segunda-feira, junho 04, 2007

As imagens que mudam a política

“La politique des Images”, é uma exposição sobre o trabalho de Alfredo Jaar, que abriu ao público no passado dia 1 de Junho no Musée Cantonal des Beaux-Arts em Lausanne.
No passado fim de semana, Danièle Cohn esteve em Portugal onde participou no programa “O Estado do Mundo” na Fundação Calouste Gulbenkian. Dois eventos que não tendo um a ver com o outro se completam.
Numa entrevista publicada sábado no jornal Público Cohn refere que foi o ensaio de Susan Sontag, “Olhando a dor dos outros” que a inspirou para a primeira questão que coloca “não olhamos nós sempre a dor dos outros?” e continua “Recebemos, como uma televisão “recebe” imagens do Ruanda ou do Darfur: somos passivos, assistimos ao espectáculo de um mundo que nos é mostrado à mesa do jantar numa confusão entre o próximo e o longinquo”.
Sontag no ensaio que inspirou Cohn escreve “Não pode haver a mínima suspeita da autenticidade daquilo que se vê na fotografia tirada por Eddie Adams em Fevereiro de 1968...
o general-brigadeiro Nguyen Ngoc Loan, a dar um tiro num homem suspeito de ser vietcong numa rua de Saigão. No entanto essa fotografia foi encenada – pelo general Loan, que conduzira o preso, as mãos atrás das costas, para a rua onde os jornalistas estavam; aquela execução sumária não se teria realizado se eles ali não estivessem para a testemunhar”. Para além de fotografada esta cena foi simultâneamente filmada. Segundo a revista Foreign Affairs de Dezembro 2005, esta cena tem lugar no dia seguinte à ofensiva de TET pelos guerrilheiros vietcong. O guerrilheiro, que vemos na fotografia tinha morto na véspera 8 vietnamitas do sul. No dia seguinte, pela hora do jantar os americanos assistiam ao filme da execução pela televisão, pela manhã viam a fotografia na primeira página dos jornais.
Como revela o gráfico da revista,
é a partir da ofensiva de TET, com a divulgação do filme e fotografia, que os americanos tomam uma posição mais crítica da guerra.
Mas passados estes anos os tempos mudam e hoje com o turbilhão de imagens de guerra que vemos todos os dias, acabamos por experimentar uma indiferença que nem sempre nos envergonha, diz Cohn. E continua “Que nos pedem essas imagens?” “Pergunto-me se isso não tem a ver com o facto de serem imagens e não obras de arte? Quando há arte, há invenção de uma forma, um trabalho para a produzir e temos consciência disso...os artistas de hoje experimentam as imagens de horror que invadem as suas vidas como as nossas. Mas como artistas podem agir. É pela acção e não pela visão que os artistas podem agir”.

O trabalho de Jaar exemplifica o que Cohn diz. Este artista chileno, utiliza frequentemente a fotografia como base para o seu trabalho, mas raramente utiliza séries de imagens. Cohn fala do Ruanda, Jaar chega ao Ruanda em Agosto de 1994. Já quase um milhão, a maior parte tutsi, tinha morrido nos massacres. Jaar fotografa. Para ele o horror está também na indiferença do Ocidente ao terrível genocídio. Jaar faz várias instalações sobre o massacre do Ruanda e nessas instalações, o papel da fotografia como representação da catástrofe, é posta em causa, para ele “It would not make a difference, showing more images of the massacre more images than had been seen in the media”.
Numa das primeiras intalações, Jaar critica a indiferença do Ocidente utilizando as capas da revista Newsweek durante os meses do genocídio.
Nenhum refere os massacres de Ruanda. Em seguida, instala 50 caixas de luz pela cidade de Malmo, na Suécia, só com Ruanda escrito, não utilizando nenhuma imagem.
“Real pictures”, são 550 caixas de arquivo fechadas, contendo cada caixa uma fotografia. No topo de cada caixa Jaar descreve a imagem fotográfica que lá está dentro.
“The Eyes of Guteta Emerita” que se pode ver na exposição de “La politique des images”é mais outra instalação relativa ao Ruanda. Jaar mostra-nos o fragmento de uma imagem, os olhos de uma mulher que testemunha o massacre de que foi vítima a sua família, quando numa manhã de domingo assistiam à missa. No Ruanda, das imensas fotografias que aí tirou, Jaar só nos mostra este fragmento dos olhos de Guteta Emerita.
“Os artistas são engagés, propõem-nos reflexões feitas nas suas obras, e levam-nos a reflectir por nosso lado” diz Cohn na entrevista.

Cohn dá como exemplos, Ruanda e Darfur. Hoje recebi na minha caixa de correio um pedido de ajuda para a situação de Darfur. Darfur é hoje considerado o genocídio do século XXI. Kofi Annan, no momento em que se retirava das suas funções, reconhecia que Darfur era o maior desaire da ONU nos últimos anos.
Para saber sobre a situação no Darfur click aqui.
Para assinar a petição click aqui.

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sábado, junho 02, 2007

Sophie Calle na Bienal de Veneza

Sophie Calle foi convidada para representar a França na 52ª Bienal de Veneza, que abrirá no próximo dia 10. É o regresso a Veneza depois de “Suit Vénitienne”, 1980, um dos seus primeiros trabalhos. Depois de uma ausência de sete anos, foi no regresso a Paris que tudo começou conta-nos “senti-me desenraízada e sem amigos, não sabia o que fazer, para onde ir... comecei então a interessar-me por pessoas que encontrava na rua, tirava fotografias e anotava o que me tinha interessado nelas ...um dia segui um homem, mas pouco depois perdi-o de vista num centro comercial. Nessa noite encontrei-o numa vernissage.
Sophie Calle, em Paris, 1980
Escutei a conversa, ia para Veneza, decidi segui-lo e foi assim que começou a minha investigação. Em Veneza investiguei junto da polícia, hotéis.. para saber onde o encontrar, tudo o que ele fazia interessava-me, onde almoçou, a que horas, o quê,...foi uma perseguição obsessiva, até que chegou ao fim, apanhei o comboio e regressei a Paris”.
Sophie Calle em Veneza, 1980
Depois desta perseguição é Calle que quer ser seguida, e para isso pede à mãe que contrate um detective. Este trabalho “La Filature”,1981, esteve no CCB na Lisboa Photo 2003.
Sophie Calle, "La Filature",1980, exposição no CCB em 2003
Em Veneza Calle observou, agora em Paris é a observada, interessa-lhe saber como a veêm e as descrições que fazem de si, tal como ela fizera.
Sophie Calle, "La Filature", 1980

Através de fotografias e textos Calle narra as suas histórias. Estes foram os seus primeiros trabalhos, agora “Prenez soin de vous”, 2007, composto por fotografias, textos e filmes pode ser visto, a partir do dia 10 no pavilhão françês da Bienal de Veneza.
Sophie Calle, "prenez soin de vous", 2007

Em França, a regra é deixar o artista convidado escolher o comissário. Calle procurou mas não encontrou ninguém. Decidiu então por um anúncio na imprensa : “Sophie Calle, artiste sélectionnée pour représenter la France à la 52 Biennale d’art contemporain de Venise, recherche toute personne enthousiaste pouvant remplir la fonction de comissaire d’exposition. Références exigées. Rémunération à négocier. Anglais courant souhaité. Envoyer CV /Lettre de motivation à scbiennale@galerieperrotin.com”.
O artista Daniel Buren responde e é o seleccionado. Buren no catálogo da Documenta 5 de 1972 escreve “ Cada vez mais, o objecto de uma exposição, deixa de ser a exposição de obras de arte para, a exposição da exposição, se tornar no próprio objecto”.
Para Buren o gesto de Calle foi a forma de ela dar relevo ao artista e de por em causa o papel sacro-santo atribuido hoje aos comissários. Agora uma nova aliança artista/artista substitui a dupla comissário/artista.

O festival de fotografia espanhola a Photo España de 2007, abriu há dias a sua 10ª edição. Depois de vários anos comissariada por Horacio Fernández, é a primeira vez que o festival se apresenta sem um comissário principal.
Será que 2007 é o ano negro dos comissários?
Nota: o livro "Prenez soin de vous" de Sophie Calle saiu ontem editado por Actes Sud (4 DVD e dois livros). Ver mais comentários sobre Calle na Bienal click aqui

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quinta-feira, maio 31, 2007

Janelas

Janela é uma abertura na parede de uma casa que deixa entrar a luz, calor, fresco, cheiros...mas janelas servem também para espiar os outros como fez Hitchcock em “Janela Indiscreta”. Resguardados em casa espiamos o mundo exterior. O inverso também acontece, do exterior podemos espiar o mundo particular da cada um.
“Através de la ventana/ Through the window” é o tema da última revista Exit nº 26. Exit é uma publicação espanhola, seduzida por temas.

Todos os meses escolhe um e reúne à volta do tema escolhido uma série de fotografias de diferentes fotógrafos. A fotografia presta-se a isso, fotografar é escolher, é uma decisão subjectiva, e nada melhor que sob o mesmo tema acumular imagens de vários autores e tempos diferentes para dar uma noção das diferenças.
Quando ontem abri Exit, para além das janelas que vi, muitas outras se abriram na minha memória. Ao longo da história da fotografia cada janela é uma abertura sobre uma época.
Nas ruas das cidades quando a luz do sol começa a escassear e os habitantes regressam a casa, os interiores iluminam-se. Talvez inconscientemente, não somos tantas vezes levados a olhar para dentro das mesmas?

Vou abrir a janela, e mostrar as fotografias que me vieram logo à memória.

Erich Salomon, homem da sociedade, doutorado em direito, falando várias línguas preferiu o fotojornalismo às leis. Em 1928, as suas primeiras reportagens eram publicadas pela editora Ullstein e em breve muitos jornais europeus ilustravam as suas reportagens com as suas fotografias, como o Berliner Illustrierte Zeitung. A sua posição na sociedade berlinense facilitou-lhe a tarefa. Com uma intuição especial para o mundo da política, fotografava pela noite dentro as reuniões dos políticos da República de Weimar. Muitos sucumbiam ao cansaço e nas suas casacas eram fotografados a dormir sob a névoa do fumo dos charutos. Quando o acesso era-lhe vedado, Salomon não desistia, num escadote fotografava do exterior através das vidraças das janelas, os interiores iluminados.


Erich Salomon, Presidential Palace in Berlin, 1930

Em breve, nem através das vidraças das janelas, Salomon voltaria a fotografar. Em Janeiro de 1933 Adolf Hitler é nomeado pelo presidente Hindenburg, chancellor do Reich alemão, é o princípio do fim do novo fotojornalismo.
Em 1944, Salomon morrerá em Auschwitz.

Não muito distante na época, mas distante da Europa, Manuel Alvarez Bravo, na cidade do México onde vive, encanta-se com esta rapariga que olha através desta misteriosa janela.


Manuel Alvarez Bravo, "La Hija de los danzantes" 1933

Deixa-nos curiosos, porque não conseguimos ver o que ela vê. “Atget moldou-me a minha forma de olhar” diz um dia Alvarez Bravo, e muitas das suas fotografias como esta, “La hija de los danzantes”, representam bem a sua ideia de olhar.

Mas se “La hija de los danzantes” deixa-nos curiosos, Robert Doisneau, pelo contrário sacia-nos completamente a curiosidade com a montagem que fez das suas antigas fotografias.
Robert Doisneau, La Maison des Locataires, montagem feita em 1962

Doisneau fez com as suas fotografias o que os livros de história ilustravam em gravuras, as classes sociais por andares. Ainda não se pensavam nos condomínios fechados, e todos viviam no mesmo prédio.

Mas o fotojornalismo alemão, não morre com Hitler. Baseado nos foto-ensaios do fotojornalismo alemão, Henry Luce nos Estados Unidos lança a 23 de Novembro de 1936 a revista LIFE. Viverá 36 anos. Em 29 de Dezembro de 1972, a publicação é suspensa. A causa são os elevados déficits anuais. Se no início teve excesso de publicidade morrerá por falta dela.
Berenice Abbott foi assitente de Man Ray em Paris. Queria estudar escultura mas quedou-se pela fotografia. Se a descoberta de Atget se atribui hoje a Man Ray, é Abbott que tudo fará para o divulgar. Quando regressa a Nova Iorque, pressente o mesmo que Atget, a transformação rápida que se opera na cidade. As mansões da quinta avenida estão a desaparecer, e em seu lugar surgem os novos arranha céus. Á semelhança de Atget regista a mudança.

A 3 de Janeiro de 1938 a LIFE publica “A Woman Photographs the Face of a Changing City”, essa mulher é Berenice Abbott.


Arranha céus com as suas imensas janelas, contrastam com as casas que ainda resistem. Mas o grande contraste está na diferença do ponto de vista com que tira as duas fotografias.

Os arranha céus são fotografados com distância dum ponto de vista elevado. Muitas são as janelas mas não vemos absolutamente nada. Ao contrário da fotografia de casas coloniais que ainda resistem em Brooklyn, em que a fotografia é tirada ao nivel das janelas. As cortinas tapam o interior, mas a sensação de intimidade persiste. Sobre esta fotografia Maitland Edey no seu ensaio sobre esta revista escreve “One can look into those windows. One could almost imagine onself living there”.

Mas curioso é o texto que acompanha este foto-ensaio: “When told that a picture, like the mansion above, resembles a Hopper painting, she answers that she was doing this sort of thing before Hopper…”

Edward Hopper, Casa ao entardecer, 1935, óleo s/tela 92,1 x 127 cm

Jan Dibbets, tem a ideia de fotografar uma janela da rua Abbermuseum Eindhoven, e escolhe no solistício de Inverno o dia mais curto do ano. Á semelhança de “Parede de Tijolos” de Sol LeWitt, Dibbets com intervalos regulares de 10 minutos, compõe numa dinâmica serial 80 fotografias que marcam o tempo e a luz, fenómenos difíceis de percepcionar ao olho humano.

Jan Dibbets, The Shortest Day at the Van Abbemuseum, 1970

O que lhes interessa é o registo sequêncial do tempo. Se olharmos para uma janela isolada a obra perde todo o sentido. A sua montagem fotográfica, que esteve em exposição no Museu de Serralves em 2003, tem a escala de uma enorme janela.
É a época em que as janelas inspiram ideias.

E regresso às origens da fotografia com Abelardo Morell e a sua série câmara escura que inicia em 1991.
No caso de Morell é necessário conhecermos um pouco da sua vida para entendermos câmara escura. Em Janeiro de 1959, tinha Morell 10 anos, rebentava a revolução cubana. Com medo do mundo caótico da rua, Morell refugiou-se em casa. Aos 14 anos, muda-se para Nova Iorque com os pais, e vive numa cave. A casa era escura, e a sala só tinha uma pequena janela que dava para o passeio da rua. Trinta anos mais tarde é o nascimento do filho que o retém em casa. Mas Morell não precisa de sair, através de um orifício minúsculo que dispõe na janela da sua sala, o mundo exterior reflecte-se invertido na parede oposta, já não precisa de chegar à janela para ver o mundo. A câmara fotográfica é dispensada, porque qualquer espaço fechado por todos os lados menos por um, por onde entra a luz, funciona como uma câmara escura.

Abelardo Morell, Camera Obscura Image of Brookline View in Brady's Room, 1992

É o princípio da câmara escura desenhada por Leonardo da Vinci. Quanto mais pequeno o buraco mais detalhada é a imagem e maior o tempo de exposição necessário. Ao fim de várias experiências Morell fixou 2 cm o tamanho da abertura e 8 horas o tempo de exposição. O quarto e a sala da sua casa foram o início desta série, depois passou a fazer o mesmo nos quartos de hotel por onde viajava.
“These images, which I make in darkened rooms – seeing the exterior world from within – have a lot to do with why I became a photographer. This strange desire to observe the world “in camera” is, I think, what photography is all about”.

E vou terminar com o percurso que fiz pelo tunel do Aqueduto das Águas Livres de Lisboa, quando na Lisboa Photo de 2005, Diogo Saldanha e Tomás Maia adaptaram, nos últimos 300 metros do tunel, todas as janelas

Janela do tunel do Aqueduto das Águas Livres

até ao terraço da Mãe d’Água com um pequeno orifício semelhante ao sistema de Leonardo da Vinci e de Abelardo Morell.

Através dos orifícios colocados nas janelas do tunel vi Lisboa invertida nas paredes.


Recomendo o nº26 de EXIT, "A través de la ventana".


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terça-feira, maio 29, 2007

ist, Instituto Superior Técnico

O IST foi criado de raiz por Alfredo Bensaúde num velho casarão na rua da Boavista em Lisboa. Quando em 1927, Duarte Pacheco ascende à direcção, a sua primeira preocupação foi complementar a obra do primeiro. Sob a sua direcção promove a construção de novas instalações e em 1936, o Instituto abria as portas do seu novo edíficio construido em terrenos que outrora eram quintas ao Arco do Cego. Pardal Monteiro foi o escolhido.
Horácio Novais, IST, 1936, retirada do livro ist de Augusto Alves da Silva
O edifício seguia a máxima da engenharia e arquitectura da época, “a forma segue a função”. A decoração deixava o gratuito de fora e centrava-se na função. Mas como tudo na vida, o Instituto transformou-se para dar resposta às novas exigências, a investigação científica passava a motor do desenvolvimento, e o edifício precisava de mudar para a receber.
Augusto Alves da Silva, do livro ist, 1994 ("com a revolução Abril 1974 as paredes revestiram-se das cores maoistas do vermelho, preto e amarelo..").
Em 1993, duas novas torres são construídas dentro do seu “campus” para albergar as novas exigências da ciência.

Carlos Miguel Fernandes (n.1973), nasceu em Luanda e vive em Lisboa desde 1975. Licenciou-se em 1998, em engenharia electrotécnica e computadores pelo Instituto Superior Técnico. No ano passado no âmbito das comemorações dos 95 anos do Instituto e 75 da Universidade Técnica, o IST Press inaugurou com o volume “I-S-T 95-75-15” de Carlos Miguel Fernandes.
Já faz quinze anos que Fernandes está ligado ao “Técnico como é conhecido na cidade”, não só como estudante de doutoramento como coordenador do Núcleo de Arte Fotográfica da Associação dos Estudantes do IST, onde ensina fotografia, não só para os estudantes do Técnico mas para todos aqueles que querem aprender a fotografar.
“Quinze anos é pouco tempo quando comparado com a idade deste lugar. Mas o meu IST terá apenas quinze anos? Oficialmente, a história começou numa manhã de outono de 1991, mas o enredo vem de longe, desde que aprendi a abrir os olhos e a ver o mundo, o qual, deixando para trás lugares ultramarinos que nunca aproveitei, se transformara irremediavelmente na paisagem urbana que avistava desde a janela do meu quarto. O IST quebrava a monotonia da vista. Vi-o crescer e mudar, e o antropomorfismo veio naturalmente. Chamava-lhe o Técnico, como é conhecido na cidade, e todos os dias, quando abria a janela, ele mostrava-se como que a lembrar-me o destino traçado. Havia uma certeza que me percorria o espírito, moldada por vontades familiares, mesmo quando ainda mal chegava com o nariz ao parapeito: a minha vida passaria por ali”, escreve Fernades na introdução de “I-S-T 95-75-15”.
Foi através da blogosfera que conheci Carlos Miguel Fernandes. Há dias ofereceu-me “I-S-T 95-75-15”. O livro reflecte a sua visão muito pessoal da Instituição que sempre fez parte da sua vida. O preto predomina nas suas fotografias como pretas eram as ardósias onde aprendemos a escrever. A tiragem é pequena, 250 exemplares, decidi neste post partilhar com o leitor este livro magnífico.
Jorge Calado escreve o texto de introdução. É dele que retiro os textos que acompanham as fotografias.
“Olhem para estas imagens e vejam como elas se articulam como os versos dum poema que apetece cantar. Imediatamente reconhecíveis, só a primeria e a última- o alfa e o omega da escola.”
“Há coisas que não vemos ou preferimos esquecer. O papel amarrotado deitado ao chão, o sarrafo perdido, a tabuleta obsoleta, a fissura na parede encardida, o caixote abandonado, à espera de melhor uso. São os detritos da civilização.”
“Aqui , graças à perspectiva, até os quadrados e rectângulos são transformados em paralelogramas obliquângulos, como uma moldura ou cadeira desengonçada”.
“As esquadrias que há muito deixaram de ser a marca do engenheiro”
“A letra pode ser triste como tristes são os poemas dos fados mais amados. Não há gente – nem mestres, nem funcionários nem alunos. Apenas sinais e signos de vida e morte. Só. O resto adivinha-se e faz vibrar a imaginação”.
“Outras marcas do passado foram ficando, agarradas às paredes e à pedra dos degraus, enquanto cicatrizes efémeras vão aparecendo e desaparecendo ao ritmo de um lugar vivo...Fotografa-se para celebrar”, C.M.Fernandes.

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domingo, maio 27, 2007

"Still Life" de Jia Zhang-Ke

“Still Life” o filme de Jia Zhang-Ke (n.1970), em exibição nas nossas salas de cinema, é mais uma das obras primas do cinema provocada por um olhar fotográfico.

O continuado crescimento económico da China tem levado as grandes potências internacionais a olharem com preocupação para este ritmo demasiado elevado que poderá levar a um sobreaquecimento económico. Na última semana Europa e Estados Unidos pressionaram as autoridades chinesas a valorizarem o yuan. Para os EUA o agravamento do seu défice externo deve-se à China. Mas economistas e políticos têm a memória curta. Há precisamente dez anos, quando as divisas dos países asiáticos desvalorizavam mais de 80%, não foi a China que manteve a paridade do yuan com o dólar? Mas a preocupação não está só na economia, todos inclusive os próprios chineses receiam o pior, o sobreaquecimento do nosso planeta, causado pela poluição.
A China está hoje na mira de todos, inclusive dos fotógrafos. Edward Burtynsky (n.1955) fotógrafo canadiano interessa-se em documentar as transformações que ocorrem no país. Em 2002, a monumental construção da barragem das três gargantas, a maior no mundo, leva Burtynsky a fotografa-la.
Edward Burtynsky, Projecto da Barragem das três gargantas #3, rio Yangtze, China 2002
Construída para controlar as enchentes do rio Yangtze, prevê-se a finalização em 2009.
Uma das fotografias da série Feng Jie esteve recentemente exposta em INGenuidades, na Fundação Gulbenkian.
Edward Burtynsky, Projecto da Barragem das três gargantas, Feng Jie #7, Rio Yangtsé, China 2002.
Em 2002, quando Burtynsky a tirou, a barragem ainda estáva em construção, só em Junho de 2003 começou a encher. A fotografia de Burtynsky mostra ainda a aridez do local. Jorge Calado, comissário da exposição, sábiamente pô-la ao lado de “Enchendo a barragem de Murchison na Tasmânia“, 1982, de David Stephenson, atenuando assim a secura de Feng Jie.
Exposição INGenuidades, Gulbenkian, Abril 2007

Sanming, vem da província Shanxi à procura de mulher e filha em Feng Jie. Passaram dezasseis anos, e Sanming desconhecia o que o esperava. “Still Life”, inicia com Sanming a olhar para Feng Jie submerso.
"Still Life"
A tarefa é agora difícil, mulher e filha foram desalojadas para outros locais. Do vale seco que Burtynsky fotografou, já nada resta. Sanming, emprega-se na demolição dos edifícios, os próximos a serem atingidos com a nova enchente da barragem, e enquanto espera trabalha. Sem ser documentário, “Still Life” também não é ficção, é antes uma contemplação documental do meio envolvente conseguida pela magnífica fotografia de Yu Lik-Wai.
Do filme "Still Life"
Em todos os grandes planos visualizamos a barragem, construção que no final totalizará, tal como o destino da mulher e filha de Sanming, o desalojamento de 1,3 milhões de pessoas.
Zhang-Ke, filma o que a nova geração fotografa, a complementaridade entre cinema e fotografia na China actual é perfeita. O filme é silencioso, como silenciosa é a espera de Sanming. É na dualidade dos contrastes que Zhang-Ke imprime ritmo ao seu filme. A monumentalização da destruição contrasta com a monumentalização das novas construções, a paciência da geração velha e a impaciência da geração nova, 50 yuan por mês ganha Sanming nas demolições, 50 yuan é o que o jovem amigo de Sanming quer ganhar ao dia mesmo que isso lhe custe a vida.
Zhang-Ke, cruza no filme uma outra vida, a de Shen Hong,
"Still Life"
que vem também de Shanxi à procura do marido, que partiu há dois anos. A fábrica onde o marido trabalhava está agora desactivada,
Edward Burtynsky, Fábricas desactivadas #6, Shenyang Machinery Group, Tiexi District, Shenyang City, Liaoning Province, China, 2005
mas Shen Hong não quer esperar, e procura o amigo Dongming para a ajudar. Encontra-o nas escavações arqueológicas, é a civilização de dinastias seculares que em breve estará submersa.
O reencontro de Sanming com a mulher é num barco junto à barragem, mas a reconciliação tem como local um edifício semi-demolido, onde as torres das novas construções se vêem ao fundo.
Sze Tsung Leong, Jiefangbei, Yuzhang District, Chongqing, China, 2003

Shen Hong, reencontra-se com o marido num cais junto à barragem, mas é a ruptura, é o regresso a Shanxi com o papel do divórcio.

A arte contêmporanea chinesa tem uma presença cada vez maior em todo o mundo, através de leilões, exposições, feiras, bienais...veja-se alguns exemplos do que está em exposição, Working Progress de Ai Weiwei e Kake Studio na Tate Liverpool, enquadrado na PhotoEspaña 2007 podem –se ver os trabalhos de Zhang Dali. “Zhù Yí! Fotografia actual en China” pode-se visitar no ARTIUM em Vitória, Espanha...Zhù Yí significa ATENÇÃO em mandarim.

Zhù Yí, é a mensagem de todos ,do filme “Still Life” de Jia Zhang-Ke às fotografias de Edward Burtynsky.

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