sexta-feira, março 07, 2008

Ruiu o Muro de Berlim?

Depois de Praga seguimos para a Rússia e porque não hoje aterrarmos em Berlim?, (lá mais para a frente explicarei a verdadeira razão deste post). Berlim cidade arrasada e queimada pelas bombas, Berlim cidade dividida pelo muro da vergonha, Berlim hoje a capital da Alemanha, foi invadida nos últimos anos pelo slogan “Berlin wird”, e Berlim, a cidade martirizada, transformou-se num estaleiro onde guindastes, fundações, andaimes, escavadoras,
Frank Thiel, Stadt 4/03 (Berlin), 1996
Frank Thiel, Stadt 10/06/A (Berlin), 2001

destruíram e construíram uma nova cidade, e estas imagens de Frank Thiel, são bem as imagens que vi de Berlim, no ano da passagem do milénio, onde quarteirões inteiros eram destruídos, “edifícios de péssima construção, mais vale deitar tudo abaixo e construir de novo” dizia-me um amigo berlinense que me mostrava a cidade que se transformava de dia para dia.

Frank Thiel, Stadt 5/20/C (Berlin), 2000
Frank Thiel, Stadt 5/24/A (Berlin), 2001

Reichstag, o edifício construído em 1894, a primeira casa que albergou o parlamento do império alemão, foi dos poucos a resistir à destruição. Destruir o Reichstag era destruir a história recente da Alemanha, e hoje, com a sua nova cúpula, símbolo de um futuro que se quer de esperança, de uma política de abertura, o Reichstag narra-nos a história recente da Alemanha.
Gabriele Basilico, Reichstag, do livro Berlin, 2002
Gabriele Basilico, Reichstag, do livro Berlin, 2002
Não foi o terrível incêndio que o edifício sofreu na noite de 27 de Fevereiro de 1933, que levou Hitler a arranjar razões e a comprometer a democracia?
Anónimo, Incêndio no Reichstag, Berlim 27 Fevereiro, 1933
Não foi o telhado do Reichstag, o escolhido pelos Russos para desfraldar a sua bandeira, no dia 2 de Maio de 1945?
Yevgeny Khaldei, Soviet Flag on the Portico of the Reichstag, Berlim, 2 de Maio, 1945
Não foi o Reichstag o edifício escolhido para a cerimónia oficial da reunificação no dia 3 de Outubro de 1990? e não foi o Reichstag o edifício que se teria de reconstruir, como um novo espaço político, quando se decidiu transferir a capital da Alemanha, Bona para Berlim, escolhendo, para dignificar tão emblemático símbolo, um arquitecto de renome, Sir Norman Foster?
Frank Thiel, Reichstag, Stadt 5/03 (Berlin), 1996
Frank Thiel, Reichstag, Stadt 2/35 (Berlin), 1998
Frank Thiel, que estudou matemática e se tornou fotógrafo por acaso, nasceu e viveu em Berlim Oriental, Gabriele Basílico, o fotógrafo e arquitecto estrangeiro, precisou de mapas e guias turísticos para se deslocar na cidade. Com Basilico andamos de carro em Berlim, numa cidade que parece vazia, que horas serão?
Gabriele Basilico, Strausberger Platz, do livro Berlin, 2002

Aceleramos quando o sinal passa a verde e seguimos em frente pelas novas avenidas abertas, quando de repente,
Gabriele Basilico, Grunerstrasse, do livro Berlin, 2002
Gabriele Basilico, Alexanderplatz, do livor Berlin, 2002
Gabriele Basilico, Grunerstrasse, do livro Berlin, 2002
Gabriele Basilico, Alexanderplatz, do livro Berlin, 2002
sem o esperarmos, regressamos ao ponto inicial, afinal não seguimos em frente como julgámos, contornámos foi a praça e agora vemos os edifícios de outros ângulos.
Gabriele Basilico, Alexanderplatz, do livro Berlin, 2002
Ao folhear o livro “Berlim”, 2002, de Basilico
paramos constantemente para pensar nos pontos cardeais, uma necessidade natural de nos situarmos. Mas na nova Potsdamer Platz, ainda em construção, deixamos o nível do peão
Gabriele Basilico, Potsdamer Platz, do livro Berlin, 2002
para num nível mais alto, e olhamos para a praça numa vista de pássaro,
Gabriele Basilico, Potsdamer Platz, do livro Berlin, 2002
mas ao virar a página aterramos nesta estrutura da Bahnhof Potsdamer Platz.
Gabriele Basilico, Potsdamer Platz, do livro Berlin, 2002
Thiel preferiu o elevador que o governo aí instalou para fotografar a Potsdamer Platz, e nestas quatro fotografias, obtemos esta vista de uma cidade que se transforma.
Frank Thiel, Stadt 7/12 (Berlin), 1999

Mas Thiel gosta de tomar a parte pelo todo, é o seu modo analítico também de entender as transformações da cidade, e na Karl-Marx-Allee, fotografa, aproximando-se da parede de azulejos, o cinema Kosmos (1960-62),
Frank Thiel, cinema Kosmos #4, 2002
desenhado por Josef Keiser e Günter Kunert. Thiel anula o espaço real e descobre o poder do desenho abstracto. Basilico, ao contrário, não mata a perspectiva, pelo contrário fotografa o Kosmos de diferentes ângulos.
Gabriele Basilico, Karl-Marx-Allee, do livro Berlin, 2002
Gabriele Basilico, Karl-Marx-Allee, do livro Berlin, 2002
Gabriele Basilico, Karl-Marz-Allee, do livro Berlin, 2002
Em 1998, Berlim quer comemorar o feito da reunificação. Thiel concorre com a sua série “The Allies”,
Frank Thiel, Soldier RUS, 1994
Frank Thiel, Soldier USA, 1994
os retratos de soldados que iniciou em 94, e ganha o concurso. Em Checkpoint Charlie, no meio da Friedrich-strasse, que durante vinte e nove anos, antes da remoção do muro, foi a entrada principal para o outro lado da cortina de ferro, Thiel dispõe em caixas de luz bem visíveis para os peões e condutores um guarda russo
Frank Thiel, Checkpoint Charlie, (Russian Soldier), 1998
Gabriele Basilico, Checkpoint Charlie, do livro Berlin, 2002
e um guarda americano.
Frank Thiel, Checkpoint Charlie, (American Soldier), 1998
Gabriele Basilico, Checkpoint Charlie, do livro Berlin, 2002
Quem descia a Friedrich-strasse no sentido norte-sul via o guarda americano, no sentido contrário via-se o guarda russo, onde outrora no mesmo local uma placa assinalava “Está a deixar o sector Americano/Britânico/Francês”.
Muitos são hoje os turistas que não resistem em Berlim, na Potsdamer Platz, a tirar fotografias semelhantes a esta do realizador e fotógrafo Raymond Depardon.
Raymond Depardon, Berlin, 2004
Mas será que o muro ruiu? Ficou feito em fragmentos, como mostra esta imagem? Será que os sistemas de vigilância da antiga Berlim Oriental, que Thiel fotografou estão ao abandono?
Frank Thiel, NSA Field Station, Berlin, Teufelsberg "17, 2005
Frank Thiel, NSA Field Station, Berlin, Teufelsberg, #8, 2005
Frank Thiel, NSA Field Station, Berlin, Teufelsberg #07, 2005
Frank Thiel, NSA Field Station, Berlin, Teufelsberg, 2005
Frank Thiel, NSA Field Station, Berlin, teufelsberg #05, 2005
Frank Thiel, NSA Field Station, Berlin, Teufelsberg, 2005
Chegou a altura de explicar ao leitor o porquê deste post. Em Liége, decorre até ao final do mês, a 6ª Bienal de fotografia. O país convidado, de honra, para celebrar esta 6ª Bienal - Portugal. Rui Prata, do Museu da Imagem de Braga e responsável pelos célebres Encontros de Braga, o escolhido para comissário. Territoires _ o tema central, questiona problemas da actualidade, nomeadamente o “Território Político” o que nos interessa aqui ver.
É então no contexto “Território Político” que a série “East of a New Eden”, 2001-02, de Yann Mingard e Abban Kakulya, é apresentado.

Durante um ano, Mingard e Kakulya, um começando no Norte o outro pelo Sul, percorreram as fronteiras dos países que se estendem entre o mar Báltico e o mar Negro.
Zona habitada por mais de 60 milhões de pessoas, este corredor de 600 Km de largura engloba hoje a Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria e a Roménia, alguns, antigas Repúblicas Soviéticas, os outros dominados pela cortina de ferro. Se outrora serviram de barreira à URSS, hoje são a barreira que separa a União Europeia do Oriente ou da Europa Oriental como gostam mais de chamar.
Mingard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Mingard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Quando em 2001-02, Mingard e Kakulya realizaram este trabalho, todos estes países eram candidatos à União Europeia. Desde 2004, muitos entraram, outros como a Roménia ainda aguardam. Em 2001-02, a mensagem da União Europeia era clara : todos devem reforçar o controle das fronteiras exteriores, uma das condições chave para entrar. Reabilitaram-se antigos postos de vigilância Russos
Mingard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Mingard e Kakulya, da série "East of s new Eden", 2001-02
Mingard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Mingard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
e em algumas fronteiras foram implementados sofisticados sistemas de vigilância,
Mengard e Kakulya, da série "East of a new Eden" 2001-02
Mengard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Mengard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Mengard e Kakulya, da série "east of a new Eden", 2001-02
o objectivo controlar quem entra, o drama actual da imigração clandestina, de gente que procura na Europa um melhor nível de vida. Quem é apanhado, aguarda em centros de refugiados se é ou não aceite.
Mengard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Mengard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Mas por vezes o estatuto de estrangeiro é difícil de definir, um Lituano que viveu na ex-URSS e agora pretende regressar ao seu país, embora fale lituano, é-lhe difícil provar a sua origem, há muito que não existem papeis, e este é o drama de muitos dos refugiados.
A Roménia que aguarda a sua entrada na União tem o sistema de controlo de fronteiras mais frágil, por falta de orçamento, mas o clima ajuda,
Mengard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
Mengard e Kakulya, da série "East of a new Eden", 2001-02
e em Dezembro as enormes extensões de neve servem informações preciosas, as pegadas na neve, indício de quantos e para onde se dirigem.

Hoje o muro de Berlim não ruiu, antes se deslocou para outras paragens, e os controladores mudaram de posição.
Mengard e Kakulya, da série "east of a new Eden", 2001-02

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segunda-feira, março 03, 2008

A Rússia de Medvedev

Ontem foi dia de eleições na Rússia. Hoje o resultado da vitória não surpreendeu ninguém. Proposto por Putin, Dmitri Medvedev ganhou com larga maioria, 70,23%, (com uma taxa de participação de 69,65%), as eleições presidenciais do seu país.
Medvedev já afirmou que continuará as políticas levadas a cabo pelo presidente Vladimir Putin. Londres, Paris, Berlim, Washington…felicitaram com mais ou menos entusiasmo o novo presidente. Bernard Kouchner, o ministro dos Negócios Estrangeiros Francês disse « Le scrutin s’est déroulé à la russe, avec une victoire qui était annoncée ». Os opositores, como Guennady Zyuganov do partido comunista e que obteve o segundo lugar com 17,7% já veio também dizer que os resultados foram muito pouco honestos e tenciona contestar nos tribunais. Garry Kasparov, o campião de xadrez, diz que estas eleições são “ilegítimas”. Na Primavera passada a sua coligação “Outra Rússia”, que nem sequer teve autorização para se registar, foi impedida pelas tropas do governo de realizar comícios em Moscovo e S.Petersburgo onde milhares de manifestantes foram presos, uma repressão de uma escala já não vista na Rússia há mais de vinte anos. Outros partidos, como o “Partido Republicano”, a “União Democrática Popular”, também à semelhança de “Outra Rússia” não foram autorizados a concorrer. Para a grande maioria dos críticos é esta a Rússia, baseada num modelo autoritário, que Putin, eleito em 2000, criou. Mas como se justifica este resultado com tanta adesão?

Acabada a II Guerra Mundial, as democracias europeias da Europa de Leste dominadas pela União Soviética aproximaram-se do seu modelo de Estado centralizado e foi nesse pano de fundo que se desenrolou a Guerra Fria. Guerra que acabou por ser mais que um mero conflito entre ideologias, pois na essência as diferenças assentavam em dois modos distintos de organização da sociedade: economias de mercado de um lado e economias planificadas no outro. Durante 40 anos essas economias competiram em lados opostos de uma fronteira onde pouco ou quase nenhum comércio existia entre elas. Quando em Novembro de 1989 o muro de Berlim ruía, e os países de Leste avançavam com as reformas, a instabilidade da União Soviética parecia agravar-se. Em 16 de Dezembro de 1991, Boris Yeltsin era eleito o primeiro presidente da República da Rússia com 60% dos votos, o que representava uma derrota esmagadora do comunismo. A União Soviética era oficialmente dissolvida, e nesse dia na primeira página do New York Times lia-se “A União Soviética acabou. Gorbachov, Último Líder Soviético Resigna; Os EUA Reconhecem a Independência das Repúblicas”. Mas Yeltsin herdava um Governo que estava a cair em pedaços e o bem estar da população ameaçado. Com uma inflação descontrolada, os mecanismos centrais de produção e distribuição tinham entrado em colapso sendo necessários verbas cada dia maiores para comprar bens que cada vez eram mais escassos. Num esforço para manter em funcionamento a economia, já Gorbachov em 1990 confidenciava “As impressoras não conseguem produzir o suficiente. Estamos a imprimir rublos 24 por dia”. A inflação progrediu tão rapidamente que tirou todo o valor aos salários dos trabalhadores, daqueles que ainda conseguiam receber, e as suas magras poupanças desapareceram. O rublo perdeu 95% do seu valor no espaço de meses, mas o pior foi a escassez de bens nas prateleiras das lojas. Se outrora à Ucrânia se chamou o grande celeiro do mundo, as faltas de pão eram agora o ponto negro que tormentava a população, e esta passou fome, e o mercado negro floresceu. Os desafios que Yeltsin enfrentava eram mais difíceis do que os dos seus homólogos da Europa de Leste, pois ao tentarem a transformação da noite para o dia, os soviéticos conseguiram alcançar não uma economia de mercado mas uma economia de mercado negro.
Há já alguns meses, dediquei dois posts, aqui e aqui a Boris Mikhailov, mas não cheguei a referir o seu chocante livro “Case History”, 1999. Falar da nova República Russa nos anos 90 é olhar para este livro, um documentário fotográfico, (quem disse que a fotografia documental estava em crise?), do que foi a Rússia nesses anos. Não se trata de um livro pornográfico no verdadeiro sentido da palavra, os nus fotografados não são para voyeurs antes um documento da realidade de uma sociedade que vivia desalentada, desanimada com fome e sem emprego, onde a droga e a bebida a única saída desse inferno.
Boris Mikhailov, do livro Case History, 1999
Boris Mikhailov, do livro Case History, 1999
Boris Mikhailov, do livro Case History, 1999
Boris Mikhailov, do livro Case History, 1999
Boris Mikjhailov, do livro Case History, 1999
Boris Mikhailov, do livro Case History, 1999

“A partir de 2000, Putin restabelece a ordem, a economia cresceu e o nível de vida dos russos subiu. A autocracia de Putin coincidiu com o crescimento económico, derivado do preço alto das matérias primas, nomeadamente do petróleo, mas não por mérito da sua política” escreve Michael McFaul e Kathryn Stoner-Weiss, na revista Foreign Affairs deste mês. Para os críticos, Putin recebeu de bandeja os efeitos das reformas levadas a cabo por Yeltsin. Desde que Putin está no poder a corrupção subiu vertiginosamente na Rússia e hoje indústrias inteiras acabam nas mãos de um reduzido grupo de oportunistas conhecidos como oligarcas. O fosso entre ricos e pobres é ainda maior, que nos anos de Yeltsin. “O putinismo é um mito”, dizem e comparam em termos gráficos a performance da Rússia com os outros países da Europa de Leste em termos de crescimento económico.
“Se a Rússia hoje vivesse a democracia instaurada por Yeltsin estaria agora muito melhor”.

Carl De Keyzer, um fotógrafo da Magnum, passou vários meses, entre 2001 a 2003, na Rússia, nos antigos Gulags da Sibéria, hoje cheios de miúdos na casa dos 15 anos que aí são obrigados a trabalhos forçados por roubos de pouca importância, como hamsters numa loja de animais, ou uma mãe com quatro filhos que roubou um cabaz de compras. Em "Zona", 2003, De Keyzer denuncia estas situações.
Carl De Keyzer, do livro Zona, 2003
Carl De Keyzer, do livro Zona, 2003
Carl De Keyzer, do livro Zona, 2003
Carl De Keyzer, do livro Zona, 2003
Carl De Keyzer, do livro Zona, 2003

Na época de Putin, as terríveis prisões da Sibéria estão cheias.

José Manuel Durão Barroso enquanto Presidente da União Europeia disse hoje “confiance que sous la direction du président Medvedev, l’EU et la Russie consolideront et développeront leur partenariat stratégique « .
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domingo, março 02, 2008

Praga

Quem leu o último post esperava certamente por mais um post de fotografia científica, que irei completar, mas não hoje porque hoje o jornal Público surpreendeu os leitores ao juntar -lhe a primeira edição do jornal, a do dia 2 de Janeiro 1990, que nunca chegou às bancas. Recuei no tempo e lembro-me que à época, os jornais da concorrência falavam nos problemas que o jornal, que tanta publicidade fizera, só conseguia arrancar dois meses depois da data anunciada, sendo a causa uma sofisticada máquina tipográfica difícil de ajustar. Mas regressemos então à edição de 1990 e na primeira página o título: “Dos nossos enviados a Praga, Berlim e Bucareste, LIBERDADE, ano Zero”. A Europa festejava eufórica a passagem da década, com os acontecimentos inesperados, a declaração da falência do comunismo, nestas três cidades, Praga, Berlim e Bucareste. Na página seguinte Václav Havel, o novo presidente da Checoslováquia, em entrevista ao Público falava na urgência da mudança e que o seu tempo escasseava.

Em 1948, quando as tropas soviéticas ocuparam Praga, Josef Sudek, conhecido como o “Poeta de Praga”, refugia-se no seu atelier e fotografa o jardim que vê da sua janela.
Josef Sudek, Praga, c.1948-50
Vinte anos depois, em 1968, Praga viveria uma tímida liberalização, que ficou conhecida na história do país como a “Primavera de Praga”, mas a primavera foi curta, porque no Verão, na noite de 20 para 21 de Agosto, a invasão dos tanques russos manteria o país fechado por mais vinte anos. Josef Koudelka, o fotógrafo Checo registou essa invasão e hoje as suas imagens são um testemunho que ficou na memória.
Josef Koudelka, Praga, 21 de Agosto 1968
Josef Koudelka, Praga, 21 d Agosto de 1968
Josef Koudelka, Praga, 21 de Agosto de 1968
Josef Koudelka, Praga, 21 de Agosto de 1968
Com o desmoronar da “cortina de ferro”, os economistas ocidentais viam os resultados das economias planificadas e o grau de decadência económica era tão devastador que deixou espantados os mais cépticos. Havel e o seu ministro da economia, Václav Klaus, o homem encorpado de bigode farfalhudo, espantavam o Ocidente com as reformas rápidas que implementavam no seu país - a transformação radical dos direitos de propriedade. Koudelka regressa ao país e fotografa as paisagens poluídas deixadas por essa economia fechada e obsoleta. Em 1994, depois de quatro anos de trabalho edita "Black Triangle".
Josef Koudelka, do livro "Black Triangle", 1994
Josef Koudelka, do livro "Black Triangle", 1994

Václav Havel, escreveria no prefácio de “Black Triangle” o seguinte : “this pictures has taught us perhaps more than anything else that the world is made of an indefinitely intricate and mysterious tissue about which we know damn little and towards which we should behave dawn humbly”. Mas Havel já não era presidente, pois um ano antes do livro sair, 1993, a República Checa e a Eslováquia declaravam as respectivas independências.

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quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Fotografia científica (II)

Terminámos o post anterior com as fotografias tiradas pela NASA a Neil Armstrong, o astronauta que ao pôr pela primeira vez o pé na Lua, a 20 de Julho de 1969, declarou “isto é um salto de gigante para a humanidade”, e para a NASA o início de uma nova era.
Nasa, Missão STS 41 - C James D. Hoften na alcova de armazenamento do Shuttle Challenger durante a colocação do stélite solar Max, Abril, 1984

Mas foi também a olhar para os céus, para as estrelas e constelações, que David Stephenson apontou a sua câmara fotográfica, e inspirado na Fuga de Bach e na beleza sublime da abóbada celeste vista num deserto da Austrália, local privilegiado para a observação, tirou estas magníficas fotografias.
David Stephenson, Estrelas 1996/nº702, 1996
David Stephenson, Estrelas 1996/nº706, 1996

É a olhar para o céu que o homem se situa de novo no centro do Universo, pois é a olhar para o céu que o homem se confronta com o infinito, o melhor campo para a imaginação deambular. E a imaginação de Stephenson deambulou ao incluir o tempo_ o movimento_ o movimento aparente das estrelas - resultado da rotação da terra - e o movimento da rotação da câmara fotográfica que predeterminou.
Para fotografar a constelação Orion, a primeira fotografia, Stephenson rodou a câmara fotográfica em 90º por quatro vezes, deixando em cada exposição, o tempo de cinco minutos. Na segunda, fotografou a Cruz do Sul, onde manteve a rotação da câmara mas onde o tempo foi três vezes superior.
Para obter configurações mais complexas, como estas espirais,
David Stephenson, Estrelas 1996/nº1004, 1996

Stephenson programou mais rotações para tempos de exposição mais curtos, vinte e quatro rotações de 15º para tempos de exposição de três minutos. A estrela brilhante que traça esta espiral é provavelmente o planeta Vénus, pensa Stephenson.
Mais recentemente, 2005, começou uma nova série de cartas celestes, utilizando tempos de exposição que durarão uma noite inteira. Nestas duas fotografias, os títulos são explícitos sobre a posição e o dia.
David Stephenson, Estrelas W x NW, 1-2/9/2005, Austrália Central, 2005
David Stephenson, Estrelas N x NE, 3-4/9/2005, Austrália Central, 2005

Ao contemplar estes céus, espaço e tempo confundem-se, é a reinvenção do sublime a partir da câmara fotográfica, pois há fotógrafos que conseguem ultrapassar os limites da fotografia.

Mas foi precisamente sobre o movimento, o movimento invisível da locomoção, que Françoise Paviot inicia a sua visita guiada em “Yes Indeed”, a exposição sobre fotografia científica que montou na sua galeria e que tem inspirado estes posts.
Como refere Paviot no vídeo, falar de movimento em fotografia, é falar de Étienne-Jules Marey (1830-1904) e Eadweard Muybridge (1830-1904), reparem na coincidência das datas de nascimento e morte. Ambos criaram aparelhos apropriados para o registo do movimento e deram a conhecer ao mundo movimentos imperceptíveis em observação directa. A fotografia era então utilizada como solução de vários problemas científicos relacionados com o movimento.
Muybridge, instigado por Leland Stanford um rico criador de cavalos da Califórnia, consegue fotografar a corrida de um cavalo com intervalos regulares e precisos.
Eadweard Muybridge, Galloping Horse, 1878

Através de uma técnica sofisticada e utilizando um novo tipo de câmara, Muybridge conseguia registar as fases de um movimento, que para o olho humano seriam difíceis de detectar e mais tarde alarga estas suas experiências à locomoção humana.
Eadweard Muybridge, Plate 365, do livro "Animal Locomotion", 1885

Em 1887, compilou nos seus onze volumes de “Animal Locomotion” mais de 20 000 fotografias.
Eadweard Muybridge, Ben Bailey subindo uma escada, 1885

Marey era fisiologista, e vivia em França. Para ele as funções vitais, objecto de investigação fisiológica, eram fenómenos puramente mecânicos. Através dos aparelhos que criou, Marey conseguia traduzir em termos gráficos os movimentos do corpo e dos seus órgãos internos, como o pulsar do coração.
A imagem gráfica não nos dá a realidade, não é mimética, é antes uma transformação métrica de determinados fenómenos inacessíveis aos nossos sentidos. Os registos gráficos desenvolveram-se no início do século XIX e eram uma novidade, por exemplo uma frase podia ser representada por um conjunto de curvas, (ondas radiofónicas) aplicadas a um aparelho vibrador que restituíam uma frase sonora e estes mecanismos de registo produziam imagens totalmente novas.
Estudo fisiológico da voz humana, M. Piltan, 1887

Marey enquanto fisiologista e homem das ciências foi dos primeiros a escrever sobre o assunto. Em 1878, publicava “La méthode graphique dans les sciences expérimentales”. Neste livro, Marey ilustrava através de gráficos, fenómenos físicos complexos, difíceis de explicar ou mostrar. De forma mecânica, através dos aparelhos que criou, Marey conseguia captar, medir e transmitir traços que constituíam os registos gráficos.
Étienne Jules Marey, excitações sucessivas no músculo de uma rã, do livro "La Méthode Graphique"

Por fenómeno entendia Marey tudo que fosse caracterizado por variações de grandeza física, como dilatação, temperatura, pressão, velocidade do vento, corridas, bolsas de valores, estatísticas de natalidade…, cuja variação lenta ou rápida, brusca ou contínua, tinha como variável fundamental o tempo. Para ele todos os fenómenos, sejam eles económicos, metereológicos, fisiológicos, estatísticos, biológicos, físicos…eram determinados pelo tempo.
Étienne Jules Marey, Diferentes traços de um mesmo fenómeno fisiológico, pulsação cardíaca, 1894

Por ser eficaz e útil ao permitir a visibilidade de fenómenos invisíveis, o método gráfico tornou-se numa nova linguagem universal e foi amplamente divulgado mesmo fora dos meios científicos. No ano em que Marey publicou o seu livro, 1878, Muybridge publicava as suas primeiras sequências da corrida de um cavalo. Ao vê-las, Marey não se contenta com o seu método gráfico, e utiliza a câmara fotográfica para também ele registar de forma mecânica e precisa o movimento de um homem a correr durante um determinado tempo.
Étienne Jules Marey, Fotografia representando as diversas fases sucessivas de um homem a correr, do livro "La photographie du mouvement"

Contudo para precisar melhor o movimento, o modelo vestia-se de preto e nos membros e articulações pertinentes à análise do movimento da locomoção, pintou linhas e pontos brancos.
Étienne Jules Marey, Estudo da locomoção c. 1884
Étienne Jules Marey, Análise cronofotográfica da marcha, 1883

Nestas imagens o sujeito em movimento aparece em posições múltiplas em diferentes pontos no espaço. Marey transformava também a fotografia num método gráfico, produzindo diagramas de um novo género.
Étienne Jules Marey, Marcha de um homem, trajectória de diferentes articulações, do livro "Développement de la Méthode Graphique par l'emploi de la photographie"

Em 1887 utiliza o termo cronofotografia, que levaria mais tarde à invenção do cinema, para designar as fotografias registadas de forma sucessiva na mesma placa fotográfica.
Étienne Jules Marey, cronofotografia, 1890

Com o desenvolvimento de placas mais sensíveis à luz, em 1888-89 Marey deixa a placa única e fotografa em vários momentos (50 fotografias por segundo), o movimento. A imagem global lê-se como uma sequência de imagens elementares que por sua vez são posições reais no espaço e no tempo.
Se no virar do século, ambos os trabalhos influenciaram os futuristas italianos, como Anton Giulio Bragaglia,
Anton Giulio Bragaglia, O estalo, 1912

também Marcel Duchamp não ficou imune a estas influências ao pintar o seu “Nu descendo uma escada”, 1912,
Marcel Duchamp, Nu descendo uma escada, 1912

o quadro que provocou um escândalo no Armory Show, 1913, de Nova Iorque. Alguns anos mais tarde Harold Edgerton, registava o grafismo deixado pelo bastão de uma majorette,
Harold E. Edgerton, A drum majorette at the Belmont, Massachusetts, High School Twirling a baton, 1948

enquanto que Andreas Feininger, registava em desenho as curvas das pás em movimento de um helicópetro.
Andreas Feininger, Desenho feito por helicóptero com luzes nas pás do rotor, Navy Field em Anacostia, Maryland, 1949
Na actualidade, o movimento implícito de ambos os trabalhos continua a despertar a atenção dos artistas contemporâneos. No ano passado o centro Georges Pompidou adquiriu para a sua colecção fotográfica, os trabalhos do artista Olafur Eliasson, que à semelhança de Marey registou as oscilações da locomoção humana, como um registo gráfico.
Centro Pompidou, exposição dos trabalhos adquiridos para a colecção, Dezembro 2007
Olafur Eliasson, Centro Pompidou, exposição Dezembro 2007
Olafur Eliasson, Centro Pompidou exposição Dezembro 2007
Olafur Eliasson, Centro Pompidou exposição Dezembro 2007

Sol LeWitt, o artista conceptual que morreu no ano passado, deixou-se fascinar pelo fenómeno do movimento ao ver o livro “Animal Locomotion” de Muybridge. Se o trabalho de Muybridge facilitou a invenção do cinema, para LeWitt vai ser o modus operandi dos seus trabalhos seriais. Para ele as séries de Muybridge eram também interessantes por nenhuma delas ter um ponto culminante, faziam todas parte de um todo que isoladamente perdiam o seu significado principal, ou seja, o movimento implícito. Como LeWitt referiu “a corrida de um homem no livro de Muybridge foi a inspiração para todas as transformações de um cubo dentro de um cubo, um quadrado dentro de um quadrado…”. “Variações de cubos incompletos”, a série de cubos incompletos que o espectador terá de completar, é hoje um trabalho de referência. Mas "Parede de Tijolos" será talvez o trabalho fotográfico que melhor representa esta dinâmica serial. Composto por 30 fotografias, tiradas de uma das janelas da sua casa o ponto de vista é fixo, mas “sempre que olho para a parede ela muda e mantém uma beleza constante, em todos os momentos”, diz LeWitt. E em "Muybridge I, Representações esquemáticas de uma vista interior" uma homenagem ao inspirador:
Sol Lewitt, Muybridge I, 1964

Julguei no início que a fotografia científica ocuparia dois posts, afinal...

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