quinta-feira, agosto 07, 2008

De regresso à China


Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

Estamos em Agosto de 2008, mas se por engano o leitor entrasse nos posts que escrevi em Agosto de 2007, julgaria estar a ler as notícias da actualidade: poluição de Pequim - verdadeira ameaça aos jogos Olímpicos, aqui; a crise do subprime - nos subúrbios americanos as casas a preço de saldo, aqui; as bolsas de valores comparadas a montanhas russas - subidas e descidas abruptas, aqui ..Num mundo competitivo, globalizado, que não pára de mudar e exige do homem uma adaptação constante, não deixa de ser curioso, que passado um ano, pouco afinal parece ter mudado…


Roland Barthes, em Maio de 1974, aceitava o convite da revista Tel Quel, para uma visita à China. A revista, que desde 1970, apadrinhava a revolução cultural de Mao, enviava, em sinal de solidariedade às mudanças políticas da República Popular, os seus melhores colaboradores.
No dia 24 de Maio, no jornal Le Monde, poucos dias depois de regressar da viagem, Barthes, em oposição ao que antes defendera, criticava a situação política que encontrou na Popular República: “Por detrás dos antigos palácios, dos seus posters,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

dos ballets das crianças, e do 1º Maio, a China não é afinal colorida”.

Quando em 2001, a China conquistou a candidatura aos Jogos Olímpicos, os políticos chineses prometeram melhores direitos humanos, liberdade de imprensa e diminuir os níveis de poluição do país. Os Jogos, que serviriam de palco para demonstrar ao mundo Ocidental a extraordinária vitalidade do país, que é real – edifícios modernos, telemóveis, carros - substituem os bairros,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

telefones,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

bicicletas…

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

acabou por revelar a outra face - um país ainda longe de abraçar a verdadeira liberdade.

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

Desde há uns anos que a fotografia na China está na moda concentrado as atenções por parte de diversos sectores da cena artística estrangeira. Habituados a uma economia de planeamento central, onde nunca tiveram de lidar com o mercado, os artistas chineses vendem agora as suas obras a preços exorbitantes, num mercado que entretanto se globalizou.

Mas nem sempre foi assim, e se no tempo de Mao a fotografia servia estritamente a propaganda política, a abertura do país ao exterior, iniciada por Deng Xiaoping em 1978, veio alterar o panorama fotográfico do país.

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

Em 1979, um grupo de amadores, entre eles Wang Zhiping e Li Xiaobin, mais tarde, líderes da chamada “sheying xinchao”, a (Nova Vaga Fotográfica), reuniam num livro as fotografias da maior manifestação, ( Abril de 1976), junto ao monumento dos heróis do povo, na praça de Tiananmen,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

onde os manifestantes colocaram uma coroa de papel branco, o tradicional símbolo de luto, por Zhou Enlai, o único que poderia ter salvo o país da Revolução Cultural. O regime conhecido pelo “Bando dos Quatro”, liderado pela mulher de Mao, Jiang Qing, reprimiria de forma sangrenta a manifestação, - prenúncio do sangrento 4 de Junho de 1989, na mesma praça de Tiananmen.

Capa do livro People's Mourning, 1979

Para além do livro, o grupo, reunido sob a Sociedade Fotográfica de Abril, abria em Pequim, a 1 de Abril desse ano, (1979), a primeira exposição fotográfica no país: “Natureza, Sociedade e o Homem”. Por dia, duas a três mil pessoas visitava a exposição, que foi um êxito.

Exposição "Nature, Society and Man", Abril 1979

Curiosamente, nesse mesmo Abril de 1979, o fotógrafo espanhol Manel Armengol (n.1949), era convidado por uma revista espanhola a visitar a China. Munido com uma Leica M3,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

com uma única lente de 50mm, não são as chaminés das fábricas a poluírem os céus, imagem de um país industrial e laborioso, de que Mao tanto gostava, que cativam Armengol, mas antes o dia a dia, o quotidiano das pessoas na rua,

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

como dirá “olhavam para dentro do carro pelas janelas como vendo seres estranhos, e entrecruzavam olhares entre si; outras vezes aproximaram-se para apalpar a textura do tecido da minha camisa, e também para se certificarem do tipo de cosido à máquina, por cima e por baixo”.

Manel Armengol, China, Abril, 1979, col.Fundación Foto Colectania

Se a partir dos anos 80, os chineses, através das revistas da especialidade, como a Xiandai Sheying, (a mais popular, criada em 1984), viam pela primeira vez a fotografia de Margaret Bourke-White, Robert Frank, Walker Evans, Dorothea Lange…, imagens que influenciariam o grupo da “Nova Vaga Fotográfica”,

Li Jingsong, Don't Forget Children, 1980

na exposição de Pequim, “Natureza, Sociedade e o Homem”, os fotógrafos, ainda virgens das influências ocidentais, fotografaram, tal como Armengol, a beleza das paisagens e o dia a dia das gentes.

Jin Bohong, The Echoing Wall, exp. "Nature, Society and Man", 1979


Wang Miao, Inside and outside the monkey cage, exp."Nature, Society and Man", 1979

Barthes não viu uma China colorida, Armengol, fotografou uma China colorida para a reportagem da revista, amanhã, na inauguração dos Jogos Olímpicos, e no futuro, era bom que a China se revelasse colorida…

Nota: uma exposição de Manel Armengol, “Transições. 70’s em Espanha, Estados Unidos e China”, que reúne uma selecção de fotografias da colecção da Fundación Foto Colectania,poderá ser visitada entre 21 Novembro 2008 - 30 de Janeiro 2009, no Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa.
Quero desde já agradecer à Filipa Valadares, coordenadora da Fundación Foto Colectania em Portugal ter-me disponibilizado as imagens de Armengol.




Ler mais...

domingo, agosto 03, 2008

"Santa Liberdade"

“Salazar caiu há 40 anos”, foi ontem manchete no semanário “Expresso”. No dia 3 de Agosto de 1968, faz hoje precisamente 40 anos, Salazar no terraço do Forte de Santo António do Estoril, sentou-se numa cadeira de lona, que não aguentando o seu peso, tombou para trás. Ao bater com a cabeça no empedrado do terraço, Salazar não mais recuperaria, vindo a falecer, mais tarde, a 27 de Julho de 1970. Era o início do fim de um Estado autoritário.

Acácio Franco, Salazar depois do acidente, Lisboa, 1969

Nos depoimentos que o jornal recolheu junto de antigos Presidentes da República e primeiros-ministros, José Manuel Durão Barroso, ainda no liceu recorda-se assim: “Tenho uma vaga ideia da operação, com os telejornais, a preto e branco, a dar os boletins médicos diários”, mas já do funeral, 1970, tem uma recordação mais precisa: “Lá em casa, assinava-se a revista ‘Paris-Match’, que publicou uma fotografia que me chocou imenso: o caixão nos Jerónimos, rodeado por dois homens, apresentados como o mais baixo e o mais alto do mundo – um anão branco de Angola e um gigante negro de Moçambique. A legenda era qualquer coisa como “a morte macabra do ditador”. Hoje, no seu gabinete em Bruxelas, Barroso tem pendurado numa das paredes esta fotografia que o marcou.
O fotojornalismo revolucionou o mundo, e o século XX, foi sem dúvida, o século das imagens. Não foram as imagens da guerra do Vietname, publicadas nas revistas, que mudaram a opinião dos americanos?

Life, Fotos von Ronald L. Haeberle, 5/12/1969

Não foi esta reportagem fotográfica na Look, “The president and his son”, que tornou John Kennedy ainda mais popular?



Look, 3/12/1963, "The President and his son",fotos, Stanley Tretick

A 4 de Março de 1880, o New York Daily Graphic reproduzia a primeira fotografia num jornal. Com o virar do século, a invenção de novas técnicas de reprodução, nomeadamente a rotogravura, permitiram que a fotografia ocupasse um lugar central nos jornais e revistas. Agora, mesmo os analfabetos, através das fotografias, podiam acompanhar as notícias do mundo. Em 1949, quando o industrial Jean Prouvost, lança a revista ‘Paris-Match’, muitas eram as revistas que já circulavam pelo mundo: Life (1936), Look (1937), Picture Post (1938)… A televisão ainda não invadira os lares, e a revista ilustrada, com os seus foto-ensaios, era o meio privilegiado de informação. Em Lisboa, situada no extremo sudoeste do continente europeu, num país, onde uma grande maioria da população era ainda analfabeta, a profusão de jornais e revistas estrangeiras que se vendiam nos quiosques de Lisboa surpreendem.

Thurston Hopkins, Lisboa, Portugal, 1950's

Escolher entre a Vogue, Harpers Bazaar, Life, Paris-Match…

Detalhe

não é certamente o que provoca o olhar indeciso desta mulher.

Se a guerra mudara a Europa, tornando-a mais moderna, o Portugal de Salazar resistia à mudança. Na falta de oposição interna a única resistência veio dos militares. Em Janeiro de 1961, o General Humberto Delgado, um dos grandes opositores ao regime de Salazar, iria apoiar, o capitão Henrique Galvão, no sequestro do paquete Santa Maria, o primeiro sequestro político de um transatlântico na história contemporânea.

Paris-Match, Janeiro 1961

O Santa Maria ligava os nossos portos aos portos brasileiros, numa linha regular, que transportava para além de carga, milhares de emigrantes. Mas em Janeiro de 1961, o transatlântico foi fretado para realizar uma excursão turística pelas águas do Caribe, onde embarcaram 552 passageiros, na sua maioria americanos. Galvão e mais um grupo de revolucionários, membros da DRIL (Direcção Revolucionária Ibérica de Libertação), adquiriram vagas para a excursão turística, e na madrugada do dia 22 de Janeiro, o paquete que se dirigia para a Flórida era sequestrado. No plano, o navio deveria dirigir-se a Benguela a fim de ali se juntar à oposição angolana e portuguesa, e proclamar a partir de Angola, um governo democrático no exílio. O plano de rumar a África seria traído, mas a operação mediática contra o regime de Salazar, foi um grande ‘scoop’, que se transformou em assunto de primeira página nos principais jornais do mundo. O ‘Paris-Match’, enviou dois foto jornalistas, que se juntaram ao navio saltando de pára-quedas de um avião.






E na revista, é a história do sequestro através das imagens:














Ao fim de doze dias de negociações, sob um calor tórrido ao largo da costa brasileira, a faixa “Santa Liberdade”, que encobria o verdadeiro nome, era retirada e o paquete rumava a Lisboa, chegando a 17 de Fevereiro ao Cais de Alcântra, novamente com o nome de origem - Santa Maria.

Fototeca do Palácio Foz

Em Portugal, o nº 618 da revista ‘Paris-Match’, com a reportagem: “Santa Maria: L’aventure des derniers corsaires est finie”, era retirado rapidamente de circulação, na mente de Salazar a crítica só era objectiva quando era favorável.

Em 1973, na saída da barra de Lisboa, o Santa Maria sofreu graves avarias. Cancelada a viagem, o transatlântico foi vendido e desmantelado na Formosa.

Hoje, jornais e revistas sofrem com a concorrência feroz da Internet. A generalização da banda larga pulverizou radicalmente os canais de distribuição de informação e a fotografia, através de ferramentas como o Photoshop, deixou de ser garante da verdade. A facilidade de colocar na rede textos, sons e imagens dessacralizou a função dos jornalistas e os blogues alargaram o espectro do debate público. A informação no século XXI alterou-se irremediavelmente. Será que o fotojornalismo conseguirá enfrentar e superar todos estes novos desafios ?

Ler mais...

quinta-feira, julho 31, 2008

Estúdio Mário Novais

Há dias li num jornal que a Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian passava a disponibilizar na Internet, através do Flickr, parte das fotografias da sua colecção de álbuns fotográficos - entre eles a colecção do Estúdio Novais.

Estúdio Mário Novais, Lisboa, Fotografia sem data, ACP

A colecção Novais, foi adquirida na sua totalidade pela Fundação em 1985. Como refere Luis Pavão, responsável pelo tratamento e arquivo da colecção, esta chegou ao Arquivo de Arte da Fundação, e aí permaneceu durante dois anos, tendo sido abertas apenas algumas caixas com o intuito de inspecção. Nessas inspecções detectou-se a presença de negativos em nitrato de celulose, material altamente inflamável. Conscientes então do perigo que esta quantidade de material fechado numa sala sem climatização poderia causar, levaram a Fundação, no início de 1990, a por em marcha todo um processo de tratamento. A digitalização da colecção, que agora podemos consultar via computador, foi logo pensada de início, e se à época o modo digital era quase uma ficção, hoje é o sistema adoptado e vulgarizado nos arquivos. O Estado português, que nos espreme com impostos, bem podia olhar para este exemplo e fazer o mesmo às colecções que guarda a sete chaves.

Mário Novais, (1899-1967), no nº 115 da Avenida da Liberdade, abriria, em 1933, o seu estúdio a que chamou Estúdio Novais. Quando morre, o estúdio passa para os herdeiros que o cedem, com todo o seu espólio, aos dois colaboradores Abílio Barata e Mário Soares que prolongam a actividade por mais uns anos. Em 1982, a venda do espólio fotográfico, surge como solução para os dois colaboradores, que entretanto tiveram que libertar o andar por uma acção de despejo do senhorio. Várias instituições mostraram-se interessadas, entre elas a Fundação Paul Getty de Los Angeles. Deixar que a riqueza patrimonial deste espólio, saísse do país, seria uma perca lamentável, mas felizmente a Fundação Gulbenkian acabou por comprar toda a colecção.

A colecção do estúdio abrange várias décadas (1933-1982) durante as quais fez diversos trabalhos de encomenda quer para o Estado, como a cobertura da famosa Exposição do Mundo Português (1940), em que o escudo e as quinas nacionais, que vemos nesta fotografia,

Mário Novais, Exposição do Mundo Português,Lisboa,1940

nos lembram a marca de fósforos Pátria, caixas sempre presentes nas prateleiras de pedra dos fogões das cozinhas portuguesas, aos institucionais particulares, como o trabalho que executou para o Automóvel Clube Português, onde o icónico VW Carocha, o carro mais popular a seguir à guerra, percorria as avenidas dos novos bairros de Lisboa.

Estúdio Mário Novais, Lisboa, ACP,Fotografia sem data.

Á época, o regime conservador do Estado Novo, presidido por Salazar, materializaria pela mão do Engenheiro Duarte Pacheco, ministro das obras públicas, um novo plano de urbanização para Lisboa, em franco crescimento populacional. O infatigável ministro, planeava e dirigia a construção de liceus,

Estúdio Mário Novais, Liceu Pedro Nunes, Lisboa, Sala de Aula. Fotografia sem data.

Estúdio Mário Novais, Liceu Pedro Nunes, Lisboa, Sala de Ciências Naturais. Fotografia sem data

gares marítimas,

Mário Novais, Gare Marítima, Painel de Almada Negreiros,data aproximada 1943-45

Mário Novais, Gare Marítima, Painel de Almada Negreiros,data aproximada 1943-45

aeroporto, parque florestal de Monsanto, estádio, igrejas,

Estúdio Mário Novais, Igreja de Nossa Senhora de Fátima, Lisboa, Arquitecto P.Pardal Monteiro

bairros,

Estúdio Mário Novais,Lisboa, Fotografia sem data

Instituições de Ensino Superior,

Estúdio Mário Novais, Instituto Superior Técnico, Lisboa

Mário Novais, Instituto Superior Técnico, Lisboa, data aproximada 1936-37

pontes, cinemas…

Estúdio Mário Novais, Cinema S.Jorge, Lisboa, Balcão. Inaugurado em 1950 de acordo com o projecto do arquitecto Fernando Silva

A Praça do Areeiro, riscada pelo arquitecto Cristino da Silva em 1938, tornou-se o símbolo da nova praça do regime. Exclusivamente habitacional, adoptou um severo jogo simétrico de arcarias de pedra, andares de sacada e peitoril, onde no telhado dominavam poderosos torreões.

Estúdio Mário Novais, Lisboa, Fotografia sem data

O carocha, o carro para o povo, tão económico quanto eficiente,

Estúdio Mário Novais, Lisboa, Fotografia sem data

circulava nestas avenidas rectas, sempre o primórdio da linha recta - o estilo em voga, ladeadas de uma arquitectura regrada, vertical e altaneira.

Estúdio Mário Novais, Lisboa, Fotografia sem data

Mas o estúdio, que vivia de trabalhos comerciais e encomendas, soube ser inovador. Se estas fotografias tiradas à noite na Avenida Almirante Reis, surpreendem,

Estúdio Mário Novais, Av Almirante Reis:vistas nocturnas, Lisboa, Fotografia sem data

Estúdio Mário Novais, Av Almirante Reis:vistas nocturnas, Lisboa, Fotografia sem data

mas lembram o “Paris de Nuit" (1933) de Brassäi, outras, como este teatro,

Estúdio Mário Novais, Teatro Politiema, Lisboa, Sala de espectáculos, fotografia sem data

lembram os fotógrafos da actualidade.

Hiroshi Sugimoto, "Theaters", 1978

Bem haja a Fundação Calouste Gulbenkian.


Ler mais...