terça-feira, novembro 27, 2007

Neve em Yosemite Park

Aos quatorze anos, 1916, Ansel Adams visitava pela primeira vez o Yosemite Park. Anos mais tarde casa-se com Virginia e vivem em São Francisco. Virginia herdara do seu pai, Harry Best, um estúdio perto de Yosemite Falls, e o casal passa longas temporadas no parque. Durante mais de três décadas, Adams fotografou a paisagem de Yosemite Park nas diferentes estações do ano, e as florestas cobertas de neve não lhe escaparam.
Um comentário deixado no último post lembrava-me que uma fotografia de Adams, tirada em Yosemite Park, era parecida com a fotografia da floresta coberta de neve que mostrei de Albert Renger-Patszch.
Hoje vou mostrar a fotografia de Adams que acabei por não mostrar no post anterior:
Ansel Adams, Winter Forest, Fresh Snow, Yosemite National Park, California, 1948

Não sei se era esta a fotografia que o comentador, CMF, se referia...
Ficam então mais algumas, todas de Yosemite sob um manto de neve:
Ansel Adams, Oak Tree, Snowstorm, Yosemite Park, 1948
Ansel Adams, El Capitain Winter, Yosemite PArk, 1950
Ansel Adams, Locust Trees in Snow, Yosemite Valley, c. 1929
Ansel Adams, Trees, Winter Evening, Yosemite Valley, s/d
Ansel Adams, Cedar Tree, Winter, Yosemite Valley, c.1935
Ansel Adams, Snow on Trees, Yosemite Valley, c.1930
Ansel Adams, Stump, Rock, Frost, Yosemite Valley, 1959

Lincoln Kirstein, (que escreveu o texto para “American Photographs”, 1938, de Walker Evans), ao ver um álbum de paisagens de Adams pergunta-lhe: “Don’t they have people in California?”.

Nota: a fotografia que CMF referiu no comentário do post anterior é esta, a mais parecida com a de Renger-Patszch.

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domingo, novembro 25, 2007

"Reveillon" na montanha

Ontem, a secção Fugas do jornal Público, apresentava várias propostas de programas para o fim de ano. A Serra da Estrela, uma das alternativas, o programa dizia o seguinte: “Estadia durante cinco dias/quatro noites no Hotel Serra da Estrela/Varanda dos Carqueijais em regime de meia pensão, jantar de gala com animação e fogo de artifício no exterior, descida nocturna na estância Vodafone ou no Skiparque e entradas para visitas aos museus de Belmonte por 630 euros em quarto duplo”. Esta fotografia da Serra da Estrela,
Adriano Miranda, Serra da Estrela
tirada por Adriano Miranda, ilustrava o dito texto. Não me parece a fotografia ideal para mostrar tanta animação proposta, pois a fotografia apela antes ao sossego e reflexão numa serra virgem de gente. À semelhança de Adriano Miranda, muitos fotógrafos deixaram-se fascinar pelo silêncio destas paisagens:
Albert Renger-Patzsch,
Albert Renger-Patzsch, Mountain Forest in Winter, 1926
Alfred Stieglitz,
Alfred Stieglitz, First Snow at the Litlle House, 1923
Jitka Hanzlová.
Jitka Hanzlová, da série Forest, 2005

Mas o programa do “reveillon” que o jornal sugere apela à prática do ski, tão em voga nos nossos dias. A prática do desporto alpino começa nos anos em que Auguste Rossalie Bisson, 1861, chega ao pico do Mont Blanc.
Auguste Rosalie Bisson. Ascent of Mont-Blanc, albumina, 1861
Auguste Rosalie Bisson, Ascent of Mont-Blanc, albumina, 1861
Na Europa a paisagem era já intima e caseira, e o sublime já só restava nas montanhas alpinas, difíceis de transpor. Hoje, com os teleféricos subimos fácilmente aos picos mais altos e Walter Niedermayr fotografa a montanha transformada para o turismo de massa.
Walter Niedermayr, Grand Motte I, 2002
Walter Niedermayr, Shiga Kogen II, 2000
Walter Niedermayr, Nigardsbreen, 2002
Walter Niedermayr, Passo Tonale V, 2005
Walter Niedermayr, Schnalstalgletscher, 2003
Nas fotografias de Niedermayr e Bisson, a presença humana, pequenos pontos disseminados no branco da neve, servem-nos de escala para que percepcionemos a imensidão destas paisagens e Niedermayr recorre frequentemente a mais de uma imagem, dípticos e trípticos, revelando a insuficiência de uma imagem para captar os grupos turísticos na imensidão da paisagem.
O programa sugerido pelo jornal sugere animação em grupo, talvez a fotografia de Ibon Aranberi,
Ibon Aranberri, cueva, 2002-2004
que não é na Serra da Estrela fosse mais adequada, afinal não são os programas em grupo que interessam mais que o local?

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sábado, novembro 24, 2007

O grupo AFAL

Há dias recebi este e-mail da photovision:

Almería, octubre de 2007
Estimado amigo/a,
El próximo día 31 de octubre se inaugura en Almería la nueva sede del Centro Andaluz de la Fotografía en lo que fue el antiguo Liceo y que, después de una magnifica restauración, albergará nuestras exposiciones, los departamentos administrativos, así como biblioteca, videoteca, salas digitales, aulas para talleres, etc., en definitiva el lugar idóneo para que el CAF se desarrolle en su más amplio sentido y todos los profesionales del medio y el público en general encuentren en este espacio y en las actividades que llevaremos a cabo, el marco inigualable de todo lo concerniente al mundo de la Fotografía.Por primera vez, ocupan las paredes del nuevo Centro, Emilio Morenatti y Jorge Rueda en la que a partir de ahora será la casa de los fotógrafos en AndalucíaPor este motivo, nos gustaría contar con tu presencia en la fecha citada, miércoles, a las 20,00 h. en la sede del CAF, C/ Pintor Díaz Molina, s/n, 04002 Almería.Un cordial saludoPablo JuliáDirector del Centro Andaluz de la FotografíaPHOTOVISIONhttp://www.photovision.es/

Almeria e fotografia, duas palavras há muito ligadas. “Almeria era uma província marginalizada e desértica, tanto agrícola como culturalmente, com o maior índice de desemprego...”, é assim que Carlos Pérez Siquier, um dos animadores de Agrupación Fotográfica de Almeria (AFAL), se recorda agora da cidade andaluza nos idos anos de 1950. “No fim dos anos 50” continua Siquier, “Almeria chegou a ser considerada como o centro geográfico da fotografia espanhola; isto foi devido a que a AFAL soube reunir os fotógrafos mais inquietos e intelectualmente evoluidos do país, que encontraram nas páginas da nossa pequena revista um suporte muito útil para exprimir as suas ideias ou publicar as suas imagens”. Siquier conjuntamente com Jose María Artero, fundavam em 1950, um movimento de ruptura com a fotografia espanhola do pós-guerra. A fotografia moderna dos anos 1930, caracterizada por um grande núcleo de fotógrafos, Sibylle von Kaskel, Gabriel Casas, José Renau, José Sala, Maruja Mallo, Emili Godes, José Manuel Aizpúrua, Antoni Arissa, Pere Català Pic e tantos outros, desaparecia.
Sibylle von Kaskel, fotografia publicada na revista "Las quatro estaciones" Outono 1935
Depois da guerra, os fotógrafos, que se achavam artistas, reuniam-se à volta da revista “Arte Fotográfico”, destinada, como dizia o seu primeiro número, (1952), “aos aficionados da fotografia artística e aos profissionais do retrato”. Regressavam os fotógrafos dos concursos e salões, das medalhas e outras condecorações, como se a modernidade, que tanto caracterizou a fotografia espanhola vinte anos antes, parecia nunca ter existido.
Foi neste ambiente que um grupo de fotógrafos “inquietos e intelectualmente evoluidos” que não tinham o menor desejo de fazer “arte” mas antes revelar o espírito do tempo através da fotografia se reuniu à volta de AFAL. Ricard Terré, que ficou conhecido pelas fotografias da Semana Santa em Espanha, só publicadas em livro “Los dias Iluminados” em 1964, nunca falta um sentido de humor negro, como refere Horácio Fernandez.
Ricard Terré, da série Semana Santa, Vigo, 1957
Ricard Terré, 1957, colecção Fundación Foto Colectania
Ramón Masats, o primeiro a seguir a reportagem pura, colaborava com a “Gaceta Ilustrada” dizia que a fotografia “deve ser humanidade, documento humano, veracidade e não falsidade. Nenhuma outra arte pode captar o momento com tanta autenticidade. A reportagem é pois o filho da nossa época”.
Ramón Masats, Estoril, 1959, colecção Fundación Foto Colectania
Ramón Masats, Terrassa, 1953, colecção Fundación Foto Colectania
Masats, para além dos fragmentos da vida quotidiana em Barcelona renovou as imagens das corridas de touros, como este touro sentado, da reportagem “Los Sanfermines”, Pamplona, 1960.
Ramón Masats, da reportagem Los Sanfermines, Pamplona, 1960
Xavier Miserachs, interessa-lhe não a fotografia artística mas as emoções “um assunto fotográfico é qualquer coisa que produz na fotografia um shock psicológico...” Das emoções, Miserachs chegava também ás abstrações, como este muro de azulejos com reflexos.
Xavier Miserachs, Barcelona, el metro de Plaza Cataluña, 1954, colecção Fundación Foto Colectania
O seu livro emblemático “Barcelona en blanc i negra” (1964), fotografias tiradas nas ruas de Barcelona nos anos 1959, terá como modelo New York de William Klein, sem legendas as fotografias eram montadas cinematográficamente, organizadas a partir de panoramas e cenas de grupo que se fragmentavam em detalhes e cenas individuais.
Xavier Miserachs, Calle Pelayo, Barcelona, 1962. Coleccção Fundación Foto Colectania
Xavier Miserachs, Piropo en la Via Layetana, Barcelona, 1962
Oriol Maspons, defendia uma fotografia espontânea, documental, independente das artes plásticas e do cinema “distingui-la (à fotografia) do plano cinematográfico, que normalmente se cria com ficção”.
Oriol Maspons, Novillada en un pueblo de La Mancha, 1961
Maspons admirava Francesc Català Roca (filho de Català Pic) o único a fazer a ponte entre as vanguardias modernas dos anos 30 e as vanguardas da fotografia documental dos anos 50.
Francesc Català Roca, Señoritas paseando por la Gran Via, Madrid, 1953
Maspons recorda-se “ admirava-o pelo seu estilo divertido de trabalhar. Tirava fotografias, com uma velha Rolleiflex 6 x 6 à qual só restava uma terça parte de visão na sua superfície de enquadramento. Ele balançava-a para poder ver tudo e compor a imagem. No laboratório, não usava marginador. Uma caixa de fósforos das antigas, na qual apoiava a folha de papel de provas era suficiente. Não utilizava relógio no ampliador, ia repetindo o nome Kodak, Kodak, Kodak,...com um segundo exacto de intervalo...com o revelador também fazia coisas estranhas, como ter dois recipientes de concentrações diferentes”. Paco Gómes, em que a honestidade era a base de toda a verdadeira obra de descrição, criou uma linguagem original na fotografia da época.
Paco Gómez, s/t 1958. Colecção Fundación Foto Colectania
Paco Gómez, S/t, 1958. Colecção Fundación Foto Colectania
Joan Colom, é hoje memorável pela reportagem que fez ao sub-mundo social de Barcelona, fotografias publicadas no seu livro “Izas, rabizas y colipoterras”, 1964.
Todos estes fotógrafos foram alguns dos membros principais para além dos fundadores.
Carlos Pérez Siquier, La Chanca (Almeria) 1962
Carlos Pérez Siquier, Roquetas, 1975. Colecção Fundación Foto Colectania

A importância da AFAL foi decisiva para dar a conhecer internacionalmente a fotografia espanhola. Para além das exposições organizadas em Almeria no Salão de Inverno entre 1956 a 1959, a AFAL estabeleceu contacto com outros grupos significativos como La Bussola em Milão, Les 30 x 40 em Paris, o Centre Culturel de Charleroi de Bruxellas, o Fotoform na Alemanha, e participou em bienais e exposições colectivas, em Itália, Bélgica, França, Alemanha e na URSS, a fotografia espanhola começou a ser conhecida no estrangeiro. Editou também a revista AFAL, com 36 números desde 1956 a 1962.

Nos anos 60, a fotografia documental que caracterizou o grupo AFAL mostrava desgaste e chegava ao fim a noção de fotografia como um fim, em que a informação era o suporte. Opunha-se então a noção de fotografia como meio, utilizada por diferentes práticas artísticas, cujo suporte eram agora as ideias. O grupo e a sua revista chegavam ao fim.
Pablo Juliá o actual director do Centro Andaluz de Fotografia, em Almeria faz reavivar essa memória ao editar AFAL.

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quinta-feira, novembro 22, 2007

Thanksgiving

Reza a história que em 1620, um barco carregado de gente corajosa atravessava o Atlântico em direcção ao Novo Mundo. Os primeiros colonos chegavam a América, mas chegavam tarde para as sementeiras. Nesse primeiro ano metade da população viria a morrer de fome. No ano seguinte, com a ajuda sábia dos índios, a terra do Novo Mundo deu o seu melhor ao Homem. O Homem quis agradecer a Deus e à terra as tão boas colheitas, e celebrou um jantar para agradecer tão boa dádiva. “Thanksgiving”, Acção de Graças, é uma festa móvel, como quase todos os feriados americanos, e a data escolhida, a quarta quinta-feira do mês de Novembro.

Há uma semana atrás, num esforço para reduzir os atrasos dos aviões, o Presidente Bush veio dizer à nação “that the U.S. military was making some restricted airspace along the East Coast available to commercial carriers over the busy Thanksgiving travel period”. Ainda hoje, jantar em família no dia de Acção de Graças é tão importante que o staff da aviação federal tem como objectivo máximo “keeping flights on time”.

Ontem, os traders das bolsas americanas davam “Giving Thanks, Taking Losses”, pois os mercados continuam a corrigir com a crise dos empréstimos de baixa qualidade, a queda do dólar e a subida do barril de petróleo que já está bem perto dos $100, mas todos partem para o Thanksgiving.
Mesmo em tempos de crise, como foi a época da grande recessão, em que o celeiro da América se transformou em pó pela seca que abateu no Midwest, (e que na actualidade vive outra terrível seca), o jantar de Acção de Graças é sagrado e na família do Sr Timothy Levy Crouch não faltam as tão célebres tartes de abóbora. O perú, certamente também não falta, embora nós ao olhar para a mesa através do espelho da sala não o vejamos, mas Jack Delano, certamente nos confirmaria que o perú não faltou à família de Timothy Levy, que na quarta quinta-feira do mês de Novembro do ano de 1940 celebrava mais um jantar de Acção de Graças.
Jack Delano, Tartes de abóbora e maçã e jantar de Acção de graças em casa do Sr. Timothy Levy Crouch, um Rogerine Quaker, Ledyard, Connecticut, Novembro 1940

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quarta-feira, novembro 21, 2007

PARA SEMPRE de Paulo Nozolino

Martin Parr esteve em Portugal e na ArteLisboa falou da sua obra como fotógrafo e editor.
Martin Parr, em conjunto com Gerry Badger editou “The Photobook: A History”, dois volumes maravilhosos sobre livros fotográficos, aos quais me referi quando anunciei a sua vinda.
Martin Parr conversou com Sérgio B. Gomes. Ontem o jornal Público publicou a entrevista e Sérgio B. Gomes transcreveu-a no seu blogue ArtePhotographica para os que não leram o jornal, e para os que não foram à conferência Sérgio B. Gomes fez o vídeo.
Interrogado sobre os livros fotográficos portugueses, Parr diz que nenhum, excepção para o “Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, lhe despertou a atenção. Mas em resposta à pergunta: Conhece o trabalho dos fotógrafos portugueses, Parr responde: “não, não posso dizer que conheça muita coisa. Conheço o trabalho do Paulo Nozolino, que é mundialmente conhecido, mas também não sou muito bom a lembrar-me dos nomes. Ando por 50 países e vou tentando perceber alguma coisa da cultura fotográfica desses países...”.
Martin Parr conhece o trabalho de Paulo Nozolino, mas nenhum dos seus livros entrou em “The Photobook: A History”.
Aproveito então para mostrar ao leitor um dos primeiros livros de Nozolino, “Para Sempre”, (1982).
O livro termina com um soneto “LA VITA DELL’OMO”, (A vida do Homem), de Giuseppe Gioachino Belli (1791-1864), traduzido por Alexandre O’Neill.

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