segunda-feira, maio 05, 2008

A Europa dividida

Aterrando em Orly, de carro, chega-se ao centro da cidade percorrendo a extensa Avenue du Géneral Leclerc. Comandante da Segunda Divisão Blindada francesa, Leclerc, com receio que a sublevação comunista pudesse aproximar o Exército Vermelho da capital, não conteve a sua impaciência e avançou sobre Paris sem pedir autorização ao seu comandante do Corpo Americano. Eisenhower pretendia deixar Paris nas mãos dos Alemães por mais algumas semanas, Patton deveria perseguir os alemães derrotados através do Norte da França, só depois se ocuparia da capital. Leclerc não esperou e na manhã do dia 25 de Agosto 1944, as suas tropas libertavam Paris. Hoje conhecemos o nome Leclerc não pelo feito mas pela série Alô Alô.
Com a libertação, o prazer da vingança em mulheres caídas em desgraça, eram sinais de que a experiência da ocupação fora sobretudo de humilhação.
Robert Capa, 1944
Robert Capa, 1944

Berlim não teve um general Leclerc, Washington deixou que as tropas soviéticas chegassem primeiro à cidade e a 2 de Maio de 1945, a bandeira comunista era içada no Reichstag.

O delineamento da Europa do pós-guerra foi ditado pela ocupação geográfica dos exércitos. A URSS libertara e reocupara o Leste da Europa: Hungria, Polónia, Checoslováquia…e uma barreira estendeu-se do Báltico ao Adriático. A subdivisão da Alemanha iniciada em Potsdam, terminaria com uma última reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros em 1947, o resultado final, um país dividido que todos julgaram preferível a uma Alemanha unida contra eles. Uma linha dividia a Europa, em Oriente e Ocidente, em esquerda e direita e o mundo rapidamente se acostumou a esta divisão.
Winston Churchill, quando em Março de 1946, no Missouri pronunciou no seu famoso discurso a “cortina de ferro” não se enganara na divisão futura da Europa, no entanto não foi de ferro, mas uma cortina de tijolo, cimento e arame farpado.
Thomas Hoepker, Berlim, 1963

Encerrou no sábado passado, na galeria Quadrado Azul em Lisboa, a exposição “No Ruses, so to speak” de Paulo Catrica. Fotografias da cidade de Praga, nos seus contrastes entre o moderno e o antigo, preenchiam parte da exposição.
Paulo Catrica, Praga

Olhar para o que é hoje a Europa de Leste, para as suas transformações, é tema recorrente na fotografia actual.
Mark Power, Varsóvia, Polónia, 2004
Mark Power, Bialystok, Polónia, 2004

Derrubado o muro, a decadência económica dos países de Leste era agora visível para todos, e surpreendeu os mais cépticos. Milhares de fábricas obsoletas tiveram que fechar.
Eric Baudelaire, Wait, 2004-2005
Por exemplo os veículos produzidos, nas formas do Trabant, que Catrica ainda encontra, eram caixas que vomitavam poluição, e não eram alterados há mais de trinta anos. A relação qualidade/produção mostrava o fosso entra as duas economias, que durante 40 anos competiram divididos por uma fronteira.

Mas onde todos fracassaram foi no planeamento urbano. Se no Leste, as casas eram mal construídas e depressa se degradavam,
Mark Power, Polónia, 2004
Eric Baudlaire, The Spce Between, 2004-2005
Eric Baudelaire, Neighbors,2004-2005
Lisa Safarti, Lituânia, 2004
no Ocidente os planos urbanísticos também não passaram de remendos. Estratégias pensadas a longo prazo, que integrassem habitação, serviços, emprego, lazer, nunca existiram, e a fealdade da arquitectura urbana na Europa Ocidental, dos grandes blocos de habitação homogéneos,
Mark Power, Sheffield, Inglaterra, 1985
nas orlas das cidades ou em espaços abertos pela guerra, eram deprimentes, nem pintados com nuvens conseguiam disfarçar a fealdade. O documentário, “L’amour existe”, 1960, do cineasta Maurice Pialat, já nesses anos mostrava os sinais de alienação pessoal e social da classe operária que para lá foi habitar. Pialat filma as casernas de betão armado, em Clichy-sous-Bois, Seine-Saint Denis, La Courneuve, Aulnay-sous-Bois...,os subúrbios de Paris que em Novembro de 2005 se incendiaram. Prédios despersonalizados com janelas cada vez mais pequenas, em que no interior quase não vemos o exterior “mas o que nos serve olhar para o exterior se nada há para olhar…
José Manuel Ballester, Paris, 2004
e o homem na Europa Ocidental que se queria moderna perdia a individualidade nesse mundo feroz e impiedoso da habitação colectiva. Os princípios modernos de arquitectura, definidos na Carta de Atenas, foram erroneamente aplicados a uma escala inédita.
Robert Doisneau, Paris, Place des Fêtes, 1975
Muitos deles foram abandonados passados vinte anos, e hoje continuam as implosões desses enormes edifícios que custam milhares aos contribuintes. O “Ronan Point” no East End de Londres, teve até o bom gosto de cair por si, em 1968.
Londres, Paris, Bruxelas, Frankfurt…acordaram demasiado tarde, as cidades tinham trocado o património urbano por uma confusão brutal.
Com os HLM, (Habitation à Loyer Moderé), atrás, a alegria de Josette no dia do seu vigésimo aniversário sempre me impressionou.
Robert Doisneau, Les Vingt Ans de Josette, 1947
Será que Robert Doisneau a encenou, como encenou o “Baiser L’Hôtel de Ville”?

O tempo passa mais depressa do que julgamos, e nesta semana a Europa comemora os dez anos do euro, e no próximo post vamos continuar na Europa.

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sábado, maio 03, 2008

Os paradoxos de Maio de 68

Se em França o reviver de Maio de 68 começou em Abril, por cá, a revolta estudantil que paralisou a França há quarenta anos chegou com o mês de Maio. Ontem o jornal Público deu destaque ao Maio de 68, e os estudantes universitários alvo de inquéritos. À questão “Sabe o que foi o Maio de 68?”, 51% dos estudantes respondem sim, mas “muitos dos que disseram saber o que tinha sido o Maio de 68 acabaram por não conseguir responder a questões mais específicas. A pergunta “O que queriam os estudantes em 68?” provocou um encolher de ombros, acompanhado de “hummm..isso já não sei”, lemos no Público.
Ao longo destes cinco posts sobre Maio de 68, também não respondi à questão: “O que queriam os estudantes em 68?”, pois confesso que também não sei responder.
A 30 de Maio, no pátio da Sorbonne,
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

decorada com os símbolos políticos da contra-cultura, Mao, Guevara, Trotsky, Marx, Lenine…
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

os estudantes, com os seus transístores,
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

aguardavam o discurso de De Gaulle na televisão: “Encarei nas últimas 24 horas todas as eventualidades – sem excepção – e tomei as seguintes resoluções: nas circunstâncias presentes, não serei candidato à minha própria sucessão e dissolvo hoje a Assembleia Nacional”.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

“Le salaud!” o grito de indignação.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Mas nesse mesmo dia um milhão de gaullistas manifestava-se nos Campos Elísios e nas eleições legislativas que se seguiram uma esmagadora vitória dava-lhes a maioria no Parlamento. Os estudantes, depois dos exames, partiram para férias.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Ao contrário dos estudantes, o mundo laboral, o mundo dos operários das fábricas, que simultaneamente entraram em greve e paralisaram o país, sabiam o que queriam e pressionaram o governo a ceder.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Que reclamavam eles? Havia certamente um descontentamento com a baixa dos salários reais, mas a verdadeira fonte de queixas eram as condições de trabalho e em particular as relações entre empregados e patrões. A classe operária, a geração mais velha que condenava os estudantes que queimavam os carros, que eles, nas cadeias de montagem construíam nas fábricas, acabava por vencer na luta contra o patronato.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Paradoxalmente ganhavam os que estavam a desaparecer, pois não era esta mesma classe operária que estava a reformar-se em grande número e a ser substituída por um tipo muito diferente de população trabalhadora, a indústria de serviços?

A frustração da população francesa era genuína, não só nas fábricas da Renault e Citroën, como em todo o lado. Na rua todos discutem, e a 15 de Maio, os franceses de todas as idades e classes, ocupam o teatro de L’Odéon.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Todos querem falar, todos querem o microfone, discute-se dia e noite.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Uns reclamam por justiça social, outros por aumento de férias pagas, outros pela abolição da gravata para entrar no teatro…

Mas olhando para as imagens desta época, impressionante é o que esta geração fumava.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"

Na cantina da Sorbonne, comiam e discutiam política envoltos em fumo onde os pratos serviam de cinzeiros.

Mas como se justifica tanta frustração num país que vivia anos de prosperidade e segurança?

A V República francesa, 1958, a de De Gaulle, foi concebida para evitar os defeitos da IV República instável do pós-guerra. De Gaulle concentrou o poder na presidência, que assumiu o controlo total, na concepção das políticas e na preponderância absoluta sobre os ministros. Charles de Gaulle, o Presidente francês, tinha mais poder do que qualquer outro chefe de Estado ou de Governo livremente eleito.
Foi este poder concentrado e dirigido por uma minúscula elite, socialmente exclusiva, altivamente hierárquica e inabordável, que despoletou a revolta no centro de Paris. Alain Peurefitte, o ministro da Educação, numa atitude desastrosa de autoritarismo, mas talvez a única que conhecia, manda encerrar a Sorbonne, e os polícias tem ordem para intervir e prender. Julgou o ministro e o reitor, Jean Roche, que os enragés, eram um grupo restrito fácil de controlar, os exames estavam à porta e certamente os outros estudantes não os iriam seguir. O autoritarismo do Governo acabou por dar a Daniel Cohn-Bendit o que ele queria, a revolta de todos os estudantes e de todos os franceses que se indignaram com a repressão da polícia sobre os estudantes. E o Quartier latin virou o teatro da revolta.
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Do filme realizado em Maio de 68 por William Klein, "Grands Soirs et Petits Matins"
Os estilos tradicionais de autoridade, disciplina e modo de falar, não tinham conseguido acompanhar as rápidas transformações sociais e culturais desses anos, e a revolta desse Maio de 68 veio dessa sensação de exclusão da tomada de decisões e de poder.

Hoje ainda persistem demasiados hábitos profundamente impregnados de deferência em relação às autoridades e às instituições, mas o acto de participar, como os franceses viveram nesse mês de Maio, está a regressar, não são a proliferação de blogues, um blogue é criado de sete em sete segundos, um sinal de participação activa, um sinal de mudança?
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quarta-feira, abril 30, 2008

A geração de Maio de 68

No ano passado, em Novembro, realizou-se em Bamako, na capital do Mali, a sétima Bienal de fotografia africana. A cidade foi o tema escolhido e a Finlândia o país convidado. “Todos os dias os africanos tem nas suas mãos um pedaço da Finlândia: o seu telemóvel portátil Nokia” dizia numa entrevista um dos organizadores e acrescentava “a essência da Bienal é mostrar uma outra imagem de África, e sair de um certo estereótipo do sacro santo preto e branco de Seydou Keita ou Malick Sidibé”, e o nadador de Samuel Fosso, dos Camarões, ilustrava as revistas da especialidade.
Samuel Fusso, Le Maître nageur, série Tati, 1997

Em paralelo, a 52ª Bienal de Veneza premiava Malick Sidibé, do Mali, com o prémio Lion d’or, o primeiro artista africano a receber esta recompensa, e a fotografia “Combat dês amis avec pierres”, 1976, a escolhida para ilustrar as revistas de arte contemporânea.
O comissário americano, Robert Storr, abria pela primeira vez as portas da Bienal de Veneza ao continente africano. Considerando-se um autêntico “soixante-huitard”, Storr confrontou as várias gerações de artistas.

Malick Sidibé, considerado no seu país, Mali, um estereótipo do passado, era premiado em Veneza. Ironias…

E o mundo mudou com a geração “soixante-huitard”.

Passemos agora para a Europa, a Europa dos anos sessenta, onde uma geração crescia em segurança, e sonhava viajar para países exóticos. Ouviam música nos seus transístores portáteis e compravam os discos favoritos que ouviam nos programas de rádio. Os programas de rádio, emitidos nos grandes aparelhos que ocupavam um lugar de destaque nas salas de estar, deixou-se de ouvir em família, e a nova geração podia ouvir agora os programas que queria nas suas rádios portáteis. Se a “Swinging London” ditava as modas, os americanos não se deixaram ficar atrás: Em Maio de 63, no Marche aux Puces, vendia-se pela primeira vez as Levi’s genuínas, e a procura ultrapassou de longe a oferta. Jeans e mini saias, vestia agora a nova geração.
Os Europeus assistiam a um crescimento económico, medido por novos indicadores, o PIB, Produto Interno Bruto, e tinham agora acesso a uma gama de produtos que os consumidores americanos já estavam familiarizados: telefones, electrodomésticos, televisão, máquinas fotográficas, vestuário, transístores, gira-discos, carros…e o boom do consumismo passou a ser um modo de vida. Os adolescentes, “teenager” como lhes chamaram na América, existiam agora como um grupo distinto, que nunca tinha existido. Na geração anterior, era-se criança até sair da escola, e tornavam-se adultos quando começavam a trabalhar. Com a escolaridade prolongada e com dinheiro para gastar, as agências de publicidade não perderam a oportunidade para os aliciar. Apareceram revistas destinadas aos adolescentes e a publicidade cresceu na ordem dos 400% nesses anos sessenta. A economia, que até aí era baseada na agricultura, passava para uma economia de serviços, e a mulher entrava no mundo do trabalho, a dona de casa passava à história e o fosso entre as gerações acentuou-se. As cidades enchiam-se de jovens que abandonavam as terras para aí trabalhar e estudar, e as universidades ficaram a abarrotar.

Regressemos novamente a África, aos anos sessenta, que a nova geração de Bamako agora prefere esquecer e que julga que a globalização chegou com os telemóveis Nokia.
Em 1960, o Mali que fazia parte do Sudão Francês obtinha a independência. Malick Sidibé, nos finais da década de 50 começa a trabalhar em Bamako como assistente do fotógrafo francês Gérard Guillat, de alcunha “gégé la pellicule”. Será gégé influência de yé-yé?. Em 62 abre o seu estúdio, e dedica-se a fotografar as festas de uma geração que dança o twist ao som da música dos gira-discos portáteis,
Malick Sidibé, Twist, 1965
Malick Sidibé, 1962
Malick Sidibé, Chez Mlle Colette, 1964
que faz de disco jokey,
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
usa mini saia e jeans,
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
Malick Sidibé, yeye, 1963
anda de mota,
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
e se diverte como os ocidentais.
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
No dia seguinte, iam ao estúdio e escolhiam as fotografias que Sidibé numerava e colava em cartões e afixava nas paredes.
Em 2006, Jérôme Sother da Steidl, encontrou empilhados a um canto no estúdio de Sidibé, em Bamako, centenas destes cartões.
Malick Sidibé, do livro Chemises, 2007
“Chemises”, o livro editado no ano passado, selecciona os melhores. Para Sother estas fotografias constituem um documento único da sociedade de Bamako desses anos.

A geração de 60 transbordou da Europa e chegou a todo o mundo, e o mundo mudou com a geração “soixante-huitard”.

Charles de Gaulle, que um dia disse ser o guia dos franceses, julgou a nação satisfeita, os adolescentes dançavam, o desemprego baixava, a economia crescia, mas o que De Gaulle não viu, foi que esta geração farta de ser guiada estava prestes a revoltar-se,
Christer Strömholm
e no próximo post, que já é Maio, vamos então para a rua.

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sábado, abril 26, 2008

Maio de 68 e as guerras que antecederam a revolta

Dois anos depois de terminada a Segunda Guerra, 1947, Robert Capa concretizava um sonho antigo, juntamente com Henri Cartier-Bresson, David Seymour, George Rodger e William Vandivert, criava a agência Magnum.

Terminava a guerra, falava-se em pós-guerra, e criava-se uma agência cujo objectivo principal - era cobrir as guerras no mundo.

Britânicos, Franceses, Holandeses, Belgas, que no fim da guerra tinham dificuldade até em alimentar-se, continuavam a governar parte do mundo. As suas colónias, em África, Ásia e no Médio Oriente, eram um bálsamo para os sofrimentos e humilhações porque tinham passado na guerra. Os políticos que só de nome conheciam tais povos, ignoravam o sentimento nacionalista que crescia rapidamente no seio das suas colónias e nenhum deles antecipou o colapso iminente das suas possessões e da sua influência no ultramar. Os políticos tinham a ideia, que dar a independência das colónias seria, como dizia o Ministro trabalhista britânico “dar a uma criança de dez anos a chave de casa, uma conta bancária e uma espingarda de caça”.
Se a Holanda queria manter a Indonésia, os Britânicos o seu império, os Belgas o Congo, os Franceses queriam manter o seu poder na Síria, na África subsariana, e acima de tudo queriam manter as suas “jóias” da coroa, a Indochina e a Argélia. Nesses anos, a Argélia em particular, era apresentada aos alunos como uma extensão administrativa da própria França e o inverso também,
Robert F. Sisson, National Geographic Society, Junho 1960, Ektachromes
e o mundo Ocidental via com os mesmos olhos tal prolongamento geográfico. Em Junho de 1960, em plena revolta e em véspera da independência, 1962, a revista americana “National Geographic” num artigo “Algeria Faces Problem and Promise”, escrevia em nota de rodapé desta fotografia o seguinte: A bit of Paris in Algiers,
Robert F. Sisson, National Geographic Society, Junho 1960, Kodachrome.
e na rua Michelet, cheia de lojas luxuosas e com as últimas modas vindas de Paris, os estudantes universitários bebem vermouth e soda, não fosse a mulher vestida de rosa, que dá um ar não gaulês, julgaríamos estar em Paris (sic).
Nesta outra fotografia acrescento, não fora os dois soldados lá mais atrás, e julgamos estar em Marselha, junto à Unidade de Habitação de Le Corbusier.
Robert F. Sisson, National Geographic Society, Junho 1960, Kodachrome

Mas em relação à Indochina o sentimento não era o mesmo. Marguerite Duras, no seu pequeno grande livro “O Amante”, descreve melhor que ninguém esse sentimento: “Os navios subiam o rio de Saigão, de motores parados, puxados por rebocadores até às instalações portuárias que ficavam naquele cotovelo do Mékong à altura de Saigão. Esse cotovelo, esse braço do Mékong, chama-se o rio, o Rio de Saigão. A escala era de oito dias. Assim que os barcos atracavam, a França aí estava. Podia-se ir jantar a França, dançar, era demasiado caro para a minha mãe e além disso para ela não valia a pena, mas com ele, o amante de Cholen, podíamos ter lá ido”.
Os franceses não estavam há muito tempo naquela região, só em 1919, com a vitória da Primeira Guerra, é que beneficiaram com a redistribuição das possessões asiáticas.

Em 2 de Setembro de 1945, logo após o pós-guerra, Ho Chi Minh, o líder nacionalista vietnamita proclamou a independência do seu país. Um mês depois as tropas francesas chegavam a Saigão. A Indochina tinha pouco sentido para a maioria do eleitorado francês, e o governo encetou conversações com os nacionalistas no sentido de negociarem uma independência. Em Junho de 1946, o almirante francês Thierry d’Argenlieu, sabotou o governo e proclamou a separação da Cochinchina (a parte sul) do Norte, rompendo as negociações com Ho Chi Minh. Começava a guerra no Vietname. Mas a França, debilitada economicamente, nunca poderia sozinha sustentar essa guerra e a guerra na Indochina foi sustentada pelos americanos. Em 1954, Washington acabou com o apoio, e os franceses depois de uma luta infrutífera e sangrenta viram-se obrigados a um cessar-fogo. Em 21 de Julho de 1954 assinavam um acordo em que se comprometiam a abandonar a região. Poucos franceses lamentaram a perda da Indochina, porque foram os seus soldados que lá combateram e morreram. Mas se os franceses não lamentaram a retirada, os fotógrafos de todo o mundo lamentaram a perca de Robert Capa, que morreria na Indochina a 25 de Maio de 1954, pouco antes do acordo assinado. Capa não mais regressaria dessa estrada
Robert Capa, Indochina, 1954
e a Magnum perdia o seu dirigente.

Imagens da Indochina? O saisdeprata-e pixels rende-se à literatura, a Duras, pois não há fotógrafo que a supere na descrição do povo: “No passeio, a multidão vai em todos os sentidos, lenta ou viva, abre passagem, é peganhenta como cães abandonados, é uma multidão da China, revejo-a ainda nas imagens da prosperidade de hoje, na maneira que eles têm de caminhar juntos sem impaciência, nunca, de se encontrar na multidão como se estivessem sós, sem felicidade dir-se-ia, sem curiosidade, caminhando sem ter o ar de ir, sem intenção de ir, mas somente de avançar aqui em vez de ali, sós, na multidão, nunca sós ainda por si mesmos, sempre sós na multidão”, na descrição da paisagem: “É, portanto, durante a travessia de um braço do Mékong na barcaça que está entre Vinhlong e Sadec, na grande planície de lama e de arroz do sul da Cochinchina, a das Aves. Desço do carro. Vou à amurada. Olho o rio. A minha mãe dizia-me às vezes que nunca, em toda a minha vida, voltarei a ver rios tão belos como aqueles, tão grandes, tão selvagens, o Mékong e os seus braços que descem para os oceanos, estes territórios de água que vão desaparecer nas cavidades dos oceanos. Na planura a perder de vista, estes rios vão depressa, vertem como se a terra se inclinasse”, na descrição das casas: “A casa está construída num terraplano que a isola do jardim, das serpentes, dos escorpiões, das formigas vermelhas, das inundações do Mékong, as que se seguem aos grandes tornados das monções. Esta elevação da casa acima do solo permite lavá-la com grandes baldes de água, banhá-la toda como um jardim. Todas as cadeiras estão em cima das mesas, a casa toda escorre, o piano do salão pequeno tem os pés dentro de água. A água desce pelos patamares, invade o pátio em direcção às cozinhas”, na passagem directa da infância para a maturidade: “Aos dezoito anos envelheci…este envelhecimento foi brutal”, e finalmente na descrição de uma sociedade, com uma moral hipócrita, que a nova geração na rua, em Maio de 68 condenaria: “A minha mãe só tira fotografias aos filhos. A mais nada. Não tenho fotografias de Vinhlong, nem uma, do jardim, do rio, das avenidas direitas, orladas pelas tamareiras da conquista francesa, nem uma,…Nunca tirava fotografias aos lugares, às paisagens, só a nós, os seus filhos, e a maioria das vezes, em grupo para que a fotografia fosse mais barata…Misteriosamente, minha mãe mostra as fotografias dos filhos à família dela, durante as férias. Nós não queremos ir com ela ver a família. Os meus irmãos nunca a conheceram. A mim a mais nova, dantes arrastava-me até lá. E depois nunca mais fui, porque as minhas tias, por causa do meu comportamento escandaloso, já não queria que as filhas me vissem. Assim não resta a minha mãe senão mostrar as fotografias, assim a minha mãe mostra-as, logicamente, ajuizadamente, mostra às suas primas direitas os filhos que tem”.

Chim, David Seymour, com a morte de Capa assume a presidência da Magnum, mas por pouco tempo, dois anos depois, em 1956, na desastrosa guerra, a do canal do Suez, contra o Egipto de Nasser, que a França, Grã-Bretanha e Israel conspiraram nas costas de Eisenhower, perdia também a vida.
David Seymour, Port Said, 1956
David Seymour, Port Said, 1956
David Seymour, Port Said, 1956, julga-se que esta foi a sua última fotografia.
A geração que se revoltaria em Maio de 68 vivia uma guerra à distância, e da geração mais velha da Magnum, ficou Cartier-Bresson, para testemunhar em França, a revolta estudantil de Maio de 68.
Henri Cartier-Bresson, Maio de 68

Mas antes de regressarmos às revoltas nas ruas de Paris, e à geração dos novos fotógrafos, ainda nos falta ir a África, e surpreendermos como em Bamako no Mali, na antiga colónia francesa, Malick Sidibé fotografa as festas da geração de 60, que mais parecem no Ocidente.

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