quinta-feira, novembro 22, 2007

Thanksgiving

Reza a história que em 1620, um barco carregado de gente corajosa atravessava o Atlântico em direcção ao Novo Mundo. Os primeiros colonos chegavam a América, mas chegavam tarde para as sementeiras. Nesse primeiro ano metade da população viria a morrer de fome. No ano seguinte, com a ajuda sábia dos índios, a terra do Novo Mundo deu o seu melhor ao Homem. O Homem quis agradecer a Deus e à terra as tão boas colheitas, e celebrou um jantar para agradecer tão boa dádiva. “Thanksgiving”, Acção de Graças, é uma festa móvel, como quase todos os feriados americanos, e a data escolhida, a quarta quinta-feira do mês de Novembro.

Há uma semana atrás, num esforço para reduzir os atrasos dos aviões, o Presidente Bush veio dizer à nação “that the U.S. military was making some restricted airspace along the East Coast available to commercial carriers over the busy Thanksgiving travel period”. Ainda hoje, jantar em família no dia de Acção de Graças é tão importante que o staff da aviação federal tem como objectivo máximo “keeping flights on time”.

Ontem, os traders das bolsas americanas davam “Giving Thanks, Taking Losses”, pois os mercados continuam a corrigir com a crise dos empréstimos de baixa qualidade, a queda do dólar e a subida do barril de petróleo que já está bem perto dos $100, mas todos partem para o Thanksgiving.
Mesmo em tempos de crise, como foi a época da grande recessão, em que o celeiro da América se transformou em pó pela seca que abateu no Midwest, (e que na actualidade vive outra terrível seca), o jantar de Acção de Graças é sagrado e na família do Sr Timothy Levy Crouch não faltam as tão célebres tartes de abóbora. O perú, certamente também não falta, embora nós ao olhar para a mesa através do espelho da sala não o vejamos, mas Jack Delano, certamente nos confirmaria que o perú não faltou à família de Timothy Levy, que na quarta quinta-feira do mês de Novembro do ano de 1940 celebrava mais um jantar de Acção de Graças.
Jack Delano, Tartes de abóbora e maçã e jantar de Acção de graças em casa do Sr. Timothy Levy Crouch, um Rogerine Quaker, Ledyard, Connecticut, Novembro 1940

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quarta-feira, novembro 21, 2007

PARA SEMPRE de Paulo Nozolino

Martin Parr esteve em Portugal e na ArteLisboa falou da sua obra como fotógrafo e editor.
Martin Parr, em conjunto com Gerry Badger editou “The Photobook: A History”, dois volumes maravilhosos sobre livros fotográficos, aos quais me referi quando anunciei a sua vinda.
Martin Parr conversou com Sérgio B. Gomes. Ontem o jornal Público publicou a entrevista e Sérgio B. Gomes transcreveu-a no seu blogue ArtePhotographica para os que não leram o jornal, e para os que não foram à conferência Sérgio B. Gomes fez o vídeo.
Interrogado sobre os livros fotográficos portugueses, Parr diz que nenhum, excepção para o “Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, lhe despertou a atenção. Mas em resposta à pergunta: Conhece o trabalho dos fotógrafos portugueses, Parr responde: “não, não posso dizer que conheça muita coisa. Conheço o trabalho do Paulo Nozolino, que é mundialmente conhecido, mas também não sou muito bom a lembrar-me dos nomes. Ando por 50 países e vou tentando perceber alguma coisa da cultura fotográfica desses países...”.
Martin Parr conhece o trabalho de Paulo Nozolino, mas nenhum dos seus livros entrou em “The Photobook: A History”.
Aproveito então para mostrar ao leitor um dos primeiros livros de Nozolino, “Para Sempre”, (1982).
O livro termina com um soneto “LA VITA DELL’OMO”, (A vida do Homem), de Giuseppe Gioachino Belli (1791-1864), traduzido por Alexandre O’Neill.

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terça-feira, novembro 20, 2007

A evolução da melancolia

Este mês a revista “Magazine Littéraire”, publica um Hors-Série dedicado ao tema “Mal de vivre ou quête de soi – La Solitude”. Os artigos organizados cronologicamente, iniciando em Homero e terminando em Paul Auster, revelam os poetas e os escritores que ao longo dos séculos se debruçaram sobre o tema, solidão, dando conta da evolução e dos vários significados que esta foi sofrendo, desde os primórdios até a actualidade. O artigo “Visions d’artistes” de Jean Clair, historiador, comissário e ex-director do museu Picasso, fala-nos das imagens que escolheu para ilustrar os artigos. Se o “Gigante” de Goya , 1818,
ilustra o texto sobre Homero “Tous ceux qui avaient évité la noire mort (...) étaient rentrés dans leurs demeures; mais Ulysse restait seul, loin de son pays et de sa femme”, Odisseia, século VIII a.C, “Interior com jovem ao piano” de Vilhelm Hammershoi
termina a ilustrar o texto sobre Paul Auster “Je crois, malgré tout, que chaque persone est seule tout le temps. On vit seul. Les autres nous entourent mais on vit seule.”, pensamentos que Auster desde cedo foi anotando e que hoje reconhece manter nos seus romances. Em 2005, o Grand Palais de Paris exibiu “Mélancolie – génie et folie en Occident” comissariada pelo mesmo Jean Clair. O melancolico, o solitário, isolado do mundo onde vive, foi o tema que durante mais de dez anos ocupou Jean Clair, e o resultado foi esta deslumbrante exposição. A palavra melancolia, remonta ao século IV a.C. Em grego, melankholia é formada pela associação de dois termos: kholé (bílis) e mêlas (negro) e significa literalmente “bílis negra” um dos quatro fluidos humanos segregados pelo baço. "Bílis negra" era evocada como uma doença ligada ao humor. Cícero, no século I a.C. ligou melancolia à loucura e propôs substituir o termo por furor. Ao longo dos tempos, a palavra melancolia, foi-se perpetuando sobre outros nomes, e o seu significado foi-se transformando consoante as épocas. Aristóteles, foi o primeiro a abandonar a associação de melancolia a uma doença para a associar ao homem de génio, e a partir do filósofo, melancolia foi associada à imaginação. Longe da Grécia, nos desertos do Egipto e da Síria surgia a acédia. No início do século IV muitos ermitas e anacoretas numa ruptura com a sociedade que achavam agonizante, partiram para os desertos para praticar o anacorismo. Foi nos desertos do Médio Oriente que surgiu a palavra acédia, uma versão da melancolia que significava apatia ou indiferença. Desviada da contemplação divina a mente dos anacoretas entregava-se à imaginação. Com o rosto apoiado na concha da mão e ar pensativo criava-se o estereótipo da melancolia que dura até aos dias de hoje.
A partir do século V. a acédia passa para o Ocidente medieval, pelo monge Jean Cassien. Ao longo de toda a idade média, a tradição grega de melancolia e a tradição oriental de acédia, misturam-se e sob a tutela de Saturno e Satanás acabam por designar o pior que se pode abater sob o homem. Melancolia e acédia significam agora a mesma coisa: uma tristeza nascida na confusão do espírito, um desgosto, ou amargura imoderada da alma, e é vista pelos cristãos como um pecado a evitar. Neste detalhe do quadro de Bruegel, o Velho, (1559),
é o diabo que assume a posse melancolica.
É a Renascença que retoma a tradição aristotélica de associar a melancolia ao homem de génio, e a famosa gravura de Dürer, Melencolia I, (1514), é a obra paradigmática.
O morcego que vive na escuridão e gosta de sair ao crepúsculo, o terceiro quadrante do dia associada à melancolia, tem inscrito o título nas suas asas.
É ao crepúsculo que Gregory Crewdson fotografa os estados depressivos de quem habita hoje os subúrbios. Crewdson nas encenações que produz e fotografa, procura respostas nas suas memórias de infância. Agora na actualidade, melancolia é associada a depressão.
Mas voltemos à gravura de Dürer, e à figura central, uma mulher alada e coroada, com um compasso numa das mãos e a cara apoiada na outra. O olhar, como indicam os olhos abertos está concentrado, mas a figura olha para algo que está invisível, fora já da gravura. Espalhados vemos o esquadro, ampulheta, balança... e símbolos da crucificação, escadas, pregos e martelo. Logo por cima da coroa, em destaque, o quadrado mágico, cujas linhas, colunas e diagonais somam sempre 34.
Todos estes objectos fazem uma clara referência ao conhecimento matemático e geométrico. O cão, outro companheiro da melancolia, e mais em cima um enorme dodecaedro irregular. Se o crepúsculo é a hora do dia associada à melancolia, o chumbo, o metal escolhido por Anselm Kiefer para o seu trabalho Melancholia,
é o metal associado à melancolia. A escultura de Kiefer, apresentada já na parte final da exposição, evoca o bombardeiro, messerschmidt, produzido na Alemanha no final de 1944, e tem em cima o poliedro de Dürer. Para Kiefer são os efeitos da genialidade no mundo actual.
Com o século das Luzes, Diderot em “La religieuse”, (1760), escreve “L’homme est né pour la société. Séparez-le, isolez-le, ses idées se désuniront, son caractère se tournera, mille affections ridicules s’élèveront dans son coeur des pensées extravagantes germeront dans son esprit comme les ronces dans une terre sauvage”. Os filósofos das luzes substituem os valores do céu pela terra e substituem o individual por ideais comunitários. Segue-se o Romantismo, que será o último refúgio da melancolia. O sagrado sublime transfere-se para a natureza. O homem pratica novamente a acédia, agora na contemplação da natureza. O mal do mundo, “weltschmerz” para os alemães, os ingleses chamar-lhe –ão “spleen”. O homem isolado contemplando a natureza é o tema de Caspar David Friedrich.
Em 1878, Charcot cria na Salpêtrière um laboratário de fotografia dedicada à medicina. Sigmund Freud trabalha nesta altura com Charcot na Salpêtrière. A melancolia transforma-se em neurastenia. Na exposição, a única referência à fotografia é limitada aos estudos experimentais de Guillaume Duchenne de Boulogne. Numa parede, as fotografias dos seus estudos electrofisiológicos da expressão das paixões. Duchenne de Boulogne submetia os músculos da cara dos doentes a impulsos eléctricos.
Duchenne de Boulogne, 1852-1856
Duchenne de Boulogne, Mecanismes de la physionomie humaine 1862

Em 1915, Freud compara melancolia ao luto, ambas causam “uma depressão profundamente dolorosa, é suspenso o interesse pelo mundo exterior e a perca da capacidade de amar leva à inibição de qualquer actividade”, mas distingue a melacolia do luto, porque a melancolia provoca também “uma diminuição do sentimento de estima de si próprio”. No luto o objecto perdido é identificado, o mesmo não se passa num estado melancólico. É a última transformação da melancolia - a depressão.
A exposição terminava com “New York Movie” de Edward Hooper, testemunho que os espaços públicos são hoje os locais de solidão, e com a escultura gigante (Big Man) de Ron Mueck, (2000).
Ron Mueck, 2000

No país de Atget, imperdoável a limitação a Duchenne de Boulogne. Mas quem se dirigisse à livraria do Grand Palais, nas duas enormes mesas repletas de livros sobre o tema da exposição, encontrava “Eugène Atget ou la mélancolie en photographie” de Alain Buisine.
Mas se Alain Buisine vê em Atget um fotógrafo melancólico, outros fotografaram as várias formas de solidão do homem moderno.
André Kertész fotografou os que procuram a solidão.
André Kertész, Convento trapista, revista VU, 1930

Paul Strand em França, fotografou o olhar penetrante deste jovem,
Paul Strand, Young Boy, Gondeville France, 1951

um olhar de solidão interiorizada. Esquizofrénico? depressivo profundo?
Chris Killip fotografa a solidão imposta, a discriminação social, os rejeitados pela precaridade da vida, a solidão mais terrível da nossa sociedade.
Chris Killip, Boy on a wall, Jarrow, 1976

Taryn Simon fotografa a solidão dos reclusos condenados ao isolamento.
Taryn Simon, 2004

Carlos Miguel Fernandes fotografou na Islândia o homem a sós com a natureza.
Carlos Miguel Fernandes, Islândia, 2006

Mas não são estas fotografias do japonês Ueda Yoshihiko a melhor tradução de uma viagem ao interior de si?
É a alma (tamashii) que sai do corpo ou o inverso? A fotografia é estática ao contrário do cinema, mas olhando para estas fotografias sentimos que o curso da vida continua a correr.
As fotografias são da série Amagatsu, 1990-1993

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sábado, novembro 17, 2007

A Imagem do Mundo por Alexander Sokurov

Há meses escrevi um post ao qual dei o título “O Mundo em Imagens”, uma reflexão sobre o mundo virtual criado pelas imagens do Ocidente. Hoje, ao escrever sobre o último filme de Alexander Sokurov, “Aleksandra”, 2007, que ontem passou no “European Film Festival, Estoril 07” escolho um título com as mesmas palavras, mundo e imagem, mas agora disponho na ordem inversa, pois inversos são os filmes de Sokurov em relação aos filmes Ocidentais. “Aleksandra” é mais um filme de Sokurov, em que se vê com a alma o mundo e os corpos que a habitam, pois Sokurov parte mais uma vez dos sentimentos, que é o que lhe mais interessa, e cria um outro mundo, o seu mundo inventado por si. O resultado é mais um filme que a partir dos sentimentos que vamos experimentando nos “reensina a ver e a ouvir”.
“Aleksandra” é filmado numa unidade militar russa na República da Chechénia, mas “Aleksandra” não é um filme de guerra nem das políticas russas no Cáucaso. “Aleksandra” fala-nos da pátria que Sokurov tanto ama e que agora vê quase perdida. “Aleksandra” é o nome da avó que vai visitar o neto um dos melhores oficiais da unidade militar.
Sokurov nasceu numa pequena aldeia da Sibéria que hoje já não existe. Construíram uma central hidroeléctrica e a aldeia ficou submersa, “se quisesse visitar o sítio onde nasci, teria de apanhar um barco, viajar através das águas, e olhar para o fundo”. Em Gorki, onde vivia, “havia muitas pessoas muito cultas, com muito talento, a vida na União Soviética sob o regime totalitário” conta Sokurov numa entrevista “tinha muitas particularidades. Uma delas era que as melhores qualidades das pessoas estavam escondidas dentro delas, eram pessoas muito bondosas e muito respeitáveis. Aprendi muito com elas”. Muitas vezes eram seres humanos que nada tinham a ver com a arte, “apenas seres humanos gentis, generosos, honestos e belos. E com uma sólida educação”. Julgo entender o que diz Sokurov. Há uns anos, quando visitei a exposição de Ilya Kabakov no Museu de Serralves, deparei com o álbum fotográfico de Yuda Blekher (1886-1966), que me deixou uma impressão semelhante à que Ilya descreve: “Conheci o tio Yuda casado com a irmã da minha mãe em 1956, quando fui pela primeira vez a Berdyansk. Depois a minha mãe foi viver para Berdyansk, e passei a visitar mais os meus tios. Numa dessas visitas vi pela primeira vez as fotografias do tio Yuda, que me impressionaram imenso, ele guardava-as numa pasta atada com fita de cor. Não foram só as fotografias em si que tiverem este efeito em mim, mas todo o conjunto: a forma como as montara em cartões e passe-partout coloridos de diferentes dimensões, e as moduras que desenhava à volta de cada fotografia”. Um talento escondido, dentro de uma pessoa boa e generosa.
Generosa, boa e culta, é a feirante, que Aleksandra encontra no dia que vai ao mercado da cidade mais próxima. A feirante convida-a a descansar em sua casa. A cidade é desoladora, as casas são ruínas que desafiam todas as leis da gravidade e pejadas de tiros de metrelhadora. No interior, enquanto bebe o chá que lhe oferecem, Aleksandra olha para o chão, pilhas de livros atados com cordas. Será que nunca mais se vão voltar a abrir?

Na unidade militar o confronto de duas gerações, a avó que visita o neto que não vê à sete anos. Numa noite enquanto o neto a penteia carinhosamente, a avó pergunta-lhe: o que estás a ler? nada, responde-lhe. O olhar da avó revela-nos o que pensa: uma geração perdida, sem saber e sem interesses, o único saber agora é manejar bem a arma, e ao longo do diálogo sentimos a despedida e a separação, “penso que o drama da morte é o drama da separação” disse uma vez Sokurov.

“Aleksandra” é mais um filme que nos faz sentir. Para Sokurov “o problema é o sentir. Sentir é o mais complicado. Deus deu-nos tantos sentimentos diferentes, tantos, tantos.”

Post sem imagens? Não porque ache que todos os posts tenham necessáriamente de ter imagens, mas porque Eric Baudelaire em “États Imaginés” faz emergir sentimentos semelhantes aos do filme. Talvez porque Abkhazie também já fez parte da ex-União Soviética.
Há dez anos Abkhazie conseguiu a independência da Georgia pelas armas, mas hoje Abkhazie continua sem ser reconhecida.
Eric Baudelaire, 2005, "États Imaginés"
Eric Baudelaire, 2005, "États Imaginés"
Eric Baudelaire, 2005, "États Imaginés"
Eric Baudelaire, 2005, "États Imaginés"
Eric Baudelaire, 2005, "États Imaginés"
Eric Baudelaire, 2005, "États Imaginés"
Sokurov viaja muito raramente. Em 1999, a Cinemateca inaugurou um ciclo sobre os filmes de Alexander Sokurov, com a sua presença. Do nosso país disse Sokurov :” Portugal é um país espantoso, talvez o mais misterioso da Europa. Em Portugal há uma qualidade que me impressiona muito, a tristeza. Muitos portugueses foram pessoas geniais. Portugal será dos países onde há mais génios que não são conhecidos. São pessoas tristes que vivem para si, uma qualidade de experiência pessoal que os diferencia dos demais. É um carácter nacional inacreditável. Digo isto por intuição e não porque me baseie em algum conhecimento particular. Portugal tem uma grande quantidade de energia escondida...”

João Bénard da Costa em relação ao filme “Mãe e Filho” de Sokurov escreveu o seguinte “ Este era o filme que eu esperava. Este é o filme mais veemente dos anos 90. Este é o filme que nos reensina a ver e a ouvir. Este é o filme onde se concentram o visual e o auditivo. Este é o filme “da revelação do espanto, do cismar e do descobrimento”, como Sophia um dia disse de Maria Helena Vieira da Silva”. No jornal O Independente Agosto de 1998.

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quinta-feira, novembro 15, 2007

A fotografia Italiana no Paris Photo 2007

Depois da Suiça, México, Espanha, Países Nórdicos, é a vez da Itália estar em destaque no Paris Photo, a feira de fotografia que hoje abriu as suas portas ao público.
Franco Fontana e Luigi Ghirri, ambos da cidade de Modena em Itália, começaram nos anos 1970 a fotografar a cor. A galeria Anne de Villepoix em Paris, em paralelo com a feira, expõe “Kodachrome” de Luigi Ghirri,
e o seu site dá-nos acesso às fotografias expostas.
No domingo passado, Martin Parr, na feira de Arte Lisboa, falou do seu percurso como editor e fotógrafo. No início, a sua Inglaterra, invernosa e cinzenta era fotografada a preto e branco, depois, como nos referiu “passei a fotografar a cor, por influência da fotografia americana”. A exposição de William Eggleston, apresentada no MoMA em 1976, é hoje uma exposição seminal que marca o início da fotografia a cor e o catálogo “William Eggleston’s Guide”, continua, pelas sucessivas edições a ter visibilidade internacional. Na Itália, mais perto da Inglaterra de Parr que a América, o livro “Kodachrome”, 1978, de Ghirri passou práticamente desapercebido, embora ambos os fotógrafos, Eggleston e Ghirri fotografassem a cores as banalidades do urbano e periferias.
Na década seguinte, Ghirri fotografou o público que frequenta os museus.
Luigi Ghirri, Firenze, 1986
Luigi Ghirri, Galleria di Palazzo Rosso, Genova, 1987-88
Luigi Ghirri, Napoli, 1980
Luigi Ghirri, Palazzo Grassi, Venezia, 1988

Thomas Struth, também na mesma época, tirou fotografias do mesmo tema.
Thomas Struth, Galleria dell'Accademia, Venice, 1992
Thomas Struth, Musée du Louvre, IV, 1989

Aluno da escola Düsseldorf, hoje estas suas fotografias identificam o fotógrafo, as de Ghirri quase ninguém as conhece. Dou um exemplo: o leilão de fotografia que correu no dia 29 de Maio deste ano, na sede da New Bond Street da Sotheby's, a fotografia de Struth, que serviu de capa ao catálogo do leilão, Musée du Louvre I, Paris, 1989, atingiu o preço mais elevado de todos os lotes.
Vendida por 228.000GBP superou as estimativas (100.000 - 150.000GBP).

A comissária do Paris Photo, Valérie Fougeirol explica “a Itália nunca teve instituições capazes de divulgar a fotografia italiana”. Por seu lado, o comissário da presença italiana, Walter Guadagnini, põe em relevo, no texto do catálogo, a não existência de uma escola italiana de fotografia, “espero” escreve Guadagnini, “que suceda o que aconteceu com a Espanha no Paris Photo de 2005”, em que depois da feira, a fotografia contemporânea espanhola entrou em muitas colecções. Para Guadagnini, a fotografia italiana necessita de um reconhecimento internacional, “o problema” continua Guadagnini “é que só alguns fotógrafos são conhecidos, e o público não conhece a variedade do trabalho italiano, inevitavelmente isso acaba por se reflectir no preço das obras que estão sub-avaliadas”.
Tal como Ghirri, Gabriele Basilico consagra a sua fotografia às paisagens urbanas, como ele diz “ je vois la ville comme un grand corps en transformation et je m’applique à en saisir les signes, comme um médecin qui enquête sur les changements du corps humain”, e outros como Francesco Jodice, Olivo Barbieri, Vicenzo Castella seguem o mesmo tópico,
Francesco Jodice, Tokyo, 2003
Vincenzo Castella, #09 Napoli, 2006

muito longe das imagens dos irmãos Alinari no século XIX. O passado histórico do país é um peso para os mais jovens, mas como diz Guadagnini “De Chirico um dos artistas mais inquietantes do século XX, é também um dos mais clássicos...”
A fotografia italiana contemporânea, agora reunida no Paris Photo, revela sinais de modernidade. Alguns, como Eugenio Tibaldi,
Eugenio Tibaldi, sans titre 03, 2007

preferem pintar de branco os edifícios antigos deixando só os objectos modernos. Maurizio Montagna
Maurizio Montagna, Billboards, 2005-07
Maurizio Montagna, Billboards, 2005-07
Maurizio Montagna, Billboards, 2005-07
Maurizio Montagna, Billboards, 2005-07

prefere o branco para eliminar a publicidade dos paineis que invadem a cidade de Milão. Raffaela Mariniello, tal como Basilico gosta dos portos de mar.

A série que se segue é de Raffaela Mariniello, em Porto di Napoli, Catena:
Outros, como a dupla Luca Andreoni e Antonio Fortugno, (Luca-Fortugno), preferem os labirintos dos subterrâneos modernos às catacumbas.

A série que segue é da dupla Luca - Fortugno:
Os comissários esperam agora, ao reunir a fotografia contemporânea italiana, ultrapassar a falta de interesse quer das instituições italianas quer dos coleccionadores que frequentam a feira.
Veja aqui um texto sobre as galerias italianas presentes na feira.
Galerias portuguesas só uma, a Filomena Soares que já se estreou no ano passado. Será que alguma vez Portugal será o país convidado?
Nota: e já que se está a falar de fotografia italiana veja aqui o livro recente de Mimmo Jodice.
Aqui Giovanni Chiaramonte apresenta o seu livro

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