quinta-feira, abril 12, 2007

Euro Visions

A exposição "Euro Visions, Les nouveaux Européens", que se pode ver no Musées Royaux de Beaux-Arts na Bélgica, reflecte o olhar de doze fotógrafos da Magnum (que comemora 60 anos) sobre os novos países que entraram para a comunidade europeia. Trata-se também de uma comemoração da Europa, dos 50 anos do tratado de Roma, que lançou os alicerçes da actual União Europeia.
Alex Majoli, Letónia

Bruno Barbey, Bulgária

Carl De Keyzer, Malta

Chris Steele-Perkins, Ruménia

Donovan Wylie, Estónia

Lisa Sarfati, Lituânia

Mark Power, Polónia

Martin Parr, Eslovénia

Martine Frank, Républica Checa

Paolo Pellegrin, Ruménia

Patrick Zachmann, Hungria

Peter Marlow, Chipre
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quarta-feira, abril 11, 2007

Man Ray regressa à Baixa de Lisboa

Assisti ontem na Fnac ao lançamento do livro que também inclui o dvd “Sob Céus Estranhos, uma história de exílio” de Daniel Blaufuks.
Centrando-se na relação fotografia e literatura, Richard Zenith apresentou a obra de Blaufuks. “Collected Short Stories” (2003), diz-nos, “é um livro aberto, é uma espécie de “prosa de instantâneos” deixando o leitor imaginar as suas histórias pessoais”.
“Sob Céus Estranhos, são as minha memórias, as memórias da minha família, que escolheu este país como local de exílio. O livro, pensado primeiro acabou por sair só agora, depois do filme. Mas o filme é também uma narrativa”, diz-nos Blaufuks. Este livro encanta-me, e considero que filme e livro vivem de mãos dadas, nenhum anula o outro. Portugal foi um país de trânsito e não de exílio, foi um corredor para outros destinos, uma sala de espera incómoda. Só um total de cinquenta, incluido os meus avós, ficaram em Portugal”, lembrei-me de Man Ray. Curiosamente, já em casa li no livro “Dos que seguiram caminho, pouco ou nada ficou. Nos museus portugueses não existem por exemplo, obras de Marc Chagall, Max Ernst ou de Man Ray. Nas memórias dos escritores Heinrich Mann, Hans Sahl e Hertha Pauli, Lisboa não merece mais do que um breve capítulo ou uma nota de rodapé”.
Em Outubro de 2000 o Museu do Chiado expunha a colecção de Giorgio Marconi, colecção extensa e qualificada do artista Man Ray.
Gostei da coincidência, o Museu do Chiado na Baixa lisboeta apresentáva a obra de Man Ray. Escrevi então na altura, “Man Ray regressa à Baixa de Lisboa” um texto sobre a exposição. Enviei-o para vários jornais, nenhum me deu resposta. Começava assim : “Em Julho de 1940, Man Ray hospeda-se no Hotel Francforte na Baixa lisboeta. Aguarda vaga num navio que o levará de regresso aos Estados Unidos. Americano, com residência em Paris, deixa a cidade dos seus sonhos quando esta é ocupada pelas tropas Nazis. O retorno aos Estados Unidos deprimi-o, é-lhe difícil regressar ao país que o fez emigrar” e terminava “Após sessenta anos Man Ray regressa à baixa lisboeta e quem visita a exposição regressa ao espírito dadaísta dos anos vinte”.
Lera, a biografia de Man Ray escrita por Neil Baldwin
que diz o seguinte: “Man Ray and Virgil Thomson took a sleeper train from Irún, a small town on the Spanish border, straight through to Lisbon, arriving on July 25. And then the waiting game began. The city was, Man Ray wrote Elsie, “a madhouse filled with refugees from all over Europe,” all with the same purpose, to find a scarce berth on one of the steamships and get out, quickly. Staying with Thomson at the Hotel Francfort, Man Ray wrote to his New York bank, the Trust Company of North America, authorizing the release of four hundred dollars from his account to pay for a ticket at the American Export Line offices there. Gala Dali was also in Lisbon, trying to arrange passage for herself and her husband, while Salvador paid a farewell visit to his father in Figueras, Spain, and then spent a week in Madrid. The Dalís had followed much the same route as Man Ray, fleeing Bordeaux before the bombings began there. Finally, on August 6, the Excambion, of the American Export Line, departed for New York. Among the illustrious passengers were Man Ray, the Dalís, Thomson and Suzanne Blum, and film director René Clair and his wife, Brogna”.

Ao contrário dos avós de Blaufuks, Man Ray e todos os outros seguiram caminho, Lisboa não merece mais do que esta breve referência.

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terça-feira, abril 10, 2007

99 Cents vale 2.535.468 euros

É verdade, 99 Cents, que nem chega a 1 dólar, vale 2.535.468 euros, assim aconteceu no último leilão realizado pela Sotheby’s. O díptico 99 Cents de Andreas Gursky
99 Cents, Andreas Grusky, 1999
atingiu um novo recorde no mercado da fotografia e ultrapassou por pouco os $ 2.928.000 (equivalente a 2.500.000 euros), de The Pond - Moonlight de Edward Steichen (1879-1957) também leiloado pela Sotheby’s hà precisamente um ano.
The Pound - Moonlight, Edward Steichen, 1904

O mercado da fotografia é recente, não tem mais de 30 anos, e iniciou-se quando na década de setenta coleccionadores privados, (Hallmark, Gillman, Thomas Walter...) e institucionais, (Getty Museum de Los Angeles, o Metropolitan Museum of Art (Met) em Nova Iorque, National Gallery of Art em Washington...), começaram a comprar fotografia em leilões. Na altura o preço de qualquer fotografia oscilava entre poucas centenas de dólares. Nos últimos anos, o mercado da fotografia entrou na moda e os preços subiram vertiginosamente. Agora falamos em muitos milhares de dólares/euros e a fotografia passou a ser um activo apetecível para os investidores.

Mas olhemos para estas duas fotografias que bateram recordes de licitação.
The Pound – Moonlight (1904) inicia o século XX, 99 Cents (1999) finaliza-o. Quase um século as separa. Diferenças? Semelhanças?

Uns anos antes de The Pound – Moonlight, a Kodak revolucionava a fotografia. “Carregue no botão, que nós fazemos o resto” dizia o slogan, e tal aconteceu, toda a gente carregou no botão das novas máquinas e a fotografia banalizou-se. Mas os fotógrafos dos Foto Clubes que se diziam artistas, não gostaram.
Lembraram-se então de confundir fotografia com pintura. Se as fotografias tivessem os mesmos valores da pintura já a podiam elevar a arte. A base de The Pound – Moonlight é um papel impregnado com sais de ferro e platina a que se Steichen adicionou camadas de gomas bicromatadas, método laborioso que exigia trabalho manual. A prova final era única, era impossível fazerem-se duas iguais, tal como as obras pictóricas que também eram únicas. Steichen era amigo de Alfred Stieglitz, e pertenciam ao Camera Club de Nova Iorque. O grupo utilizava truques, espalhavam óleo na lente das objectivas, utilizavam gaze... para tornarem a focagem mais difusa e assim aproximarem a fotografia da pintura, mas de uma pintura passada, porque à época a pintura emancipava-se do real e enveredava pela abstração. Steichen gostava das paisagens românticas com lagos e luares, e Stieglitz fazia auto retratos à moda de Rembrandt.
Self-Portrait, Alfred Stieglitz,1907
Os pictorialistas, como os chamaram, valorizavam o sentimento. Foi precisa a nova visão, pura e directa de Paul Strand e Alvin Langdon Coburn, para acabar com as emoções sentimentais.
White Fence, Paul Strand, 1916
The Octopus, Alvin L. Coburn, 1912, New York
Stieglitz e Steichen perceberam a modernidade que vinha a caminho, e deixaram as gomas bicromatadas. O que espantou mais no leilão, não foi o montante da licitação mas o tipo de fotografia, ainda hoje é considerada uma das fases piores da história fotográfica.

Mas ao contrário de The Pound – Moonlight, o diptico 99 Cents de Gursky, é valorizado pela escola que representa, a escola de Dusseldorf, hoje um valor seguro no mercado actual.
Para Gursky, na década de 1990, o mundo era grande, high-tech, acelerado, caro e global. Dos centímetros de The Pound –Moonlight, 41 x 51 cm, passamos para os metros de 99 Cents, 206 x 341 cm.
99 Cents, é uma cadeia de supermercados californiana, e representa a nossa sociedade de consumo, as compras nas grandes superfícies, iguais em todo o lado.
Se até finais de 1980 a obra de Gursky era interpretada na linha dos seus mestres, Bernd e Hilla Becher, na década seguinte as manipulações digitais, permitiram a Gursky uma construção fictícia, a fotografia já não é credível, para Gursky o documento tende para o imaginário e a ficção para a realidade.
Se os picturialistas imitavam a pintura romântica, Gursky prefere a pintura abstracta.
Rhein II (1999) causa-nos estranheza, como nos causa 99 Cents.
Rhein II, Andreas Gursky, 1999
99 Cents, Andreas Gursky, 1999
Ambas as composições são horizontais com linhas paralelas e em ambas, Gursky elimina a perspectiva fotográfica, a terceira dimensão, o ponto de fuga, e regressa-se à planaridade da pintura. Em 99 Cents, a frente como a retaguarda estão no mesmo plano, não há reduções com a distância.
Periodicamente a fotografia procura a pintura e nestes dois casos a fotografia iniciou e finalizou o século XX a imitá-la.

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Sob Céus Estranhos, de Daniel Blaufuks


Hoje pelas 18h30mn na Fnac do Chiado, e às 22 h na galeria Vera Cortês, será lançado o livro e o dvd "Sob Céus Estranhos" de Daniel Blaufuks.

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sábado, abril 07, 2007

O entusiasmo pela Polaroid

Na galeria Luis Serpa a exposição Robert Wilson Polaroid Portraits está até ao dia 28 de Abril.
O press release, disponível na galeria, esclarece o motivo que levou este encenador, mundialmente famoso na àrea das “performing arts” a fazer estas Polaroids: “Há vários anos estabeleci um espaço internacional para a criação de novos trabalhos nas artes e humanidades chamada Watermill Center...A Polaroid disponibilizou durante uma semana uma das suas novas máquinas para que eu pudesse criar algumas Polaroids em formato grande. Entre algumas das fotografias que tirei estão os retratos de pessoas que visitavam e trabalhavam no Watermill neste verão (1999)”. Wilson entusiamou-se e alargou o seu projecto a muitos outros artistas. São agora estas Polaroids, duas por retratado, uma a cores e outra a preto e branco, que estão em exposição.
Walker Evans (1903-1975), conhecido como fotógrafo do preto e branco, o pai do chamado “estilo documental”, que fotografou os anos da depressão americana ao fazer parte da célebre FSA, (Farm Security Administration) e que em relação à fotografia a cor dizia (1969): “só são precisas quatro palavras para a definir: fotografia a cor é vulgar”, porém convertia-se, já no final da sua vida, à cor.
Á época a frase de Evans era banal no seio da fotografia não comercial, Cartier-Bresson que organizava nas suas fotografias o caos da realidade referia-se da seguinte maneira à cor “imaginem que teriamos que pensar também na cor ao fim disto tudo”, e para Robert Frank as cores da fotografia eram o preto e branco. A cor era arredada para a publicidade e para os amadores, e assim continuou por mais alguns anos.
Mas à semelhança do que sucedeu agora com Wilson, a Polaroid que queria promover o seu novo modelo convence Evans a experimentar o SX-70. Evans experimenta e o seu entusiasmo foi tal que, durante o ano de 1973, fez mais de 2600 polaroids a cor. “O paradoxo é normal em mim, se há uns anos dizia que a fotografia a cor era vulgar, agora estou convertido à cor porque quando fotografo um objecto e o pretendo vulgar, só o consigo se fotografar a cores”.
A banalidade era agora dada pela cor e, em 1976, o MoMA (Museum of Modern Art) deixa entrar pela primeira vez a banalidade da cor num museu e expõe William Eggleston. Pode haver coisa mais vulgar do que este duche?
William Eggleston, 1972, 50,8 x 40,6 cm



Quando em 2003, visitei a exposição “Los Alamos” de Eggleston em Serralves, comentários como “mas isto também eu faço...” eram banais.
Mas a Polaroid disponibilizou durante uma semana a máquina para que Wilson testasse os grandes formatos do seu novo modelo, não é a cor que agora interessa é o grande formato e Wilson reduz a sua palete de cores, quase não há cores nas suas polaroids a cor.

Susan Sontag, escreveu romances e foi crítica de arte, (o livro On Photography, resume a sua crítica fotográfica), Lou Reed canta e gosta de fotografar, ambos frequentaram naquele verão Watermill e foram retratados por Wilson.

Exposição de Lou Reed, na galeria Arteutopia em Milão, até dia 12 de Maio de 2007

O livro que mais gostei de Sontag foi “ Na América”, se sentires uma vocação segue-a, não te desperdiçes a fazer o que não gostas, nunca sairá bem, segue antes o que sabes fazer bem e tudo sairá bem, é o recado de “Na América”.

O albúm The Raven, surge em 2003 quando Reed a trabalhar na Broadway assiste às declamação das histórias e poemas de Edgar Allan Poe.
“Who Am I” do albúm, é uma das melhores músicas de Reed:

“Sometimes I wonder who am I...
…..
I Hold a mirror
To my face
There are some lines
I could trace…
….
I like to leave this body AND BE FREE…
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sexta-feira, abril 06, 2007

Finisterra. Paisagem e Povoamento

Um comentário que merece um post.
Há coisa de dois dias voltei ao post, Passados Cem anos, (19/03) para acrescentar em nota que as fotografias do albúm de Possidónio da Silva eram em papel salgado e que o método de impressão de Arquitectura Popular em Portugal foi a rotogravura. Reparei então que tinha um comentário, escrito certamente alguns dias depois de o ter postado. Alguém que não se quis identificar, escreveu o seguinte: “...para quem cresceu nas terras do “Finisterra” de Carlos de Oliveira, não me é difícil perceber que a fotografia das casas de madeira e redes de pesca não pode ser da Nazaré mas sim do litoral mais a norte, talvez a praia da Tocha...”.
Espanta nos dias de hoje, alguém com este poder de observação. A fotografia que postei das casas de madeira e redes de pesca, ocupam práticamente toda a imagem.

Qualquer referencia para uma possível localização geográfica é difícil. Quem escreveu o comentário refere que cresceu nas terras do “Finisterra” e está à vontade em dizer que essas casas pertencem à região onde cresceu e não à Nazaré, um pouco mais a Sul. É bastante mais provável que ele esteja certo e que os arquitectos que foram à costa de prata e fizeram o levantamento dessa região se tenham enganado quando referênciaram esta fotografia como sendo da Nazaré. A fotografia, ofereceu-nos pelo comentário referido, um modo singular de observar a cultura da região da Gândara.
E agora vamos a “Finisterra. Paisagem e Povoamento”, o último livro escrito por Carlos de Oliveira e que o anónimo utiliza para se referir à região onde cresceu. Carlos de Oliveira cresceu na região da Gândara, região que engloba Cantanhede, Mira, Figueira da Foz e Montemor-o-Velho. Os espaços, e a atmosfera desse litoral instável com as dunas prontas a mover-se bastando um golpe de vento, é o motivo inspirador da narrativa poética e ficcional de Carlos de Oliveira. Finisterra: uma fotografia escrita, foi como o grupo da galeria Ether o viu, e durante meses pensou montar em exposição. O livro foi lido e relido com esse intuito, já lá vão quase 25 anos. Voltei agora a ler Finisterra, e lá estava na mesma a criança sentada no osso de baleia, com o caderno em cima dos joelhos, a desenhar a paisagem que vê e imagina, “obsessão da família que também tentou reproduzir a paisagem”. A narrativa é uma escrita fotográfica: a despensa da casa que se transforma em câmara escura, a mesa de pinho com as marcas das tinas e ácidos que morderam também as fibras exteriores da madeira, o pai da criança que ao olhar para o desenho do filho levanta-se e examina também a ampliação fotográfica suspensa na parede (perto de janela) que reproduz essa mesma paisagem, o confronto sempre que lhe apeteçe da fotografia com a realidade exterior a horas certas, sob a luz quase igual, o compêndio de fotografia que diz que a imagem apresenta um ordenamento inverso do real mas que capta os elementos essenciais mas mesmo ordenada ao contrário, a imagem repete areia, gramíneas, céu, lagoa, nuvens. ..."Mas enfim. Quando lavro a fogo, na carneira duma almofada, a paisagem que as lentes fotografam (areia, gramíneas, lagoa, céu e nuvens), não espero que a minha imaginação se desprenda da paisagem. Espero (talvez) um estímulo de fora. Nas relações sujeito-objecto, o sujeito faz parte da realidade e sem ele (que sente as coisas) nada teria sentido".

Eu espero (talvez) que o anónimo regresse...
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quinta-feira, abril 05, 2007

Dez fotógrafos, dez filmes.

Ao longo da História do cinema, como já vimos em alguns posts, algumas das suas obras primas foram provocadas por olhares fotográficos.
Agora é a vez dos fotógrafos revelarem como o cinema os influênciou.

Para comemorar os 60 anos da Magum Photos, a cinemateca francesa em conjunto com agência, organizou uma exposição, onde dez dos seus fotógrafos revelam as influências provocadas por um olhar cinematográfico.
A exposição abriu ontem na Cinémathèque française, 51, rue de Bercy 75012, e fica até 30 de Julho.
Segue a lista dos fotógrafos e as respectivas influências cinematográficas:

Abbas / Paisà Roberto Rossellini
Antoine d’Agata / Aka Ana
Bruce Gilden / Le film noir américain
Harry Gruyaert / Michelangelo Antonioni
Gilles Peress / Repérages Alain Resnais
Gueorgui Pinkhassov / Andrei Tarkovski
Mark Power / L’Amateur Krzysztof Kieslowski
Alec Soth / Au fil du temps Wim Wenders
Donovan Wylie / Elephant Alan Clarke e
Patrick Zachmann / Le cinema shanghaien des annés 30

E aqui ficam três exemplos:
Para Patrick Zachmann, os filmes de Shangai nos anos 30 são a fonte do seu trabalho fotográfico sobre a diáspora chinesa.
Como Rossellini filma, Abbas fotografa.
A utilização dos grandes planos nos filmes noir americanos, provocando no espectador medo e angústia, são utilizadas por Bruce Gilden.

Se estiver interessado click aqui para ver os restantes.

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terça-feira, abril 03, 2007

Comissário de Exposições, um exemplo.

O comissário, ou curador de exposições é uma figura recente no mundo da arte. Papel progressivamente constituido a partir da exposição “When Attitudes Become Form” do suiço Harald Szeemann em 1969, a curadoria de exposições tende hoje a tornar-se numa nova profissão, basta ver a proliferação de mestrados na área. Hoje o trabalho de comissário de exposições é um exercício de imaginação, criatividade e eficácia, consequentemente não tem regras, mas em breve, e como já sucedeu em muitas outras profissões, o corporativismo tenderá a impor os seus limites e a sufocar a criatividade.
Os prejudicados vamos ser nós, os espectadores de exposições. Será impensável, dentro de poucos anos, convidar-se por exemplo, um Engenheiro Químico que não tenha nenhuma licenciatura ou mestrado em curadoria, a comissariar uma exposição num museu ou outra instituição. O suiço Hans Ulrich Obrist, licenciado em Ciências Económicas e Políticas e hoje apontado por muitos como o sucessor de Szeemann, diz “que não existe uma escola única, comissariar é um processo de reinvenção contínua”. Mas tentemos perceber o relevo que ultimamente tem tido o papel do curador. Robert Storr, o comissário da 52ª edição da Bienal de Veneza 2007, a abrir no próximo dia 10 de Junho, disse recentemente “a crítica desmistificou o artista e agora estamos em vias de mistificar o comissário. Não creio que isto seja bom”. Obrist a este respeito pensa que um comissário lança um projecto mas depois deve saber desaparecer. A “mistificação” deriva em muito do papel imaginativo e criativo do comissário. Se no modelo expositivo clássico, as obras eram normalmente apresentadas segundo uma ordem cronológica, porque o que interessava era apresentar as obras de arte, hoje, perante um público cada vez mais exigente, as exposições mesmo em museus mais conservadores, têm um papel mais activo, ensaiam-se cruzamentos entre o artístico e o mundo que nos rodeia tentando despertar no espectador a sua imaginação pelas temáticas apresentadas.
As exposições actuais são na sua maioria temáticas. O comissário, procura uma interrogação, um problema para o tratar enquanto tema, e simultâneamente conjuga-o com o(s) artista(s) que o corporiza(m). A exposição, que no final é a narrativa do tema, é percorrida a pé pelo espectador, e é na fisicalidade do percurso que um bom comissário se distingue pela forma como confronta e apresenta o conjunto das obras no espaço.
Ingenuidades, exposição que pode ser vista na Fundação Gulbenkian até ao dia 29 deste mês e comissariada por Jorge Calado, é um excelente exemplo do que se acabou de dizer. A exposição é uma narrativa “sobre o estado actual do nosso planeta, transformado e mal gerido pelos homens”. Tema actual, que nos interessa a todos. Hoje enfrentamos com maior consciência do que há vinte anos atrás, a possibilidade da humanidade não sobreviver perante os desastres causados pelas transformações climáticas, e o perigo que se avizinha leva-nos finalmente a reagir. A ausência da Engenharia do Ambiente na exposição, é a forma de evidênciar o recado - é preciso um esforço de todos para melhorar o ambiente.
A forma como o conjunto das 350 fotografias se confrontam e se organizam no espaço para representarem o tema, o estado do nosso planeta, é para mim, a mais valia da exposição.

No início vemos a última fotografia, uma enorme ampliação “Mudança de Turno na fábrica Kelly & Lewis Engineering” de Wolfgang Sievers,
mas só no fim, depois de uma caminhada com muitos percursos, é que estamos suficientemente próximo para captarmos a mensagem, “Homens e Mulheres do Universo Uni-vos”, lê-se ao lado da ampliação, uma imagem cheia de homens e mulheres que sorriem enquanto olham para o céu.
Wolfgang Sievers(n.1913), Mudança de Turno na Fábrica Kelly & Lewis Engineering, Springvale,Melbourne, 1949.
Fisícamente estamos no local que corresponde ao tema AR, escolhido para terminar a exposição, rodeados por paredes pintadas de um azul claro e onde também nós, podemos olhar para o céu e ver as estrelas que David Stephenson fotografou ( Estrelas 1996/nº1004, 1996). Percebemos então que a caminhada que fizemos não termina no abismo. Se o comissário não escolheu as imagens de “Mudança de Turno” de Metropolis (1927) de Fritz Lang, é porque ainda há salvação para o nosso planeta.
Fritz Lang, Metropolis, 1927. "Mudança de Turno"
Ao contrário da exposição, o filme de Lang inicia com “Mudança de Turno” e os seus operários, ao contrário dos da fábrica Kelly, não sorriem nem olham para o céu, andam como autómatos e olham para o chão,
e finalmente, ao contrário da mensagem “uni-vos”, a tábua de salvação, os operários de Lang já estão perdidos e preparam-se para entrar no elevador que os conduzirá ao abismo, ao inferno das máquinas e ao perigo de explosões.
Para Lang, o homem transformara de tal forma o mundo, que agora era difícil sobreviver, e neste ponto partilhamos a mesma ideia de Lang á medida que percorremos a exposição. Se nos sentimos frágeis perante as catástrofes que vamos vendo no início, tsunamis, terramotos, secas, actos terroristas...
Joel Meyerowitz, As Torres Gémeas, 25 setembro 2001
quando chegamos à Engenharia Nuclear, onde “Os cientistas e engenheiros perderam a inocência” e deparamos com “Sarcófago de Chernobyl” de James Leranger
James Lerager, Sarcófago de Chernobyl, 1991
o nosso planeta já nos atorroriza e o homem parecendo inconsciente das suas acções testemunha as explosões das bombas nucleares,
como se assistisse a um espetáculo.
Mark Ruwedel, As testemunhas (I), lugar de testes no Nevada. A área de observação de 14 testes (nucleares) atmosféricos, em Frenchman Flat, 1955-62
Entramos depois naquilo que imaginamos poder ser o inferno, o Fogo, e fazemos “O percurso do petróleo”ao lado das Engenharias Químicas. As paredes estão pintadas de um vermelho escuro, que associamos ao ouro preto, fácilmente inflamável, PROIBIDO FAZER LUME, lemos enquanto abastecemos os carros nas bombas de gasolina.
O percurso começa com “Construção do revestimento de betão para a plataforma de extracção de petróleo”, doca seca de Graythorpe, North Tees (1989) de Ian MacDonald, seguida de “Perfuração petrolífera na plataforma semi-submersível “Nymphea” no estreito de Bass, de Wolfgang Sievers, para continuar, já noutra parede, com as transformações químicas necessárias ao processo de refinação. Deparamo-nos então com esta maravilha,
Abelardo Morell, Construção com vidro de laboratório, 2004
“Construção com vidro de laboratório” um complexo emaranhado de tubagens de vidro de Abelardo Morell. Esta fotografia num primeiro momento induz-nos em erro, julgamos estar perante um laboratório do século XIX, onde os cientistas e engenheiros químicos ainda não tinham perdido a inocência, ou assim julgamos nós, mas reparamos depois que a fotografia é de 2004, e as imagens que vemos dos laboratórios actuais não são assim. Na nossa imaginação, esta “construção com vidro de laboratório”, faz parte de um passado. Mas o curioso, é que cada vez mais a nossa percepção da realidade é feita de imagens que vemos dos media e não de experiências reais, não conheço laboratórios para julgar se são ou não do passado. Há quem diga que o nosso mundo se “Disneyficou”, e de tantas imagens que vemos, as cidades e as paisagens transformam-se em cidades que dão a sensação de serem autênticas, e é esta sensação de autênticidade que passa a ser importante e mais estimulante do que a realidade em si. E estamos embalados nestas reflecções, olhamos para o lado e vemos “Craker, Refinaria Esso” um complexo emaranhado de estruturas e tubagens de Thomas Weinberg.
Thomas Weinberg, Craker, Refinaria Esso, 2003
Realidade ou ficção? Sem conhecermos os seus truques, as fotografias de Weinberger causam-nos estranheza, as luzes estão acessas, os tempos de exposição são longos, mas ainda há luz, que hora do dia é esta? Amanheçer? Anoitecer? As fotografias de Weinberg vivem de dia e de noite, que a refinação do petróleo não pode parar e já numa outra parede, passamos a ver o transporte do ouro negro. As distâncias que percorrem os oleodutos são longas, e David Stephenson soluciona em parte o problema com um tríptico, "Oleoduto Trans-Alaskiano na confluência dos rios Delta e Tanana, Alaska",1981. Depois de uma estonteante descida pela “Tubagem de refinaria, Standard Oil,Tomball, Texas.”, de Esther Bubley o crude segue pela “Refinaria do Lago Charles no Louisiana.” de Fritz Henle, e chega finalmente aos consumidores à “Ópera de Sydney. Camião-cisterna a encher depósito de gasóleo através de buraco no chão e rabo de um operário” de Roger Scott, e às bombas da “Mobil/ Atrelado” de Jeff Brouws.
Jeff Brouws, Mobil/Atrelado, Inyokern, Califórnia, 1991
Este percurso criado pelos engenheiros seria magnífico se não sentíssemos uma guerra que pode estar eminente, receia-se que o alastramento do actual conflito entre o Ocidente e o Irão, possa conturbar o estreito de Ormuz por onde passa um quarto de todo o petróleo comercializado no mundo.

Repito é na fisicalidade do percurso que um bom comissário se distingue pela forma como confronta e apresenta o conjunto das obras no espaço.

E para terminar, uma curiosidade, das críticas que li da exposição, todas referiam que a exposição podia ser percorrida nos dois sentidos, do início para o fim e do fim para o início. Para mim, e ainda bem que há diferenças, só consigo percorrer num sentido, do início para o fim, preciso de passar quase pelo inferno, FOGO, para sentir o alívio no céu, AR.

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