quarta-feira, abril 16, 2008

Maio de 68, conflito de gerações?

Neste mês de Abril regressa-se a Maio de 68. Revistas, jornais, programas de televisão, exposições, novas edições que cobrem as montras das livrarias não esperam por Maio. Em Abril a França relembra as revoltas que há quarenta anos paralisaram o país. Há quarenta anos uma nova geração acreditou que podia mudar o mundo. Os movimentos de contestação desse Maio de 68 em Paris, que rapidamente se alastrou pelo país, não foi institucionalizado, não nasceu num partido, nem da revolta organizada dos sindicatos. Na rua, os estudantes, geração que nascera no pós-guerra e crescia sob o clima da Guerra Fria, numa Europa dividida, revoltava-se contra o governo,
Raymond Depardon, Charles de Gaulle, Palais de l'Elysée, 1967

contra o ensino nas universidades, contra a tradição e valores da família e contra a nova sociedade de consumo que a prosperidade económica agora permitia. As grandes manifestações surpreenderam os partidos e o próprio governo. Charles de Gaulle, o presidente eleito em 58, retirou-se para Baden-Baden - que fazer perante uma insurreição tão grande?

Conflito de gerações?

Cartier-Bresson, fotografou o olhar da sua geração, de uma geração conservadora e resignada, que viveu a guerra, a humilhação da ocupação nazi e as dificuldades do pós-guerra.

Influências estrangeiras? Sem dúvida. A minijupe adapta-se melhor à nova vida urbana, dizia a estilista Mary Quant, que em Londres lançava a nova moda e desafiava os grandes nomes da costura francesa. Coco Chanel criticava, é a mulher “sur pilotis”e Christian Dior, aterrorizava-se com a nova moda que mostrava a parte mais feia do corpo, os joelhos. Mas já é tarde, André Courrèges, veste Catherine Deneuve com um fato com um palmo acima dos joelhos e inicia o prêt-à-porter, a nova indústria do vestir. A mini-saia acompanha o feminismo e a pílula. É a emancipação da mulher e nesta fotografia,
Henri Cartier-Bresson, Paris, Saint Germain des Prés, Brasserie Lipp, 1969

é a geração das saias um palmo abaixo dos joelhos que olha intolerante para a indiferença da geração que usa a mini-saia.

Em Maio de 68, Cartier-Bresson fotografa o outro lado das barricadas, a de uma geração que acordou num mundo que parecia virado do avesso e que regista à distância os distúrbios da véspera.
Henri Cartier-Bresson, Maio 1968

Ontem o canal Arte, para saudar os 40 anos desses dias de Maio, apresentou alguns documentários, “Jouissez sans entraves” abriu o tema, frase da Internacional Situacionista “...vivre sans temps mort et jouir sans entraves…”. É a força das palavras escritas nos muros da cidade, afixadas nos cartazes e divulgadas nos panfletos distribuídos.
Les murs ont la parole, Maio 68
Les murs ont la parole, Maio 68
Les murs ont la parole, Maio 68
Guy Le Querrec, Devant la Sorbonne, 5 mai, 1968

O grupo de Guy Debord (“La Société du Spectacle”, 1967) e Raoul Vaneigem (“Traité de savoir-vivre à l’usage des jeunes générations », 1967) e de outros, nunca foi uma organização, nunca recrutou militantes nem nunca participou em manifestações partidárias, agiam subtilmente, lançando as suas ideias, contra a sociedade moderna. Criticaram a nova sociedade de consumo, criticaram o poder das imagens, criticaram o urbanismo moderno, criticaram a pop art, mas as acções de rua e o poder não lhes interessou. Cartier-Bresson não resistiu,
Henri Cartier-Bresson, La rue de Vaugirard, Maio 1968

e também fotografou este homem, já de certa idade que olha perplexo para tanta liberdade.

Mas será que os estudantes mudaram o mundo? O que ficou dessa revolta estudantil?

Daniel Cohn-Bendit, símbolo da revolta estudantil, desafiou os “flics”, a autoridade,
Gilles Caron, Daniel Cohn-Bendit, Maio 1968

e lançou palavras de ordem “On encercle les flics”, e na Rue Gay-Lussac, mais de dez barricadas, umas atrás das outras, foram construídas porque “on avait envie de faire dês barricades”.

Ao microfone gritou “Et maintenant, la grève générale » e o mundo operário entrou em greve,
Bruno Barbey, Dans l'usine occupée, 1968

a França paralisou, e o poder e a luta passaram para as organizações sindicais.
A 30 de Maio dissolvia-se a Assembleia, e um milhão de franceses, no Champs Élysées apoiavam Charles de Gaulle. Regressava-se à ordem.
Bruno Barbey, 30 Maio 1968, Champs-Élysées avec l'Arc de Triomphe à L'Arriére-Plan.
Bruno Barbey, 30 Maio 1968, Champs-Élysées avec la Place de la Concorde à L'Arrière-Plan.
Dez anos antes, em 1958, Charles de Gaulle era eleito presidente da V República Francesa, e em Paris, bem no centro da cidade ainda se dançava assim nas comemorações do 14 de Julho.
Johan van der keuken, 14 juillet, île Saint-Louis, 1958

Sol de pouca dura, esse Maio estudantil? Mas afinal o que mudou no mundo nesses idos anos sessenta?
Através do olhar dos fotógrafos vamos ver no próximo post.

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quinta-feira, abril 10, 2008

Patti Smith na Fundação Cartier

Passaram quarenta anos e Patti Smith (n.1946) regressa a Montparnasse, ao Boulevard Raspail onde agora fica a Fundação Cartier. Em Nova Iorque, para onde foi viver em 1967, Patti sonhava com Paris. Em Nova Iorque aprendeu poesia e política a ouvir MC5, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Bob Dylan. Vivia-se sob o receio da bomba atómica e protestava-se contra a guerra do Vietname. “Não tínhamos praticamente nada, nem Internet, nem telemóvel, nem televisão nem cartões de crédito. Era uma época muito pouco materialista onde as ideias primavam. Os músicos não viviam obcecados com a celebridade. Eu e Robert Mapplethorpe, partilhávamos um quarto minúsculo no Hotel Chelsea.
Malanga, Patti Smith e Robert Mapplethorpe, 1967
Encontravamo-nos com Allen Ginsberg, William Burroughs, Greggory Corso, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Carrol, Sam Shepard. Era uma época muito estimulante, cada um falava do seu trabalho e discutíamos”, comenta Smith numa entrevista recente à Art Press. Em 69, Patti realiza o seu sonho, vai viver em Montparnasse, perto de onde é hoje a Fundação Cartier, na cidade onde as ideias primavam:
Mai 1968: Les murs ont la parole

A exposição “Land 250”, que se inspira no nome da Polaroid de Smith, (gosto da sua simplicidade técnica diz Smith),
mostra uma retrospectiva dos desenhos, música, filmes, escrita, colagens, fotografias, que a artista foi fazendo ao longo da sua vida
Patti Smith, "Sofá, Hotel Brest"; "Exposição Agnès Varda"; "Air India, Aeroporto"
e a livraria da Fundação transformou-se provisoriamente na biblioteca pessoal de Smith,, com os seus livros, discos e filmes.

No edifício transparente, onde do exterior se vê o jardim interior e onde na fachada se duplicam as árvores do Boulevard Raspail, é do agrado da artista, mas não nos espanta que seja, basta olharmos para as suas fotografias.
Patti Smith, Winged Horse, Palau de la Música, Barcelona, spain, 2004

Uma vez, no Palau de la Música em Barcelona, onde testava o som, vi este cavalo de gesso que parecia sobrevoar o palco. Subi a um escadote e tirei esta fotografia”.Patti Smith
Patti Smith, Máquina de escrever Herman Hesse

As suas paixões não se restringem aos familiares e amigos e aos amigos que morreram, alarga-se aos artistas que nunca conheceu mas que alimentam o seu espírito: “Procuro um parentesco, uma fraternidade”, diz Smith quando fala de Arthur Rimbaud, Virgínia Woolf, Herman Hesse…
Patti Smith, Virginia Woolf's Bed 2, Monk's House, East Sussex, 2003
Em Inglaterra em East Sussex, visitei Monk’s House, a casa de Leonard e Virgínia Woolf. Tive acesso ao seu minúsculo quarto. A cama de Virgínia está coberta com uma colcha de linho branco. Estive sozinha no quarto, e só tirei duas fotografias. A luz era fraca, fiquei no quarto durante muito tempo. Pedi-lhe que me ajudasse e ela ajudou-me”, Patti Smith.
Patti Smith, Rimbaud Family Atlas, Rimbaud Museum, Charleville, France, 2004

"Em Charleville, França, o local onde o poeta Arthur Rimbaud nasceu, tive o privilégio de fotografar os seus pertences que hoje estão num museu local. O seu lenço, utensílios e o seu Atlas. A luz fluorescente era terrível, foi uma experiência difícil. Tirei duas fotografias de Atlas, uma delas nesta página do título, que é muito bonita”, Patti Smith.
Patti Smith, Nureyev's Slippers, 1995

Nos anos noventa, após a morte do meu marido e do meu irmão, comecei a ficar obcecada com alguns dos seus objectos pessoais, muitos objectos parecem ter o espírito da pessoa. Em 1995, no meu quarto no Michigan, tirei esta fotografia ás sapatilhas de Nureyev. Coloquei-as de baixo de uma rede de mosquito à luz da manhã. É a minha homenagem a este grande bailarino”,Patti Smith.
Patti Smith, Percy Bysshe Shelley's Grave, Rome, 2005

Em Roma, eu e o meu amigo Stefano visitámos a campa de Gregory Corso, que ficava junto à do seu amado Percy Bysshe Shelley. Só tinha uma fotografia, e queria tirar à campa de Corso, mas não senti que ele estivesse ali. “He’s hanging out with Shelley” disse. Tirei então uma fotografia à campa de Shelley. Quando mostrei a fotografia a Stefano, ele apontou para a luz a dançar e gritou “Patti, it is Gregory”. Patti Smith

Na exposição, onde domina a fotografia, muitas são da sua vida íntima,
Patti Smith, Fato de casamento
outras serviram de modelo, como esta estátua para o treino do desenho.
Patti Smith
Nas digressões que faz, leva sempre a máquina, para documentar a vida na estrada,
Patti Smith
pois gosta de guardar o momento de cada lugar por onde passa.

Em relação à fotografia, Patti diz ser uma amadora, “conheço a história da fotografia”, mas as suas fotografias são acima de tudo um diário visual da sua vida.

Mas falar de Patti sem ouvir a sua música, seria imperdoável. Quando Patti se apaixonou pelo marido, escreveu “Dancing Barefoot” e “Because the Night”, entre tantas outras.

Ser artista é nunca estar satisfeita, temos de transformar tudo constantemente”.
Robert Mapplethorpe, Patti Smith, 1979

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segunda-feira, abril 07, 2008

O mistério de Stonehenge

Paul Caponigro, Portfólio Stonehenge, 1970

Dois arqueólogos de renome, Timothy Darvill e Geoff Wainwright, durante duas semanas, procuram no subsolo, junto ao monumento megalítico de Stonehenge, vestígios das pedras azuis, (bluestones), pedras com poderes curativos e mágicos, que segundo os arqueólogos, no início da idade do bronze, levaram muitos peregrinos ao local em busca dos seus poderes curativos. As pedras azuis, com o poder sobrenatural para curar doenças – a chave da sua nova teoria.
Paul Caponigro, 1970

A composição química, cor, cristalização, lugar da descoberta e quem as descobriu, são normalmente os factores que levam ao baptismo da pedra, em Stonehenge, a cor, o azul, baptizou-as de bluestones.
Darvill e Wainwright, com os vestígios encontrados e através das modernas técnicas de datação pretendem agora conseguir datar a chegada das pedras azuis, reconstruir a sociedade que empreendeu tão ambicioso projecto e simultaneamente reconstruir a vida dos que viveram e morreram junto ao local.
Paul Caponigro, 1970

Stonehenge, em Wiltshire, no Sudoeste do Reino Unido, foi considerado como o mais emblemático de todos os santuários. Mas a sua geometria,
os círculos concêntricos e os eixos verticais e horizontais, tem uma fabulosa relação astral, e alinham com o sol nos solstícios.
O alinhamento da luz que passa através da pedra Slaughtar e ilumina a Heel Stone, a pedra do altar sagrado, levou muitos a sugerir que Stonehenge, mais que um templo servia de observatório astronómico onde também se julgou determinar os eclipses.

Rischard Misrach, fotografou os megalitos isolados, irradiando luz, sob um céu de tormenta.
Richard Misrach, Stonehenge, #1, 1976


Richard Misrach, Stonehenge, #4, 1976

Stonehenge foi construído em várias fases, julga-se que começou cerca de 3300 a.C, com as famosas pedras azuis, que para ali foram transportadas por volta de 2500 a.C, e só terminou por volta de 1400 a.C. Hoje é aceite pela comunidade científica, que as pedras maiores de Stonehenge foram arrastadas da colina de Preseli, a mais de 200 quilómetros a norte, até ao litoral e depois transportadas por mar.

A nova teoria, destes dois arqueólogos, parece-nos absurda, pois no nosso mundo Ocidental, a nobreza da pedra está desvalorizada. Mas não para os tibetanos que vêem o monte Kailash como sagrado.

Kenro Izu, Khailash #75, Tibete, 2000

Todos os anos milhares de peregrinos fazem Kora – uma viagem circum-ambulatória de sessenta quilómetros em três dias à volta da montanha. E em tempos recuados, na Austrália, Ayers Rock, o maior monólito à superfície da terra, uma rocha vermelho-alaranjado, era lugar sagrado dos povos aborígenes.

Jeff Carter, The Climb, Ayers Rock, Austrália, 1965

Agora Darvill e Wainwright, explicam o mistério de Stonehenge com o poder curativo das pedras azuis.

Stonehenge local dos rituais Druídas, foi invadido, estragado, quase vandalizado.

Festival dos Druídas, gravura italiana, 1820

Anónimo, Stonehenge, 1966

Agora só o podemos ver à distância.

O fotógrafo Paul Caponigro afirmou , “a fotografia é um meio, uma linguagem, que eu utilizo para experimentar directamente a natureza, interactuar com ela, viver mais intimamente com ela” e “Stonehenge é um local único para reflexão, o seu poder e presença, levaram-me a fotografar”.



Das suas fotografias, Stonehenge continua um mistério por desvendar, as suas pedras causam-nos uma sensação de espanto e maravilha, “os limites soltam-se e os instrumentos para a medida do tempo conduzem à intemporalidade” dirá no seu portfólio.
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