, 1966, Col. Ernst Volland

a Geórgia e a suas vizinhas Arménia e Azerbaijão,

Evgueni Khaldei, Azerbaijão, 1959, Col. Ernst Volland

que para além do elevado PIB, (a Ucrânia gerava à época 17% do PIB total) e dos recursos naturais, a localização estratégica, com vias de acesso ao Mar Negro bem como à Europa Central era vista como vital. A posição de Gorbachev, que hesitava entre o ideal e o possível e procurava um federalismo controlado, tornou-se para os seus colegas da linha dura insustentável. A 17 de Agosto de 1991, de férias na Crimeia, o líder Gorbachev era alvo de um golpe de estado. A Europa, também de férias, lia nas primeiras páginas dos jornais que o presidente estava impossibilitado de exercer as suas funções por razões de saúde. Boris Yeltsin, eleito presidente da República Soviética da Rússia, em 12 de Junho de 1991, aproveitou o momento para salvar a situação. Gorbachev, regressava a Moscovo e ultrapassado pela História sem o saber, acabaria por ceder, nos dias seguintes, à declaração de independência de todas estas repúblicas, que seguiram o exemplo das repúblicas do Báltico.

Evgueni Khaldei, estátua de Estaline, canal do Volga em Don, 1952, Col. Ernst Volland

A URSS era agora um Estado oco, vazio de poder e recursos. No dia de Natal desse ano, a bandeira russa, substituiu a insígnia soviética no cimo do Kremlin, a mesma que em 1945 Khaldei fotografara no telhado do Reichstag.

Evgueni Khaldei, Reichtag, Berlim, 1945

No Kremlin, Gorbachev cedia o seu gabinete a Yeltsin.

Um grande Estado industrial – uma superpotência militar – simplesmente caía e embora o desmoronamento da União Soviética não fosse inteiramente desprovido de violência - no Cáucaso rebentaram alguns conflitos - não houve uma guerra, uma revolução sangrenta, a explosão do barril de pólvora era adiado.

Agora o cessar-fogo na região da Geórgia está muito longe da paz desejável, e não é o futuro das diferentes etnias das regiões separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia que preocupa os políticos, mas a localização estratégica destas regiões, mas isso veremos no próximo post.


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sábado, agosto 09, 2008

Airbus A380


Mark Power, da série Airbus A380, 2005

Ontem testemunhámos, ao ver a abertura dos Jogos Olímpicos na China, a uma libertação louca de energia que foi gerada ao longo de anos de aspirações reprimidas. Os chineses estão orgulhosos do seu país, e têm razão para o estar. Num curto espaço de tempo a China, passou de um país economicamente fechado e pobre, para uma economia aberta e em ligação com o mundo. Há poucos anos atrás, a população que vivia nas cidades nem telefone tinha em casa. Agora, a nova geração, ultrapassou as comunicações por cabo e passaram directamente para os telemóveis e Internet sem fios. Tudo acontece tão rapidamente que a ligação com o mundo parece irreversível.

No final do século XX o mundo económico global abrangia a América do Norte a Europa Ocidental e o Japão, enquanto a Índia, China, Rússia e Europa de Leste caminhavam para uma economia de mercado. Com o virar do século, a população total deste mundo económico global, que participava nas trocas e no comércio internacional,

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

passou dos 2,5 mil milhões de pessoas para os seis mil milhões. Se há precisamente dez anos os índices BSE Sensex da Índia e o Shanghai 180 da China ficavam imunes ao colapso das bolsas mundiais, ontem, no dia da abertura dos jogos, o índice Shanghai 180 fechava com um perca de 4,67% que soma aos 50% de quebra desde o inicio do ano. Nenhum mercado fica agora imune ao que se passa no mundo e os investidores antecipam, depois de sete anos esfusiantes, de uma quebra na produção. A crescente capacidade de efectuar transacções e correr riscos em qualquer parte do mundo criou uma economia verdadeiramente global, e hoje, não são só as bolsas de valores que se globalizaram mas o mundo.
Contudo a velocidade estonteante como tudo está a mudar destabilizou o planeta, que agora não sabe como enfrentar tão grandes desafios.

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

Nos anos de transição, os países em vias de desenvolvimento inundaram o mercado com uma mão-de-obra barata, e na Europa, muitas fábricas encerraram e deslocaram-se para esses locais.

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

As multinacionais cujo objectivo é criarem uma empresa sustentável, ultrapassavam os interesses do Estado-nação onde estavam sediadas, e os políticos europeus, alheados ao que se passava, foram apanhados desprevenidos. Olharam e viram na globalização, não um desafio, mas um mal a eliminar.
A perspectiva e predisposição dos políticos é extremamente importante na configuração daquilo que vêem e não vêem, e é isso que ajuda a explicar porque não deram conta que algo importante estava a acontecer no mundo.

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

Mark Power, quando aceitou fotografar o projecto de construção do maior avião comercial, o Airbus A380, defrontou-se com o problema de produção das várias peças em diferentes locais geográficos. A fuselagem foi feita na Alemanha e na França,

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

a cauda em Espanha,

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

as asas no País de Gales,

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

e o resto, que é enorme,

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

em pequenas fábricas espalhadas pela Holanda, Bélgica e Itália. Mas certas partes do avião eram tão grandes, que não podiam ser transportadas pelos transportadores aéreos e marítimos existentes. Foi então necessário, construir em Xangai, um navio – Ville de Bordeaux, que recolheu de porto em porto, todas as partes do avião e transportou-as até Paulliac perto de Bordéus.

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

Daí seguiram até o hangar de Toulouse,

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

onde se procedeu finalmente à montagem. No ano em que terminou a construção do A380, 2005, o japonês, Glen Fukushima, que aceitara o lugar de presidente de operações no Japão via a empresa nestes termos: “Já não existe qualquer correlação entre a nacionalidade dos executivos de uma empresa global, a localização geográfica da sede da empresa e o mercado onde os seus executivos de topo estão a realizar os seus negócios mais importantes,…estou a fazer algo de novo e diferente que reflecte o tempo em que vivemos e que desafia as categorias nacionais muito arrumadinhas”.

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

A Boeing, a grande concorrente da Airbus, há anos que recorre a engenheiros e cientistas russos de forma a tirar partido dos seus conhecimentos periciais em aerodinâmica e novas ligas para aviões. Agora, estes engenheiros russos ajudam a empresa aeronáutica a desenhar a nova geração de aviões de passageiros e para isso, abriram em Moscovo um gabinete de design de engenharia aeronáutica. Os engenheiros russos colaboram, assistidos por computadores, no design de aviões com os seus colegas da Boeing em Seattle e no Kansas. Utilizando os cabos de fibra óptica e software aeronáutico, os engenheiros enviam os seus fluxos de trabalho da Rússia para a América e vice versa.

Todo este movimento de recrutamento global tem como objectivo acelerar e tornar os aviões o mais barato possível e conseguir sobreviver à concorrência, na Airbus e na Boeing ninguém está a dormir…

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

Nos dias de hoje identificar o país de origem de uma empresa é cada vez mais difícil.
Será a Airbus uma empresa francesa? ou será que a Airbus se sente mais ligada ao local onde se fabricam os motores? onde se desenham as asas?...

São muitas as multinacionais que ainda hoje procuram a mão-de-obra barata da China, onde nas cadeias de produção fabricam parte do produto final. Os milhares de chineses que trabalham nessas cadeias são mal pagos, pois na China fica pouco mais que 3% da mais valia total, mas certamente não será por muito tempo, o “made in China” das cadeias de produção em breve será lembrado como um período de transição. Os líderes chineses agora preparam-se para colocar a China a desenhar também as asas de aviões, pois sabem que as empresas para se manterem globalmente competitivas precisam de ser inovadoras. Elevar a educação e a formação é hoje uma aposta real na China. Num mundo que se globalizou, ninguém pode dormir descansado, e a China decidiu explorar a massa cinzenta do seu povo, facultando instrução a uma fatia alargada da sua população.

Em Portugal, centenas de alunos concorrem, através do Erasmus, a outras universidades no intuito de melhorarem os seus conhecimentos, mas o descalabro no ensino básico é gritante e o país não pode adormecer à espera que os chineses venham construir os TGV, pontes e as auto-estradas. É bom que se destape a cortina...

Mark Power, da série Airbus A380, 2004

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quinta-feira, agosto 07, 2008

De regresso à China


Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

Estamos em Agosto de 2008, mas se por engano o leitor entrasse nos posts que escrevi em Agosto de 2007, julgaria estar a ler as notícias da actualidade: poluição de Pequim - verdadeira ameaça aos jogos Olímpicos, aqui; a crise do subprime - nos subúrbios americanos as casas a preço de saldo, aqui; as bolsas de valores comparadas a montanhas russas - subidas e descidas abruptas, aqui ..Num mundo competitivo, globalizado, que não pára de mudar e exige do homem uma adaptação constante, não deixa de ser curioso, que passado um ano, pouco afinal parece ter mudado…


Roland Barthes, em Maio de 1974, aceitava o convite da revista Tel Quel, para uma visita à China. A revista, que desde 1970, apadrinhava a revolução cultural de Mao, enviava, em sinal de solidariedade às mudanças políticas da República Popular, os seus melhores colaboradores.
No dia 24 de Maio, no jornal Le Monde, poucos dias depois de regressar da viagem, Barthes, em oposição ao que antes defendera, criticava a situação política que encontrou na Popular República: “Por detrás dos antigos palácios, dos seus posters,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

dos ballets das crianças, e do 1º Maio, a China não é afinal colorida”.

Quando em 2001, a China conquistou a candidatura aos Jogos Olímpicos, os políticos chineses prometeram melhores direitos humanos, liberdade de imprensa e diminuir os níveis de poluição do país. Os Jogos, que serviriam de palco para demonstrar ao mundo Ocidental a extraordinária vitalidade do país, que é real – edifícios modernos, telemóveis, carros - substituem os bairros,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

telefones,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

bicicletas…

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

acabou por revelar a outra face - um país ainda longe de abraçar a verdadeira liberdade.

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

Desde há uns anos que a fotografia na China está na moda concentrado as atenções por parte de diversos sectores da cena artística estrangeira. Habituados a uma economia de planeamento central, onde nunca tiveram de lidar com o mercado, os artistas chineses vendem agora as suas obras a preços exorbitantes, num mercado que entretanto se globalizou.

Mas nem sempre foi assim, e se no tempo de Mao a fotografia servia estritamente a propaganda política, a abertura do país ao exterior, iniciada por Deng Xiaoping em 1978, veio alterar o panorama fotográfico do país.

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

Em 1979, um grupo de amadores, entre eles Wang Zhiping e Li Xiaobin, mais tarde, líderes da chamada “sheying xinchao”, a (Nova Vaga Fotográfica), reuniam num livro as fotografias da maior manifestação, ( Abril de 1976), junto ao monumento dos heróis do povo, na praça de Tiananmen,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

onde os manifestantes colocaram uma coroa de papel branco, o tradicional símbolo de luto, por Zhou Enlai, o único que poderia ter salvo o país da Revolução Cultural. O regime conhecido pelo “Bando dos Quatro”, liderado pela mulher de Mao, Jiang Qing, reprimiria de forma sangrenta a manifestação, - prenúncio do sangrento 4 de Junho de 1989, na mesma praça de Tiananmen.

Capa do livro People's Mourning, 1979

Para além do livro, o grupo, reunido sob a Sociedade Fotográfica de Abril, abria em Pequim, a 1 de Abril desse ano, (1979), a primeira exposição fotográfica no país: “Natureza, Sociedade e o Homem”. Por dia, duas a três mil pessoas visitava a exposição, que foi um êxito.

Exposição "Nature, Society and Man", Abril 1979

Curiosamente, nesse mesmo Abril de 1979, o fotógrafo espanhol Manel Armengol (n.1949), era convidado por uma revista espanhola a visitar a China. Munido com uma Leica M3,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

com uma única lente de 50mm, não são as chaminés das fábricas a poluírem os céus, imagem de um país industrial e laborioso, de que Mao tanto gostava, que cativam Armengol, mas antes o dia a dia, o quotidiano das pessoas na rua,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

como dirá “olhavam para dentro do carro pelas janelas como vendo seres estranhos, e entrecruzavam olhares entre si; outras vezes aproximaram-se para apalpar a textura do tecido da minha camisa, e também para se certificarem do tipo de cosido à máquina, por cima e por baixo”.

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

Se a partir dos anos 80, os chineses, através das revistas da especialidade, como a Xiandai Sheying, (a mais popular, criada em 1984), viam pela primeira vez a fotografia de Margaret Bourke-White, Robert Frank, Walker Evans, Dorothea Lange…, imagens que influenciariam o grupo da “Nova Vaga Fotográfica”,

Li Jingsong, Don't Forget Children, 1980

na exposição de Pequim, “Natureza, Sociedade e o Homem”, os fotógrafos, ainda virgens das influências ocidentais, fotografaram, tal como Armengol, a beleza das paisagens e o dia a dia das gentes.

Jin Bohong, The Echoing Wall, exp. "Nature, Society and Man", 1979


Wang Miao, Inside and outside the monkey cage, exp."Nature, Society and Man", 1979

Barthes não viu uma China colorida, Armengol, fotografou uma China colorida para a reportagem da revista, amanhã, na inauguração dos Jogos Olímpicos, e no futuro, era bom que a China se revelasse colorida…

Nota: uma exposição de Manel Armengol, “Transições. 70’s em Espanha, Estados Unidos e China”, que reúne uma selecção de fotografias da colecção da Fundación Foto Colectania,poderá ser visitada entre 21 Novembro 2008 - 30 de Janeiro 2009, no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.
Quero desde já agradecer à Filipa Valadares, coordenadora da Fundación Foto Colectania em Portugal ter-me disponibilizado as imagens de Armengol.




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