segunda-feira, setembro 17, 2007

"unknown landscapes" de Carlos Lobo

Em “unknown landscapes”, livro que Carlos Lobo acaba de publicar, a cor verde, cor que por excelência associamos à natureza, predomina.

Nesta fotografia,
Carlos Lobo
na banalidade do assunto, três portas de garagem rodeadas de àrvores, vejo a essência do livro. O verde foi a cor escolhida para dar cor às portas. Na do meio ainda restam vestígios da pintura verde, que os nós da madeira absorveram mais intensamente. A porta em madeira, parente da natureza, resiste à substituição do alumínio, ou será que está ao abandono?. O verde escuro escolhido para a porta da direita, assemelha-se ao verde da natureza, o verde berrante da porta da esquerda, assemelha-se ao verde dos caixotes de plástico que recolhem o lixo das cidades.
Carlos Lobo

Na fotografia vemos ainda uma rede, quase invisível, suportada por postes de cimento. Serve de linha divisória entre a natureza, as àrvores, e as garagens onde se guardam os carros, símbolo da nossa civilização. É o belo e o feio apenas separado por uma rede de arame. Quase de forma invisível ou pouco notada na nossa rotina do dia-a-dia, a natureza é dominada pela mão do homem, a essência desta fotografia, a essência que vejo no livro.
Mas a natureza, de forma inexplicável, parece resistir,
Carlos Lobo
como estas ervas que insistem em crescer no meio do alcatrão da cidade. Noutras, é a cidade que parece resistir ao verde e às formas orgânicas, preferindo o azul, encarnado e amarelo e as formas geométricas.
Carlos Lobo
Mas nos subúrbios, o verde também não resiste aos salpicos de amarelo e encarnado que vêem da cidade
Carlos Lobo
Carlos Lobo
e onde a linha amarela demarca até onde foi a mão do homem.
Carlos Lobo

O papel, para quem olha para as fotografias do livro, é semelhante ao do arqueólogo, que escava à procura de sinais, indícios e vestígios dos locais que investiga, faz parte da natureza humana. Carlos Lobo nada nos revela sobre o tempo e os espaços que nos mostra. Mas por vezes, nas suas fotografias, os espaços emitem sinais: uma matrícula,
Carlos Lobo
um anúncio de restaurante, revelam o país por onde passou.
Carlos Lobo

Conheço Carlos Lobo pelo que escreve no seu Blog e pelos comentários que por vezes deixa no meu. Gosta de Dan Graham e de Stephen Shore, que foi seu professor num curso que tirou na Fundação Gulbenkian.
Dan Graham, na América, fotografou as casas dos subúrbios que surgiram no pós-guerra, standardizadas, pois a urgência ditava as regras. Graham ironizou a perca de individualidade que aí se vivia. Mas os subúrbios continuaram tema recorrente na fotografia americana. Com William Eggleston os subúrbios e a cor entraram pela primeira vez nos Museus, estavamos em 1976 e John Szarkowski, à época curador do MoMA, achou as fotografias fascinantes, porque o oposto do que se esperava. Eggleston preferiu a banalidade dum bairro residencial e as suas fotografias confundiram-se com a dos álbuns familiares. Eggleston descreve os subúrbios no início.
William Eggleston, Southern environs of Memphis, do livro William Eggleston's Guide, 1976
A casa recuada que vemos da estrada estava antes no meio do campo, agora desenraízada não segue a linha da estrada das casas em frente. Ao deixar as cidades já não se entra no campo, passa-se por uma nova fronteira que são os subúrbios. Carlos Lobo pertence a outra geração, e os subúrbios que fotografa já são os subúrbios habitados por outras gerações. Vai buscar a Graham e Eggleston a banalidade do mesmo assunto, mas agora, longe da aparente ordem dos primeiros subúrbios, amplia para nos dar a ver melhor, os detalhes de uma geração que adapta e transforma os subúrbios à realidade do seu dia-a dia, surge o caos e a desordem.
Carlos Lobo
Carlos Lobo
Carlos Lobo
Certamente não me engano se disser que Carlos Lobo aprecia “26 Different Endings”, o último livro de Mark Power, editado em Março deste ano. São os subúrbios que caem fora do A-Z London Street Atlas.

Mas sem esperarmos, a seguir a uma curva,
Carlos Lobo
Carlos Lobo
entramos em cidades, vazias de tráfego e pessoas mas cheias de dejectos deixados por quem aí esteve.
Carlos Lobo
Carlos Lobo prefere a sordidez às grandes maravilhas arquitectónicas, o banal ao estético.

“unknown landscape” inicia numa estrada,
Carlos Lobo
que não fora o candeeiro, julgávamos já estar no campo e termina numa estrada que nos leva a um emaranhado de verdes deixando para trás o negro da poluição.
Carlos Lobo

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terça-feira, setembro 11, 2007

11 de Setembro 2001, fotografado pela Magnum

No post de ontem, Joel Meyerowitz, um nova iorquino de gema estava em Cape Cod no dia 11 de Setembro, fotografou Manhattan poucos dias antes, ainda com as torres, e fotografou Manhattan depois, a limpeza dos destroços das torres no ground zero, Manhattan sob a tragédia só a viu em filme. Dos fotógrafos da Magnum que estavam em Nova Iorque nenhum foi a tempo de fotografar o ataque dos aviões, nem mesmo os dezoito minutos de intervalo foram suficientes, quando olharam já ambas as torres ardiam.

Passado oito semanas do ataque, a Magnum editou o livro New York September 11, Magnum Photographs.

Neste post o testemunho desse dia pelos fotógrafos da Magnum: Susan Meiselas, Larry Towell, Thomas Hoepker, Steve McCurry e Gilles Peress.

Steve McCurry, avisado do que acontecia subiu para o telhado e comenta mais tarde: “I have an unobstructed view of all of downtown from the top of my building…I had seen these buildings every day from my window, to have them crumble, it’s like ripping your heart out”.
Steve McCurry, Magnum, 9/11
Nunca imaginou ver as duas torres em chamas. À noite vai para o local e ignora as barricadas montadas pela polícia, mesmo correndo riscos não quer deixar de fotografar os bombeiros que tentam apagar o fogo.
Steve McCurry, Magnum, 9/11
Steve McCurry, Magnum, 9/11

Susan Meiselas não quer acreditar no que se passa, acorda Larry Towell, colega hospedado em sua casa para o meeting anual da agência. De bicicleta vai para o local, já o segundo avião se despenhara na segunda torre gémea. Meiselas chega a tempo de fotografar a fuga das pessoas com a queda da torre 2 marcavam 9:55 a.m. a outra cairia às 10:29 a.m.
“As I tried to get through the police barricades on Church Street, the first tower began to implode. People screamed and ran; some ran straight into me.
Susan Meiselas, Magnum, 9/11
Later, I came across a sculpture (of a business man sitting with his attache case) near the World Trade Center. He sat all alone, covered with debris, seeming stand for all those who were gone”.

Larry Towell segue a pé, o único a fotografar a preto e branco. Não sabe como focar pelo intenso fumo e pó, e não sabe o que focar, tal a tragédia que se desenrola à sua volta, decide focar as pessoas.
Larry Towell, Magnum, 9/11
“A policeman runs from ground zero after the attack of World Trade Center”
Larry Towell, Magnum, 9/11
“A dazed man picks up a paper that was blown out of the towers”.

Thomas Hoepker,
Thomas Hoepker, Magnum, 9/11
fica preso no trânsito, acaba por tirar as fotografias do local onde ficou, em Manhattan Bridge. O seu testemunho : “The subway wasn’t running and traffic was so heavy on second Avenue, I decided to cross the Queensboro Bridge. It looked like an exodus-people fleeing a doomed city.
Thomas Hoepker, Magnum, 9/11
It was like a Hitchcock movie shot in bright daylight, where something horrible is looming, but you don’t know what. Lower Manhattan had disappeared behind a black veil of smoke. I’d never seen the city like this loomisday feeling. It looked like the whole city was in flames”.
Thomas Hoepker, Magnum, 9/11

Gilles Peress, fotografa as pessoas a fugirem da cidade pela Brooklyn Bridge,
Gilles Peress, Magnum, 9/11
depois chega ao local, e centra-se no trabalho dos bombeiros, no controlo do fogo e na assistência paramédica.
Gilles Peress, Magnum, 9/11
Gilles Peress, Magnum, 9/11

Faz hoje seis anos, e o Ground Zero continua sem torres, improvisou uma pequena piscina onde familiares e amigos prestam mais uma homenagem às vítimas dos ataques.
Agência Reuters, 9/11, 2007

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segunda-feira, setembro 10, 2007

9/11

Em Lisboa eram quase duas da tarde, em Nova Iorque eram quase 9 am, a bolsa de Nova Iorque abriria daí a meia hora. Em frente à bloomberg, aguardava a abertura, para um dia que me parecia prometedor. Em rodapé uma linha em vermelho, utilizada para as notícias importantes, despertou-me a atenção, dizia qualquer coisa como, um avião acaba de se despenhar numa das torres do World Trade Center. Automaticamente liguei a televisão e a CNN já filmava o desastre. Tudo isto, julgo, um ou dois minutos depois do acidente. Os jornalistas da CNN comentavam incrédulos como era possível: o céu em Nova Iorque estava limpo e aparentemente nada justificava tal erro... Passados 18 minutos, um outro avião entrava na segunda torre. Um ataque terrorista _ era agora a certeza.
A CNN encontrava-se diante do World Trade Center para iniciar umas filmagens, acabaram a filmar o acontecimento na íntegra. O mercado não abriu, e fiquei estupefacta a olhar para as filmagens que passavam na televisão. O centro de Nova Iorque, o coração da América, acabava de ser alvo de um terrível ataque terrorista, o primeiro em casa, na sua história.

Durante várias semanas, o mundo inteiro viu as filmagens do ataque às torres gémeas de vídeos amadores, e Manhattan tornou-se no lugar mais retratado.
Joel Meyerowitz, fotógrafo nova iorquino pertencente à geração de 60, vive e trabalha em Nova Iorque. Da janela do seu loft, na 19 avenida via as torres gémeas. Fotografou-as vezes sem conta, a última a 5 de Setembro, antes de partir para a sua casa de férias em Cape Cod.
Joel Meyerowitz, do livro Aftermath, Jan 1st 1983

Preparava aí, no seu estúdio uma exposição sobre Manhattan. Quis Manhattan que nesse dia fatídico Meyerowitz estivesse em Cape Code. Meyerowitz fotografou o antes e o depois,
Joel Meyerowitz, do livro Aftermath

esteve ausente para fotografar o durante.
Quando pôde regressar à sua casa na cidade o mundo mudara, como ele mudara há quarenta anos da fotografia espontânea a preto e branco para a fotografia estática a cores. Meyerowitz mudara como mudara o fotojornalismo. Durante décadas o “momento decisivo” ligou a fotografia à memória colectiva. A guerra do Vietname foi a última a ser fotografada, e hoje a memória dessa guerra reconstrói-se com meia dúzia de fotografias. A televisão invadira o espaço do fotojornalismo com o seu tempo real e acabava com o “momento decisivo”. Hoje são os vídeos amadores que invadem o espaço televisivo, ao registarem, em directo, todos os momentos num contínuo. As fotografias que vemos nos jornais são na sua maioria fotogramas de filmes em vídeo. Aos fotógrafos resta o depois, perderam a relação imediata com os acontecimentos, e deambulam pelos lugares onde aconteceram os momentos decisivos. Críticos, como David Campany, chamam a este registo fotográfico do depois, “fotografia tardia”. Mas a fotografia continua a reclamar para si a memória colectiva, monopólio que já lhe pertenceu. O livro "Aftermath (World Trade Center Archive)" de Meyerowitz é um exemplo.
Regressado à cidade, Meyerowitz foi ao recinto, ao ground zero para o fotografar, não o deixaram, como refere no livro “No photographs, buddy, this is a crime scene”afirmação à qual argumenta, “Listen, this is a public space”. Não se conforma, sente que tem de fazer um arquivo de tudo o que se passava no ground zero, um testemunho para deixar às gerações seguintes. “It could be similar in approach to the work of the FSA, making visible for the rest of the country the consequences of a national disaster”

Consegue convencer o director do Museum of the City of New York, e obtém acesso exclusivo. No dia 23 de Setembro com a sua Deardoff, uma câmara de grande formato com mais de sessenta anos de idade, pesando mais de vinte quilos, Meyerowitz, vai sózinho para o meio dos escombros e gruas, onde ainda se sente todo o inferno da tragédia, só sairá passados nove meses, em Junho de 2002.

Campany, num comentário ao programa televisivo do trabalho de Meyerowitz refere, “ (Meyerowitz) parecia insinuar que a fotografia, e não a televisão, era o meio mais indicado para fazer a história oficial”.

Jorge Calado, num artigo dedicado ao livro “Aftermath” que a Phaidon acabara de editar (2006), refere, “Sinto (ainda) demasiado o acontecimento para poder apreciar a obra do ponto de vista fotográfico”.

Olhemos para algumas dessas imagens, para o testemunho que Meyerowitz nos quis deixar, um registo épico de retratos e detalhes dos trabalhos de escavação, onde em todas elas domina uma luz que as torna atractivas:













Naquela noite 11 milhões de dólares foram recuperados dos cofres dum banco.

O arquivo das milhares de fotografias que Meyerowitz tirou no ground zero são hoje pertença do museu que o apoiou. Para além do livro, as suas fotografias foram expostas na cidade e circularam posteriormente pelo mundo.

Aqui numa entrevista em 2008, Meyerowitz volta ao ground zero.
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domingo, setembro 09, 2007

Terezka

Uma iniciativa do blog apresmidifaune.wordpress.com, uma fotografia que incomoda:
David Seymour, Terezka, a disturbed child in an orphanage. The scrawls on the blackboard are her drawing of "Home", Polónia, 1948

Com a participação de

respiraromesmoar.blogspot.com

sem-se-ver.blogspot.com


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