Ontem no Wall Street Journal um artigo “India’s IPO Pillar Shows Fissures”, revelava que tamb

ém o Sensex (BSE), o índice da bolsa indiana, não resistia às fortes correções dos mercados bolsistas, pois as Ofertas Públicas de Venda anunciadas, e que mantinham ainda o interesse dos estrangeiros, foram agora adiadas. Ontem o mercado indiano fechou com uma perca de quase 5% e desde o início do ano o Sensex (BSE) caiu 19% contrastando com os 47% de ganho do ano passado. O mercado globalizou-se e hoje não há nenhum país que fique incólume às correções que parecem estar para ficar. Quando, há precisamente dez anos, com o colapso do gigantesco Hedge Fund - Long Term Capital Managment – LTCM, gerido por dois nobéis da economia, Myron Scholes e Robert Merton, perdiam um valor que ultrapassava o sistema financeiro americano, o Sensex (BSE) foi a única bolsa que resistiu às correções das bolsas mundiais. A dificuldade das multinacionais se instalarem na Índia era, à época tema recorrente nas revistas da especialidade. Os indianos continuavam a preferir as suas bebidas à coca-cola importada e a Índia parecia conseguir resistir à globalização. Hoje a preocupação dos Stockbrokers em Bombaim é igual a de todos os outros, como revela esta fotografia que acompanha o artigo.
As diferentes cores sobrepostas em camadas, que
encontrei nesta fotografia tirada na Índia, na estrada para Jaipur,
Pedro Norton, Estrada para Jaipur, Dezembro, 2007fizeram-me lembrar as cores da Índia de Raghubir Singh,
Raghubir Singh, Barber and goddess Kali, Calcutta, West Bengal, 1987que nasceu em Jaipur, e a magia desta imagem está precisamente no seu poder de evocar muitas outras, armazenadas em memória.
Raghubir Singh é o fundador da fotografia indiana moderna e resistiu, desde que começou a fotografar na década de 1960, à globalização do preto e branco que então dominava. Fotografou o seu país sempre a cores e no último livro, “River Colour”, 1998, que publicou pouco antes de morrer, escreveu na introdução: “
Unlike those in the West, Indians have always intuitively seen and controlled colour”, continuando, “
the Indian photographer cannot produce the angst and alienation tooted in the works of western photographers such as Brässai, Bill Brandt, Robert Frank and Diane Arbus”. Os ocidentais, como Cartier-Bresson, que Singh admirava e conhecera, preocuparam-se com o excesso de informação da cor. Num mundo a cores, a fotografia a preto e branco possuía a integridade do desenho, quiçá, os trabalhos eram assim mais artísticos e Bresson no final da vida dedicou-se ao desenho e deixou a fotografia.
Singh nasceu e cresceu nos anos 40, a geração que veria nascer, a 15 de Agosto de 1947, a independência do país. Chegado à maturidade, deixa a cidade onde nasceu, e no sul do país quis ser plantador de chá, mas acabou por abraçar o fotojornalismo.
A cultura indiana evoluiu em íntima relação com a Natureza, nada faz sentido sem a terra, as vacas
Raghubir Singh, Pushkar Fair, 1980-81e o Ganges, o rio sagrado.
Raghubir Singh, Man diving. Ganges floods, Benares, Uttar Pradesh, 1985
A Natureza reina suprema, e Singh dá-nos a ver o inexprimível – aquilo que se sente, vê, ouve cheira ou prova.
Raghubir Singh, c. 1970
Nas suas fotografias a cor da Índia é a cor da poeira,

Raghubir Singh, Jodhpur District, 1980-81
da terra, dos tecidos de algodão e linho,
Raghubir Singh, Women caught in monsoon rains, Bahir, 1967
e foram estas cores que armazenei em memória, já lá vão mais de vinte anos quando vi as imagens do livro Rajasthan, 1981, de Singh.
Cartier-Bresson era um françês que descobria a Índia, e fotografou-a a preto e branco, mas Singh o nativo, sente a cor da sua terra, e o seu olho insaciável abarcou a Índia de alto a baixo, nunca fotografando senão a cores. No Ocidente o ponto de viragem da fotografia a cor deu-se com a exposição “William Eggleston’s Guide” no MoMA, estávamos em 1976. “Ganges”, 1974, o primeiro livro de Singh, antecedeu o “Guide” de Eggleston. Nas fotografias de Eggleston vemos as cores saturadas de uma América que se veste de poliéster e de fibras sintéticas, mas na Índia a cor é informação, mais do que decoração. Singh, não vai à procura do grande evento, antes regista a vida do homem comum,
Raghubir Singh, Boy at bus stop, New Delhi, 1982
como indiano valoriza a vida humana, e na fotografia de Pedro Norton, também não falta o homem e a sua sombra. Na Índia, um país com séculos de história quantos os da civilização, é fácil a um estrangeiro cair na armadilha do pictoresco. No enorme volume, com mais de 600 páginas, editado há poucos meses, “L’Art de la Photographie: des origines à nos jours”, de Michel Poivert e André Gunthert, nem uma referência a Raghubir Singh, um esquecimento injusto, como injustas são todos as outras histórias da fotografia.
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