sexta-feira, setembro 19, 2008

A América de Walker Evans

Muitos são os analistas que comparam a amplitude da actual crise financeira ao “crash” de 1929. Porém há também quem escreva que “a única diferença em relação à Grande Depressão dos anos 30 seria a qualidade das imagens, agora em alta-definição em vez do tremido preto e branco”. Que erro grosseiro…

Os banqueiros vestidos de preto, de ar circunspecto que Robert Frank fotografou na “city” dos anos 50 já não existem, a seriedade não se coaduna com as cores berrantes das gravatas e suspensórios que até os estagiários de Wall Street não deixam de usar.


Joel Sternfeld, Summer Interns, Wall Street, New York, 1987

Da moda das cornucópias, à moda dos bonecos, à actual moda das cores lisas que vai do rosa ao laranja, conforme o gosto de cada um, as gravatas dos que habitam o mundo das finanças, sobressaem nos fatos cinzentos de discretas riscas brancas.

Walker Evans, o fotógrafo americano que hoje injustamente só é lembrado como o fotógrafo da Farm Security Administration, (F.S.A.), do registo da pobreza na época da bancarrota, seca, fome e migrações,


Walker Evans, Farmer's Kitchen, Hale County, Alabama, 1936

a tal ideia “do tremido a preto e branco”, comentou anos mais tarde, o seguinte em relação ao “crash” de 1929: “That awful society well deserved it. I used to jump for joy when I read of some of those stock brokers jumping out of windows”. Evans deveria ser lembrado como o fotógrafo que olhou em redor e registou, as banalidades e falsidades próprias do materialismo da época. "Stamped Tin Relic", que fotografou meses antes da fatídica sexta-feira negra, é um dos melhores exemplos.


Walker Evans, Stampet Tin Relic, 1929

Esta coluna jónica, esculpida não em pedra mas fabricada numa qualquer folha de metal barato, não é para durar. Fabricada e comprada por alguém, que nunca foi à Grécia, foi utilizada até ser descartada e deitada ao lixo - nascia uma nova sociedade,a do consumo.

Ninguém começa sózinho, e na América, Mark Twain, no seu célebre livro “Life on the Mississippi”, 1874, inova na literatura o que Evans inovará bastantes anos mais tarde na fotografia: “Every town and village along that vast stretch of double river-frontage (between Baton Rouge and St.Louis) had a best dwelling…big, square, two-story “frame” house, painted white and porticoed like a Grecian temple – with this difference, that the imposing fluted columns and Corinthian capitals were a pathetic sham, being made of white pine, and painted...


Walker Evans, Breakfast Room at Belle Grove Plantation, White Chapel, Louisiana, 1935

On the end of the wooden mantel, over the fireplace, a large basket of peaches and other fruits, natural size, all done in plaster, rudely, or in wax, painted to resemble the originals – which they don’t
”. Mississippi, Alabama, Louisiana, farão sempre parte dos seus itinerários.

Em Paris, (1926), na cidade dos poetas - Evans sonhava ser escritor, o método clínico de Gustave Flaubert modelará, como disse, a sua fotografia, mas o verdadeiro guia inspirador - Charles Baudelaire. “Dans certains états de l’âme presque surnaturels, la profondeur de la vie se révèle tout entière dans le spectacle , si ordinaire qu’il soit, qu’on a sous les yeux. Il en devient le symbole”, Fusées, Oeuvres complètes.

De regresso à América, com o seu amigo Ralph Steiner e em contacto com a obra de Atget, que o ensinaram a olhar para o espectáculo « si ordinaire qu’il soit”,


Ralph Steiner, Saratoga Billboard, c.1929


Walker Evans, Houses and Billboards in Atlanta, 1936


Eugène Atget, Austrian Embassy, 57 rue de Varenne, 1905


Walker Evans, Street Scene, Brooklyn, c.1931

deixou as pretensões literárias e aprendeu o ofício da sua vida – fotografar.


Walker Evans, Licence Photo Studio, New York, 1934


Walker Evans, Penny Picture Display, Savannah, 1936

Se a primeira revolução industrial iniciou na Inglaterra, os Estados Unidos e Alemanha prepararam-se melhor para a segunda. Em 1907, a Inglaterra produzia quatro vezes mais bicicletas que os Estados Unidos, mas os Estados Unidos, em contrapartida, produziam doze vezes mais carros nas suas eficientes linhas de montagem. O que as fábricas inglesas produziam, representavam o passado não o futuro e na América, Evans mostra-nos o tempo real, a transição, ao contrário dos alemães, que se deixaram fascinar pelo símbolo do progresso - os produtos manufacturados que saíam das suas fábricas.


Albert Renger-Patzsch, Shoes Lasts at the Fagus works, Alfeld, 1926

No ano em que Evans começa a fotografar, 1928, o célebre Modelo T, que a Ford Motor Company produziu aos milhões durante vinte anos, é descontinuado. Em Westchester County, o Modelo T estacionado em frente à velha casa de ripas de madeira parece um intruso.


Walker Evans, Farmhouse in Westchester County, New York, 1931

Casa e carro merecem a mesma atenção do espectador, embora um século os separe, mas olhando para o carro, não é também ele um modelo já antigo?

Carros e filmes cativavam a América dos anos 30, e em “American Photographs”, que editou em 1938, a cultura do automóvel é bem visível:


Walker Evans, "American Photographs",1938, fotografias 7-10

Ao contrário do que seria esperado - o elogio ao novo meio de transporte, Evans começa a sequênia num cemitério de automóveis.


Walker Evans, Joe's Auto Graveyard, Pennsylvania, 1936

A fotografia seguinte, “gas”, pintado à mão na parede leprosa e suja, evoca as bombas de gasolina, onde a palavra se uniformizou.


Walker Evans, Roadside Gas Sign, 1929

Depois, o anúncio num cartaz do novo estilo de vida proporcionado pelo carro, mas também ele ainda pintado à mão - o novo e o velho sempre em confronto.


Walker Evans, Lunch Wagon Detail, New York, 1931

Termina a sequência num “parking” onde, finalmente o jovem casal parece usufruir da nova indústria.


Walker Evans, Parked Car, Small Town Main Street, 1932

Com um hiato de vinte anos, em “The Americans”, continuamos na estrada. Os tempos mudaram: mais produção, mais velocidade, mais mortos, como podemos ver aqui, mas Frank nunca se cansou de dizer que Evans foi um dos fotógrafos que mais o influenciou.

Walker Evans não fotografou a Depressão dos anos 30, Walker Evans fotografou a sua visão da América nos anos 30- uma visão precisa a preto e branco. Agora na era da “alta-definição em vez do tremido preto e branco”, esperamos pela visão precisa que tão alta-definição exige.



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terça-feira, setembro 16, 2008

Dimout

Hoje inaugura na galeria pente10, uma retrospectiva do trabalho fotográfico de Carlos Afonso Dias.

Em Nova Iorque, (1959), Afonso Dias, a olhar para Walker Evans,


Walker Evans, Times Square, 1930

ou simplesmente cativado pela sobreposição de luzes, sombras e reflexos da neonizada Times Square, não resiste a fazer a sua composição.



Carlos Afonso Dias, Nova Iorque Néons na Times Square, 1959

De noite, as luzes da praça que nunca dorme, atraem, quer quem vive na cidade como os turistas que a visitam, e as letras alinhadas que anunciam os últimos filmes de Hollywood e as vedetas dos teatros - uma tentação.


Walker Evans, 1946


Carlos Afonso Dias, Nova Iorque na Broadway, 1959

Mas os anúncios não são os únicos protagonistas da Times Square e antes da era da Internet, na Times Square, jornalistas e população aguardavam ansiosos os primeiros resultados das eleições presidenciais.


Arthur Lavine, Election Night, Times Square, N.Y, 1952


Arthur Lavine, Election Night Returns, Times Square, N.Y.,1952

Só nos tempos sombrios da Segunda Grande Guerra, nem as luzes da Times Square podiam estar acesas, o risco de um ataque aéreo alemão, obrigava os habitantes da Big Apple a ficar às escuras - o “dimout” como ficou conhecido.


Andreas Feininger, Times Square during the dimout, 1943

Ontem o banco Lehman Brothers declarou falência. A dívida global ascende a 613 mil milhões de dólares e é a maior de sempre, ultrapassa mesmo a dívida da Worldcom em 2002.
Tudo isto apesar dos esforços de Dick Fuld, o presidente da Lehman ter pedido há dias autorização ao governador da cidade para apagar os gigantescos painéis que anunciam o seu nome na fachada da sede. Só para os manter acessos, a Lehman gastava por ano 500 000 dólares. Mas o pedido de Fuld foi rejeitado : “since buildings in Times Square area are required to keep their facades aglow to create the arcade effect that dazzles the tourists”.

Ontem Times Square iluminava a falência da mentira.


Times Square, 15 de Setembro 2008


Times Square, 15 de Setembro 2008


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segunda-feira, setembro 15, 2008

De regresso às aulas

O recreio acabou, é hora dos alunos regressam às aulas, mas para o governo a hora de recreio parece não ter fim - ou a campainha avariou ou os políticos ensurdeceram de vez.


Pedro Letria, Sala 222, férias de Verão, Colégio Campolide, do livro Inventário, 2003

Os jornais voltaram à carga com o vergonhoso facilitismo dos exames de matemática do último ano lectivo. Ao governo o que interessa é poder agora dizer que foi o ano, num historial de dez, com o mais baixo número de chumbos a esta disciplina.
Surpreende não só a falta de honestidade como a falta de visão. Será que o governo não entende que ao facilitar, em lugar de exigir, não prepara os jovens para os novos desafios e mudanças do mundo actual?

Os políticos não gostam que se lhes diga a verdade do que está a acontecer, porque eles próprios não sabem o que está realmente a acontecer, e por isso só ouvem aquilo que conseguem perceber, e a campainha do recreio bem pode tocar que eles, sem a mais pequena ideia do que se passa a nível mundial, não a ouvem e insistem em atrair investimentos promovendo Portugal como o país da mão-de-obra barata em lugar de o promover como o país da inovação. A recente descoberta de dispositivos, como o vidro ou uma simples folha de papel de acetato,


Pedro Letria, Aula de História Económica, sala 301, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

possibilitarem a produção de ecrãs transparentes, pela equipe de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, coordenada por Elvira Fortunato, é a ponta de um iceberg que está longe de ser explorada. Não é mais importante usar bem os recursos que ainda não saíram do país? A Samsung, ao contrário não perde tempo e já assinou um contrato de parceria com a equipa de investigadores para poder desenvolver estes dispositivos. O capital não se movimenta pelo mundo apenas em busca de mão-de-obra barata e os empregos estão a ir para o lugar onde está a força laboral mais qualificada. Onde surgir a inovação estarão os melhores empregos,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

que irão por sua vez despoletar mais empregos e melhor nível de vida e não é preparando os alunos para o facilitismo que Portugal, país sem recursos naturais, vai conseguir competir num mundo que se globalizou. Conseguir formar pessoas nas indústrias do futuro, é sem dúvida, a nossa grande mais valia, e o governo em lugar de gastar dinheiro em projectos propagandistas deveria investir na nossa massa cinzenta.


Pedro Letria, Introdução à Macroeconomia, Auditório A14, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Felizmente Portugal também teve visionários, que em momentos chave, souberam inovar e reformar o nosso sistema educativo e investiram à séria na nossa massa cinzenta e porque não relembra-los através da fotografia?

Em 1993, por ocasião do cinquentenário do falecimento de Duarte Pacheco, o Instituto Superior Técnico, I.S.T., encomendou ao fotógrafo Augusto Alves da Silva, um projecto fotográfico sobre a instituição.
Em 2003, por ocasião da comemoração dos vinte cinco anos de existência, a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, FEUNL, encomendou ao fotógrafo Pedro Letria, um projecto fotográfico sobre a instituição.
Ambos os fotógrafos aceitaram a tarefa, ambos publicaram um livro e a ambos foi dada total liberdade para fotografarem.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993


Pedro Letria, Caixa de correio dos professores, Piso 3, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

Abolida a monarquia, 1910, o governo republicano não perdeu tempo em reformar o “anquilosado e caduco” sistema educativo. Se no velho e decadente Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, eram formados engenheiros e economistas, das escolas militares saiam os engenheiros civis e de minas. Ciente das mudanças necessárias, Alfredo Bensaúde, em 1892, elabora um Projecto de Reforma do Ensino Tecnológico. Ignorado pelo monárquicos é a grande aposta de mudança dos republicanos, que lhe dão a oportunidade de pôr à prova as suas ideias inovadoras para a pedagogia e formação tecnológica em Portugal. Tudo se criou de raiz, e em 1911, uma nova escola técnica de grau superior integrava os vários tipos de engenharia – estava criado o Instituto Superior Técnico. Para Bensaúde “a primeira das condições para que uma escola seja boa é possuir um professorado o mais sábio possível”, o que exigia novas formas de recrutamento, e não hesitou em procurar os melhores “no país e se necessário no estrangeiro”. Bensaúde, ao contrário do governo actual, interessava-se em cultivar nos alunos a “persistência no trabalho e a faculdade de assimilação”,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

o seu principal inimigo “o nosso culto inconsciente pelo verbalismo”.
O ensino prático e laboratorial era imprescindível: “os alunos deveriam ser treinados na prática oficinal e recuperar fundos vendendo ao exterior os artigos fabricados por eles”,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

estimular a independência do indivíduo à custa do próprio esforço e valorizar a competência profissional, tornou o I.S.T, na escola de prestigio que ainda hoje é.
Bensaúde foi visionário, ao integrar as engenharias numa só escola, ao exigir o ensino de qualidade e ao incutir nos alunos o sentimento de curiosidade.
Na nova escola, as actividades circumescolares não eram menos importantes,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

mas “a obra não está completa enquanto não for convenientemente instalada”. Continuar e completar a obra de Bensaúde foi o que fez Duarte Pacheco, quando ascendeu em 1927, à direcção do Instituto que o formara. Com Pardal Monteiro, arquitectura e engenharia uniram-se harmoniosamente e em 1937, o novo modelo de “campus” universitário estava de pé.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Noutro período conturbado, que se seguiu à Revolução do 25 de Abril de 1974, Alfredo de Sousa, foi outro grande visionário. Fugindo à explosão dos ideais do pós-25 de Abril,


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

foi o impulsionador da criação da Faculdade de Economia, que logo congregou à sua volta um conjunto significativo de recém-doutorados em Economia, nos EUA e na Europa, criando a “massa crítica” suficiente para desencadear um processo de profunda renovação do ensino da Economia e Gestão em Portugal.


Pedro Letria, Cúpula, Piso 3, jantar de antigos alunos M.B.A., Palácio Ventura Terra, do livro Inventário, 2003

Com Alfredo de Sousa, os programas de Doutoramento e Mestrado em Economia e do MBA foram pioneiros em Portugal.


Pedro Letria, Sala de aula de M.B.A., Palácio Ventura Terra, do livro Inventário, 2003

Ao invés do novo modelo de “campus” universitário do I.S.T, os edifícios, que Letria fotografou, revelam-nos, que a Escola funciona em edifícios históricos.


Pedro Letria, escadaria e entrada do Salão Nobre, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

Apostando sempre na internacionalização, hoje os alunos que se formam e partem para trabalhar no centro financeiro de Londres, são vistos como dos melhores.

Como tudo na vida, o I.S.T, precisou de se transformar para dar resposta às novas exigências da investigação científica. Em 1993, duas novas torres são construídas dentro do seu “campus” para albergar as novas exigências da ciência.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Alves da Silva foi para lá que olhou com insistência, alternando as suas imagens entre o esforço dos estudantes


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

e o esforço dos trabalhadores empoleirados em vigas e guindastes.


Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1993

Na Faculdade de Economia, Letria olha com insistência para os jantares dos antigos alunos do MBA, alternando as suas imagens entre o esforço dos estudantes


Pedro Letria, Sala 203, laboratório de micro-computadores, Colégio de Campolide, do livro Inventário, 2003

e os momentos de convívio.


Pedro Letria, Sala de jantar do Palácio Ventura Terra, jantar de antigos alunos do M.B.A., do livro Inventário, 2003

Duas formas de estar, que distinguem engenheiros e economistas.

Agora vivemos um outro momento chave, a hora de recreio acabou, e é imperativo que todos regressemos ao trabalho.


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quarta-feira, setembro 10, 2008

"Detroit Photos" de Stan Douglas

É impressionante como o “guru” das obrigações, Bill Gross, influencia o poder político do país que ainda lidera a economia mundial. No site da Pimco, Bill Gross escreveu que o governo “must open up the balance sheet of the U.S. Treasury to support Fannie Mae and Freddie Mac...”. No dia seguinte, sexta-feira, os mercados, perante tal notícia caíram a pique. Domingo, Henry Paulson, o Secretário de Estado do Tesouro americano apressou-se a anunciar a nacionalização dos dois bancos especializados no crédito à habitação. Segunda-feira, as bolsas abriram eufóricas, festejavam a intervenção do Estado, e todos os índices mundiais registaram ganhos acentuados. Todos concordaram com a operação que “era inevitável”, Bill Gross sentiu-se certamente aliviado, mas a euforia foi sol de pouca dura.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Para muitos analistas a crise vai continuar - o excesso de imóveis que existem no mercado norte-americano ainda levará dois anos até que seja absorvido, e novamente regressamos à devassidão dos subúrbios na América.

Quando em 1997 passeava ao largo do rio Detroit, Stan Douglas ficou espantado com o que viu: "I'd never seen anything like that before," como recorda mais tarde: "That" was the city's scarred downtown area, where majestic old Beaux-Arts skyscrapers preside over what has become a legendary urban wasteland.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Since the riots of 1967, Detroit has been the scene of ongoing urban decay, with disappearing auto-industry jobs, white flight to the suburbs and a macabre annual "Devil's Night" arson ritual all marking stages in the city's decline”.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Durante dezoito meses, Douglas fotografa a cidade e os subúrbios abandonados.

Detroit foi fundada em 1701 pelo francês Antoine de la Mothe Cadillac, e o oficial, que vivia da agricultura, estava longe de saber que Cadillac se tornaria, dois séculos mais tarde num dos símbolos da indústria americana.

Em 1896, Henry Ford construía em Detroit a primeira fábrica de automóveis. No virar do século, os irmãos Dodge, Packard e Walter Chrysler, elegeram-na também como o local para instalarem as suas fábricas, a localização, ao lado dos Grandes Lagos, facilitava o transporte.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

De 1900 a 1930, Detroit passou dos 300 000 habitantes para 1 800 000. Se a cidade se transformava na capital do automóvel, o automóvel tornava-se na maior indústria do país. Vingaram, dos mais de 200 fabricantes instalados, os que souberam inovar e que eficientemente produziam em massa, nas suas linhas de montagem os carros que invadiram o país: Ford, Chrysler e General Motors. Com razão, chamaram a Detroit, Motor City. Nos anos 60, com o advento dos subsídios às hipotecas e à construção de auto-estradas,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

nasceram os subúrbios que Douglas fotografou. Para lá mudaram-se as famílias brancas, que abandonaram a cidade, deixando para trás, uma cidade segregada.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Não tardou, que os subúrbios delimitados por fronteiras rigorosamente seleccionadas em função da raça e da classe se transformassem em verdadeiros pólos de conflito, como as manifestações de 1967, que só seriam ultrapassadas em violência pelas manifestações de 1992 em Los Angeles. Nos anos 1970, com os embargos do petróleo a indústria automóvel caiu, e nos anos 1980, o Japão tecnológico que construía Toyotas e Hondas mais eficientes, invadiram a América. Os carros americanos, demasiado grandes e gulosos em gasolina, sofriam um novo revés. Consequentemente o desemprego alastrou e com ele o abandono de Detroit e dos seus subúrbios.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Nos anos 90, quando Douglas fotografou Detroit, a baixa da cidade, abandonada e vazia chamava o crime. Se os arranha-céus art déco,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

cuja grandiosidade arquitectural encantaram Le Corbusier e Erich Mendelsohn parecem agora habitados por fantasmas, os cinemas, tiveram pior sorte e transformaram-se em garagens.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Em 2004 - a machadada final na indústria automóvel que deixou definitivamente a cidade.


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Ontário substitui agora Detroit. Ao invés do que tem sucedido na Europa, não foi a baixa de salários que fez mover os fabricantes de automóveis para o Canadá, a razão é outra, mas também simples – o sistema de saúde. Na América os patrões pagam às entidades privadas 6,500 dólares em assistência médica por cada trabalhador, no Canadá, pagam ao Estado, 800 dólares pela mesma assistência. Isto significa que o sistema de saúde privado na América aumentou a tal ponto, que “it is not low wages that employers are looking for but smart benefits”.

Competitividade, dinamismo e inovação que sempre caracterizaram este país de imigrantes, parece estar a esgotar-se.
A leste do que se passa à sua volta,


Stan Douglas, da série "Detroit Photos", 1997/98

Washington mostra poucos sinais de reorientar a sua política para os novos desafios da globalização, e se os tentáculos do Estado mais liberal engoliram agora a Fannie Mae e a Freddie Mac, em relação ao sistema de saúde os políticos continuam fechados e renitentes em aprender com os outros e o que sabem dizer aos eleitores: “health-care systems is to be thankful for their own”.

Amanhã, 11 de Setembro, faz sete anos que Mohammed Atta morreu ao embater com o avião que pilotava na primeira Torre Gémea do World Trade Center. A América não pode deixar que o FBI, a CIA e a Segurança Nacional, que zelam para manter fora do país o próximo Mohammed, também exclua o próximo Sergey Brin, co-fundador da Google e nascido na Rússia.

outros sites sobre Detroit aqui e aqui



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