sexta-feira, outubro 10, 2008

O estado do Mundo

Uma manhã ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigante insecto”. Franz Kafka intuiu e profetizou uma das metamorfoses mais subtis da nossa espécie, a de chegarmos a ser parecidos – mas só parecidos – com seres humanos.
Esvaziado de ética e absorvido pela onda avassaladora do consumo, este homem, só parecido com o ser humano, metamorfoseou também a natureza ao transformá-la, não num “gigante insecto”, mas numa minúscula espécie que corre risco de extinção. Agora a terra, que não habita mas ocupa é parecida – mas só parecida – com a natureza.


Joel Sternfeld, February 28, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts

Na segunda metade do século XVIII, o homem encontrava na natureza um novo Deus. A bondade do homem, assim julgaram, emanava da divindade do mundo natural e o mito do “bom selvagem” têm origem nessa comunhão. Neste contacto com a natureza, contemplação e sentimento passaram a ser valorizados. O homem racional do século XVII, transformava-se agora num homem puro e sensível. A paisagem, que sempre ocupara um lugar baixo na pintura, substituía os temas históricos. O ar livre do campo passou a ser apreciado, e coube aos ingleses - com Constable (1776-1837), impor a paisagem como género sério na pintura.
Com o início da revolução industrial, o homem procurou abrir um espaço próprio na natureza. Em França, com a construção do caminho-de-ferro Paris-Orléans (1842), a floresta de Fontainebleau passou a ficar acessível. Os pintores que para lá foram e que seguiram as lições do inglês, encontraram aí um mostruário excelente de rochedos, regatos e charcos pitorescos. No outro lado do Atlântico os pintores americanos, a Hudson River School, olhava e seguia as lições dos pintores de Barbizon.
Thomas Cole, em Northampton no Massachusetts, no cume do Mount Holyoke, pinta uma vista aérea sublime, ameaçada por um céu aterrador.


Thomas Cole, View from Mount Holyoke, Northampton, Massachusetts, after a thunderstorm, - The Oxbow, 1836

Intuição? profecia do que estaria para vir?

Todos os dias, durante mais de um ano,2006/2007, Joel Sternfeld, fotografou os campos cultivados e baldios de Northampton no Massachusetts, o mesmo local de Thomas Cole, mas onde a natureza sublime dos românticos é agora mera ficção, pois rodeado de auto-estradas e chaminés industriais. A natureza precisa de ser escutada para ser reconhecida, e por mais vezes que lá vá “it’s never enough, there’s so much here”, conta Sternfeld. Nas suas fotografias, as estações do ano, alteradas com as mudanças climáticas, são difíceis de distinguir. Primavera? Verão? Outono?,


Joel Sternfeld, July 29, 2006, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, July 17, 2006, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, March 13, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, November 17, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, April, 19, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, April 20, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, August 19, 2006, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, September, 2006, The East Meadows, Northampton, Massachusetts

só o Inverno, com as águas que ainda gelam, nos situam no tempo.


Joel Sternfeld, March 4, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts


Joel Sternfeld, March 27, 2007, The East Meadows, Northampton, Massachusetts

Na Idade Média, o livro de horas, seguia o ritual das horas litúrgicas dos mosteiros e sete vezes ao dia eram abertos para as orações. Na Idade Média, as actividades do homem eram estruturadas pelos ciclos do tempo - o ciclo lunar, os solstícios e os equinócios eram representados nas iluminuras juntamente com o ciclo dos trabalhos rurais, que ocupavam o homem cada mês do ano.


Livro de horas:"Les très riches heures du Duc de Berry", mês de Outubro, iluminura



Em Outubro, o mês das sementeiras, lavrava-se e semeava-se a terra.

Hoje, sem consciência histórica, e exilando-se do tempo por todas as mudanças que o transformaram, o homem ignora cada vez mais o passado para viver no presente um futuro cada vez mais incerto. O medo e a dúvida invadem agora o homem, que já não consegue controlar o que criou.

Em Oxbow Archive, nome que Sternfeld deu ao trabalho, inspirado no quadro de Cole, não vemos uma natureza agonizante de árvores e rio atrofiados pela poluição circundante, antes, Sternfeld mostra que a sua consciência está desperta no meio de um universo de aparências e é isso que torna este trabalho magnífico - Sternfeld fotografa a metamorfose mais subtil que está a transformar a natureza, Northampton no Massachusetts é agora parecido com a natureza, mas só parecido. Ver claro incluiu a capacidade de espanto e maravilhamento com a beleza que ainda persiste, mesmo num mundo que agora todo ele está virado às avessas.

Uma nova valorização da natureza não se produzirá enquanto o homem não for capaz de metamorfosear o “gigante insecto” em que se transformou novamente num ser humano. Se isso acontecer, e só se isso acontecer, é que a natureza pode ser auxiliada para não desaparecer.




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quarta-feira, outubro 08, 2008

No centro do tufão


Quando em Março deste ano, o banco de Investimento J.P.Morgan comprou o rival Bear Stearns por uma quantia simbólica, escrevi aqui o seguinte : “Hoje vivemos num mundo de exuberância especulativa e continuamos a não querer aprender com os erros do passado. Quem não se lembra, na era Reagan, da explosão de construção que levou depois à falência das caixas económicas e de centenas de bancos de pequena e média dimensão? Os gigantes, como o Citibank e Chase Manhattan também não ficaram imunes e estiveram também em perigo. E a causa, não é a mesma da crise financeira actual, excesso de crédito especulativo concedido?

Hoje, ao ler este artigo:
Oct. 8 (Bloomberg) -- The $700 billion bailout of Wall Street's subprime-tainted securities harkens back to the real- estate bets that sparked the savings and loan crisis in the 1980s. The geography's the same, too.
Then, as now, the government created a taxpayer-funded enterprise to absorb the fallout from bad real-estate investments. A Bloomberg map of the hardest-hit areas shows that, with the exception of Nevada, regions with the highest foreclosure rates also had the most savings-and-loan failures, according to the Federal Deposit Insurance Corp.

ainda fico mais espantada ao verificar que as regiões mais afectadas nos anos 80 pelo colapso das caixas económicas (as instituições americanas de captação de poupanças) - , que financiaram arranha-céus, centros comerciais e milhares de outros projectos que mal conheciam, são agora as mesmas que mais sofrem com o crédito de alto risco – o chamado subprime. É querer ignorar o passado recente…

Este mapa elucida-nos quais as regiões mais afectadas pela crise do subprime:



A pequena cidade Merced na Califórnia, entre São Francisco e Los Angeles é a região do país mais penalizada pela crise, o verdadeiro centro do tufão.

Desde 2000 que Merced viu crescer à sua volta dezenas de subúrbios. Mais de 4.500 novas casas foram construídas à volta de uma cidade com apenas 80.000 habitantes. Porém, nem políticos, construtores, investidores, habitantes questionaram o excesso de construção. Casas de luxo com piscina e três lugares de garagem eram vendidas por 500.000 mil dólares, que agora com a execução das hipotecas valem metade do preço.


Jim Wilson, Merced, Califórnia, 2008

Durante anos viveu-se na ilusão que era fácil enriquecer - em cinco anos as valorizações chegaram a 142%, e poucos foram os que conseguiram resistir a tamanha especulação. Muitos venderam as suas casas e compraram casas melhores, agora sem nenhuma dizem “I was stupid”.

Em Riverstone, estas casas de madeira, já descoloradas pelo sol intenso, estão assim há mais de um ano.


Jim Wilson, Riverstone, Merced,Califórnia, 2008


Jim Wilson, Riverstone, Merced, Califórnia, 2008

Com a crise os construtores desapareceram e nem as acabaram.

Moraga, outro subúrbio, desenhado como um complexo de 500 casas de luxo rodeado por vários campos de jogos, acabou também incompleto,


Jim Wilson, Moraga, Merced, Califórnia, 2008

das 500 casas só 24 se construíram, ainda desabitadas porque ninguém as compra.


Jim Wilson, Moraga, Merced, Califórnia, 2008

Agora o futuro desta região é tão incerto como estas estradas que não levam a lugar nenhum.


Jim Wilson, Merced,Califórnia, 2008


Jim Wilson, Merced,Califórnia, 2008

Em 2000, Robert Polidori fotografou o North Dakota.


Robert Polidori, Street Scene, Downtown Manfred, North Dakota, 2000


Robert Polidori, Main Street, Nekorna, North Dakota, 2000


Robert Polidori, Abandoned Farmhouse, Schaty Farm, Slope County, North Dakota, 2000

Olhar para as fotografias de Polidori ficamos com a sensação de recuar no tempo e presenciar as profundezas da Grande Depressão, parece que o New Deal do Presidente Roosevelt não chegou à região.

No mapa que mostrámos, North Dakota, (ND), pintado a cor-de-rosa mais claro é dos estados menos afectado pela crise actual. Será que o passado longínquo, tão presente na região e na memória dos que a habitam os livrou agora desta recessão?


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segunda-feira, outubro 06, 2008

Na Índia

O fracasso eleitoral, (28/09) da União Social Cristã na Baviera, - os parceiros de coligação do Partido Democrata Cristão de Ângela Merkel, fez-me lembrar a Índia.


Teresa Perdigão, Índia, 2007

A Baviera, uma das regiões mais ricas da Alemanha, quer em matéria económica, inovação e educação, penalizou o partido no poder ao perder a maioria absoluta que dominava desde 1962. Porém, não foi o partido adversário -Partido Social Democrata, que a aproveitou mas pequenas coligações regionais, que agora terão assento no Parlamento Regional. Numa Europa em que União é palavra-chave, a Baviera elege pela primeira vez, uma coligação regional, “eleitores livres”, para o seu Parlamento. Perguntará o leitor, o que tem a Baviera a ver com a exótica Índia?

No livro “O Mundo pós-americano”, do indiano Fareed Zakaria, e editado há dias pela Gradiva, lê-se o seguinte: “Pode-se perceber que a Índia é uma terra estranha não pela observação dos encantadores de serpentes, mas pela dos resultados das suas eleições: em que outro país é que um crescimento económico vibrante tornaria um político impopular? Em 2004, a coligação no poder, liderada pelo PBJ, (Partido Bharatiya Janata) foi a eleições com o vento económico pela popa – o país estava a crescer 9% ao ano. Mas o PBJ perdeu as eleições”.
Alguns explicam, como Thomas Friedman, os resultados desta eleição com a inveja e zanga dos milhões de habitantes da Índia rural – “é como se fosse um gigante enraivecido”, que vê vedado o estilo de vida das pessoas na cidade. Para Zakaria esta explicação não é suficiente, porque “mesmo quando há preocupações legítimas a respeito de desigualdades e de distribuição de riqueza, há sempre uma relação entre crescimento económico robusto e popularidade do governo”. Para o autor só a diversidade da Índia, país com 17 línguas e 22 mil dialectos, é que explica tal resultado, cada região, tal como agora a Baviera, luta pelos seus próprios interesses, independentemente das políticas do governo serem boas ou más. Nos anos 70, Indira Gandhi, tentou dirigir um governo de forma autoritária e centralizada – não só não conseguiu como provocou revoltas violentas em seis regiões. A diversidade tem muitas vantagens não só aumenta a variedade e energia da Índia como impede o país de sucumbir à ditadura.
Autoridade e rigor não se coadunam com a liberdade caótica da democracia indiana e por isso sempre me intrigou, como Chandigarh, a cidade que Le Corbusier dividiu tão organizadamente por sectores, teve êxito no país de “encantador de serpentes” - Brasília, que serve de comparação porque também inspirada na mesma noção de capital ideal, não teve esse sucesso.
Mas as fotografias de Lucien Hervé, o fotógrafo de Corbusier, e Robert Polidori num trabalho recente ajudam a entender


Lucien Hervé, Chandigarh, Secritariat, Índia, 1961


Robert Polidori, Chandigarh, Punjab, Índia, do livro Metropolis

– no meio das quadriculas e rigor geométrico, a liberdade de movimentos.

Nos últimos quinze anos, a Índia e a China, foram os dois países, a nível mundial que mais cresceram, mas a forma como cada um cresceu é de um contraste abissal – dois sistemas políticos, autocracia e democracia, fazem toda a diferença. As infra-estruturas da Índia não se comparam às auto-estradas de oito faixas e às cidades e aeroportos reluzentes da China. O governo de um só partido consegue planear e executar grandes infra-estruturas com uma eficiência sem igual, mesmo que isso desloque milhões de pessoas indefesas. A exuberância das cidades chinesas, com os seus mega projectos construídos em meses, na maioria por multinacionais, impressionam turistas, investidores e fotógrafos. Em contraste na Índia as cidades são confusas, caóticas


Sandra Rocha da Kameraphoto, Bombaim, editada na revista "Volta ao Mundo", Julho 2008

e sem urbanização controlada, mas se alguém quer ir para Bombaim, Nova Deli, Bangalore ou qualquer outra cidade à procura de emprego é livre de o fazer – aos cidadãos chineses o governo exige prova de emprego antes de a habitarem. Com os Jogos Olímpicos o Ocidente testemunhou o novo estilo de vida chinês. Orgulhosos do país, os chineses revelam não estar preocupados se a sua liberdade é condicionada - julgo que a longo prazo os chineses perceberão a diferença.

Na Índia as reformas económicas planeadas há mais de uma década pelo actual primeiro-ministro, Manmohan Singh, demoraram algum tempo até dinamizarem o sector privado, a coluna vertebral do crescimento indiano. Empresas como a Infosys, Tata, Reliance Industries, figuram na revista Forbes, como das maiores no mundo e pertencem a indianos que as gerem eficientemente,


Robert Polidori, Reliance Industries, Jamnagar, Índia, 2008


Robert Polidori, Reliance Industries, Jamnagar, Índia, 2008


Robert Polidori, Reliance Industries, Jamnagar, Índia, 2008


Robert Polidori, Reliance Industries, Jamnagar, Índia, 2008

muito longe das linhas de montagem instaladas pelas multinacionais na China, e que deixam no país só 3% da mais valia total.
A Reliance Industries, do indiano Mukesh Ambani, varia as suas actividades entre refinaria de petróleo, petroquímicos, produção de gás, serviços financeiros e telemóveis. A empresa promete tornar a Índia auto-suficiente em energia nos próximos anos e num projecto arrojado, procura suprimir as diferenças entre os preços do produtor e consumidor em mais de metade.

Nehru não se enganou quando chamou a Bangalore “the city os India’s future”. Se as estradas esburacadas, onde reinam as vacas sagradas,


Jorge Monedero, Bangalore Street Scene, Índia, 2008


Jorge Monedero, Bangalore Street Scene, Índia, 2008

não permitem exportar bens volumosos, software e serviços preferem as estradas de banda larga e rede de fibra óptica de forma a concorrer em tempo real com as outras economias mundiais, as infra-estruturas da Índia são as auto-estradas da Internet.
Bangalore, a Silicon Valley da Índia, frustrou os analistas que viram o fim da globalização no estoiro, em 2001, das empresas de dot-com. A ironia foi o benefício que a Índia retirou desse estoiro, explorando praticamente a custo zero, o cabo de fibra óptica que as empresas de Silicon Valley instalaram. Ao regressarem ao país, (2001), os indianos não cruzaram os braços, empreendedores, tornaram Bangalore na cidade tecnológica e de serviços do século XXI, a que concentra no mundo mais engenheiros informáticos.

O peso da história está em todo o lado e no nosso imaginário, a Índia perdura como um país “encantador de serpentes”. Um Ocidental fotografa a Índia naquilo que vê diferente da sua experiência e inconscientemente procura as imagens que fizeram o país e que guarda em memória - a veneração do sagrado,


Fredric Roberts, Índia, 2004

as cores exóticas,


Fredric Roberts, Índia, 2004


Jorge Monedero, Bangalore, Índia, 2008

o atraso,


Fredric Roberts, Índia, 2004


Teresa Perdigão, Índia, 2007

a pobreza extrema.


Teresa Perdigão, Índia, 2007

Por vezes as memórias deveriam ser apagadas e o fotógrafo deveria viajar como os fotógrafos vitorianos nos primórdios da fotografia


Samuel Bourne, Bajoura, Índia, 1866


Samuel Bourne, Deig, Índia, 1865

- livres de imagens mas em busca da verdadeira descoberta, porque embora devagar a Índia movimenta-se.

Mas a verdadeira ironia está neste provérbio chinês: “A ordem movimenta-se devagar, mas com segurança. A desordem vai sempre apressada”.





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quarta-feira, outubro 01, 2008

Who is society?

A controversa afirmação de Margaret Thatcher: “Who is society? There is no such thing! There are individual men and women and there are families” serve ainda hoje de inspiração.


Markéta Luskacová, Man singing in Brick Lane, 1975

O jovem David Cameron, que colocou o Partido Conservador novamente no centro político, foi o primeiro tory a desafiar Thatcher. No seu discurso, no dia em que era consagrado líder do partido, disse: “Há uma coisa chamada sociedade; só não é a mesma coisa que o Estado”.

Este ano, David Mellor, chamou à exposição que organizou com as fotografias da colecção da Arts Council: “No Such Thing as Society; British Photography 1967-1987” – uma referência clara à frase de Thatcher. A retrospectiva, um documento social da Inglaterra desses anos, testemunha as tensões políticas, económicas e sociais que se seguiram à prosperidade do pós- guerra.



Se a invenção fotográfica do negativo-positivo nasceu na Inglaterra, para o crítico Gerry Badger, os anos 70 representam na fotografia inglesa a raiz da fotografia política, (na pátria de Sua Majestade, é estranho que ninguém se lembre do trabalho pioneiro, feito com intuito reformador, de Thomas Annan (1829-1887), nas ruas de Glasgow). No editorial da revista Camerawork, 1980, lê-se o seguinte em relação aos fotógrafos desta época: “…we think that community photography can actively involve people in social change”.
Em 1987, a frase de Thatcher estava em consonância com a época. O fascínio pelas ambições colectivas da década de 60 davam lugar a uma obsessão com as necessidades pessoais - os jovens estavam agora mais preocupados em arranjar emprego do que mudar o mundo.


Tish Murtha, do livro "Youth Unemployment in the West End Newcastle", 1980-81


Chris Killip, Jarrow Youth, 1976

Chris Killip, no seu livro In Flagrante (1988), onde reúne um conjunto de fotografias tiradas entre 1970/80 escreveu: "This is a subjective book about my time in England. I take what isn’t mine and I cover other people’s live. The photographs can tell you more about me than what they describe”.


Chris Killip, Tyne Pride, 1976

Graham Smith, que fotografou a zona de Newcastle, dizia, um ano antes de Thatcher, 1986, que as suas fotografias “they were not really, you know, documentary…it’s something else, something to do with my own background, with my father. I’m trying to explore myself”.


Graham Smith, South Shiels, 1976


Graham Smith, Blackhill, Consett, Co.Durham, 1977


Graham Smith, John Haydon's Scrap Yard, Newcastle, 1975

Depois de uma época de prosperidade e bem-estar, nos anos setenta, a economia baseada essencialmente na manufactura sofria profundas transformações. As indústrias tradicionais - aço, metalúrgica, minas, têxtil cediam a uma nova economia baseada nos serviços. As fábricas reduziam a mão-de-obra e os operários engrossavam a já enorme taxa de desemprego.
Nas décadas anteriores, os políticos, que chamaram a si o Estado, foram induzidos no erro de cálculo demográfico. Agora que a geração do baby-boom entrava na meia idade os políticos percebiam finalmente que a geração seguinte já não era suficiente para pagar as enormes contas do Estado-providência. A juntar à quebra de natalidade, a elevada inflação, que rondava nesses anos os 25%, comprometia o crescimento económico.

Em 1976, o desemprego grassava na Inglaterra e ultrapassava pela primeira vez, desde a guerra, o milhão. No ano seguinte, os profundos cortes nos gastos públicos, levaram mais 600 mil desempregados a somar ao milhão.


Tish Murtha, do livro "Youth Unemployment in the West End Newcastle", 1980-81

No Inverno seguinte, chamado “Inverno do descontentamento”, era a vez dos sindicatos entraram em greve.


Vanley Burke, "Handsworth from Inside", 1968-82


Paul Trevor, Riot, Notting Hill, London, 1978


Peter Marlow, National Front Steward, Lewisham, August, 1977

Desde os homens do lixo – a cosmopolita Londres enchia-se de lixo que não era recolhido, às enfermeiras, o país paralisava. No governo, James Callaghan, do partido Trabalhista, ficaria conhecido com a resposta a um jornalista quando interrogado sobre a crise, “Crise? What crise?”, que logo os jornais fizeram cabeçalho (carregue aqui e leia o resto do post com música). O governo, que parecia desfasado da realidade era acusado de não conseguir governar e foi obrigado a convocar eleições antecipadas na Primavera de 79. O partido Conservador, com Thatcher à frente, fizera uma campanha apelando à necessidade do rigor económico e correcta administração do dinheiro e os Tories ganharam as eleições. Thatcher, determinada a cumprir com os seus propósitos, logo foi apelidada pelos Soviéticos de “dama de ferro”. Se o célebre confronto, 1984-85, entre o governo e o Sindicato Nacional dos Mineiros, para acabar com as minas ineficientes e subsídios à indústria de carvão,


John Davies, Durham Coalfield, 1983


John Davies, Durham Coalfield, 1983

destruíram a influência pública dos sindicatos britânicos, as privatizações foram a base da sua política económica. Tudo ou quase tudo, desde as firmas e fábricas pequenas, essencialmente na manufactura, aos grandes monopólios, como a British Telecom foram privatizados. Thatcher tornava o seu país economicamente mais eficiente. O Estado deixara de subsidiar empresas sem lucro, geridas, a maior parte, pela inércia burocrática, e a economia melhorou bruscamente. Mas houve zonas industriais que foram extremamente penalizadas como a zona industrial do West Midlands, onde muitas fábricas fecharam.


John Davies, Dismantled Railway Bridge, Accrington, Lancashire, 1986

Muitos dos que perderam emprego nas indústrias, anteriormente subsidiadas pelo Estado, como o aço, minas de carvão, têxteis…nunca mais voltaram a encontrar trabalho e ficaram dependentes do Estado para o resto da vida.


John Davies, Skye Edge Lofts, Sheffield, 1981


John Davies, Wardsend Cemetery, Hillsborough, Sheffield, 1981

O crime e a delinquência subiram, principalmente nessas zonas onde a população ficou enredada em pobreza.

Richard Billingham, a geração que se seguiu e que cresceu nesse ambiente, não precisa de olhar para fora, para a sociedade, em casa fotografa os pais desempregados, que vivem de reformas exíguas.






Richard Billingham, Untitled, 1989-96

o verdadeiro retrato da vida familiar dos que nunca mais conseguiram regressar ao trabalho.

Quando Thatcher, já com o seu sucessor John Major sugeriram que poderiam privatizar o Serviço Nacional de Saúde, o apoio público evaporou-se, acabava o “thatcherismo”.

O jovem David Cameron que em breve disputará eleições com o governo Trabalhista de Gordon Brown, aprendeu bem a lição. Em tom desafiador proclamou “Para mim há uma coisa chamada sociedade”, e se os conservadores querem ganhar “teremos de mudar”. As suas prioridades políticas são agora o bem-estar e a coesão social. Com um filho com paralisia cerebral, Cameron aprendeu como o Serviço Nacional de Saúde tem para ele um valor inestimável, a privatização está fora de causa. Com a crise financeira actual, a economia voltou a dominar. Será que Cameron para vencer a Brown terá de mudar as suas prioridades?



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