sexta-feira, maio 11, 2007

Livros Fotográficos no Arquivo Fotográfico

O Arquivo Municipal de Lisboa/ Arquivo Fotográfico teve a excelente ideia de proporcionar um dia aberto ao livro fotográfico, e dispôs na sua sala de leitura os livros fotográficos da sua biblioteca para os interessados poderem consultar. A pretexto desta montra bibliográfica, inserida no âmbito do evento “Lisboa cidade do livro”, o Arquivo convidou também, José Afonso Furtado, para apresentar algumas referências editoriais da História da Fotografia.
No final do ano passado, e em colaboração com Ana Barata, Furtado publicou um ensaio “Mundos da Fotografia: Orientações para a constituição de uma biblioteca básica” editado pelo Centro Português de Fotografia (CPF). O livro é referência para qualquer instiuição que deseje iniciar ou completar uma biblioteca básica de livros fotográficos. Gosto de livros fotográficos e achei interessante esta iniciativa do Arquivo. Ontei fui ao Arquivo de Lisboa assistir à apresentação de José Afonso Furtado.

Inevitávelmente Furtado começou por apresentar os dois livros, que falam da história dos livros fotográficos: “The Book of 101 Books” de Andrew Roth editado por PPP Editions em associação com Roth Horowitz LLC, New York 2001,
e os dois volumes de Martin Parr e Gerry Badger “The Photobook: A History” editado pela Phaidon em 2004 e 2006 respectivamente. A qualidade de impressão é excepcional quer no 101 Books, quer nos dois volumes do Photobook.
Andrew Roth, na sua introdução refere “...a book had to be a thoroughly considered production; the content, the mise-en page, choice of paper stock, reproduction quality, text, typeface, binding, jacket design, scale – all of these elements had to blend together to fit naturally within the whole.” É criticando o que Roth escreve sobre o que deve ser um livro fotográfico que Furtado inicia a sua apresentação. Para ele o livro de Roth está cheio de incoerências, tendo em conta o que lemos na introdução. Furtado dá exemplos:" Roth quis apresentar Paul Strand, mas certamente não gostava dos livros de Strand, “Paese”, o livro que fez em França, escolheu então uma revista, a Camera Work
para apresentar o trabalho fotográfico de Strand. Camera Work é uma revista, não é um livro fotográfico" diz Furtado. Daria razão a Furtado e a justificação até seria interessante, se o livro “La France de Profil”, 1952, de Strand, o tal livro que fez em França, não viesse referido na página 136.
Não vira Furtado o livro todo? E continuou, "Gilles Peress, “Telex Iran”, 1983 é outro exemplo. Peress tirou aquelas fotografias para cobrir a guerra, não para fazer um livro, o mesmo se pode dizer com o livro de Lisette Model, 1979," continua Furtado e outro exemplo ainda, o “Every Building on the Sunset Strip”, 1966, de Edward Ruscha. "As edição de Ruscha são de má qualidade não seguem os princípios de Roth, (reproduction quality), a edição de Sunset não tem qualidade". Mais á frente na sua apresentação, Furtado volta a este livro de Ruscha e diz," ele fotografou todos os edifícios desta avenida, não sei que avenida é esta nem sei bem onde fica se em Hollywood, Los Angeles... não sei. Ele fotografa e regista todos os edifícios pares e ímpares e dispõe desta forma", mostra a reprodução,
neste livro em harmonio.
Furtado tem razão, os livros de Rucha não têem a qualidade que Roth diz ser necessária. Ruscha não estava interessado na qualidade das reproduções, não considerava os seus livros artísticos, embora as edições limitadas dos seus livros atingem hoje os preços mais elevados no mercado dos livros fotográficos. Para mim, os elevados preços justificam-se “Every Building on the Sunset Strip”, é dos livros fotográficos mais criativos. Los Angeles extende-se na horizontal, e é a horizontalidade desta cidade que inspirou Ruscha, todos os edifícios do Sunset Strip, uma parte do interminável Sunset Boulevard, foram fotografados e minuciosamente montados num livro desdobrável de 8,20 metros. Ao contrário de Furtado, que não se interessa em saber onde ficam, a localização geográfica destas fotografias é primordial para entender a criatividade do livro, é a horizontalidade de Los Angeles que Ruscha reproduz em harmonio. (no post Los Angeles é cinema, 24/02/2007 incluí o mapa geográfico).
Passavamos então á selecção dos livros fotógraficos que Furtado queria apresentar. "“The pencil of nature”, 1844 de Fox Talbot, e o processo laborioso como esses primeiros livros foram feitos, ainda não tinha sido inventada a técnica que permitia a impressão simultânea de texto e imagem, cada imagem era colada manualmente no livro, hoje um trabalho que nos parece impensável", prossegue Furtado. Segue com “American Photographs”, 1938 de Walker Evans.
Para Furtado o exemplo perfeito, pois um livro fotográfico, como nos dissera anteriormente, é mais que a soma de todas as fotografias. "O prefácio escrito por Lincoln Kirstein em “American Photographs”, acentua a importância do layout e a sequência das fotografias. Ao folhearmos o livro o fluxo de associações é magnifica", e Furtado mostra-nos a fluidez dessas imagens. No prefácio, Kirstein refere que a sequência do livro é comparável ao princípio de montagem cinematográfica de Sergei Eisenstein. Passa para “Let us now Praise Famous Men”, 1941 também de Evans e feito em conjunto com James Agee, e de outros que também pertenceram à FSA, “American Exodus: A Record of Human Erosion”, 1939, de Dorothea Lange. Passava duas horas da apresentação, quem assistia ia saindo, Furtado, com o entusiamo de querer dizer tudo perdia-se em muitos detalhes. Segue-se Robert Frank com “The Americans”, 1959 a versão americana, fala da influência de Evans no seu trabalho, e mostra-nos as duas primeiras imagens do livro (pode vê-las no post Robert Frank, 2/05/2007)."O que liga estas duas imagens tão diferentes", pergunta-nos Furtado. A resposta é "Hoboken o local onde ambas as fotografias são tiradas é o elo de ligação, é importante nas fotografias de Frank a referência do local" diz-nos Furtado. E inevitálvelmente Furtado mostra do livro de Parr e Badger “Lisboa cidade triste e alegre”, 1959,
o livro que todos nós conhecemos, editado práticamente na mesma altura, mas infelizmente tem gralhas," irritam-me gralhas" diz Furtado. Momentos antes, ao falar das peripécias do “road trip”, 55-56, de Frank pela estrada americana Furtado também ele se engana. E conta "Frank nessa viagem chegou a estar preso, para se ver livre Frank diz aos polícias que conhece Steichen, mas Steichen ainda não era conhecido, a exposição “The Family of Man” viria mais tarde" diz a sorrir Furtado que já nos revelara o desprezo por tal exposição e livro. A história contada por Frank é diferente: um dia no Arkansas a polícia prende-o. Perguntam-lhe, o que está a fazer? Frank responde sou bolseiro Guggenheim. Quem é Guggenheim?. Furtado talvez quissese dizer Guggenheim ou talvez Evans, a quem Frank pede ajuda para o livrar da situação. Errar é humano, só quem não escreve ou dá conferências é que não os dá. Mas o que Furtado nos diz sobre “The Family of Man” que era exibida nesse ano, já para mim revela o verdadeiro desprezo que tem a Steichen pelo trabalho que fez no MoMA. Furtado, parece partilhar o sentimento de Beaumont Newhall há 50 anos atrás, (ver post Revista “VU”, 3/01/2007) que se demite horrorizado quando sabe dos planos de Steichen para o departamento de fotografia do MoMA. Passou meio século e gostando ou não do livro, julgo que devemos olhar hoje para essa exposição como um reflexo da época, o sentido humanista partilhado em muito pelos fotógrafos franceses e a importância e influência que na altura tinham os foto-ensaios da revista Life. Mas continuemos, e a seguir ao livro “Lisboa cidade Triste e Alegre”, Furtado fala em “New York, Life is good & good for you in New York”,1956 de William Klein editado 3 anos antes. Pela próximidade da edição, é constante entre nós, lembro-me do seminário coordenado por Lúcia Marques que teve lugar há dois ou três anos na Gulbenkian sobre o livro “Lisboa cidade Triste e Alegre”, onde se acentuou também a edição quase simultânea destes livros. A razão que me levou a escrever o post está precisamente nestes três livros. Editados com poucos anos de distância porque não compará-los e olhar para as diferenças e semelhanças. Já escrevi sobre o livro de Lisboa (post Cinema e Fotografia, 14/01/2007), “The Americans” o post é recente, falta William Klein, sobre o qual em breve queria mostrar, para o leitor finalmente percepcionar a criatividade de cada um deles, não basta a referência à proximidade editorial.
Eram quase 9 horas, a apresentação começara às 6, mas o final da apresentação foi feliz, Furtado termina com os livros de Blaufuks," também ele", diz "cola manualmente as polaroids, e regressamos com Blaufuks ás origens, ao livro de Fox Talbot".

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quarta-feira, maio 09, 2007

Schtroumpfs

Chegou-se aos anos de 1980 e já ninguém sabia mais o que fotografar. O mundo inundara-se de imagens e parecia que tudo já tinha sido fotografado. Os fotógrafos sofriam uma crise, e como dizia Depardon a fotografia tinha que se reinventar.
Hiroshi Sugimoto numa série fotográfica traduziu de forma magnífica este excesso de imagens. Fotografou teatros e cinemas ao ar livre,

Horoshi Sugimoto, Union City Drive-In, 1993
em que não se observam os filmes projectados devido ao excesso de imagens, ou seja a fotografia durava o tempo do filme, e o resultado foram estes ecrãs brancos de luz, o excesso de imagens produzia o vazio.
Mas a profusão exponencial de imagens teve outras consequências, muitos artistas renunciavam à produção de novas imagens, segundo eles não era preciso e apropriaram-se das que já existiam em circulação. Foi o caso de Sherrie Levine que fotografou reproduções fotográficas dos mestres da fotografia americana, Walker Evans, Edward Weston...

Sherrie Levine, After walker Evans #3, 1981
Para Levine era a forma de negar as noções de autor, obra e originalidade. “Em lugar de fazer fotografias de árvores e nus, faço fotografias de fotografias...aproprio-me destas imagens para expressar a minha necessidade de compromisso e distanciamento”. Peter Fischli e David Weiss

Peter Fischli e David Weiss, sem título, da série de imagens Vistas, 1991
apropriam-se dos esteriótipos do turismo mundial. Richard Prince fotografou das revistas imagens publicitárias que reenquadrou e ampliou. Uma das suas apropriações resultou famosa, a série de fotografias da campanha publicitária da Marlboro.

Richard Prince, Cowboys and Girlfriends, 1992, portfolio de 14 ektachromes
Hoje estes cowboys atingem recordes de preços em leilões. Neste caso o feitiço, o quererem transformar o conceito de obra de arte em objecto banal, virou-se contra o feitiçeiro.
Mas a percepção de ver a realidade transforma-se com o tempo e se tudo já foi fotografado, desvia-se a fotografia da sua primordial dependência da realidade. Foi o que fizeram os artistas que viram na fotografia uma saída ou caminho para desmistificar as obras de arte produzidas pelas gerações anteriores.
E nos anos 80 a dialética entre a fotografia e as artes plásticas é patente.
Jean-François Chevrier, crítico e historiador de arte, distingue os fotógrafos puros dos artistas que utilizam a fotografia. Os franceses foram mais arrojados e chamam hoje à fotografia de artista, “photographie plasticienne”, em português fotografia plástica não pegou. Mas é evidente e todos nós sabemos que a distinção não é clara e tem os seus limites, por exemplo, numa livraria ou leilão onde devemos procurar Hiroshi Sugimoto, Jean- Marc Bustamante e tantos outros, na secção de fotografia ou em arte contemporânea? Um livro de Jean-Marc Bustamante encontrei-o na secção de arte e Sugimoto numa leiloeira era classificado como artista contemporâneo. Mas também há muitos fotógrafos que querem ser artistas. Luc Delahaye, fotógrafo há muitos anos pertencia à famosa agência Magnum, deixou-a recentemente para ser artista.

Luc Delahaye, Iraq press tour, 2002
As suas fotografias de guerra aumentaram em tamanho e são agora expostas em galerias.

Exposição de Luc Delahaye, na Maison Rouge, Novembro 2005
Outro paradoxo foi a atribuição do prémio de escultura na Bienal de Veneza de 1980 ao casal Becher, cuja obra é fotográfica. Joachim Mogarra, artista plástico que fotografa no seu atelier as miniaturas que constroi,

Joachim Mogarra, 1986

Joachim Mogarra, 1986
esteve presente em 2004, no Mois de la Photo em Paris.


Fotografias da exposição de Joachim Mogarra, na galeria Georges-Philippe e Nathalie Vallois, no Mois de la Photo de 2004, "Paysages Romantiques et Autres Histoires".
Os paradoxos são muitos, porém o certo é que a partir da década de 80 a fotografia entrou definitivamente no campo das artes plásticas.
Joachim Mogarra, é um artista que constroi, a partir de objectos simples uma simulação da realidade em que vivemos. Muitos dos seus trabalhos remetem para os mass media e publicidade que no dia a dia são os que constroem a realidade em que vivemos. Os seus objectos são estereótipos que adoptam estratégias idênticas às da publicidade e com uma ironia astuta ataca a nossa sociedade de consumo. Mas há dias surgiu o insólito. A galeria Georges-Philippe et Nathalie Vallois preparava-se para inaugurar, no dia 5 de Maio, uma exposição com o último trabalho de Mogarra e foi interdita pela IMPS (International Merchandising, Promotion & Services SA). Mogarra apropriara-se dos bonecos Schtroumpfs para mais uma ironia. Peyo, o desenhador dos pequenos bonecos azuis, decidiu não lhe dar autorização de os reproduzir, expôr ou vender, e exerçeu os seus direitos de autor.
Para fazer face a tal interdição, como se lê num jornal “Joachim Mogarra a “schtroumpfé” de nouvelles oeuvres”, o que significa exactamente, não sabemos, mas tentaremos decobrir.
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terça-feira, maio 08, 2007

Regresso a Sol LeWitt

Faz hoje um mês, que o artista Sol LeWitt faleceu em Nova Iorque, tinha 78 anos. O último “Journal des arts” lembra novamente Le Witt “...il laisse un oeuvre qui témoigne de la richesse de l’art conceptual et de l’art minimal...”.
Arte Conceptual foi utilizada pela primeira vez em 1961 pelo escritor Henry Flynt no contexto das actividades relacionadas com o grupo Fluxus de Nova Iorque, contudo foi o texto de Le Witt “Paragraphs on Conceptual Art”, publicado na revista Artforum 5, nº10 (Junho 1967), que o termo passou a constituir a declaração canónica da abordagem conceptualista em geral : “Na Arte Conceptual, a ideia ou conceito é o aspecto mais importante da obra. Quando um artista utiliza uma forma conceptual em arte, tal significa que todo o planeamento e decisões se processam antecipadamente e que a execução é uma mera concretização”. Hoje não é claro definir os limites da Arte Conceptual, nem tão pouco é claro quais os artistas e quais as obras a incluir neste contexto. No que respeita à fotografia, os Becher, Jeff Wall, Hiroshi Sugimoto, para dar alguns exemplos, são normalmente apelidados pelos críticos como fotógrafos conceptuais, mesmo como no caso dos Becher que não se consideram artistas conceptuais, o seu método de trabalho definido nos finais dos anos 1950, continua rigorosamente o mesmo. Que significa afinal fotografia conceptual? É a dúvida que quero deixar. Contudo é claro que a fotografia de Le Witt é conceptual, como ele próprio definiu. Deixemos as dúvidas e voltemos a Le Witt. Há praticamente um mês postei as 30 fotografias que compõem “Parede de Tijolos”, um estudo do artista sobre a estrutura sequêncial do tempo. Sequência e repetição interessaram a Le Witt, e hoje volto a ele com “Cubo” (1988) e “Esfera” (2004), este um dos seus últimos trabalhos fotográficos. Desta vez trata-se de um estudo, sobre a luz e a sombra, sem sombra não há percepção do volume (escultura) e sem luz não existe sombra (fotografia). Variando os pontos de vista e utilizando nove focos luminosos sobre um único cubo branco e esfera branca, Le Witt fotografa as transformações que se vão operando nestas duas formas geométricas simples. Formas geométricas simples foi o seu vocabulário, “there is no need to invent new forms”. Aqui e ao contrário de “Parede de Tijolos” a sequência não é primordial, como podemos ver de seguida:
Todas as fotografias pertencem à série "Cubo" de Sol LeWitt, 1988
Todas as fotografias pertencem à série "Esfera" de Sol LeWitt, 2004

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segunda-feira, maio 07, 2007

Para não quebrar a corrente

Há dias, o blog sem-se-ver, nomeou-me entre 4 outros blogs, para entrar na corrente criada por Thinking blog.

Como estou na blogosfera, não quero deixar de participar nesta corrente e de também eu nomear 5 outros blogs.

Aqui vai então a minha escolha de blogs, que não são de fotografia, porque esses quando gosto dedico-lhes um post.

loucosdelisboa, para estar actualizada do que se passa na cidade onde vivo,
ultaperiferico, porque gosto das imagens que escolhem e dos textos que as acompanham,
paixõesedesejos, porque gosto sempre de ler sobre cinema,
geração de 60, á qual eu pertenço também, e por fim
oseculoprodigioso, que reune em cada post um conjunto interessante de imagens sobre pintura, escultura...

aqui ficam as minhas escolhas...
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domingo, maio 06, 2007

Potássio Quatro

Um leilão de fotografias, equipamento e livros fotográficos, organizado pela Potássio Quatro terá lugar no CCB, módulo 03, loja 04, no dia 12 de Maio, pelas 16 horas. Nos dias 9 e 10 de Maio, entre as 10 - 20 horas o público poderá visitar os 260 lotes que vão a leilão. Pode também consultar através do site todas as peças.
Para ilustrar o convite, a Potássio escolheu uma fotografia recente, tirada por Carlos Lobo (n.1974) em 2005. Esta fotografia corresponde ao lote 117, Surfaces Study 01 “Surfaces series”, ½, 50 x 50 cm, com valor estimado € 600 – 800.

Desta nova geração Carlos Lobo não está sózinho, Marta Sicurella, (n.1978) vai leiloar entre outras fotografias esta piscina,
Untitled, 2004. Guincho. Cascais, 1/3 101 x 126 cm, faz parte do lote 43 e o valor estimado é € 500- 600.

Finalmente Carlos Miguel Fernandes (n.1973) vai leiloar I-S-T 95-75-15, 2006 . The IST building, 29 x 29 cm prova única, e faz parte do lote 30.

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sábado, maio 05, 2007

Edit, Fotografia e Filme na Colecção Ellipse

Está no momento a decorrer a inauguração de “Edit, Fotografia e Filme na colecção Ellipse” no Centro de Artes Visuais em Coimbra.
Durante a semana ao vir do Porto para Lisboa, fiz o desvio e saí em Coimbra, queria ver a exposição que julgava já ter sido inaugurada, percebi o erro quando cheguei ao Centro de Artes Visuais. A exposição ainda estava a ser montada, mas algumas das obras já estavam fora das caixas e afixadas nas paredes como este conjunto de nove piscinas de Edward Rucha.
Ruscha nunca se sentiu fotógrafo, e por isso deixou-se seduzir pelo azul das piscinas. Na altura, para os fotógrafos o mundo ainda era a preto e branco a cor era arredada para a publicidade. Estas piscinas, vazias de pessoas, e mal enquadradas funcionaram para Ruscha como perfeitos ready made e perfeitas para “encherem”o livro, “Nine Swimming Pools and a Broken Glass ”(1968).
Edward Ruscha, "Nine swimming Pools and a Broken Glass" 1968
(Os espaços em branco correspondem à própria edição)
O que interessa a Ruscha são os livros, as fotografias servem para enchê-los. Se os ready made de Marcel Duchamp o influênciaram, Walker Evans e Robert Frank também, como ele disse “cresci no Oklahoma que tem a imagem de uma terra perdida, Walker Evans fez o Oklahoma, como também Robert Frank a viu, estas fotografias tiveram grande influência em mim, embora eu não tivesse nenhum conceito como traduzir isso em pintura”.
Walker Evans, Truck and Sign, 1930
Edward Ruscha, Pool, 1967
Deixou o Oklahoma, pela Califórnia, Nova Iorque não o seduziu como seduzia na época todos os jovens que queriam ser artistas.
“The sun shines all the time in California”, diz o pintor David Hockney, “Deixei o meu país, a Inglaterra, pela Califórnia, não conseguia viver sem esta luz. Se tivesse permanecido lá a minha pintura tinha sido outra”. O sol da Califórnia convida a um mergulho e as piscinas abundam.
David Hockney, A Bigger Splash, 1967
Ruscha e Hockney, respeitam-se, e têm um ponto em comum, gostam de piscinas. Hockney, que pintou a sua própria piscina com os reflexos da água, também se seduziu em a fotografar. Hockney gosta de fotografar com máquina polaroid, para compor de seguida o seu quadro.
David Hockney,Ian Swimming, L.A., March 11th 1982 (Polaroid Collage)
“A fotografia afecta a nossa maneira de ver e pensar e interessei-me em investigar a forma como a realidade é representada na fotografia. O mundo visto pela máquina fotográfica é geométrico e não psicológico, o declínio da fotografia está aí” diz Hockney numa entrevista recente.
As composições que faz com as polaroids eliminam o ponto de vista único dado pela máquina fotográfica, “as suas composições são a versão final da pintura renascentista”diz-nos o pintor.
Ruscha pelo contrário é seduzido pela perspectiva fotográfica,
Edward Ruscha, Standard Station, Amarillo, Texas, 1962
Estudo de Ed Ruscha, Standard Station, Amarillo, Texas, 1962
Recentemente a fotografia de Ruscha entrou nos museus. Descobriram-se as fotografias da sua viagem pela Europa, em 1961. Durante sete meses, Ruscha e família percorreram dezassete países, Portugal foi um deles.
Ed Ruscha, Amesterdão, 1961
Ed Ruscha, Grécia, 1961
Ed Ruscha, Portugal, 1961
Esta fotografia tirada em Portugal destoa das restantes, são os touros que desafiam o fotográfo, e não a sinalética.
Mas voltemos a “Nine Swimming Pools and a Broken Glass”. A crítica ficou confusa com os livros de Ruscha e escrevia “ ninguém tem nenhuma ideia do que Ruscha anda a fazer ou a tentar fazer, nem ele própio nos elucida quando lhe perguntamos”. Hoje já não ficamos confusos ao ver as nove piscinas de Ruscha, sabemos que ele pertence à pop-art, e isso deixa-nos menos baralhados.

A expsosição, comissariada por Delfim Sardo, é dividida em dois momentos, esta primeira parte pode ser visitada até fim de Junho. Vou voltar a Coimbra, para ver "Edit fotografia e filme".

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sexta-feira, maio 04, 2007

Três fotografias de André Kertész

Um comentário deixado no último post, sugere que revele também o livro “Day of Paris” de André Kertész, (1894-1985) do qual deixei uma imagem da capa.

Alexey Brodovicht, que desenhou o layout do livro, foi um designer genial. Ainda hoje, Portfolio, uma revista totalmente desenhada por ele serve de referência para os estudantes de design.

Revista Portfolio nº1
Percebo que quem não conheça “Day of Paris”, e veja a genialidade da capa, fique com curiosidade de o ver.
Segundo Kertész, Rue Vavin foi das primeiras fotografias que tirou em Paris.

André Kertész, Rue Vavin, Paris, 1925

Em Setembro de 1925, vindo de Budapeste, instala-se num pequeno hotel desta rua e da janela do seu quarto tira esta fotografia. A rua é estreita e mesmo com um ângulo inclinado o edifício não cabe todo na fotografia. Embora próximo, não distinguimos a figura debruçada na janela do prédio em frente. Kertész tirou duas fotografias na Rue Vavin e Brodovitch, faz esta belissíma paginação no livro "Day Of Paris".


Rue Vavin é uma das fotografias tiradas em Paris que eu mais aprecio. Hoje, nesta estreita rua que liga o Boulevard Montparnasse ao Jardim do Luxemburgo, ainda existe hotel e casa, nada parece ter mudado.
Vi recentemente, “Underwater swimmer”, 1917, figura distorcida pelos reflexos da água tirada num hospital da Hungria, na Barbican Art Gallery, na exposição “In the face of History”.

André Kertész, Underwater Swimmer, 1917
Logo pensei inclui-la no post que escrevi sobre essa exposição (2 de Fevereiro). “Underwater swimmer” é outra das fotografias que mais aprecio de Kertész, contudo tive que a deixar de lado, não consegui inseri-la com as outras fotografias, pensei, fica para a uma outra oportunidade.
Já no final da sua vida, Martinique, tirada no dia de ano novo de 1972, é outra fotografia genial de Kertész,

André Kertész, Martinique, 1972
percebemos que alguém olha para o mar debruçado na varanda, mas nada mais.
Três fotografias, três épocas diferentes, três figuras que não distinguimos.
Kertész fotografou durante toda a sua vida, e é raro encontrar alguém que durante uma vida reinvente o que fotografa.
Paris, cidade que elegeu para viver e fotografar, reconheceu-lhe o talento. Em Outubro de 1936 foi para Nova Iorque, com um contrato da Keystone Studios a pensar no regresso, acabou por ficar refém com o eclodir da guerra na Europa. Sentiu-se isolado rodeado de arranha-céus. Isoladamente é como eu gosto de olhar para as fotografias de Kertész, e compreendo a Life que rejeitou as suas fotografias, não serviam para foto-ensaios. Também não consegui inserir “Underwater swimmer” no post que referi por as suas fotografias serem demasiado autónomas. O livro “Day of Paris”, não causa surpresa , é um dia em Paris, cai quase no turístico, o Sena, telhados, os velhos, as lojas, os cafés, torre Eiffel, tudo é demasiado evidente, só a paginação é excelente, mas isso é trabalho de Brodovitch. Não queria mostrar “Day of Paris” porque gosto especialmente de Kertész.
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