segunda-feira, maio 14, 2007

David Seymour, "Chim".

David Szymin (1911-1956), nasceu e viveu a sua adolescência em Varsóvia. Estuda Artes Gráficas numa academia em Leipzig, deixa a litografia pela fotografia e vai viver para Paris. Em Paris os amigos chamam-lhe Chim. Nos Estados Unidos naturaliza-se cidadão americano, regista-se com o nome de Seymour. Por não ter casa, Chim sente-se em casa em qualquer capital. Há três dias, o Internacional Center of Photography (ICP) em Nova Iorque inaugurou uma exposição com os trabalhos fotográficos de David Seymour. Click aqui para ver algumas dessas fotografias. Com os amigos Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, formam a célebre agência Magnum. É no âmbito das comemorações dos 60 anos da agência, que o ICP mostra agora os seus trabalhos.

Depois da guerra Chim regressa à Polónia, à procura dos seus pais. Como tantos outros judeus, os seus pais não sobreviveram. Fotografa então o seu país, a Polónia desvastada pela guerra e é aí que Chim tira a fotografia de Terezka.
David Seymour, Terezka, a disturbed child in an orphanage. The scrawls on the blackboard are her drawing of "Home", Polónia, 1948

Este livro de Chim, publicado em 1974 pelo mesmo Internacional Center of Photography, foi dos primeiros livros fotográficos que comprei.
Henri Cartier-Bresson diz do amigo “ tem a inteligência de um jogador de xadrez e o ar de um professor de matemática”.

Com Robert Capa, fotografa a guerra civil espanhola. A fotografia Air raid over Barcelona, 1938 ficou conhecida. Outras pouco conhecidas como estas:
David Seymour, Members of the International Brigade, Espanha, 1936
David Seymour, Republican pilots, Espanha, 1936

Ao novo Estado de Israel, onde vai várias vezes, encontra os poucos amigos que sobreviveram. Fotografa os Kibbutzim.
David Seymour, New arrivals, Israel, 1951

Em 1956, estava na Grécia quando rebenta a crise do Suez. Vai para o Egipto para a fotografar. Com Jean Roy, um fotógrafo do Paris Match acabam por morrer, sob o fogo da artilharia egípcia no dia 10 de Novembro, o Jeep onde seguiam cai no canal do Suez, morrem ambos.
Esta é uma das suas últimas fotografias:
David Seymour, Port Said, 9 Novembro 1956

Ler mais...

domingo, maio 13, 2007

Economia e Fotografia

“Bolsas chinesas deixam resto da Ásia de olhos em bico” é o título de um dos artigos do último Diário Económico. O jornal ilustra-o com esta fotografia.
Logo nos lembramos de Andreas Gursky que fotografou muitas bolsas asiáticas.
Andreas Gursky, Tokyo Stock Exchange, 1990


Andreas Gursky, Hong Kong Stock Exchange, Díptico, 1994

A Areva e a dupla Suzlon/Martifer disputavam sexta-feira passada o preço de oferta que decidirá o desfecho da OPA sobre a empresa alemã REpower. Quem oferecer mais dinheiro sairá vencedor. O consórcio Suzlon/Martifer, a Suzlon indiana a Martifer portuguesa já detém uma participação na REpower. A Areva, empresa francesa totalmente controlada pelo Estado detém 29% do capital da REpower. A Areva é o maior produtor mundial de centrais nucleares. Centrais nucleares funcionam com torres de arrefecimento. A maior parte de nós, conhece as centrais nucleares e torres de arrefecimento através das imagens fotográficas,

Michael Kenna, Central Térmica de Ractcliffe, Estudo 52, Nottingamshire, Inglaterra, 2000
como esta de Michael Kenna que logo me veio à memória por a ter visto recentemente na exposição Ingenuidades. Mas para além das imagens fotográficas temos também imagens gráficas, por exemplo a valorização da REpower em bolsa.

Imagens gráficas de índices bolsistas, lembram o fisiologista Etienne-Jules Marey, hoje mais conhecido como o fotógrafo que registou o movimento.
A imagem gráfica não nos dá a realidade, não é mimética, é antes uma transformação métrica de determinados fenómenos inacessíveis aos nossos sentidos. Os registos gráficos desenvolveram-se no início do século XIX e eram uma novidade, por exemplo uma frase podia ser representada por um conjunto de curvas como também o inverso, (ondas radiofónicas) aplicadas a um aparelho vibrador restituiam uma frase sonora. Estes mecanismos de registo produziam imagens totalmente novas.
Estudo fisiológico da voz humana, M.Piltan, 1887
Marey, enquanto fisiologista e homem das ciências foi dos primeiros a escrever sobre o assunto. Em 1878 escreveu “La méthode graphique dans les sciences expérimentales”.
No livro Marey ilustrava através de gráficos, fenómenos físicos complexos, difíceis de explicar ou mostrar. Construiu diversos aparelhos que de forma mecânica captavam , mediam e transmitiam traços que constituiam os registos gráficos.
Étienne-Jules Marey, Excitações sucessivas no músculo de uma rã do livro La Méthode Graphique.
Por fenómeno entendia Marey tudo que fosse caracterizado por variações de grandeza física, como dilatação, temperatura, pressão, velocidade do vento, corridas, Bolsa de valores, estatísticas de natalidade..., cuja variação lenta ou rápida, brusca ou contínua, tinha como variável fundamental o tempo. Para ele todos os fenómenos, sejam eles económicos, metereológicos, fisiológicos, estatísticos, biológicos, físicos...eram determinados pelo tempo.
Étienne-Jules Marey, diferentes traços de um mesmo fenómeno fisiológico, pulsações cardiacas, 1894.

Por ser eficaz e útil ao permitir a visibilidade de fenómenos invisíveis, o método gráfico tornou-se numa nova linguagem universal e foi amplamente divulgado mesmo fora dos meios científicos.
A máquina fotográfica foi para Marey como mais um aparelho que lhe permitia registar de forma mecânica e precisa o movimento, por exemplo de um homem a correr durante um determinado tempo. Em 1885 escreve o livro “Développement de la méthode graphique par l’emploi de la photographie”.Em 1887 utiliza o termo cronofotografia para designar as fotografias registadas de forma sucessiva na mesma placa fotográfica.
Étienne-Jules Marey, fotografia representando as diversas fases sucessivas de um homem a correr, do livro "La photographie du mouvement"
Nesta imagem o sujeito em movimento aparece em posições múltiplas em diferentes pontos no espaço.
Contudo para precisar melhor o movimento, Marey fotografa o sujeito todo vestido de preto, em que nos membros e articulações, pertinentes á análise dos movimento da locomoção, pintou linhas e pontos brancos.
Étienne-Jules Marey, Marcha de um homem, trajectória de diferentes articulações, do livro "Développement de la méthode graphique par l'emploi de la photographie".
Étienne_jules Marey, do livro "Mouvement", 1894.
Marey transformou também a fotografia num método gráfico produzindo diagramas de um novo género.
Com o desenvolvimento de placas mais sensíveis á luz, em 1888-89 Marey, deixa a placa única e fotografa em vários momentos (50 fotografias por segundo), o movimento. A imagem global lê-se como uma sequência de imagens elementares que por sua vez são posições reais no espaço e no tempo. A sequência final dá a ideia de movimento.

Alan Greenspan foi durante 17 anos presidente da Reserva Federal Americana. A sua voz monótona e monocórdica tornava difícil seguir os seus discursos. Á semelhança das máquinas construídas por Marey, podiamos seguir o discurso olhando para os três índices americanos Dow Jones, S&P 500 e o Nasdaq. Não precisávamos de o ouvir, bastava olhar para o gráfico destes índices, para saber o que dizia Greenspan se subia, descia ou mantinha as taxas de juro.
Dow Jones, fecho de sexta-feira dia 11 de Maio de 2007
NASDAQ, fecho de sexta-feira dia 11 de Maio de 2007

As imagens gráficas são esquemáticas e simples, e por isso amplamente utilizadas. Por exemplo para mostrar e comparar a nossa economia com outros países da Europa basta um diagrama gráfico, não é preciso texto.
Mas a representação gráfica com a sua aparência minimalista foi arredada durante anos das artes. Só mais tarde artistas como Duchamp, Sol Le Witt, Robert Smithson...olharam para elas como fonte de inspiração, para muitos dos seus trabalhos. Hoje Marey e Muybridge continuam no meio artístico a servir de fonte inspiradora.

Ler mais...

sexta-feira, maio 11, 2007

Livros Fotográficos no Arquivo Fotográfico

O Arquivo Municipal de Lisboa/ Arquivo Fotográfico teve a excelente ideia de proporcionar um dia aberto ao livro fotográfico, e dispôs na sua sala de leitura os livros fotográficos da sua biblioteca para os interessados poderem consultar. A pretexto desta montra bibliográfica, inserida no âmbito do evento “Lisboa cidade do livro”, o Arquivo convidou também, José Afonso Furtado, para apresentar algumas referências editoriais da História da Fotografia.
No final do ano passado, e em colaboração com Ana Barata, Furtado publicou um ensaio “Mundos da Fotografia: Orientações para a constituição de uma biblioteca básica” editado pelo Centro Português de Fotografia (CPF). O livro é referência para qualquer instiuição que deseje iniciar ou completar uma biblioteca básica de livros fotográficos. Gosto de livros fotográficos e achei interessante esta iniciativa do Arquivo. Ontei fui ao Arquivo de Lisboa assistir à apresentação de José Afonso Furtado.

Inevitávelmente Furtado começou por apresentar os dois livros, que falam da história dos livros fotográficos: “The Book of 101 Books” de Andrew Roth editado por PPP Editions em associação com Roth Horowitz LLC, New York 2001,
e os dois volumes de Martin Parr e Gerry Badger “The Photobook: A History” editado pela Phaidon em 2004 e 2006 respectivamente. A qualidade de impressão é excepcional quer no 101 Books, quer nos dois volumes do Photobook.
Andrew Roth, na sua introdução refere “...a book had to be a thoroughly considered production; the content, the mise-en page, choice of paper stock, reproduction quality, text, typeface, binding, jacket design, scale – all of these elements had to blend together to fit naturally within the whole.” É criticando o que Roth escreve sobre o que deve ser um livro fotográfico que Furtado inicia a sua apresentação. Para ele o livro de Roth está cheio de incoerências, tendo em conta o que lemos na introdução. Furtado dá exemplos:" Roth quis apresentar Paul Strand, mas certamente não gostava dos livros de Strand, “Paese”, o livro que fez em França, escolheu então uma revista, a Camera Work
para apresentar o trabalho fotográfico de Strand. Camera Work é uma revista, não é um livro fotográfico" diz Furtado. Daria razão a Furtado e a justificação até seria interessante, se o livro “La France de Profil”, 1952, de Strand, o tal livro que fez em França, não viesse referido na página 136.
Não vira Furtado o livro todo? E continuou, "Gilles Peress, “Telex Iran”, 1983 é outro exemplo. Peress tirou aquelas fotografias para cobrir a guerra, não para fazer um livro, o mesmo se pode dizer com o livro de Lisette Model, 1979," continua Furtado e outro exemplo ainda, o “Every Building on the Sunset Strip”, 1966, de Edward Ruscha. "As edição de Ruscha são de má qualidade não seguem os princípios de Roth, (reproduction quality), a edição de Sunset não tem qualidade". Mais á frente na sua apresentação, Furtado volta a este livro de Ruscha e diz," ele fotografou todos os edifícios desta avenida, não sei que avenida é esta nem sei bem onde fica se em Hollywood, Los Angeles... não sei. Ele fotografa e regista todos os edifícios pares e ímpares e dispõe desta forma", mostra a reprodução,
neste livro em harmonio.
Furtado tem razão, os livros de Rucha não têem a qualidade que Roth diz ser necessária. Ruscha não estava interessado na qualidade das reproduções, não considerava os seus livros artísticos, embora as edições limitadas dos seus livros atingem hoje os preços mais elevados no mercado dos livros fotográficos. Para mim, os elevados preços justificam-se “Every Building on the Sunset Strip”, é dos livros fotográficos mais criativos. Los Angeles extende-se na horizontal, e é a horizontalidade desta cidade que inspirou Ruscha, todos os edifícios do Sunset Strip, uma parte do interminável Sunset Boulevard, foram fotografados e minuciosamente montados num livro desdobrável de 8,20 metros. Ao contrário de Furtado, que não se interessa em saber onde ficam, a localização geográfica destas fotografias é primordial para entender a criatividade do livro, é a horizontalidade de Los Angeles que Ruscha reproduz em harmonio. (no post Los Angeles é cinema, 24/02/2007 incluí o mapa geográfico).
Passavamos então á selecção dos livros fotógraficos que Furtado queria apresentar. "“The pencil of nature”, 1844 de Fox Talbot, e o processo laborioso como esses primeiros livros foram feitos, ainda não tinha sido inventada a técnica que permitia a impressão simultânea de texto e imagem, cada imagem era colada manualmente no livro, hoje um trabalho que nos parece impensável", prossegue Furtado. Segue com “American Photographs”, 1938 de Walker Evans.
Para Furtado o exemplo perfeito, pois um livro fotográfico, como nos dissera anteriormente, é mais que a soma de todas as fotografias. "O prefácio escrito por Lincoln Kirstein em “American Photographs”, acentua a importância do layout e a sequência das fotografias. Ao folhearmos o livro o fluxo de associações é magnifica", e Furtado mostra-nos a fluidez dessas imagens. No prefácio, Kirstein refere que a sequência do livro é comparável ao princípio de montagem cinematográfica de Sergei Eisenstein. Passa para “Let us now Praise Famous Men”, 1941 também de Evans e feito em conjunto com James Agee, e de outros que também pertenceram à FSA, “American Exodus: A Record of Human Erosion”, 1939, de Dorothea Lange. Passava duas horas da apresentação, quem assistia ia saindo, Furtado, com o entusiamo de querer dizer tudo perdia-se em muitos detalhes. Segue-se Robert Frank com “The Americans”, 1959 a versão americana, fala da influência de Evans no seu trabalho, e mostra-nos as duas primeiras imagens do livro (pode vê-las no post Robert Frank, 2/05/2007)."O que liga estas duas imagens tão diferentes", pergunta-nos Furtado. A resposta é "Hoboken o local onde ambas as fotografias são tiradas é o elo de ligação, é importante nas fotografias de Frank a referência do local" diz-nos Furtado. E inevitálvelmente Furtado mostra do livro de Parr e Badger “Lisboa cidade triste e alegre”, 1959,
o livro que todos nós conhecemos, editado práticamente na mesma altura, mas infelizmente tem gralhas," irritam-me gralhas" diz Furtado. Momentos antes, ao falar das peripécias do “road trip”, 55-56, de Frank pela estrada americana Furtado também ele se engana. E conta "Frank nessa viagem chegou a estar preso, para se ver livre Frank diz aos polícias que conhece Steichen, mas Steichen ainda não era conhecido, a exposição “The Family of Man” viria mais tarde" diz a sorrir Furtado que já nos revelara o desprezo por tal exposição e livro. A história contada por Frank é diferente: um dia no Arkansas a polícia prende-o. Perguntam-lhe, o que está a fazer? Frank responde sou bolseiro Guggenheim. Quem é Guggenheim?. Furtado talvez quissese dizer Guggenheim ou talvez Evans, a quem Frank pede ajuda para o livrar da situação. Errar é humano, só quem não escreve ou dá conferências é que não os dá. Mas o que Furtado nos diz sobre “The Family of Man” que era exibida nesse ano, já para mim revela o verdadeiro desprezo que tem a Steichen pelo trabalho que fez no MoMA. Furtado, parece partilhar o sentimento de Beaumont Newhall há 50 anos atrás, (ver post Revista “VU”, 3/01/2007) que se demite horrorizado quando sabe dos planos de Steichen para o departamento de fotografia do MoMA. Passou meio século e gostando ou não do livro, julgo que devemos olhar hoje para essa exposição como um reflexo da época, o sentido humanista partilhado em muito pelos fotógrafos franceses e a importância e influência que na altura tinham os foto-ensaios da revista Life. Mas continuemos, e a seguir ao livro “Lisboa cidade Triste e Alegre”, Furtado fala em “New York, Life is good & good for you in New York”,1956 de William Klein editado 3 anos antes. Pela próximidade da edição, é constante entre nós, lembro-me do seminário coordenado por Lúcia Marques que teve lugar há dois ou três anos na Gulbenkian sobre o livro “Lisboa cidade Triste e Alegre”, onde se acentuou também a edição quase simultânea destes livros. A razão que me levou a escrever o post está precisamente nestes três livros. Editados com poucos anos de distância porque não compará-los e olhar para as diferenças e semelhanças. Já escrevi sobre o livro de Lisboa (post Cinema e Fotografia, 14/01/2007), “The Americans” o post é recente, falta William Klein, sobre o qual em breve queria mostrar, para o leitor finalmente percepcionar a criatividade de cada um deles, não basta a referência à proximidade editorial.
Eram quase 9 horas, a apresentação começara às 6, mas o final da apresentação foi feliz, Furtado termina com os livros de Blaufuks," também ele", diz "cola manualmente as polaroids, e regressamos com Blaufuks ás origens, ao livro de Fox Talbot".

Ler mais...

quarta-feira, maio 09, 2007

Schtroumpfs

Chegou-se aos anos de 1980 e já ninguém sabia mais o que fotografar. O mundo inundara-se de imagens e parecia que tudo já tinha sido fotografado. Os fotógrafos sofriam uma crise, e como dizia Depardon a fotografia tinha que se reinventar.
Hiroshi Sugimoto numa série fotográfica traduziu de forma magnífica este excesso de imagens. Fotografou teatros e cinemas ao ar livre,

Horoshi Sugimoto, Union City Drive-In, 1993
em que não se observam os filmes projectados devido ao excesso de imagens, ou seja a fotografia durava o tempo do filme, e o resultado foram estes ecrãs brancos de luz, o excesso de imagens produzia o vazio.
Mas a profusão exponencial de imagens teve outras consequências, muitos artistas renunciavam à produção de novas imagens, segundo eles não era preciso e apropriaram-se das que já existiam em circulação. Foi o caso de Sherrie Levine que fotografou reproduções fotográficas dos mestres da fotografia americana, Walker Evans, Edward Weston...

Sherrie Levine, After walker Evans #3, 1981
Para Levine era a forma de negar as noções de autor, obra e originalidade. “Em lugar de fazer fotografias de árvores e nus, faço fotografias de fotografias...aproprio-me destas imagens para expressar a minha necessidade de compromisso e distanciamento”. Peter Fischli e David Weiss

Peter Fischli e David Weiss, sem título, da série de imagens Vistas, 1991
apropriam-se dos esteriótipos do turismo mundial. Richard Prince fotografou das revistas imagens publicitárias que reenquadrou e ampliou. Uma das suas apropriações resultou famosa, a série de fotografias da campanha publicitária da Marlboro.

Richard Prince, Cowboys and Girlfriends, 1992, portfolio de 14 ektachromes
Hoje estes cowboys atingem recordes de preços em leilões. Neste caso o feitiço, o quererem transformar o conceito de obra de arte em objecto banal, virou-se contra o feitiçeiro.
Mas a percepção de ver a realidade transforma-se com o tempo e se tudo já foi fotografado, desvia-se a fotografia da sua primordial dependência da realidade. Foi o que fizeram os artistas que viram na fotografia uma saída ou caminho para desmistificar as obras de arte produzidas pelas gerações anteriores.
E nos anos 80 a dialética entre a fotografia e as artes plásticas é patente.
Jean-François Chevrier, crítico e historiador de arte, distingue os fotógrafos puros dos artistas que utilizam a fotografia. Os franceses foram mais arrojados e chamam hoje à fotografia de artista, “photographie plasticienne”, em português fotografia plástica não pegou. Mas é evidente e todos nós sabemos que a distinção não é clara e tem os seus limites, por exemplo, numa livraria ou leilão onde devemos procurar Hiroshi Sugimoto, Jean- Marc Bustamante e tantos outros, na secção de fotografia ou em arte contemporânea? Um livro de Jean-Marc Bustamante encontrei-o na secção de arte e Sugimoto numa leiloeira era classificado como artista contemporâneo. Mas também há muitos fotógrafos que querem ser artistas. Luc Delahaye, fotógrafo há muitos anos pertencia à famosa agência Magnum, deixou-a recentemente para ser artista.

Luc Delahaye, Iraq press tour, 2002
As suas fotografias de guerra aumentaram em tamanho e são agora expostas em galerias.

Exposição de Luc Delahaye, na Maison Rouge, Novembro 2005
Outro paradoxo foi a atribuição do prémio de escultura na Bienal de Veneza de 1980 ao casal Becher, cuja obra é fotográfica. Joachim Mogarra, artista plástico que fotografa no seu atelier as miniaturas que constroi,

Joachim Mogarra, 1986

Joachim Mogarra, 1986
esteve presente em 2004, no Mois de la Photo em Paris.


Fotografias da exposição de Joachim Mogarra, na galeria Georges-Philippe e Nathalie Vallois, no Mois de la Photo de 2004, "Paysages Romantiques et Autres Histoires".
Os paradoxos são muitos, porém o certo é que a partir da década de 80 a fotografia entrou definitivamente no campo das artes plásticas.
Joachim Mogarra, é um artista que constroi, a partir de objectos simples uma simulação da realidade em que vivemos. Muitos dos seus trabalhos remetem para os mass media e publicidade que no dia a dia são os que constroem a realidade em que vivemos. Os seus objectos são estereótipos que adoptam estratégias idênticas às da publicidade e com uma ironia astuta ataca a nossa sociedade de consumo. Mas há dias surgiu o insólito. A galeria Georges-Philippe et Nathalie Vallois preparava-se para inaugurar, no dia 5 de Maio, uma exposição com o último trabalho de Mogarra e foi interdita pela IMPS (International Merchandising, Promotion & Services SA). Mogarra apropriara-se dos bonecos Schtroumpfs para mais uma ironia. Peyo, o desenhador dos pequenos bonecos azuis, decidiu não lhe dar autorização de os reproduzir, expôr ou vender, e exerçeu os seus direitos de autor.
Para fazer face a tal interdição, como se lê num jornal “Joachim Mogarra a “schtroumpfé” de nouvelles oeuvres”, o que significa exactamente, não sabemos, mas tentaremos decobrir.
Ler mais...

terça-feira, maio 08, 2007

Regresso a Sol LeWitt

Faz hoje um mês, que o artista Sol LeWitt faleceu em Nova Iorque, tinha 78 anos. O último “Journal des arts” lembra novamente Le Witt “...il laisse un oeuvre qui témoigne de la richesse de l’art conceptual et de l’art minimal...”.
Arte Conceptual foi utilizada pela primeira vez em 1961 pelo escritor Henry Flynt no contexto das actividades relacionadas com o grupo Fluxus de Nova Iorque, contudo foi o texto de Le Witt “Paragraphs on Conceptual Art”, publicado na revista Artforum 5, nº10 (Junho 1967), que o termo passou a constituir a declaração canónica da abordagem conceptualista em geral : “Na Arte Conceptual, a ideia ou conceito é o aspecto mais importante da obra. Quando um artista utiliza uma forma conceptual em arte, tal significa que todo o planeamento e decisões se processam antecipadamente e que a execução é uma mera concretização”. Hoje não é claro definir os limites da Arte Conceptual, nem tão pouco é claro quais os artistas e quais as obras a incluir neste contexto. No que respeita à fotografia, os Becher, Jeff Wall, Hiroshi Sugimoto, para dar alguns exemplos, são normalmente apelidados pelos críticos como fotógrafos conceptuais, mesmo como no caso dos Becher que não se consideram artistas conceptuais, o seu método de trabalho definido nos finais dos anos 1950, continua rigorosamente o mesmo. Que significa afinal fotografia conceptual? É a dúvida que quero deixar. Contudo é claro que a fotografia de Le Witt é conceptual, como ele próprio definiu. Deixemos as dúvidas e voltemos a Le Witt. Há praticamente um mês postei as 30 fotografias que compõem “Parede de Tijolos”, um estudo do artista sobre a estrutura sequêncial do tempo. Sequência e repetição interessaram a Le Witt, e hoje volto a ele com “Cubo” (1988) e “Esfera” (2004), este um dos seus últimos trabalhos fotográficos. Desta vez trata-se de um estudo, sobre a luz e a sombra, sem sombra não há percepção do volume (escultura) e sem luz não existe sombra (fotografia). Variando os pontos de vista e utilizando nove focos luminosos sobre um único cubo branco e esfera branca, Le Witt fotografa as transformações que se vão operando nestas duas formas geométricas simples. Formas geométricas simples foi o seu vocabulário, “there is no need to invent new forms”. Aqui e ao contrário de “Parede de Tijolos” a sequência não é primordial, como podemos ver de seguida:
Todas as fotografias pertencem à série "Cubo" de Sol LeWitt, 1988
Todas as fotografias pertencem à série "Esfera" de Sol LeWitt, 2004

Ler mais...

segunda-feira, maio 07, 2007

Para não quebrar a corrente

Há dias, o blog sem-se-ver, nomeou-me entre 4 outros blogs, para entrar na corrente criada por Thinking blog.

Como estou na blogosfera, não quero deixar de participar nesta corrente e de também eu nomear 5 outros blogs.

Aqui vai então a minha escolha de blogs, que não são de fotografia, porque esses quando gosto dedico-lhes um post.

loucosdelisboa, para estar actualizada do que se passa na cidade onde vivo,
ultaperiferico, porque gosto das imagens que escolhem e dos textos que as acompanham,
paixõesedesejos, porque gosto sempre de ler sobre cinema,
geração de 60, á qual eu pertenço também, e por fim
oseculoprodigioso, que reune em cada post um conjunto interessante de imagens sobre pintura, escultura...

aqui ficam as minhas escolhas...
Ler mais...

domingo, maio 06, 2007

Potássio Quatro

Um leilão de fotografias, equipamento e livros fotográficos, organizado pela Potássio Quatro terá lugar no CCB, módulo 03, loja 04, no dia 12 de Maio, pelas 16 horas. Nos dias 9 e 10 de Maio, entre as 10 - 20 horas o público poderá visitar os 260 lotes que vão a leilão. Pode também consultar através do site todas as peças.
Para ilustrar o convite, a Potássio escolheu uma fotografia recente, tirada por Carlos Lobo (n.1974) em 2005. Esta fotografia corresponde ao lote 117, Surfaces Study 01 “Surfaces series”, ½, 50 x 50 cm, com valor estimado € 600 – 800.

Desta nova geração Carlos Lobo não está sózinho, Marta Sicurella, (n.1978) vai leiloar entre outras fotografias esta piscina,
Untitled, 2004. Guincho. Cascais, 1/3 101 x 126 cm, faz parte do lote 43 e o valor estimado é € 500- 600.

Finalmente Carlos Miguel Fernandes (n.1973) vai leiloar I-S-T 95-75-15, 2006 . The IST building, 29 x 29 cm prova única, e faz parte do lote 30.

Ler mais...