segunda-feira, maio 26, 2008

No Reino Unido

Controlar a inflação é a preocupação central do Banco Central Europeu. Com a excessiva valorização do euro face ao dólar, o BCE resiste a baixar as taxas de juro. A inflação que hoje assola o mundo, não é só preocupação dos Europeus. Nos países em vias de desenvolvimento, as chamadas economias emergentes, a inflação já subiu para os níveis assustadores da casa dos dois dígitos. O paralelismo da actual crise económica com os anos inflacionistas da década de 70, levam os analistas a recear, como o artigo "An old enemy rears its head" publicado na revista "The Economist" de 24 de Maio, que as economias emergentes repitam os erros do passado.

Na Europa dos anos 70, uma brusca e sustentada quebra económica, que se seguiu a anos de abundância, transformaram-na na década mais desencorajadora do século XX. O fascínio por mudar o mundo e pelas ambições colectivas que caracterizaram os anos 60 eram esquecidas, e em lugar crescia uma obsessão com as necessidades pessoais, a procura de um emprego.
A explosão consumista dos anos sessenta aumentara a dependência da Europa do petróleo barato, milhões de novos carros circulavam nas auto-estradas. Em 1973 o embargo do petróleo dos Estados árabes aos EUA, em retaliação pelo apoio a Israel, aumentou o preço em 70%, em 1979, seria a queda do Xá do Irão a provocar uma subida de 150% no seu preço. Os carros não funcionavam a carvão, e a Europa Ocidental começou a sentir a estagflação ou seja, inflação de salários/preços e abrandamento económico em simultâneo. O espantoso é que passado 40 anos, a dependência do mundo pelo ouro negro pouco mudou.

Mas nos anos 70, no espaço de uma geração, para além da inflação causada pela crise petrolífera, a Europa passava por uma terceira revolução industrial e a economia da manufactura desaparecia, os mineiros e os operários das fábricas perdiam o emprego. Em 1947, o Reino Unido contava com 958 minas de carvão e 720 000 mineiros, só 50 minas se mantinham em finais dos anos 70, e dos mineiros só ficaram 43 000.

Um suíço, Robert Frank, ainda no auge da produção de carvão, 1951-53, viajou para o País de Gales e fotografou a vida de Ben James, mineiro desde os 14 anos de idade, na aldeia de Caerau, mina que encerraria em 1979. Desde que abrira, em 1889, a vida repetia-se de geração em geração, onde os homens desciam às profundezas da terra em busca do carvão.
Robert Frank, Wales, 1953
Tal como no cinema, "Coalface", 1935 de Alberto Cavalcanti,
Do filme Coalface, 1935 de Alberto Cavalcanti
a fotografia britânica sempre se mostrou preocupada com o social e as fotografias de Frank revelam essa consciência, tão diferente da sua visão da América, muito mais subjectiva, poucos meses depois.
Robert Frank, Wales, 1953
Robert Frank, Wales, 1953
Robert Frank, Wales, 1953
Robert Frank, Wales, 1953
Robert Frank, Wales, 1953
A economia mudava e a fotografia também, e o modelo do “instante decisivo”, de Cartier-Bresson, que influenciou uma geração de fotógrafos entrava em crise. As reportagens que vendia para as revistas, hoje praticamente desconhecidas, mas que vimos no post anterior, chegavam também ao fim, a televisão era impiedosa, chamaram-lhe a “nova janela do mundo”, e as revistas, que no início tinham um problema de excesso de publicidade, morreriam na década de 70 por falta dela, a LIFE por exemplo, que nascera em 1936 fechava em Dezembro de 1972. Bons fotógrafos perceberam isso. W. Eugene Smith, que antes de Frank, fotografara os mineiros ingleses, percebeu o fim do ciclo e Minamata, (1975), foi o seu último livro. Robert Frank, depois de “The Americans” envereda pelo cinema, é a sensação de que tudo já tinha sido fotografado. Mas no Reino Unido, os anos 70 foram a segunda “Golden Age” da fotografia, a primeira, corresponderia aos pioneiros, pois franceses e ingleses partilham a invenção fotográfica.
Nacionalismos? a resposta é sim no que respeita à fotografia britânica, pois eles foram os primeiros a fotografar a miséria com intuitos reformadores e na década de 70, a recessão que provocava o desemprego em todas as indústrias tradicionais: carvão, ferro, aço, químicos, têxteis, papel…alastrou a miséria pelo país. Chris Killip,
Chris Killip, Youth on wall, Jarrow, Tyneside, 1976
Chris Killip, Torso, Pelaw, Gateshead, Tyneside, UK, 1978
Chris Killip, Angelic Upstarts at a Miners' Benefit Dance at the Barbary Coast Club, Sunderland, Wearside, UK, 1984
Chris Killip, Bever, Skinningrove, 1981
Ron McCormick,
Ron McCormick, Newport Docks, 1977
Graham Smith, Chris Steele-Perkins, Robert Haines, que regressa à sua aldeia mineira onde grassa o desemprego,
Robert Haines, Merthyr Tydfil, 1971-72
fotografaram um país que vivia em desespero.

O espantoso foi a falta de visão e de alternativas dos políticos na década de 70, que se agarraram ao Estado-providência constituído no pós-guerra: aumentaram os salários mas simultaneamente sujeitaram os trabalhadores a uma enorme carga fiscal, aumentaram as transferências sociais para os que não tinham trabalho e subsidiaram os patrões com problemas, tanto no sector privado como no público, pagando para estes manterem trabalhadores que não necessitavam. Todas estas medidas ineficientes levaram não só ao descontentamento geral da população, as greves sucederam-se, como ao desastre deste Estado-providência, cujos serviços de segurança social entraram numa quase pré-ruptura.
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
O inglês Paul Graham, na sua série “Beyond Caring”, um dos primeiros a utilizar a cor, está longe dos foto-ensaios da década anterior, e nesses anos em que a fotografia parecia entrar em crise, os fotógrafos britânicos criavam um novo modelo de documento social, onde não faltava a obsessão nacionalista pela crítica social. Fotografar as manifestações, as greves, os tumultos não lhes interessaram, nem tão pouco a fotografia única, magistral, o novo modelo, em séries, espelhavam o mal estar social.
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85
Paul Graham, "Beyond Caring", 1984-85

No decorrer desses anos, sem conseguirem actuar contra o desemprego e a inflação, as democracias demonstraram terem perdido o controlo do seu destino, no Reino Unido falava-se mesmo da “insuficiência das democracias”. Hoje a generalidade dos europeus desconfia dos políticos e os analistas receiam que os políticos das economias em desenvolvimento cometam os mesmos erros do passado.

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quarta-feira, maio 21, 2008

A Europa e a famosa Política Agrícola Comum

Porque não sobem as matérias primas? o mundo já não consome aço, cobre, zinco, trigo, milho…? indagava eu há uns anos atrás. Á época as dot.com faziam as delícias dos investidores, e as empresas de Silicon Valley, que surgiam como cogumelos, investiram milhares, o dinheiro desses investidores, a ligar o mundo com cabos de fibra óptica. Mas o mundo ainda não estava preparado para uma utilização plena dessa nova ferramenta, o mundo era mais espectador que actor, era mais consumidor que produtor, e os downloads ultrapassavam em muito os uploads, e em 2001 a bolha rebentou, e as empresas do Nasdaq desapareceram a um ritmo igual como apareceram.
Mas se hoje me recordo da questão que me atazanou há uns anos atrás, foi porque nunca consegui obter uma explicação cabal. É certo que, bastava-me pensar na fotografia para perceber as mudanças, a substituição da prata por imagens transformadas em pixels, que podiam ser armazenadas em microprocessadores e transmitidas por linhas de fibra óptica, indicavam que a química era engolida pela electrónica, mas nós, seres humanos não podíamos engolir electrónica por trigo, milho…e se tudo subia, e o mundo vivia numa euforia, porque não subiam estas?
Harry Gryaert, Região Picardy, França, 1991

não percebera que na Europa os preços agrícolas já estavam inflacionados.

Recentemente o mundo acordou assustado, olhou em volta, e gritou: CRISE ALIMENTAR.
Paul Graham, New Europe, 1986-92

Ontem, num comunicado coordenado por Durão Barroso, a Comissão Europeia, num sinal de nervosismo com a crise alimentar convidou os líderes europeus a discutir a fundo o problema em Bruxelas, e acusam os especuladores como os principais culpados na espiral de preços.

É certo que hoje, ao olhar para uma carteira de activos de um investidor, contractos de futuros sobre o café, açúcar, trigo, milho,…substituem as acções de empresas. Hoje os gestores compram mercadorias agrícolas a prazo como há uns anos atrás investiam nas dot.com.

Ciência, investigação, energia, eram há um ano, as novas prioridades da União Europeia, as novas áreas que iriam substituir a agricultura como a grande fatia da despesa comunitária. De repente, a União Europeia aparece como deficitária na produção agrícola e incapaz de aliviar os preços, a culpa é dos especuladores dizem, e o trigo volta à mesa das preocupações.
Martin Parr, 1985

Para os analistas são vários os factores que justificam a subida dos preços das mercadorias agrícolas: a seca prolongada nos dois últimos anos na Austrália,

Nick Noir, Tempestade de Areia, Uma herdade abandonada em Ivanhoe, durante uma tempestade de areia em 2002. Esta zona da Austrália está em regime de seca desde 2001, forçando o abandono de muitas propriedades.

a má colheita europeia de 2007, a redução dos “stocks” nos celeiros americanos
Larry G. Blackwood, Great Plains
Larry G. Blackwood, Great Plains
Larry G. Blackwood, Great Plains

e chineses, o aumento do consumo de carne na China e na Índia, que fizeram aumentar de forma indirecta a procura de cereais, a produção do etanol nos Estados Unidos, que absorveu um terço da produção do milho e que levou simultaneamente ao detrimento da cultura do trigo e da soja.

A Europa, que agora se mostra assustada e incapaz de qualquer medida para fazer baixar os preços, mostrou sempre uma incapacidade na sua Política Agrícola Comum –PAC. Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra, programas para ajudar e encorajar os agricultores foram implementados. Henri Cartier-Bresson ilustra esta reportagem, Paris Match 1960, com imagens que segundo as legendas irão em breve desaparecer, a mecanização e a prática do ski irão transformar estas regiões.
"Sa vache unique est pour ce petiti fermier à la fois un gagne-pain et une amie. Beaucoup sont dans le même cas sur les hauts de Meuse où, sur les tas de fumier qui bordent les rues, grattent des coqs orgueilleux", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960
"Comme au temps les plus lointains, l'homme et la femme travaillent au pas lent des boeufs de labour. Nous sommes dans une vallée de la Dordogne. C'est l'image même de la patience paysanne devant la nature toujours recommencée. Bientôt, ce tableau traditionnel de la vie paysanne aura disparu. Déjà, dans de nombreuses régions, il est difficile de trouver des boeufs pour le travail", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960
"En montagne, on monte encore dans une charrue primitive pour labourer à haute altitude de minuscules parcelles. Le tourisme et le ski apportent dans ces valées qui se dépeuplent une nouvelle vie", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960
"L'irrigation permet de faire, de maigres champs, des terres fertiles. Par elle les pays du soleil, hier défavorisés, retrouvent la place prépondérante", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960
"Cette extraordinaire photo, c'est déjà le passé", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960

Para reduzir a dependência das importações pagas em dólares, dava-se maior ênfase ao aumento da produção em detrimento da eficiência. O governo garantia protecção e sustentação dos preços, e Cartier-Bresson, o fotógrafo do preto e branco, fotografava a cores a França rural. A cor representava o recomeço de uma nova vida, o preto e branco, como mostram as últimas páginas da reportagem, representava um passado que estava a acabar. A França, hoje o país que recebe mais subsídios agrícolas da UE, passou não apenas de auto-suficiente como a ter excedentes alimentares. A promessa de apoios continuados aos preços e o compromisso dos parceiros europeus de comprar a produção excedentária, levou os franceses a aceitarem favoravelmente o Tratado de Roma, e é este o pano de fundo da famosa Política Agrícola Comum, inaugurada em 1962. Á medida que os preços europeus fixados subiram, toda a produção alimentar da Europa tornou-se demasiado cara para competir no mercado mundial. Em 1970, a agricultura custava 70% do orçamento da Comunidade Económica Europeia, hoje custa-nos 40%. Isoladamente, nenhum país poderia manter este conjunto de políticas absurdas, mas ao transferir os encargos para a Comunidade no seu todo, a cada governo interessava obter os ganhos pelo menos a curto prazo, e é esta a mentalidade que perdura. A PAC acabaria por distorcer o mercado alimentar mundial, exportando excedentes subsidiados e desestimulando a produção nos países em desenvolvimento, e hoje vemos o que se passa em África. Aos agricultores europeus pagou para não produzirem. Agora Bruxelas discute propostas de revisão da PAC e tenta eliminar entraves à produção. Para os ingleses, sob a voz do ministro Alistair Darling, a PAC é a grande responsável pela alta de preços actuais, pois para eles é inaceitável os elevados direitos alfandegários sobre numerosas matérias primas agrícolas. A França, o maior beneficiário, pretende também alterar a forma como são hoje dados os subsídios, “devem ser dados em função da produção e não do número de hectares, isso estimulará a produção”, dizem. Mas os burocratas de Bruxelas, com as novas regras de segurança e higiene, encontraram uma forma de tornear as regras do comércio livre, criando com essas regras excessivas, uma barreira para evitar importações de terceiros países.
A culpa é agora dos especuladores, o que comprova mais uma vez a sua incapacidade para perceber o que provocaram e o que se está a passar nos mercados alimentares, e é esta a política agrícola da nossa União Europeia…

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segunda-feira, maio 19, 2008

"Elementos": terra, água, fogo e ar, de José Manuel Rodrigues

Estou muito interessado em fotografar aquilo que não vejo, aquilo que está atrás de mim, atrás dos meus olhos, e, de certa medida, utilizo os meus modelos, utilizo até a própria natureza também para me encontrar a mim próprio”, confessa José Manuel Rodrigues, numa entrevista para a exposição “Elementos” que há dias inaugurou numa nova galeria de fotografia, a Pente 10, na Travessa da Fábrica dos Pentes, lá para os lados do belíssimo jardim das Amoreiras.
José Manuel Rodrigues, em exposição na galeria Pente10, Lisboa, Maio 2008

A Europa interessa-me, a Europa na actualidade interessa muitos fotógrafos, para Paulo Nozolino, a Europa foi o primeiro território que começou por explorar, “quero aprofundar a carga histórica associada à Europa. É isso que me pode ajudar a montar o “puzzle” que ando a construir há anos…”, hoje, mais uma vez, o saisdeprata-e-pixels vai continuar na Europa, mas numa Europa diferente, não numa Europa registada em viagem, mas a Europa de J. M. Rodrigues.
José Manuel Rodrigues, Évora, 1997

Em 1971, J. M. Rodrigues visitou a mãe no Canadá, “passado mês e meio percebia que era irrevogavelmente um europeu” e regressou. Dividiria a sua vida entre o Alentejo, onde nasceu, e a Holanda, ambas terras de horizonte baixo, paisagem de maravilha de silenciosas planícies, onde a perfeita harmonia entre o Homem e a Natureza, nessa Natureza ainda não destruída, o conduzem a uma união de intimidade, a uma união de uma tal plenitude, na qual J.M. Rodrigues se banha e imerge, em toda a sua força e beleza.
José Manuel Rodrigues, em exposição na galeria Pente10, Lisboa, Maio 2008
José Manuel Rodrigues, em exposição na galeria Pente10, Lisboa, Maio 2008

As profundezas do nosso espírito nos são desconhecidas. O caminho misterioso vai em direcção ao interior. É em nós e em nenhum outro lugar, que está a eternidade com seus mundos, o passado e o futuro”, Novalis.

As fotografias de J.M.Rodrigues, despertam em nós uma outra força de visão, um outro poder, muitas vezes ignorado na nossa vida quotidiana.

Da mesma forma que, durante a rotação diária da Terra sobre seu eixo, uma metade do planeta está às escuras e a outra metade iluminada, a mesma alternância, negativo-positivo,
José Manuel Rodrigues, em exposição na galeria Pente10, Lisboa, Maio 2008
surge constantemente nas fotografias de J.M.Rodrigues, rostos de pálpebras fechadas, rostos de olhos abertos,
José Manuel Rodrigues, Évora, 1981
José Manuel Rodrigues, Évora, 1981
muralhas de pedra fechadas sobre si mesmas, duras e secretas, um céu aberto: “Tenho uma fotografia em que tentei voar, que eu gosto muito”.
José Manuel Rodrigues, Amsterdam, 1982
José Manuel Rodrigues, Amsterdam, 1984
Ao olhar para a sua obra, nós, espectadores, penetramos e ultrapassamos camadas e camadas duma outra água, água que “pela sua fluidez, pelo seu reflexo, é como a continuação da objectiva e é soft, tem esta coisa especial de reflectir e mudar continuamente”, até que chegamos ao fundo, ao interior, onde descobrimos outras regiões, outras dimensões, a abolição do Espaço e do Tempo. “A minha fotografia também é um espelho do caos da minha existência.”

São quatro os “Elementos”: terra, água, fogo e ar, quatro, o número mágico da ciência.
José Manuel Rodrigues, Quatro provas de halogenetos de prata, Amsterdam, 1986

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sábado, maio 17, 2008

Belgrado, a capital da Sérvia

Até ao final do mês a Cinemateca apresenta um ciclo dedicado ao cinema Sérvio. “Jutro”, de Mladomir Djordjevic, que passou ontem, retrata o fim da Segunda Guerra Mundial na Sérvia, onde o poder ainda não se estabeleceu e os ajustes de contas ainda não terminaram. A importância da música no filme é central e a letra da canção “Jutro”, aurora em português, canta todas as guerras: “… Já não há a Rua das Flores/ Os Alemães varreram-nos do mapa…/Estamos frente a frente/ O que dizer à mãe/ À noiva, à irmã/… A paz feriu o coração/ A paz chegou, mas o Janko morreu/ A paz chegou, mas o dia foi assassinado/ A guerra continua até amanhã/ Mas a Aurora, onde está a Aurora?”.

Aurora, a hora que começa o dia, a hora no filme para executar os prisioneiros.

A guerra marca profundamente Djordjevic. No filme a morte está sempre presente, mas Djordjevic deixa-se levar pelo tempo, pela beleza de um dia, e em “Jutra”, mistura situações dramáticas, trágicas, de corpos enforcados, que contrastam com a beleza de um rio, numa espécie de liberdade inspirada apenas pelo prazer de existir: “filmo sempre em cenários naturais…Cada dia tenho a impressão de roubar alguma coisa aos rostos, à atmosfera. Também confio na sorte. É como se estivesse a pescar à beira de um rio”.
Filmado em 1967, impressionantes, porque o tempo parece ter estancado, são estas fotografias recentes que poderiam ter sido retiradas de “Jutra”: casas em Belgrado,

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado

e um rosto que procura por rostos desaparecidos,

Thomas Kern, Sérvia, 1993

“…A guerra continua até amanhã…”, como na canção.

No Sudeste da Europa, no final de 1944, as forças soviéticas controlavam já o Norte dos Balcãs. Em Maio de 1945, seria a vez da Hungria, Polónia e da Checoslováquia, e mais a sul, o Exército de Libertação Nacional jusgoslavo, e o Exército britânico, encontravam-se face a face em Trieste. A linha que dividiria a Europa pouco tempo depois, começava a ser traçada. Os territórios que formavam um arco, desde a Finlândia até à Jugoslávia, foram alinhados pelo sistema político da União Soviética. Para Estaline, esta barreira representava a segurança do seu país. Mas a Jugoslávia não se deixou modelar por Estaline. Em 1945, o partido a “Frente do Povo” de Josip Broz Tito ganhava as eleições e chegava ao poder, sem a intervenção soviética, ao contrário do que veio a acontecer nos outros países da Europa de Leste. Em 1947 o governo jugoslavo tinha um estatuto único e adoptara o modelo soviético da colectivização forçada da terra e as purgas aterrorizaram os não partidários. Se no início as relações entre Moscovo e Belgrado eram cordiais, rapidamente, Estaline exasperava-se com Tito, por não conseguir, a partir de Moscovo, dirigir a Jugoslávia. A ruptura, seria conhecida publicamente em Fevereiro de 1948, quando Tito pôs em prática a Federação Balcânica, Belgrado era acusada de conduzir uma política nacionalista.

Esquecer o tempo de guerra e as divisões, foi um desejo de Tito.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Junho 2006

Na sua Jugoslávia reunificada, constituída por seis repúblicas distintas dentro de um Estado federal, bem como de duas regiões autónomas (Voivodina e Kosovo), a geração do pós-guerra foi encorajada a pensar num país de unidade fraternal.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2003

Nas gerações mais novas as diferenças atenuaram-se e os casamentos entre elementos de diferentes etnias tornaram-se cada vez mais frequentes. “Volvidos os anos de guerra, e visitando o país, não encontrei nenhuma situação em que tenha sentido em alguém a vontade da indómita vingança. As populações das diferentes Jugoslávias preparam-se para viver a melhor vida possível e nunca vi ninguém apontar dedos acusatórios”, escreve Carlos Miguel Fernandes, que foi várias vezes aos Balcãs (re)viver este passado.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2003

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2003

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Setembro, 2004

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Setembro, 2004

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Setembro, 2003

Em Belgrado, uma das cidades mais estimulantes que conheceu, o Zemun, subúrbio histórico e elegante da cidade na margem do Danúbio, fazem-lhe lembrar paragens mais orientais e mais exóticas.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Zemun, Junho 2006

Com a morte de Tito, 1980, Slobodan Milosevic, no vácuo político que se seguiu, preparou a sua ascensão ao poder, e na sua ânsia de dominar, utilizou o nacionalismo como arma política, em 86, quando visitou o Kosovo mostrou-se solidário com as queixas dos Sérvios.

Nikos Economopoulos, Belgrado, Sérvios Nacionalistas, 1991

O Kosovo, como revelam as eleições do passado Domingo, tem um significado histórico para os Sérvios, pois foi a última região da Sérvia medieval a resistir ao avanço dos Turcos no ano 1389.
Em 89 Milosevic era eleito presidente da República Sérvia. Nesse ano a queda do muro de Berlim punha a descoberto a caótica economia da Europa Central e de Leste e surpreendeu os mais cépticos. A transição foi difícil para todos, mas a Jugoslávia, com um sistema federal que entrara num impasse, iniciava uma guerra civil sangrenta com os diversos estados a reclamarem a sua independência. A igualdade federal que Tito fizera prevalecer estava agora desmoronada.
A ocupação do Kosovo, pela tropas da NATO, em Março de 99, foi o princípio do fim de Milosevic, que perderia as eleições no ano seguinte.

Josef Koudelka, Belgrado, manifestação de estudantes contra o regime de Milosevic, 2000

Se hoje a paz regressou aos Balcãs, a questão do Kosovo, está por resolver, e as eleições de Domingo passado na Sérvia foi vista pelos comentadores como um referendo: querem os sérvios ficar presos ao Kosovo ou avançar para a União Europeia?
O Partido Democrático, pró-europeu de Boris Tadic, o vencedor das eleições, mas sem maioria, enfrenta a dificuldade em formar um governo. Se em 2000, a Sérvia manifestava-se contra o regime de Milosevic,

Thomas Dworzak, Belgrado, poster de Milosevic, 2001

Thomas Dworzak, Belgrado, Milosevic arrest, 2001

agora o Partido Socialista fundado por ele, é essencial para a coligação que se vier a efectuar, mas ambos os partidos não aceitam que Belgrado desista do Kosovo.

O Kosovo, como André Malraux bem identificou nos anos 60, é a Argélia dos jugoslavos.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Fortaleza

Mas a Aurora, uma verdadeira Aurora, podemos nós perguntar, como na canção de “Jutro”, onde está?
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