quarta-feira, maio 21, 2008

A Europa e a famosa Política Agrícola Comum

Porque não sobem as matérias primas? o mundo já não consome aço, cobre, zinco, trigo, milho…? indagava eu há uns anos atrás. Á época as dot.com faziam as delícias dos investidores, e as empresas de Silicon Valley, que surgiam como cogumelos, investiram milhares, o dinheiro desses investidores, a ligar o mundo com cabos de fibra óptica. Mas o mundo ainda não estava preparado para uma utilização plena dessa nova ferramenta, o mundo era mais espectador que actor, era mais consumidor que produtor, e os downloads ultrapassavam em muito os uploads, e em 2001 a bolha rebentou, e as empresas do Nasdaq desapareceram a um ritmo igual como apareceram.
Mas se hoje me recordo da questão que me atazanou há uns anos atrás, foi porque nunca consegui obter uma explicação cabal. É certo que, bastava-me pensar na fotografia para perceber as mudanças, a substituição da prata por imagens transformadas em pixels, que podiam ser armazenadas em microprocessadores e transmitidas por linhas de fibra óptica, indicavam que a química era engolida pela electrónica, mas nós, seres humanos não podíamos engolir electrónica por trigo, milho…e se tudo subia, e o mundo vivia numa euforia, porque não subiam estas?
Harry Gryaert, Região Picardy, França, 1991

não percebera que na Europa os preços agrícolas já estavam inflacionados.

Recentemente o mundo acordou assustado, olhou em volta, e gritou: CRISE ALIMENTAR.
Paul Graham, New Europe, 1986-92

Ontem, num comunicado coordenado por Durão Barroso, a Comissão Europeia, num sinal de nervosismo com a crise alimentar convidou os líderes europeus a discutir a fundo o problema em Bruxelas, e acusam os especuladores como os principais culpados na espiral de preços.

É certo que hoje, ao olhar para uma carteira de activos de um investidor, contractos de futuros sobre o café, açúcar, trigo, milho,…substituem as acções de empresas. Hoje os gestores compram mercadorias agrícolas a prazo como há uns anos atrás investiam nas dot.com.

Ciência, investigação, energia, eram há um ano, as novas prioridades da União Europeia, as novas áreas que iriam substituir a agricultura como a grande fatia da despesa comunitária. De repente, a União Europeia aparece como deficitária na produção agrícola e incapaz de aliviar os preços, a culpa é dos especuladores dizem, e o trigo volta à mesa das preocupações.
Martin Parr, 1985

Para os analistas são vários os factores que justificam a subida dos preços das mercadorias agrícolas: a seca prolongada nos dois últimos anos na Austrália,

Nick Noir, Tempestade de Areia, Uma herdade abandonada em Ivanhoe, durante uma tempestade de areia em 2002. Esta zona da Austrália está em regime de seca desde 2001, forçando o abandono de muitas propriedades.

a má colheita europeia de 2007, a redução dos “stocks” nos celeiros americanos
Larry G. Blackwood, Great Plains
Larry G. Blackwood, Great Plains
Larry G. Blackwood, Great Plains

e chineses, o aumento do consumo de carne na China e na Índia, que fizeram aumentar de forma indirecta a procura de cereais, a produção do etanol nos Estados Unidos, que absorveu um terço da produção do milho e que levou simultaneamente ao detrimento da cultura do trigo e da soja.

A Europa, que agora se mostra assustada e incapaz de qualquer medida para fazer baixar os preços, mostrou sempre uma incapacidade na sua Política Agrícola Comum –PAC. Nos anos que se seguiram à Segunda Guerra, programas para ajudar e encorajar os agricultores foram implementados. Henri Cartier-Bresson ilustra esta reportagem, Paris Match 1960, com imagens que segundo as legendas irão em breve desaparecer, a mecanização e a prática do ski irão transformar estas regiões.
"Sa vache unique est pour ce petiti fermier à la fois un gagne-pain et une amie. Beaucoup sont dans le même cas sur les hauts de Meuse où, sur les tas de fumier qui bordent les rues, grattent des coqs orgueilleux", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960
"Comme au temps les plus lointains, l'homme et la femme travaillent au pas lent des boeufs de labour. Nous sommes dans une vallée de la Dordogne. C'est l'image même de la patience paysanne devant la nature toujours recommencée. Bientôt, ce tableau traditionnel de la vie paysanne aura disparu. Déjà, dans de nombreuses régions, il est difficile de trouver des boeufs pour le travail", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960
"En montagne, on monte encore dans une charrue primitive pour labourer à haute altitude de minuscules parcelles. Le tourisme et le ski apportent dans ces valées qui se dépeuplent une nouvelle vie", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960
"L'irrigation permet de faire, de maigres champs, des terres fertiles. Par elle les pays du soleil, hier défavorisés, retrouvent la place prépondérante", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960
"Cette extraordinaire photo, c'est déjà le passé", fotografia de Henri Cartier-Bresson, Paris Match, 1960

Para reduzir a dependência das importações pagas em dólares, dava-se maior ênfase ao aumento da produção em detrimento da eficiência. O governo garantia protecção e sustentação dos preços, e Cartier-Bresson, o fotógrafo do preto e branco, fotografava a cores a França rural. A cor representava o recomeço de uma nova vida, o preto e branco, como mostram as últimas páginas da reportagem, representava um passado que estava a acabar. A França, hoje o país que recebe mais subsídios agrícolas da UE, passou não apenas de auto-suficiente como a ter excedentes alimentares. A promessa de apoios continuados aos preços e o compromisso dos parceiros europeus de comprar a produção excedentária, levou os franceses a aceitarem favoravelmente o Tratado de Roma, e é este o pano de fundo da famosa Política Agrícola Comum, inaugurada em 1962. Á medida que os preços europeus fixados subiram, toda a produção alimentar da Europa tornou-se demasiado cara para competir no mercado mundial. Em 1970, a agricultura custava 70% do orçamento da Comunidade Económica Europeia, hoje custa-nos 40%. Isoladamente, nenhum país poderia manter este conjunto de políticas absurdas, mas ao transferir os encargos para a Comunidade no seu todo, a cada governo interessava obter os ganhos pelo menos a curto prazo, e é esta a mentalidade que perdura. A PAC acabaria por distorcer o mercado alimentar mundial, exportando excedentes subsidiados e desestimulando a produção nos países em desenvolvimento, e hoje vemos o que se passa em África. Aos agricultores europeus pagou para não produzirem. Agora Bruxelas discute propostas de revisão da PAC e tenta eliminar entraves à produção. Para os ingleses, sob a voz do ministro Alistair Darling, a PAC é a grande responsável pela alta de preços actuais, pois para eles é inaceitável os elevados direitos alfandegários sobre numerosas matérias primas agrícolas. A França, o maior beneficiário, pretende também alterar a forma como são hoje dados os subsídios, “devem ser dados em função da produção e não do número de hectares, isso estimulará a produção”, dizem. Mas os burocratas de Bruxelas, com as novas regras de segurança e higiene, encontraram uma forma de tornear as regras do comércio livre, criando com essas regras excessivas, uma barreira para evitar importações de terceiros países.
A culpa é agora dos especuladores, o que comprova mais uma vez a sua incapacidade para perceber o que provocaram e o que se está a passar nos mercados alimentares, e é esta a política agrícola da nossa União Europeia…

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segunda-feira, maio 19, 2008

"Elementos": terra, água, fogo e ar, de José Manuel Rodrigues

Estou muito interessado em fotografar aquilo que não vejo, aquilo que está atrás de mim, atrás dos meus olhos, e, de certa medida, utilizo os meus modelos, utilizo até a própria natureza também para me encontrar a mim próprio”, confessa José Manuel Rodrigues, numa entrevista para a exposição “Elementos” que há dias inaugurou numa nova galeria de fotografia, a Pente 10, na Travessa da Fábrica dos Pentes, lá para os lados do belíssimo jardim das Amoreiras.
José Manuel Rodrigues, em exposição na galeria Pente10, Lisboa, Maio 2008

A Europa interessa-me, a Europa na actualidade interessa muitos fotógrafos, para Paulo Nozolino, a Europa foi o primeiro território que começou por explorar, “quero aprofundar a carga histórica associada à Europa. É isso que me pode ajudar a montar o “puzzle” que ando a construir há anos…”, hoje, mais uma vez, o saisdeprata-e-pixels vai continuar na Europa, mas numa Europa diferente, não numa Europa registada em viagem, mas a Europa de J. M. Rodrigues.
José Manuel Rodrigues, Évora, 1997

Em 1971, J. M. Rodrigues visitou a mãe no Canadá, “passado mês e meio percebia que era irrevogavelmente um europeu” e regressou. Dividiria a sua vida entre o Alentejo, onde nasceu, e a Holanda, ambas terras de horizonte baixo, paisagem de maravilha de silenciosas planícies, onde a perfeita harmonia entre o Homem e a Natureza, nessa Natureza ainda não destruída, o conduzem a uma união de intimidade, a uma união de uma tal plenitude, na qual J.M. Rodrigues se banha e imerge, em toda a sua força e beleza.
José Manuel Rodrigues, em exposição na galeria Pente10, Lisboa, Maio 2008
José Manuel Rodrigues, em exposição na galeria Pente10, Lisboa, Maio 2008

As profundezas do nosso espírito nos são desconhecidas. O caminho misterioso vai em direcção ao interior. É em nós e em nenhum outro lugar, que está a eternidade com seus mundos, o passado e o futuro”, Novalis.

As fotografias de J.M.Rodrigues, despertam em nós uma outra força de visão, um outro poder, muitas vezes ignorado na nossa vida quotidiana.

Da mesma forma que, durante a rotação diária da Terra sobre seu eixo, uma metade do planeta está às escuras e a outra metade iluminada, a mesma alternância, negativo-positivo,
José Manuel Rodrigues, em exposição na galeria Pente10, Lisboa, Maio 2008
surge constantemente nas fotografias de J.M.Rodrigues, rostos de pálpebras fechadas, rostos de olhos abertos,
José Manuel Rodrigues, Évora, 1981
José Manuel Rodrigues, Évora, 1981
muralhas de pedra fechadas sobre si mesmas, duras e secretas, um céu aberto: “Tenho uma fotografia em que tentei voar, que eu gosto muito”.
José Manuel Rodrigues, Amsterdam, 1982
José Manuel Rodrigues, Amsterdam, 1984
Ao olhar para a sua obra, nós, espectadores, penetramos e ultrapassamos camadas e camadas duma outra água, água que “pela sua fluidez, pelo seu reflexo, é como a continuação da objectiva e é soft, tem esta coisa especial de reflectir e mudar continuamente”, até que chegamos ao fundo, ao interior, onde descobrimos outras regiões, outras dimensões, a abolição do Espaço e do Tempo. “A minha fotografia também é um espelho do caos da minha existência.”

São quatro os “Elementos”: terra, água, fogo e ar, quatro, o número mágico da ciência.
José Manuel Rodrigues, Quatro provas de halogenetos de prata, Amsterdam, 1986

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sábado, maio 17, 2008

Belgrado, a capital da Sérvia

Até ao final do mês a Cinemateca apresenta um ciclo dedicado ao cinema Sérvio. “Jutro”, de Mladomir Djordjevic, que passou ontem, retrata o fim da Segunda Guerra Mundial na Sérvia, onde o poder ainda não se estabeleceu e os ajustes de contas ainda não terminaram. A importância da música no filme é central e a letra da canção “Jutro”, aurora em português, canta todas as guerras: “… Já não há a Rua das Flores/ Os Alemães varreram-nos do mapa…/Estamos frente a frente/ O que dizer à mãe/ À noiva, à irmã/… A paz feriu o coração/ A paz chegou, mas o Janko morreu/ A paz chegou, mas o dia foi assassinado/ A guerra continua até amanhã/ Mas a Aurora, onde está a Aurora?”.

Aurora, a hora que começa o dia, a hora no filme para executar os prisioneiros.

A guerra marca profundamente Djordjevic. No filme a morte está sempre presente, mas Djordjevic deixa-se levar pelo tempo, pela beleza de um dia, e em “Jutra”, mistura situações dramáticas, trágicas, de corpos enforcados, que contrastam com a beleza de um rio, numa espécie de liberdade inspirada apenas pelo prazer de existir: “filmo sempre em cenários naturais…Cada dia tenho a impressão de roubar alguma coisa aos rostos, à atmosfera. Também confio na sorte. É como se estivesse a pescar à beira de um rio”.
Filmado em 1967, impressionantes, porque o tempo parece ter estancado, são estas fotografias recentes que poderiam ter sido retiradas de “Jutra”: casas em Belgrado,

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado

e um rosto que procura por rostos desaparecidos,

Thomas Kern, Sérvia, 1993

“…A guerra continua até amanhã…”, como na canção.

No Sudeste da Europa, no final de 1944, as forças soviéticas controlavam já o Norte dos Balcãs. Em Maio de 1945, seria a vez da Hungria, Polónia e da Checoslováquia, e mais a sul, o Exército de Libertação Nacional jusgoslavo, e o Exército britânico, encontravam-se face a face em Trieste. A linha que dividiria a Europa pouco tempo depois, começava a ser traçada. Os territórios que formavam um arco, desde a Finlândia até à Jugoslávia, foram alinhados pelo sistema político da União Soviética. Para Estaline, esta barreira representava a segurança do seu país. Mas a Jugoslávia não se deixou modelar por Estaline. Em 1945, o partido a “Frente do Povo” de Josip Broz Tito ganhava as eleições e chegava ao poder, sem a intervenção soviética, ao contrário do que veio a acontecer nos outros países da Europa de Leste. Em 1947 o governo jugoslavo tinha um estatuto único e adoptara o modelo soviético da colectivização forçada da terra e as purgas aterrorizaram os não partidários. Se no início as relações entre Moscovo e Belgrado eram cordiais, rapidamente, Estaline exasperava-se com Tito, por não conseguir, a partir de Moscovo, dirigir a Jugoslávia. A ruptura, seria conhecida publicamente em Fevereiro de 1948, quando Tito pôs em prática a Federação Balcânica, Belgrado era acusada de conduzir uma política nacionalista.

Esquecer o tempo de guerra e as divisões, foi um desejo de Tito.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Junho 2006

Na sua Jugoslávia reunificada, constituída por seis repúblicas distintas dentro de um Estado federal, bem como de duas regiões autónomas (Voivodina e Kosovo), a geração do pós-guerra foi encorajada a pensar num país de unidade fraternal.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2003

Nas gerações mais novas as diferenças atenuaram-se e os casamentos entre elementos de diferentes etnias tornaram-se cada vez mais frequentes. “Volvidos os anos de guerra, e visitando o país, não encontrei nenhuma situação em que tenha sentido em alguém a vontade da indómita vingança. As populações das diferentes Jugoslávias preparam-se para viver a melhor vida possível e nunca vi ninguém apontar dedos acusatórios”, escreve Carlos Miguel Fernandes, que foi várias vezes aos Balcãs (re)viver este passado.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2003

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto 2003

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Setembro, 2004

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Setembro, 2004

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Setembro, 2003

Em Belgrado, uma das cidades mais estimulantes que conheceu, o Zemun, subúrbio histórico e elegante da cidade na margem do Danúbio, fazem-lhe lembrar paragens mais orientais e mais exóticas.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Zemun, Junho 2006

Com a morte de Tito, 1980, Slobodan Milosevic, no vácuo político que se seguiu, preparou a sua ascensão ao poder, e na sua ânsia de dominar, utilizou o nacionalismo como arma política, em 86, quando visitou o Kosovo mostrou-se solidário com as queixas dos Sérvios.

Nikos Economopoulos, Belgrado, Sérvios Nacionalistas, 1991

O Kosovo, como revelam as eleições do passado Domingo, tem um significado histórico para os Sérvios, pois foi a última região da Sérvia medieval a resistir ao avanço dos Turcos no ano 1389.
Em 89 Milosevic era eleito presidente da República Sérvia. Nesse ano a queda do muro de Berlim punha a descoberto a caótica economia da Europa Central e de Leste e surpreendeu os mais cépticos. A transição foi difícil para todos, mas a Jugoslávia, com um sistema federal que entrara num impasse, iniciava uma guerra civil sangrenta com os diversos estados a reclamarem a sua independência. A igualdade federal que Tito fizera prevalecer estava agora desmoronada.
A ocupação do Kosovo, pela tropas da NATO, em Março de 99, foi o princípio do fim de Milosevic, que perderia as eleições no ano seguinte.

Josef Koudelka, Belgrado, manifestação de estudantes contra o regime de Milosevic, 2000

Se hoje a paz regressou aos Balcãs, a questão do Kosovo, está por resolver, e as eleições de Domingo passado na Sérvia foi vista pelos comentadores como um referendo: querem os sérvios ficar presos ao Kosovo ou avançar para a União Europeia?
O Partido Democrático, pró-europeu de Boris Tadic, o vencedor das eleições, mas sem maioria, enfrenta a dificuldade em formar um governo. Se em 2000, a Sérvia manifestava-se contra o regime de Milosevic,

Thomas Dworzak, Belgrado, poster de Milosevic, 2001

Thomas Dworzak, Belgrado, Milosevic arrest, 2001

agora o Partido Socialista fundado por ele, é essencial para a coligação que se vier a efectuar, mas ambos os partidos não aceitam que Belgrado desista do Kosovo.

O Kosovo, como André Malraux bem identificou nos anos 60, é a Argélia dos jugoslavos.

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Fortaleza

Mas a Aurora, uma verdadeira Aurora, podemos nós perguntar, como na canção de “Jutro”, onde está?
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terça-feira, maio 13, 2008

A ex-Jugoslávia

Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Setembro 2005

Domingo foi dia de eleições na Sérvia, ontem os jornais anunciavam a vitória dos pró-europeístas de Boris Tadic, mas a falta de uma maioria era a má notícia. Interrogados na rua, os sérvios revelavam a sua apreensão, a falta de uma maioria, (é necessário ter 126 lugares entre o total de 250 deputados), tem levado sucessivos governos a cairem e a estabilidade desejada parece difícil. A declaração de independência do Kosovo, a 17 de Fevereiro, veio precipitar estas eleições. Vojislav Kostunica, o primeiro ministro cessante, dissolveu a coligação com Tadic e o partido liberal G17+, acusando-os de desistirem do Kosovo por continuarem a negociar com a União Europeia. Ontem Tadic apressou-se a dizer que nunca reconhecerá a independência do Kosovo, mas confirma um caminho europeu para a Sérvia.
A década de 90 foi catastrófica para a Jugoslávia. Centenas de milhares de Bósnios, Croatas, Sérvios e Albaneses foram mortos, violados e torturados pelos seus concidadãos; milhares foram forçados a abandonar as suas casas e muitos procuraram o exílio. Durante esses anos, as imagens chocantes dessas guerras, porque foram várias, entraram nas nossas casas, e em frente aos ecrãs de televisão, vivemos, quase em tempo real, a tragédia da Jugoslávia. O massacre de Srebrenica, hoje considerado como um dos eventos mais terríveis da história europeia recente, a destruição de Sarajevo, a capital da Bósnia, outrora uma cidade cosmopolita que fez a glória da Europa Central e do Leste mediterrânico,
Carlos Miguel Fernandes, Sarajevo, Agosto, 2003
Carlos Miguel Fernandes, Sarajevo, Agosto, 2003
a destruição em Mostar, uma cidade no oeste da Bósnia,
Carlos Miguel Fernandes, Bósnia-Herzegovina, Agosto, 2003
da ponte otomana sobre o rio Neretva, a qual datava do século XVI e era um símbolo do passado misto e ecuménico da cidade,
Carlos Miguel Fernandes, Mostar, Agosto, 2003
são exemplos de uma tragédia, que foi obra do Homem, não do destino, e onde ninguém se destacou por um comportamento honroso.

Belgrado, a capital da Sérvia, “é uma das cidades mais estimulantes que conheci em toda a minha vida”, escreve Carlos Miguel Fernandes no seu blogue “No Mundo”,
Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Agosto, 2004
e melhor do que ninguém, dá-nos a verdadeira imagem do que se passou na região dos Balcãs : “ conheço um pouco do terreno e das gentes para ceder à tentação de diabolizar qualquer etnia: em Split, dormi no apartamento de um croata que combateu na guerra contra os sérvios e cujos olhos, inertes mas atormentados, denunciavam o inferno; em Sarajevo, jantei com um jovem músico, bósnio muçulmano, que perdeu a infância debaixo dos bombardeamentos das tropas de Karadzic; em Novi Sad, conheci uma sérvia, natural de Sarajevo, que não consegue regressar à sua cidade natal porque a perda de todos os seus familiares, no conflito, a tornou emocionalmente incapaz de lidar com um local marcado pela morte; em Liubliana,
Carlos Miguel Fernandes, Lubliana, Agosto, 2003
passei uma noite de convívio e cerveja com um afinador de pianos, filho de mãe eslovena, e cujo pai, de nacionalidade sérvia, perdera a vida na guerra (faltou-me coragem para lhe perguntar em qual das guerras havia falecido o seu pai; a curiosidade é, por vezes, absurda); Joze, o meu amigo barqueiro de Liubliana, não aguentou uma conversa sobre guerras balcânicas durante dois minutos (e na Eslovénia as batalhas duraram pouco mais de uma semana); conheci Sarajevo, estive no sector sérvio e no sector bósnio-croata e pasmei diante da distância (emocional e afectiva) que ainda os separa; estive em Mostar e, no meio do Neretva, com os destroços da lendária ponte a poucos metros, pude observar a margem croata e a margem muçulmana, aparentemente feridas de morte, mas, miraculosamente, a indicar sinais de vitalidade e reconciliação…”

Com a morte de Josip Broz Tito em 1980, a Jugoslávia, que ele reunificara em 1945, estava condenada. O que aconteceu depois de 1989 é hoje alvo de explicações contraditórias. Para alguns a diversidade cultural, a influência oriental do Sul e a influência ocidental no Norte, que Tito manteve unido por um único partido, acabou, levantada a tampa por explodir. Para outros foi a interferência irresponsável de potências estrangeiras que exacerbou as dificuldades locais, e dão como exemplo, a decisão desastrosa do ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Hans-Dietrich Genscher, de ter insistido, 1991, em reconhecer prematuramente a independência da Eslovénia e da Croácia, outros ainda apontam Belgrado como o principal responsável do fracasso do sistema federal jugoslavo, atribuindo a Slobodan Milosevic, que na sua ânsia de poder levou as outras repúblicas a escolherem a separação e a declararem a independência.
Carlos Miguel Fernandes, Belgrado, Setembro 2004

A Jugoslávia não morreu: mataram-na, mas miraculosamente há sinais de vitalidade e reconciliação… e no próximo post, vamos conhecer Belgrado, essa cidade, uma das mais estimulantes, que Carlos Miguel conheceu…

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quarta-feira, maio 07, 2008

Será a União Europeia uma nova potência?

Ontem no Centro Cultural de Belém, iniciaram as celebrações do Dia da Europa.

Até à Segunda Guerra Mundial, reinou a convicção que a Europa era o centro do mundo. Mas os anos do pós-guerra, foram traumatizantes para a memória da Europa: a Ocidente, a Europa era libertada pelos aliados americanos e a Leste a Europa era libertada e reocupada pela URSS. Dividida, como vimos no post anterior, acabou por ficar presa entre duas novas potências mundiais. E de centro do mundo, a Europa passou a uma zona intermédia, encravada, entre Moscovo e Washington.
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005

A Ocidente, a Europa sentiu a necessidade de criar um bloco forte, supranacional. Na década de 50, os países do Benelux, que tinham mais experiência de uniões transfronteiriças deram um impulso ao projecto europeu. Em 25 de Março de 1957, era assinado em Roma o primeiro Tratado que criava uma Comunidade Económica Europeia. A ex-CEE, começou com seis Estados-membros, em que Bona pagava as contas, era o preço elevado que a Alemanha tinha de pagar para fazer parte da comunidade e Paris ditava as políticas, a França excluíra o Reino-Unido, e o eixo da nova aliança centrou-se entre Bona e Paris, surpreendendo os Britânicos. Sucederam-se os alargamentos, em 1986, era a vez de Portugal entrar.
Com o colapso do Leste, em 1989, a Europa deixava de ser um enclave da Guerra Fria, e abriu-se a muitos Estados, outrora sob o domínio Russo.
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Actualmente a Europa, com 27 Estados, alargou a sua fronteira até à Rússia. A Guerra Fria terminou com o colapso de Leste, mas uma guerra eminente entre a Rússia e a Geórgia, hoje separada da Europa pelo Mar Negro, está muito próxima.
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
As provocações russas, no fim de semana passado nas regiões da Abkházia, uma região separada da Geórgia, que proclamou a sua independência em 1992, mas que nenhum país reconheceu, já provocaram em Washington declarações, pela porta voz Dana Perino da Casa Branca, que apelou ao governo Russo que “reafirme o seu compromisso em respeitar a integridade territorial e a soberania da Geórgia, recuando nas medidas unilaterais tomadas na Abkházia”.
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
A Eslovénia, que agora preside à União Europeia, admite enviar à Geórgia uma delegação de secretários de Estado. Domingo passado, a Abkházia afirmou ter abatido dois aviões de combate da Geórgia que sobrevoavam o país. Moscovo não esperou, e enviou tropas para reforçar o contingente que já tem no território, a Abkhásia mostrou-se disponível para ceder a Moscovo o controlo militar. A Geórgia desmente tais informações e afirma não ter feito nenhum dos voos referidos, “ A Abkházia”, dizem “não dispõem de meios para destruir qualquer avião”.
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Eric Baudelaire fotografou a Abkházia em 2005. Esta região, que beneficia de um clima de Riviera, mas foi destruída pela guerra,
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
só existe como Estado na imaginação dos seus habitantes.
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Baudelaire chamou à série, “Etats Imaginés”. Ao olhar para todas estas imagens, será que de facto a Abkházia dispõem de meios para destruir aviões?
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005
Para alguns comentadores, a perspectiva da Geórgia entrar para a NATO enfurece os Russos, e agora a Geórgia pede ajuda à União Europeia para utilizar todos os seus meios de pressão sobre a Rússia. Será que a grande Europa é capaz de fazer algo mais do que enviar observadores e macas? Será que a União Europeia se transformou numa verdadeira potência que possa pressionar a Rússia?, ou será que a Europa continua entalada entre Washington e Moscovo?
Eric Baudelaire, Abkhásia, da série États Imaginés, 2005

Mas as celebrações da grande Europa é que não podem faltar…e no próximo post vamos continuar na Europa.
Aqui notícias das eleições na Georgia.

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